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[resenha] Caim | José Saramago

Por @meire_md

Resenha publicada originalmente por volta de 2011.

“(…), Ninguém é uma só pessoa, tu caim, és também abel, E tu, Eu sou todas as mulheres, todos os nomes delas são meus, disse lilith, e agora vem, vem depressa, vem dar-me notícias do teu corpo”

 

Sou fã de Saramago e chorei sua morte como se fosse de alguém da minha família. Como contamino com excesso de admiração quem amo, então nada melhor do que começar desintoxicando a brevíssima resenha de ‘Caim‘ com um contraponto de peso.

Em dois tweets o querido Fábio Emerim resumiu exatamente a atitude que muitas pessoas tomam quando se deparam com um obra de Saramago: largam o livro após algumas páginas sofregamente lidas porque a leitura lhes é cansativa.

Li Caim até a metade e larguei fora. Queeee livro mais chato. Desculpe, Saramago, mas não deu.”

O problema é que tu te perde e se torna uma leitura mais cansativa do que prazerosa.”

Em resposta aos tweets do Fábio cheguei à conclusão que para gostar do estilo único de Saramago é preciso ser portador de um fluxo de pensamento um tanto fora dos trilhos.

Saramago escreve em bolus e exercita todas as licenças poéticas que cabem numa prosa, reinventa a pontuação, desconsidera o uso de maiúsculas, gera sentenças longevas e transporta pela pena  ipsis verbis a  tempestade que sua mente inquieta cria. E eu amo muito muito muito tudo isto.

Se usarmos  O Ensaio Sobre a Cegueira como comparação, Caim mostra um ritmo até mais organizado e que em muito se assemelha a ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo‘.

Tenho por certo que Saramago quis nos deixar o Novo Testamento à mesma imagem e semelhança do Velho, portanto penso que quem não conseguiu ler O Evangelho vai deixar Caim antes de chegar em sua metade. Não me custa (mas não me gusta) nada avisar.

Caim é uma história que demonstra ser possível repensar e  quebrar velhos conceitos e que usa como pano de fundo, ainda que não tão por acaso, uma fábula milenar.

Ao assassinar o irmão durante uma disputa pela atenção divina, Caim recebe a famigerada marca na testa e sua saga se desenrola numa narrativa onde, a exemplo do Velho Testamento, o tempo desafia as leis da física.

Uma serpente não só fala como tem uma espetacular capacidade argumentativa,  anjos descem do céu para falar com homens, o Satanás faz uma aposta com Deus e batalhas sangrentas acontecem costumeiramente.

Caim viaja através do tempo e questiona os desígnios divinos enquanto é testemunha ocular de episódios bíblicos deliciosamente temperados com tiradas impagáveis.

“(…) surgiu-me um problema mecânico na asa direita, não sincronizava com a esquerda” (fala do Anjo destinado a evitar o sacrifício de Isaac)

A redenção dele, um criminoso curiosamente apenado com a liberdade, ocorre de mãos dadas com o desenvolvimento de sua sede de justiça e capacidade crítica, o que na minha porca análise é o ponto chave do livro.

Destemido, Caim rebela-se sem rodeios contra a ordem vigente e para salvar a humanidade das escolhas do deus que orquestrou o assassinato do seu irmão,  põe em ação uma estratégia de última hora com o objetivo de desmantelar os planos do Criador.

Beijos,

Meire

 

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