[RESENHA] Os Filhos de Anansi | Neil Gaiman

Por @meire_md

“A sra. Higgler era mais velha do que a sra. Bustamonte, e as duas eram mais velhas que a sra. Noles, mas nenhuma era mais velha que a sra. Dunwiddy”

Neil Gaiman é bastante conhecido por por ‘Sandman’, quadrinhos que inspiram a série homônima que estreará na Netflix em 2021,  por ‘Deuses Americanos‘,  livro que deu origem à série ora disponível na Amazon, e  por ‘Coraline‘, que foi parar no Cinema.

O autor publicou ‘Os Filhos de Anansi’ em 2005 e no mesmo ano a obra figurou em primeiro lugar na lista de livros mais vendidos do NYT, mas não repetiu o mesmo sucesso de ‘Deuses Americanos’.

Mitologia Africana 

Na Mitologia Africana* Anansi é um  deus-aranha ‘ganancioso, voluptuoso, trapaceiro e muito mentiroso‘ que usa de artifícios ardilosos para enganar outros deuses e manter o protagonismo nas histórias sobre o mundo. Seu maior inimigo é o Tigre.

De modo similar a outros deuses mitológicos, Anansi ou Kwake Ananse é parte humano, tem rompantes egocêntricos e gosta de ser adorado, mas ele não é o protagonista do livro. A história, com o próprio nome diz, centra-se em sua prole.

Quando terminei o livro achei que o final não fizera jus a qualidade da narrativa, mas bastou uma noite de sono para que eu acordasse convertida e captasse, por motivos que agora me parecem bem óbvios, que o final não poderia ter sido diferente.

📍 Alerta: A partir desse ponto há spoilers 📍

A trama é como uma espécie de Lego, um brinquedo desenvolvido para crianças/adolescentes mas que prende adultos afetos aos encaixes perfeitos ou que esperam que o caos seja domado.

Neil Gaiman constrói muito bem cada um dos personagens e mesmo os que em princípio parecem pouco importantes ganham peso na história. Ele consegue dividi-los em vários ambientes/mundos ao mesmo tempo e manter o leitor situado com tudo que ocorre com cada um deles.

Em nenhum momento o fio da história é perdido. Ela é como uma teia-de-aranha bem construída, onde os pontos se entrelaçam perfeitamente.

Quando você se pergunta algo, a resposta salta. Não há gente demais ou de menos, não há embromação, suspense, sexo ou violência gratuitos. 

Se você for o tipo de leitor que se teletransporta para o enredo vai sentir calor, frio, cheiros peculiares e até dor. Quem já leu ‘Senhor & Servo‘ (Tolstoi) sabe o que estou falando.

Apesar dos dias sombrios o texto é leve, gostoso de ler e tem passagens impagáveis, bem típicas do humor de Neil Gaiman.

Como é direcionado a adolescentes, ainda entrega alguns ensinamentos morais interessantes porque não há impunidades e a virada familiar é particularmente saudável.

As canções 

“Toda pessoa que já existiu, existe ou existirá tem uma canção. Não é uma canção que alguém escreveu. Tem melodia própria, tem palavras próprias.”   

A ‘trilha’ de Os Filhos de Anansi começa com ‘What’s New Pussycat’ e termina com uma canção-que-ainda-não-existe.

Listei as canções na ordem em que aparecem no livro pela primeira vez e dando preferência às versões mais antigas que encontrei no Spotify e aceito correções, pois talvez eu não tenha encontrado todas.

 Apenas ‘Some of These Days‘ é parcialmente transcrita no livro, as outras canções são apenas mencionadas.

Como a marcha fúnebre que embalou um dos sonhos de Fat Charlie não foi especificada, escolhi a de Chopin porque sim, ou alguém acredita que ele sonharia com outra?

Se você quiser conhecer as canções enquanto flutua pelo mundo louco de ‘Os Filhos de Anansi’, a playlist está aqui

Personagens principais em Os Filhos de Anansi 

  • Fat Charlie e Spider: Os Filhos de Anansi
  • Rosie: Noiva de Fat Charlie
  • Daisy: Detetive de Polícia
  • Sra. Higgler: Vizinha
  • Graham Coats: Patrão de Fat Charlie
  • Maeve: Cliente da empresa na qual Fat Charlie trabalha

Curiosidade

Na ilustração da capa a aranha tem oito patas, mas a desenhada por Gaiman tem sete.

Quer saber o motivo?

Só lendo o livro, ehehe.

A minha edição é de abril de 2015 (Intrínseca) e contém uma seção de extras com textos que foram excluídos da primeira edição americana.

Beijos,

M.

 

 

 

 

 

 

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[Notas] História das Terras e Lugares Lendários | Umberto Eco

Por @meire_md

História das Terras e Lugares Lendários‘ é um dos livros que mais me gera pesquisas paralelas e um dos mais bonitos que tenho em casa.

É o tipo do livro encantador para deixar na cabeceira, ler e reler a conta-gotas e um dos que primeiro vem à mente quando se pensa num presente para uma alma sensível e criativa que ama fantasia, arte, filosofia e mitologia.

O texto é muito rico e mesclado a notas históricas, literárias e artísticas.  De Parmênides, o primeiro cara que considerou a esfericidade do nosso Planeta, às teorias sobre os antípodas e outros mitos, há um pouco de tudo.

O olhar cético sobre as expedições que buscaram localizar o Jardim do Éden – para quem não sabe, em hebraico Eden significa delícias – e a Atlântida é descrito de modo particularmente interessante.

Você viaja por Ilhas utópicas, por terras que só existem em romances e aprende uma infinidade de coisas novas a cada página.

Quem conhece o mito brasileiro da Terra de São Saruê vai se divertir bastante com o conteúdo sobre Preste João: não há como não correlacioná-los.

As ilustrações e reproduções de obras de arte são belíssimas.

Beijos
 

 

 

 

 

 

 

 

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[Bate-Papo] Longe de Casa Há Mais de Uma Semana

Por @meire_md

Sempre gostei de comprar cosméticos e livros, então sigo essa tendência na hora de dar presentes.

Quem nunca?

Tenho quatro sobrinhos biológicos e uma sobrinha do coração. Todos eles amam ler desde muito novinhos, o que facilita bastante a minha vida na hora de dar um presente.

Infelizmente não tenho o privilégio de conviver de perto com eles, mas somos conectados pelo amor aos livros e eles sempre me surpreendem com a qualidade das escolhas.

Desde pequenos eles escolhem os livros que querem ganhar e fico muito feliz quando suas mães me dizem que contribui bastante com o excelente hábito que adquiriram.

Dessa vez me meti um pouco nas escolhas e acrescentei dois livros:

Considero uma leitura necessária/obrigatória para todas as pessoas que buscam aperfeiçoar continuamente nossas pobres ferramentas de pensamento crítico.  Foi um dos melhores livros de não-ficção que encontrei nos últimos meses. Caso você queira ler a resenha, basta clicar aqui.

Livro de escrita incisiva e leitura fácil que pode evitar que investidores iniciantes sucumbam ao vício da ganância, sejam seduzidos por conversa mole de gente esperta ou caiam na tentação de buscar um caminho aparentemente mais fácil pagando por alguns cursos tão caros quanto inúteis que vem sendo oferecidos aos montes através de publicidade maciça na Internet. O autor oferece estratégias inteligentes para diversas modalidades de investimentos.

Ah, e escolhi também o da princesinha K., que ainda é muito pequeninha.

PARA D., 25 ANOS

PARA E., 24 ANOS

PARA N., 18 ANOS

PARA J., 15 ANOS

PARA A PRINCESA K., 3 ANOS E 11 MESES

EXTRA

Escolhi esse livro ilustrado para minha mãe, que ama cultivar plantinhas comestíveis em casa. Não sei se é bom, mas me pareceu. Quando ela receber conto para vocês no Instagram e deixo uma notinha aqui neste post.

Edição em 08/11/2020: Minha mãe gostou muito, ela disse que tem dias ótimas e as ilustrações são muito boas. Ela está cuidando de uma pequena horta no finalzinho da garagem da casa dela, num espaço onde pega bastante sol.

Observações sobre investimentos:

 

Quando o assunto é educação financeira, é preciso ficar alerta contra os que conseguiram achar o caminho fácil para o enriquecimento (tirar dinheiro de você é o principal deles).

Recomendo que você não pague por nenhum curso antes de estudar um pouco sozinho (a) e adquirir capacidade de escolher por qual curso pagar, se realmente for o caso.

Pesquise por bons livros, a maioria dos ligados a Educação Financeira  (como os do Cerbasi por exemplo) são lidos em  poucas horas e muitos podem ser encontrados gratuitamente na internet.

Como os investimentos devem começar depois que você já montou sua reserva de emergência, não há pressa de começar. Com quatro semanas dedicando duas horas por dia (basta controlar o tempo perdido vendo bobagem na Internet) você aprende a se defender de vendedores de ilusões.

No post que escrevi sobre saúde financeira coloquei links para cursos gratuitos promovidos por fontes idôneas e bons canais do Youtube. Explore os links.

O esforço diário para não ser enganado é um dos preços que pagamos pelo privilégio de ter acesso a tanta informação como temos hoje. 

Beijos,
Meire

 

 

 

 

 

 

 

 

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[Bate-papo e Resenha] O Guia Contra Mentiras | Daniel J. Levitin

Por @meire_md

“O conhecimento verdadeiro simplifica nossa vida, nos ajuda a fazer escolhas que aumentam nossa felicidade e poupam o nosso tempo”
(Daniel Levitin)

Senta que o preâmbulo é longo.

Nos gloriosos tempos do finado Orkut os brasileiros céticos, livres pensadores, ateus, agnósticos e nerds em geral descobriram que poderiam encontrar seus iguais e ocuparam um espaço maior do que julgavam existir.

A gente deixou de se sentir esquisito. A coisa foi tão revolucionária nas nossas vidas que, pasmem, a gente até achou cônjuges.

Em meados do anos 2000 ainda era muito difícil você encontrar um grupo de amigos céticos reunidos organicamente no mundo real (quem nos uniu foi a Internet). A época foi áurea porém em menos de uma década fomos afogados pelos que acreditam em tudo só ‘porque está na Internet.’

Produzíamos longos textos nas comunidades, fóruns e listas de discussão, muitos blogs tinham um conteúdo bastante rico em pensamento crítico, lógica e metodologia científica.

A época de ser normal analisar os fatos antes de falar ou escrever, e de discutir com base em argumentos, dados, réplicas e tréplicas foi substituída pela leitura de manchetes convenientemente distorcidas, juízos apressados, postagens impulsivas, gente magoadinha quando questionada e tweets cheios de ódio.

Ninguém está livre de falar sem fazer uma conferência rigorosa, deixo claro que não me coloco como um modelo.

Eu mesma recém postei algo no calor da emoção porque acreditei numa versão generalizada de um fato.  Se não considero que posso estar errada ou que fui levada pela maré, deslizo. E isso ocorre com todo mundo.

O exercício deve ser diário pois nosso cérebro nos empurra no sentido da manada.Use cada deslize como uma lição para prevenir outros.

Nem sempre é fácil parar e escolher uma direção diversa ou simplesmente optar manter a boca fechada até ter mais elementos, daí dar ouvidos a quem busca nos corrigir é algo bastante enriquecedor.

Costumo dizer que todo mundo merece ter um amigo advogado do Diabo.

Procuro seguir pessoas com visões de mundo diferentes justamente para tentar não engessar minhas ideias, coisa que tende a ocorrer quando vamos envelhecendo.

Vou chorar mais um pouquinho, já já a resenha começa

“No geral, a capacidade que os jovens têm de raciocinar sobre as informações disponíveis na Internet pode ser resumida em uma palavra: desoladora” (Conclusão de pesquisa da Universidade de Stanford que envolveu 7800 pessoas)

Convenci-me de vez o quão difícil (para não dizer impossível) é um cético isolado fazer algo significativo quando descobri que uma pessoa muito próxima a mim, que é por sinal bastante inteligente, está acreditando em uma teoria conspiratória equipada com inúmeros elementos de desonestidade intelectual.

Não fui capaz de convencê-la que o autor da ‘teoria’ é um mentiroso, mesmo demonstrando objetivamente que não é quem diz ser e que inclusive já foi detido pela Polícia por falsidade ideológica.

Tudo que pude fazer foi denunciar os canais que propagam seus vídeos e não citá-lo em nenhum lugar.

Citar um propagador de contraconhecimento* só aumenta o seu alcance. A maioria das pessoas vai acreditar nele, não em você, é sempre assim, acreditem em mim.

A mentira é muito mais sedutora, preenche lacunas, desperta sentimentos, mexe com caixinhas mentais poderosas:  vestida do modo ‘certo’ tem sucesso de público garantido e rende muito dinheiro.

O que a gente pode fazer?

Continuar o trabalho de formiguinha. 

O Guia Contra as Mentiras, de Daniel Levitin


O Guia Contra Mentiras, de Daniel Levitin, coloca o leitor em contato com diversas ferramentas de pensamento crítico indispensáveis para que não se deixem enganar ou para que pelo menos minimizem as suas chances de virar massa de manobra (ninguém está livre, ninguém mesmo, nem eu, nem você).

Daniel Levitin é músico, neurocientista e professor de neurociência e psicologia comportamental.

O Guia é um livro para ser estudado, lido, relido e presenteado.

Ele é sintético, honesto e bem escrito, tanto que tem um total de zero tentativas de encher linguiça.

Cada tema é tratado de modo resumido porém bastante esclarecedor e o autor fornece exemplos práticos para que conceitos que deveriam ter sido ensinados a todos no ensino fundamental e médio sejam assimilados de forma fácil.

Se você já teve acesso informal a esse tipo de conteúdo e sabe que o pensamento crítico é um treino diário porque nosso cérebro é lotado de armadilhas, vai poder revisar boa parte do que aprendeu de orelhada e consolidar seu aprendizado.

Para quem já tem um sólido conhecimento teórico e prático em pensamento crítico (duvidar de si mesmo faz parte disso) e metodologia científica, O Guia Contra Mentiras não vai trazer nada novo, mas a leitura vale para que você conheça, caso concorde comigo, um livro para indicar àqueles que admiram sua forma de pensar e perguntam por onde podem começar a estudar.

Três grandes temas


O livro é dividido em três partes, a primeira sobre desinformação numérica, a segunda sobre argumentos falsos e a terceira sobre o método científico.

Antes de analisarmos uma notícia, uma pesquisa ou um argumento precisamos entender como os dados foram coletados, como foram interpretados e como são apresentados.

Se boa parte das coisas acontecem nos bastidores e nunca saberemos de todos os detalhes nem quando o acontecimento a ser avaliado ocorreu com alguém de nossa família, atentar criticamente para os fatos disponíveis é mais importante ainda.

Quanto menos precisos os dados, menor deve ser o buraco da peneira.

Argumentos falsos são como lobos em pele de cordeiro. Estão por toda parte e mesmo quem é versado neles acaba sucumbindo uma hora ou outra. Repito: nosso exercício deve ser diário.

Todo mundo mente e todo mundo pode cometer falácias, nem o maior gênio do mundo sabe de todas as coisas.

Se temos esse cérebro viciado, precisamos lutar um dia após o outro contra os vícios.

O método científico nada mais é que um meio de reduzirmos nossa margem de erro na solução de questões que sejam da alçada da ciência, é importante que isso seja bem compreendido. Nem tudo é alçada da ciência, ok?

O método não produz respostas para tudo – tampouco pretende fazê-lo – nem defende verdades absolutas, é uma ferramenta a mais para que limitemos o espaço do contraconhecimento.

No apêndice do livro há a aplicação da regra de Bayes e a obra conta também com notas detalhadas incluindo a fórmula de como calcular a margem de erro (e o intervalo de confiança) e um glossário, que até poderia ter sido enriquecido com mais falácias, mas que atende bem ao conteúdo abordado.

“A Ciência não nos oferece certezas, só probabilidades”

Esse livro poderia ser vendido em um box chamado Uma Vela no Escuro no qual faria um trio com ‘O Mundo Assombrado pelos Demônios‘ e ‘Como Mentir com Estatística‘. 

Falando em Como Mentir com Estatística, Daniel Levitin reporta que foi inspirado por Darrell Huff e que gosta muito também de ‘Damned Lies and Statistics: Untangling Numbers from the Media, Politicians, and Activists‘ de Joel Best e de ‘Estatística: O que é, para que serve, como funciona‘, de Charles Wheelan, o mesmo autor do livro que mostrei esses dias nos stories (‘Economia: O que é, para que serve, como funciona‘).

O Guia Contra Mentiras foi o primeiro livro de Levitin que li e por ter apreciado bastante seu estilo planejo ler ‘A mente organizada: Como pensar com clareza na era da sobrecarga de informação‘ (mais um que vai ficar para 2021).

Estamos afundando num mar de conteúdo questionável e nossa tábua de salvação não é outra senão estudar e exercitar.

Acordemos.

Observação:
*Termo cunhado pelo jornalista inglês Damian Thompson e significa uma informação falsa trabalhada para parecer verdade. No caso das teorias conspiratórias e nos anúncios de remédios milagrosos e coisas do tipo, há verdades inseridas na mensagem para que o todo pareça verdadeiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A Divina Comédia | Dante Alighieri (1265-1321)

Por @meire_md


Por @meire_md

Alguns pontos da vida de Dante Alighieri são fundamentais para um entendimento mínimo de ‘A Divina Comédia’, obra exaustivamente reestudada ao longos dos séculos e que exige muitas horas de consultas a material acadêmico para ser analisada com a profundidade que merece.

Se você tem interesse no entendimento mínimo, este post é para você. Mínimo, mesmo.

Dante nasceu em Florença no ano 1265, cresceu numa Itália politicamente conflituosa e ao adentrar a maioridade já era órfão.

Em algum ponto da adolescência ele teve um breve contato com a garota Beatriz*, por quem nutriu amor platônico por toda a vida.

Dentre as influências que recebeu durante a educação, sobretudo aquelas ministradas por Brunetto Latini, Dante mostrou apreço particular pelo poeta romano Virgílio, falecido no ano 19 da Era Comum.

Por questões afetas a dois grandes grupos políticos, em 1301 o escritor foi exilado.

A pena foi convertida para perpétua porque a multa que lhe daria direito a um exílio temporário não foi paga.

Dante começou a conceber a história enquanto atormentado pelo abandono dos antigos partidários e pela perda de contato com sua cidade natal.

A obra foi publicada em partes com o título ‘A Comédia’ a partir de qualquer momento entre 1304 e 1308 e finalizada entre 1313 e 1321.

Comédia ou Tragédia?

Importante lembrar que Comédia é um gênero literário destinado a entreter e a entregar um final esperançoso ou feliz, o que não ocorre com o gênero Tragédia, cujo final é… trágico.

Do ponto de vista literário, um texto engraçado baseado em coisas do cotidiano pode ser considerado uma Comédia, mas nem toda Comédia é engraçada.

A Comédia é, resumidamente, uma representação dramática com final feliz e a tragédia é uma representação dramática com final catastrófico.

As duas podem ter momentos pontuais engraçados, ou não. Quando a tragédia é marcada por momentos felizes/engraçados ou tem um final híbrido pode ser chamada de tragicomédia.

A transformação de ‘Comédia’ para ‘A Divina Comédia’

A obra só ganhou o nome definitivo após a morte de Dante. Ela foi rebatizada para ‘A Divina Comédia’ por Giovanni Bocaccio (1313-1375), escritor humanista que se especializou na obra de Dante e o único que me fez esconder um livro embaixo do colchão quando era adolescente.

Mágoa e Morte

Dante Alighieri morreu em 1321 sem nunca ter conseguido alcançar o sonho de retornar à sua amada cidade natal.

A dolorosa mágoa pela traição sofrida não passa despercebida no livro.

Triste saber que a condenação de Dante só foi revertida 687 anos após sua morte.

Os restos mortais do escritor nunca foram transferidos para Florença, onde o túmulo construído para seu descanso permanece vazio.

Ficção, Mitologia, Religião, Autobiografia

A ‘Divina Comédia’ é um grande poema filosófico de estrutura épica, dividido em três partes e, com exceção das súmulas de cada um dos cem Cantos, todo escrito em primeira pessoa.

A primeira parte é dedicada ao Inferno, a segunda ao Purgatório e o terceira ao Paraíso.

O personagem principal é o próprio autor, que registra em forma de Cantos as lembranças de uma extraordinária viagem sobrenatural nunca antes realizada por um ser humano vivo, honra que lhe foi concedida por intercessão da virgem Beatriz* (Beatrice Portinari), falecida precocemente.

Enquanto confuso no Limbo, Dante é acolhido pelo poeta romano Virgílio, que o acompanha até o sétimo círculo do Purgatório.

A cada etapa da viagem, em parte feita a pé e em parte feita em uma barca ou com ajuda de seres místicos, Dante entabula ricas conversas com Virgílio e com as almas de conhecidos e desconhecidos que encontra pelo caminho.

O leitor viaja junto com Dante e se vê tão ricamente imerso em filosofia, história, política, mitologia romana e ciência (particularmente astrologia) que a parte religiosa em si até parece  secundária, mas conhecer elementos da fé católica é bastante útil para a compreensão do todo.

Interessante saber que para a tradição explorada por Dante, o Paraíso foi criado para cristãos praticantes, portanto almas de crianças não batizadas, de pessoas virtuosas nascidas antes de Cristo ou de cristãos que não se arrependeram de seus pecados antes da morte são enviadas ao Inferno sem qualquer direito a defesa. Essa lógica, bem como a de outros pontos que pude reconhecer (não sou religiosa) se mantém intacta em todo o livro.

Acredito que Dante era proprietário de uma mente muito organizada e tinha um caráter bastante piedoso.

O que enxergo como esqueleto do livro, a forma com a qual o autor trata as almas em danação e a evolução do estilo de escrita, que se torna mais sofisticada conforme o escritor vai chegando mais perto do Paraíso, são admiráveis.

Um dos pontos mais bonitos do livro é o momento em que Dante deseja, vejam o quão humanista isto é para a época, consolar os sodomitas. Para conferir esse momento curioso que só percebi depois de adulta, você pode consultar a primeira parte do livro (Canto XVI).

Durante a viagem – o objetivo dela você vai entender quando chegar à terceira parte – Dante, purifica-se em vida, entrevista diversas almas, é sabatinado por Santos e conhece os destinos não só de muitos de seus afetos e desafetos já mortos, como de príncipes, reis, Cleópatra, Judas, Adão, Eva, Maria e diversos outros personagens que conhecemos muito bem.

Não se incomode com eventos e pessoas que você não conhece, foque-se na lógica dos fatos e das penas, mas se quiser saber mais sobre a política e os conflitos contemporâneos ao livro, pode ser uma ótima imersão.

Enquanto lia fiz uma breve lista geográfica do universo dantesco para me localizar melhor quando quiser relembrar a experiência da leitura e resolvi compartilhar com vocês.  Espero que seja útil:


Guia turístico da comédia


1. Limbo

É uma espécie de antessala para o primeiro círculo do Inferno descrita como uma medonha selva e povoada por animais de grande porte. É neste ponto que Dante é acolhido por Virgílio.

Vi resenhas que tratam o Limbo como se fosse o primeiro círculo, mas para mim resta claro (posso estar esfericamente errada) que o Limbo está para o Inferno como o  Antepurgatório está para o Purgatório e o Jardim do Éden está para o Paraíso Celeste: são espaços fisicamente distintos porém interligados.

2. Inferno

Profundeza localizada no centro do Planeta Terra e dividida em nove grandes círculos. Cada círculo, a exceção do primeiro, tem terríveis flagelos e tormentos específicos.

2.1 – Primeiro Círculo

Onde residem, por exemplo, as almas das crianças não batizadas e de pessoas virtuosas nascidas antes do advento do Cristianismo.

2.2 – Segundo Círculo

Onde são castigados os afetos à luxúria.

2.3 – Terceiro Círculo

Destinado aos Gulosos.

2.4 – Quarto Círculo

A morada das almas dos pródigos e dos avarentos.  O desequilíbrio financeiro, para a Bíblia, é um grave pecado.

2.5 – Quinto Círculo

Onde os coléricos são penalizados.

2.6 – Sexto Círculo

Onde queimam os heréticos.

2.7 – Sétimo Círculo (onde começa o Alto Inferno)

Esse grande círculo tem três fossos, onde separadamente se distribuem homicidas, ladrões, suicidas, pessoas que dilapidam seu patrimônio e aqueles que agem com violência contra o Deus Cristão, contra a arte e contra a natureza.

2.8 – Oitavo círculo

Este círculo ocupa o maior espaço do Inferno, é destinado às almas dos fraudadores e dividido em dez valas, cada uma com pena diferente. Aqui residem as almas dos simoníacos, de adivinhos, farsantes, aplicadores de golpes, políticos corruptos, hipócritas, peculatários, falsos conselheiros e outros.

2.9 – Poço dos Gigantes

É um espaço reservado à alma dos gigantes que habitaram a Terra. O poço se localiza entre o oitavo e o nono círculo do Inferno. Genial, não é? Tive até vontade de reler o Pentateuco.

Mármore do Inferno: Influência da tradição islâmica?

2.9 – Nono Círculo

Para Dante o Centro da Terra, onde o nono círculo está cravado, é o ponto mais profundo e mais frio do Universo. Sim, no ponto mais terrível e maligno do Inferno há um Lago de Gelo.

O 9º círculo é dividido em quatro recintos: Caína, Antenora, Ptolomeia e Judeca.

Conforme a tradição católica da época – não sei exatamente como os católicos pensam hoje – as almas dos protestantes e de outros cristãos heréticos que não se arrependeram na hora da morte permanecem no Inferno para sempre.

3. Antepurgatório

A partir deste ponto há citação de músicas sacras. Fiz uma Playlist do Spotify e, em meio às músicas que eu estava ouvindo na semana da leitura, relacionei as que encontrei no livro.

Esta antessala sobrenatural coincide com o ponto mais alto de Jerusalém e alberga, dentre outras, almas de excomungados, indolentes e omissos que se arrependeram antes da morte e aguardam julgamento.

4. Purgatório

Ele contém sete círculos, em algumas passagens descritos em minha tradução* como ‘recintos’. Nestes espaços as almas de cristãos pecadores expurgam seus pecados pelo sofrimento e oração até que, purificadas, preparam-se para ascender ao céu.

4.1 – Primeiro Círculo: Soberbos e Presunçosos
4.2 – Segundo Círculo: Invejosos
4.3 – Terceiro Círculo: Iracundos
4.4 – Quarto Círculo: Negligentes com as obras de Fé e Caridade
4.5 – Quinto Círculo: Avarentos
4.6 – Sexto Círculo: Gulosos
4.7 – Sétimo Círculo: Luxuriosos

5. Jardim do Paraíso (“Eden”)

Espaço de convivência frequentado por almas celestes como as dos Santos Católicos, é tipo uma reserva ecológica para entretenimento santo.

6. Paraíso Celeste

De forma similar ao Inferno, é dividido em 9 círculos, aqui chamados de Céus e que correspondem às esferas do sistema Ptolomaico.

Cada esfera alberga boas almas de acordo com seu merecimento, como uma espécie de prédio de luxo onde os andares acima são mais valiosos.

6.1 – Primeiro Céu: Lua
6.2 – Segundo Céu: Mercúrio
6.3 – Terceiro Céu: Vênus
6.4 – Quarto Céu: Sol
6.5 – Quinto Céu: Marte
6.6 – Sexto Céu: Júpiter
6.7 – Sétimo Céu: Saturno
6.8 – Oitavo Céu: Estrelas Fixas
6.9 – Nono Céu: Acima do Universo – Onde reside o Amor Divino

7. Anéis da Hierarquia Angélica

São nove, movem-se sem parar e entoam Hosanas em tríplice harmonia.

Espero que minha contribuição seja útil para sua leitura.

*Em nota de rodapé de minha edição de A Divina Comédia (Editora Nova Cultural, 2003) é mencionado que Beatriz teria falecido em 1290, quando Dante estaria com 25 anos de idade. É possível que Dante tenha tido um único contato com a moça durante toda sua vida.


PARA SABER MAIS SOBRE A BIOGRAFIA DE DANTE

Britannica.com

Biography.com

Beijos,

M.

 

 

 

 




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[Resenha] Drácula | Bram Stoker (1897)

Por @meire_md


A vida é repleta de mistérios. Por que Matusalém viveu novecentos anos, o velho Parr cento e sessenta e nove e a pobre Lucy, com sangue de quatro homens nas veias, não sobrevive um único dia?” (Fala do Professor Van Helsing reproduzida no diário do Dr. Seward)

amazon.com.br

O romancista, contista e matemático Bram Stoker (1847-1912) nasceu na Irlanda mas passou boa parte da vida em Londres, onde construiu uma carreira respeitada na Irving Lyceum e publicou suas principais obras.

Segundo entrevista concedida à British Weekly em 1897, Bram Stoker concebeu Drácula com base em suas observações acerca das lendas medievais do leste europeu, no artigo sobre superstições romenas publicado por Emily Gerard na The Nineteenth Century e em um livro sobre lobisomens escrito pelo Sr. Baring Gold.

De acordo com Dacre Stoker, das 87 resenhas críticas publicadas por diversos jornais entre 1897 e 1913, setenta foram favoráveis. Algumas delas foram reproduzidas na edição especial publicada pela Dark Side Books em 2018, inclusive uma muito engraçada, que atenta para o risco do livro cair nas mãos de mulheres sensíveis, ‘pois poderia ser fatal’.

A tiragem inicial de Drácula, cuja primeira edição tinha capa amarela com letras vermelhas, foi de 3.000 exemplares.

MÃE É MÃE

Charlotte Stoker disse que desde ‘Frankenstein‘ nada se comparava à ‘Drácula‘ em terror e que “Alan Poe não chegou nem perto”.

DRÁCULA GANHA O MUNDO


Dez anos depois da morte de Bram Stocker ocorreu a estreia do filme Nosferatu (1922), cujo nome tem raízes húngaro-romenas (pela minha lembrança a palavra Nosferatu só aparece no livro uma vez) como sinônimo de ‘Vampiro’ e que possivelmente é uma corruptela de outras palavras que significam coisas como ‘repugnante’, ‘espírito imundo’ ou ‘satanás’.

As peças de teatro inspiradas na obra começaram a aparecer em 1924, quando Hamilton Deane reconstruiu a figura do Drácula dando-lhe sofisticação no vestir e educação vitoriana para que se tornasse mais palatável para o público londrino. A história segue inspirando o teatro, cinema, quadrinhos, séries etc.


Para quem gosta de literatura de horror, a leitura da tríade Frankenstein (1818), Drácula, e O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde/ ‘O médico e o Monstro‘ (1886) é indispensável, por isso resenhei os três na sequência em que foram publicados.

Depois da publicação de Drácula (1897) Bram escreveu mais seis livros, três deles após ter sofrido um acidente vascular encefálico.

📍Aviso: Daqui para frente há spoilers 


“O conde é um criminoso e se encaixa no perfil (…) Max Nordau e Cesare Lombroso assim classificariam-no e, enquanto tal, não possui de fato mente perfeitamente formada. Portanto, quando encontra dificuldade, recorre ao hábito.” (Análise feira por Mina Harper)


A saga é contada exclusivamente através de fragmentos dos diários e cartas de Jonathan Harker, Mina, Lucy, Dr. Seward e de registros do Dr. Van Helsing organizados cronologicamente por Mina, moça de boa escolaridade, corajosa, sistemática, delicada e extremamente empática.

A história vai do dia três de maio até o dia seis de novembro do ano fatídico e tudo começa quando o advogado Jonathan Harper se desloca até a Romênia para intermediar uma venda de imóveis sediados em Londres, mas que acaba se envolvendo em uma situação de violência física e psicológica.

Durante o desenrolar da tragédia pessoal de Lucy, amiga de Mina e Jonathan, o experiente e obstinado Dr Van Helsing – médico, filósofo, metafísico e especialista em doenças obscuras – é convidado por Dr Seward a dar um parecer sobre a saúde da moça, que passa a receber atenção também de seu noivo e um amigo do casal.

O mistério dos sequestros de crianças londrinas que fazem referência a uma moça ‘buíta’ (bonita) chama a atenção do Dr Van Helsing e rapidamente um grupo de seis valentes personagens se forma com o objetivo de eliminar o risco da cidade receber novas contaminações.

O caso Lucy é encerrado. Drácula, em represália e sem contar com a a abnegação do grupo, passa a destinar suas investidas contra Mina.

Sete anos depois do ano fatídico, Harper reconsulta os documentos e deixa uma nota prestando contas acerca do destino daqueles que sobreviveram.

Nenhum livro sobrevive tanto tempo à toa.

Drácula de Bram Stocker já inspirou um sem número de obras de teatro, cinema e TV. Recomendo fortemente a imersão, a experiência é inesquecível.

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[Resenha] O Médico e o Monstro | Robert Louis Stevenson

Por @meire_md

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O ‘Strange case of Dr. Jekyll and Mr Hyde’, do escocês Robert Louis Stevenson foi publicado em 1886.

Tanto o filme quanto o livro foram traduzidos para o português brasileiro como “O Médico e o Monstro”.

Stevenson era pneumopata crônico e tinha histórico de múltiplas internações por infecções respiratórias, incluindo algumas consideradas graves.

É possível que ele tenha tido contato próximo com vários médicos desde muito jovem e certamente teve oportunidade de observar a natureza humana em sanatórios.

É bem interessante esta descrição que um dos personagens do livro faz de um médico:

‘Era o tipo do esculápio comum, magro e empertigado, de idade indefinida, (…), e tão sensível como uma pedra’, mas o médico que figura como personagem principal da história é considerado um homem de grande sensibilidade.

Stevenson escreveu o ‘Estranho Caso do Dr Jekyll e de Mr. Hyde’ aos 36 anos e aos 44 anos morreu como queria ( “I wish to die in my boots“), possivelmente em razão de um acidente vascular encefálico. Ele perdeu subitamente a consciência enquanto estava conversando com a esposa e tentando abrir uma garrafa de vinho.

Compartilho a opinião dos que julgam que ‘O Médico e o Monstro‘ é um livro de ficção científica. De alguma forma a história coloca o cientista com um ser que brinca de ser Deus, mas que ao mesmo tempo não o condena.

A não condenação da pessoa que faz ciência aparece na história através da mostra da complexidade dos desejos e impulsos daquele homem que não é traçado pelo autor como essencialmente bom ou essencialmente mau.

Essa riqueza é tão presente no livro que o experimento químico toma papel curiosamente secundário na trama.

Não vejo a história como um exemplo ou tampouco um estudo de dupla personalidade como alguns críticos colocam, mesmo entendendo que Hyde eventualmente deixa aflorar o que Jekyll mantém abafado.

A premissa do médico, de que ‘o homem na realidade não é uno, mais sim dois seres num só’ não pode ser confundida como uma manifestação de dupla personalidade e sim como um manifesto contra a defesa da visão maniqueísta da mente humana.

O Médico e o Monstro forma, em conjunto com Frankstein e Drácula, uma tríade de horror clássico indispensável para os amantes do gênero.
 

Beijos,

Meire

📕 O Médico e o Monstro | Capa simples

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Para Elisa | Roberto Denser

Por @meire_md

“O inferno deve feder daquele jeito.”

Mais uma dica de livro para ler em menos de um dia.

Um passarinho me contou que ‘Para Elisa’, de Roberto Denser, foi concebido, escrito, lapidado, revisado e parido em sete dias.

A novela nasceu tão real que os analistas das inscrições para o Prêmio Kindle de Literatura quase a tomam por uma obra de não-ficção.

Elisa é uma escritora em tudo precoce, inteligente, hábil com as palavras e que sofre de transtorno de personalidade (provavelmente Borderline).

A história, que compila uma série de entrevistas para um documentário, acontece uma década e meia após o ano fatídico.

Por colher depoimentos dos familiares de Elisa, de amigos íntimos, de seu editor, do namorado/ex, de sua biógrafa e até de um hater,  o entrevistador nos permite visualizar a mulher Elisa por diversos ângulos.

Tudo no livro é bem amarrado e o tempo de leitura é similar àquele investido para assistir a um documentário.

Se você aprecia ser desafiado por coisas perturbadoras —e tão imperfeitas, revoltantes e sem finais felizes quanto a vida pode ser—vai gostar muito da experiência de conhecer Elisa e entender o que ocorreu antes e durante aqueles dias amarelos.

Beijos,

Meire

Obs.: Recém resenhei ‘A Orquestra dos Corações Solitários‘, onde falei um pouco sobre o escritor.

 

 

 

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[Bate-papo] Sobre riscar livros e outras coisas

Por @meire_md

Se eu risco meus livros?

A resposta curta é: sim e não.

Sei que livro bom é livro manuseado*, mas não consigo riscar alguns… Parece que estou profanando uma obra de arte.

Se me falta coragem para riscar livros da Dark Side ou da finada Cosac Naify, como eu iria conseguir rabiscar um livro como ‘História da Beleza‘,  por exemplo?

Quando o livro é uma edição de colecionador, tem capa dura ou é confeccionado com papel especial, colo post-it para anotar pontos importantes e uso separadores/marcadores autocolantes para destacar trechos.

Depois que faço a resenha removo os marcadores autocolantes, inclusive consigo reaproveitá-los mais de uma vez.

Nas versões para Kindle uso as ferramentas de destaque e anotações; se resolvo resenhar exporto os destaques/notas para PDF, o que me facilita a vida quando resolvo resenhar o livro.

Já as minhas edições comuns são bastante rabiscadas. Uso lapiseira 0,7 com grafite 2B porque ele é bem suave  e marca-texto Pilot na cor amarelo-limão ou neon, vai saber, porque as outras ficam estranhas demais com o tempo.

Desapeguei dos marca-texto encerados porque eles sujam o livro. Ah, algo que faço muito frequentemente são anotações nas últimas páginas, bem no estilo resumo de escola.

Nem sempre faço resenha de um livro assim que leio, principalmente quando acho que o assunto é nichado demais ou chato para a maior parte das pessoas. Como tenho pouco tempo e muita coisa legal para resenhar, opto por não resenhar livros que eu não tenha gostado.

Dois bons exemplos do que falei acima são a versão dos Contos dos Irmãos Grimm editada pela Rocco, cuja leitura foi decepcionante para mim porque os contos não foram traduzidos para o português a partir do original, e o ‘O Guia Contra Mentiras’ (Daniel Levitin), um dos meus livros favoritos e que só resolvi resenhar depois que mostrei nos stories e percebi que as pessoas mostraram interesse em saber mais sobre pensamento crítico.

(Falando nos contos dos Irmãos Grimm, a edição que quero comprar é essa aqui com tradução da Tatiana Belinky).

Além de gostar muito de História da Medicina (bem que poderia resenhar os livros que tenho, não é?) gosto bastante de psiquiatria, literatura de horror e ficção científica – recém comecei a ler Ted Bundy de Ann Rule, que conta com quase 600 páginas – mas sempre fico na dúvida se resenho ou não, por medo do blog ficar meio monotemático.

Salada que é Salada tem que ser uma Salada.

Beijo.

*Falando em livro manuseado:  quando alguma parte do livro se descola uso Cola PVA Cascorez Extra ou Cola PVA para Madeira. Elas contam com quantidade menor de água, alta resistência, não amarrotam o papel (aplique em pequena quantidade) e ao secar ficam bem invisíveis. Costumo colocar um peso sobre a área colada.

 

[Resenha] Frankstein ou o Prometeu Moderno | Mary Shelley (1818)

Por @meire_md

Mary (1797-1851), que foi criada em meio aos livros e era filha de um casal de progressistas – Mary Wollstonecraft e William Godwin – fugiu de casa aos 16 anos na companhia de sua irmã e de Percy Shelley, um poeta amigo do poeta inglês Lord Byron.

Em uma noite chuvosa de meados de 1816, enquanto amigos passavam o tempo se divertindo com literatura de terror (e uns bons drinks), Lord Byron propôs aos presentes que escrevessem uma história de fantasmas.

Mary, então com apenas 18 anos, desafiou-se a pensar em uma história que mexesse com os medos da natureza humana e despertasse um horror que descreveu como “eletrizante”.

Além de ter tido pais cultos, a adolescente era atenta às novidades científicas da época, e a resposta muscular aos estímulos elétricos descoberta por Galvani não lhe passou despercebida. Após reunir várias referências, a garota criou ‘Frankenstein‘.

Para muitos pesquisadores Mary Shelley foi a primeira pessoa a produzir uma obra de ficção científica.

A primeira edição de Frankenstein teve 500 cópias e saiu em 1818; em 1823 William Godwin financiou uma nova edição com revisões feitas pela autora.

A história como conhecemos hoje corresponde à terceira edição, publicada em 1831.

Aviso: Daqui para frente há spoilers.

O relato da história começa em dezembro de 1817 através de cartas nas quais o capitão de um navio que saiu de São Petersburgo com destino ao polo Norte relata à sua irmã que seu grupo resgatou um viajante perdido que por pouco não morrera congelado.

O capitão Walton se afeiçoa ao náufrago, que em carta é descrito como um forasteiro sábio e refinado que lhe prometera narrar uma longa história.

Victor Frankenstein relata em pormenores o histórico da sua família, de como a mãe foi resgatada da pobreza e de como a bela menina órfã Elizabeth se juntou a eles, cita as lembranças felizes da infância, de sua amizade com Clerval e dos estudos e leituras que muito o influenciaram até os 17 anos, quando então perde e mãe e sai de Genebra para estudar filosofia natural na Alemanha.

Na tentativa de justificar o que se passou no futuro, Dr. Frankenstein relata ter sido um estudante extremamente dedicado e particularmente interessado pela estrutura do corpo humano, sua fisiologia e os princípio da vida e da decadência natural.


“A cada noite eu era oprimido por uma febre baixa e fiquei nervoso em um grau deveras aflitivo; a queda de uma folha assustava-me e afastei-me das criaturas como se fosse culpado de um crime” (Descrição de síndrome do Pânico; o Dr. Frankenstein passa por diversos episódios de ‘febre nervosa’)


Após dois anos de experimentos e privação de descanso, a criatura ganha vida , Victor se aterroriza e o abandona.

“Os juízes preferem que dez inocentes sofram a absolver um culpado”

A sua família, com quem troca cartas eventualmente, é acometida por uma tragédia enquanto o pequeno irmão William Frankenstein brincava de esconde-esconde.

Faça-me feliz e serei virtuoso novamente

Após uma segunda tragédia associada ao julgamento do caso William, Victor encontra-se com a sua criatura e eles iniciam um embate filosófico sobre direitos, deveres, rejeição social, marginalidade, gênese do mal e busca pela felicidade.

Na segunda metade do livro é dada voz a criatura, que relata os seus padecimentos, como migrou pela busca por alimentos e abrigo, das agressões físicas sofridas em razão de sua aparência assustadora e de como, ao observar uma família por meses, foi desenvolvendo empatia, compreensão da palavra, capacidade de falar e manipular ferramentas, bem como resumiu o que aprendeu em livros que encontrou pelo seu caminho.

Victor Frankenstein firma um trato com a criatura porém não cumpre sua parte e não concede contrapartidas.

A vingança foi cruel e rápida.

Frankstein‘, ‘O Médico e O Monstro‘ e ‘Drácula‘ são clássicos indispensáveis para quem aprecia a literatura de horror.

Beijos.

Meire

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📕 Frankenstein | Edição comentada 

📕 Frankenstein | Edição bolso de luxo

📕 Box do Terror | Frankenstein, Drácula e O Médico e o Monstro

 

 



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Notinhas sobre Coraline | Neil Gaiman

Por @meire_md

“Comecei o livro pela Holly. E terminei pela Maddy”

O britânico Neil Gaiman (1960 – ), particularmente conhecido por ‘Deuses Americanos’ e ‘Sandman’ tem uma habilidade incrível de prender os leitores. Vejo nele um perfeccionismo que aprecio bastante.

Coraline

Neil escreveu o primeiro parágrafo de Coraline em 1992, quando sua filha Holly estava com cinco aninhos de idade, mas por uma série de outros compromissos só finalizou o livro dez anos depois.

O nome ‘Coraline’ nasceu por um erro de digitação, o que foi uma feliz falha, já que a menina tem mais cara de Coraline do que de Caroline, que seria seu nome.

A casa retratada no livro é um retalho de memórias de prédios em que o autor viveu com sua família, incluindo a porta que, quando aberta, dá para uma das paredes que transformaram uma antiga casas em um bloco de apartamentos.

Coraline é um menina em idade escolar, curiosa, inteligente, que se diverte explorando os ambientes de sua casa e arredores, gosta de animais, entedia-se quando não conta com coisas interessantes para fazer e corrige adultos que pronunciam seu nome errado.

No livro a idade da criança não é revelada, mas considerando as brincadeiras sugeridas pelo ocupado pai – como a de organizar uma expedição para localizar o aquecedor da nova casa ou contar o seu número de portas e janelas – certamente está longe da adolescência; no filme que lhe deu vida foi retratada como uma garota americana de 12 anos de idade.

Uma questão sensível tocada no livro de forma sutil é a aparente pouca atenção que Coraline recebe dos pais, sempre atarefados demais para suprirem as demandas da menina e do quanto a criança pode ficar susceptível à sedução de estranhos que lhe oferecem uma dedicação a mais.

É bem importante que isso seja discutido em família.

A aventura se acelera quando um portal se abre na parede de tijolos e leva a pequena Coraline a um mundo sombrio, invertido, cheio de elementos novos a explorar e perigos inesperados relacionados aos seus segundos pais, seres etéreos cujos olhos são botões negros e sem vida.

A minha edição é a de capa dura da Intrínseca, com ilustrações de Chris Riddell e contém uma a nova introdução de Neil Gaiman, escrita em 2012.

Lendo Coraline percebi que Neil Gaiman cita Violetas frequentemente em seus livros.

As Violetas surgem no odor de mulheres idosas tanto em ‘Coraline’ como em ‘Os Filhos de Anansi‘ e em ‘Deuses Americanos’ a flor aparece no ramalhete que Audrey Burton leva para o velório de Laura Moon (na série homônima o episódio retratado no livro aparece diferente).

Uma ótima leitura para fazer com as crianças que gostam de histórias felizes, porém assustadoras.

P.S.:  A Amazon tem o box Sandman edição inglês.

 

 

 

 

 

 

 

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[NOTAS] Aforismos | Hipócrates

Por @meire_md

“A vida é curta, a Arte é longa, a ocasião fugidia, a experiência enganadora, o julgamento difícil” (Hipócrates)

A ‘Antologia dos Aforismos de Hipócrates‘ foi traduzida para o português por Dr. José Dias de Moraes na década de 50 a partir de uma versão francesa editada em 1844.

Conforme Littré, a divisão em sete partes tal qual conhecemos hoje foi feita por Galeno.

Hipócrates de Cós foi um médico grego nascido supostamente 460 anos aEC que revolucionou o conhecimento médico e é considerado o Pai da Medicina Ocidental.

Ele foi, supostamente, a primeira pessoa a defender que as doenças não são causadas pela vontade ou ação de um Deus ou de Deuses e sim por causas naturais.

Por ter tido uma vida longa e dedicada à Medicina desde tenra idade, viajado muito a trabalho e ter sido um observador espetacular e altamente disciplinado, Hipócrates acumulou um conhecimento notável para uma época em que metodologia científica inexistia e não havia basicamente nenhum aparato tecnológico para dar suporte diagnóstico ao médico.

Apesar da imensa importância histórica, parte de sua obra não encontra aplicabilidade nos dias de hoje em razão de falhas (naquela época plenamente justificáveis) em seus estudos de anatomia e fisiologia, bem como erros de raciocínio lógico que hoje são bastante básicos para nós – como falsas correlações e vieses de admissão e de seleção.

Mas a herança que ele nos deixou com relação à importância da anamnese e do exame físico para um correto diagnóstico, da noção de avaliação prognóstica como fator determinante para a escolha de melhor opção terapêutica, da necessidade de documentação dos casos para estudos e notificações diversas, a descrição de sinais, sintomas, aforismos e fundamentos de Ética Médica – muitos dos quais até hoje largamente utilizados por médicos – é inacreditavelmente impressionante.

Há uns aforismos que são bem engraçados, como o surgimento de hemorroida curar loucura, outros que remetem claramente à vida longa de Hipócrates, como sua observação com relação ao prognóstico de Epilepsia em alguns jovens e aforismos que se referem a fisiologia, como o fato de uma dor mais forte inibir a dor mais fraca quando elas são concomitantes.

Alguns Aforismos de Hipócrates


“Uma doença em que o sono faz mal é mortal; a moléstia em que o sono alivia não é”

Possivelmente para chegar a este aforismo Hipócrates observou muitos casos de ortopneia e óbitos por cardiopatia grave.

A cura é laboriosa quando ao sexto dia os doentes febris têm calafrios”

“Os que têm tétano morrem em quatro dias; se passam esse prazo, curam”

Nos doentes afetados de tísica, se seus escarros dão cheiros fétidos, quando sob brasas, e se seus cabelos caem, é sinal de morte

Ele fez muitas observações sobre doenças infecto-contagiosas incluindo notas sobre a sazonalidade de diversas doenças e reza a lenda que Hipócrates controlou uma Epidemia de Peste na Grécia.

“Para fazer parar a menstruação de uma mulher colocar nas mamas ventosas tão grandes quanto for possível”

A sucção mamária aumenta a Prolactina, o que pode mitigar o sangramento uterino. É por esse fenômeno que mulheres que não engravidaram e adotam uma criança podem conseguir amamentar.

“As pessoas naturalmente gordas são mais predispostas a morte súbita do que as pessoas magras”

Hipócrates também observou muitas doenças nutricionais e foi defensor da dietoterapia.

É favorável o espirro que sobrevem em uma mulher em acesso histérico ou parto laborioso

O espirro aumenta a pressão intra-abdominal e realmente pode facilitar o parto.

Durante um acesso histérico qualquer ato súbito (um tapinha na face, um grito, uma buzina) pode tirar a pessoa do acesso.

Fico aqui imaginando quantas mulheres parindo espirraram enquanto tratadas por ele, hehe.

“Os eunucos nunca ficam calvos nem gotosos”

A calvície realmente pode ter uma relação estreita com a testosterona e nas mulheres a Gota aumenta em incidência depois da menopausa, fase em que a testosterona ‘cai’ (sim, as mulheres também têm testosterona).

O homem foi um gênio e mesmo possivelmente não tendo sido o autor do Juramento que prestamos em nossa Formatura, a atribuição lhe foi mais do que justa.

Leiam o livro, divirta-se e busquem explicações fisiopatológicas para os Aforismos.

Para quem é médico (apesar do ano terrível e de tantas perdas que tivemos), um Feliz dia do Médico.

Meire

 

 

 

 

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O Pequeno Príncipe | Antoine de Saint-Exupéry

Por @meire_md

 

Para alcançar melhor a beleza de O Pequeno Príncipe é indispensável conhecer alguns detalhes da vida do autor.

O escritor francês Antoine de Saint Exupéry – segundo a enciclopédia britânica batizado como Antoine-Marie-Roger e segundo o verbete da wiki francesa como Antoine Marie Jean-Baptiste Roger, nasceu em 1900 e morreu em 1944, quando contava com 44 anos de idade.

Ele foi escritor, poeta, ilustrador, jornalista e aviador.

Exupéry era filho de aristocratas porém o Conde de Saint-Exupéry faleceu deixando cinco órfãos quando o pequeno Antoine tinha apenas quatro anos.

Na adolescência sofreu outra grande perda pois o seu irmãozinho mais novo, um garoto de cabelos loiros e cacheados, faleceu subitamente.

Aos 21 anos Exupéry ingressou no serviço militar enquanto recebia aulas de aviação e embora tenha sido transferido para a Força Aérea Francesa, não chegou a atuar de fato como militar em razão de uma suposta exigência da família de sua noiva.

Ele voltou a pilotar novamente aos 26 anos, quando assumiu um emprego como Aviador da Aéropostale.

“- É claro que eu te amo – disse-lhe a Flor. – Foi minha culpa não perceberes isso. Mas não tem importância. Foste tão tolo quanto eu. Tenta ser feliz… (….)Tu decidiste partir. Então vai!”

Casou-se muito jovem e teve uma relação conturbada com sua esposa, que era conhecida por ter um gênio difícil. Há quem diga, e eu concordo, que a Flor de O Pequeno Príncipe seja a representação de sua esposa.

Foi entregando correspondências que ele viajou muitas vezes para a África, o continente pelo qual era fascinado e onde conheceu o gigantesco e assustador Baobá.

Para executar seu trabalho de aviador postal ele também viajava para a América do Sul e chegou a morar na Argentina por algum tempo.

BaobadoPoeta

Baobá em Natal/RN, onde existe a lenda de que esta árvore centenária tenha servido de inspiração para Exupéry escrever O Pequeno Príncipe; o interessante é que em Recife surgiu lenda similar, de que Exupéry teria se inspirado ao ver o Baobá da Praça da República. Não conheço nenhuma fonte de peso que endosse uma ou outra lenda, e embora seja muito gostoso acreditar que Exupéry inspirou-se no Baobá que fica na cidade onde moro isso é altamente improvável, até porque na década de 30 a região onde a árvore fica era basicamente restinga.

 

Em 1935 o avião que Exupéry pilotava caiu ou pousou de modo emergencial em pleno deserto de Saara. Ele e o mecânico com quem viajava sobreviveram mas contavam com água para no máximo dois dias, daí sofreram desidratação grave e alucinações visuais até serem resgatados e tratados por beduínos.

“Eu… – respondeu o pequeno príncipe – eu não gosto de condenar à morte, e acho que vou mesmo embora”

Exupéry tinha aversão à Guerra. No ápice da II Guerra, entre 1941 e 1943, optou por autoexilar-se e morou nos Estados Unidos. Foi justamente nesta época em que as aquarelas do Pequeno Príncipe, claramente inspiradas no traumático evento de 1935, foram nascendo.

O Pequeno Príncipe foi escrito e ilustrado por Exupéry tanto em inglês quanto em francês e embora tenha sido publicado pela primeira vez em inglês no início do ano de 1943, só foi publicado na França em 1945 ou 1946 (as informações variam nas diversas fontes que consultei), ou seja, após a morte do autor.

Para ser induzido a decidir entrar na II Guerra Exupéry foi injustamente acusado de apoiar os nazistas e em resposta ao boicote de suas obras na Europa (o que foi para ele uma decepção terrível) desenvolveu um quadro depressivo e começou a abusar de bebidas alcoólicas.

Mesmo assim, doente, sem nunca ter desejado se alistar e sem condições psicológicas para voar, em 1944 foi destacado para cinco missões aéreas.

Desde a primeira missão Exupéry nunca mais foi visto e seu corpo nunca foi oficialmente encontrado . Não acho absurda a hipótese de que ele tenha cometido suicídio e embora um certo alemão tenha declarado que abateu seu avião, isso nunca foi de fato comprovado.

Ele desapareceu no dia 31 de Julho de 1944.

“Um dia eu vi o sol se pôr quarenta e quatro vezes” 

O sobrinho de Exupéry conta que ele acreditava em uma previsão de uma cartoamante (ou de algum outro picareta do tipo) de que morreria aos 44 anos e isso só aumenta meu pesar e reforça mais ainda a hipótese de suicídio, já que profecias autorrealizadas não são raras entre pessoas crédulas.

Explicando: se Exupéry acreditava mesmo que iria morrer aos 44 anos e tinha aversão à Guerra, decidir morrer logo sem ter que passar pelos horrores dela não seria uma decisão tão absurda. Isso também ocorre em quem acredita em signos: a pessoa modula até sua personalidade e desejos de modo a se parecer mais com aquilo que é ‘previsto’.

Exupéry deixou uma obra vasta mas foi imortalizado por este belíssimo livro infantil.

Sobre o Livro

“Não gosto que leiam meu livro superficialmente. Dá-me tanta tristeza narrar estas lembranças (…). Talvez eu seja um pouco como as pessoas grandes. Devo ter envelhecido”

O Pequeno Príncipe conta a história de um aviador que precisou fazer um pouso forçado no Deserto do Saara para tentar reparar o avião e voltar para casa.

Quando desidratado e cansado encontrou o Pequeno Príncipe, um garotinho de cabelos loiros e cacheados que já havia visitado seis outros Planetas. O menino o tomou pela mão e o levou até um poço de água.

Seis anos depois o Aviador narra as histórias do Asteroide B612, dos perigos do Baobá, da problemática Flor, das viagens do Pequeno Príncipe e de seus encontros com os moradores solitários de cada Planeta, como o bêbado, o vaidoso e o escritor.

No Planeta Terra o Pequeno Príncipe é recepcionado por uma serpente, é cativado e cativa uma raposa, faz amizade com o aviador e não é mais visto por nenhum outro ser humano desde que os dois retomam seus percursos.

Muitas frases desse livro se tornaram citações clássicas em concursos de beleza e perfis de redes sociais, mas além de O Pequeno Príncipe não ser um livro de aforismos, é muito mais do que um livro infanto-juvenil: e um livro escrito por um adulto depressivo e atormentado que exorta os adultos a não assassinarem as crianças que estão dentro deles.

Exupéry publicou vários livros e deixou material para mais de 10 obras póstumas.

Sobre O Pequeno Príncipe,  Filme de Mark Osborne (2015)

Lembro que saí do Cinema com um sentimento dúbio.

O filme é uma animação em 3D onde as poucas cenas retiradas do livro são primorosamente animadas em stop motion.

No enredo o livro é lido por uma garotinha que faz amizade com um Exupéry idoso, engraçado, solitário e rejeitado pelos vizinhos.

Achei linda a ideia de que Exupery chegou à velhice no entanto o filme mistura vários elementos para fazer a família brasileira chorar; a criança abandonada pelo pai, sem amigos e vítima de abusos psicológicos por parte da mãe faz amizade com adulto solitário e quase moribundo, etc, etc, porém de forma meio caricata demais para agradar adultos e triste e monótona demais para agradar crianças.

A trilha sonora é derivativa demais e dá muito, mas muito sono.

A primeira metade do filme é boa. É, é boa.

Se o terço final (que é a parte onde a garotinha sofre a iminência da perda de um ente querido e mesmo oprimida, desacreditada e sem recursos se torna a heroína) não existisse o filme teria sido, em minha opinião, bem mais interessante para todas as idades.

 

Um beijo,

Meire.

Para saber mais:

Biography

Britannica

 

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Alice no País das Maravilhas | Lewis Carroll (1832 – 1898)

Por @meire_md

 

E começou a pensar sobre outras crianças que conhecia que ficariam bem como porcos, e bem na hora  em que estava pensando “se ao menos alguém soubesse a maneira correta de transformá-las” teve um ligeiro sobressalto ao ver o Gato de Cheshire sentado no galho de uma árvore a alguns metros de distância ( ‘Alice no País das Maravilhas‘)

Quando eu tinha menos de 20 anos costumava me angustiar ao pensar que não teria tempo de vida suficiente para ler todos os livros que gostaria de ler.

Minhas malas de viagem de férias eram recheadas de livros.

Aqueles anos viram duas décadas passando e fui ficando cada vez mais pragmática, porém a sensação de que todo tempo que disponho para ler tem que ser bem aproveitado bloqueava o meu impulso de reler algum livro.

Alice no País das Maravilhas voltou para me dizer que eu estava errada, redondamente errada.

Ler um clássico de novo pode ser muito mais prazeroso do que ler um outro livro qualquer pela primeira vez.

Raphus cucullatus

Em uma das nossas idas a Londres vimos um modelo do Dodo no NHM. Fiquei fascinada pelo bichinho e lembrei de Alice.

(O Dodo foi descrito pela primeira vez em meados do século XVI mas infelizmente foi extinto cerca de 100 anos depois).

Mas o golpe de misericórdia veio quando visitamos ‘O Monumento’ e fomos ao Dinning Room Lewis Carroll no Pub ‘The Walrus & Carpenter.

Fui tomada por uma vontade incontrolável de reler ‘Alice no País das Maravilhas’.

Reler, logo eu. Sim. Reler.

Quando pequena gostei do livro mas não foi uma leitura que marcou minha infância/ adolescência; se não me falha a memória, a edição que li tinha uma tradução para o português de Portugal.

Foi meio que um livro para crianças como outro qualquer. Na minha cabeça o livro era gigante, uma saga interminável.

Gagueira e Enurese Noturna


Gosto de ler pelo menos um resumo da biografia dos autores que chegam à minha cabeceira, mesmo que sejam informações coletadas meio aleatoriamente da Internet, cuja precisão deixa a desejar.

Saber mais sobre o escritor sempre me ajuda a compreender um pouco melhor sua obra e até a admirá-la mais (ou desistir de lê-la, admito) porque concordo com quem defende que no geral há um tempero autobiográfico em praticamente tudo que se reconhece como arte.

Uma enurese noturna somada a gagueira, uma assimetria facial, a surdez em um ouvido e uma sinistro-dominância que à época era mal vista possivelmente levaram Lewis Carroll a desenvolver severos traumas psicológicos.

Alguns textos biográficos que achei por aí falam em um possível passado de abuso sexual (?), bem como de que seu diário – hoje incompleto não se sabe por qual motivo exatamente -revelava uma enxaqueca com aura. Há ainda relatos de médicos da época que sugeriam que Lewis tinha epilepsia ou alguma síndrome epileptiforme.

A parte bastante controversa da biografia do autor é uma alegação extemporânea de que ele seria pedófilo, mas até onde pude apurar não há elementos suficientes para afirmar que ele tenha sido.

O que temos por certo é que Lewis Carroll foi um grande nome em matemática + lógica e além de poeta e escritor, foi um apaixonado pela tecnologia então mais recente e empolgante, a fotografia.

Sobre Alice 


Alice no País das Maravilhas é uma história que se passa entre sono e vigília.

A trama é tipicamente onírica, subverte os padrões da realidade e inclui mudanças de esquema corporal. Essas são manifestações/sensações que podem ser comuns em quem tem enxaqueca e epilepsia, sobretudo a do lobo temporal.

Não me impressionaria nada se a Alice do livro fosse a projeção dele mesmo nem que boa parte da história brotou sem que ele precisasse fazer nenhum esforço intelectual para criá-la.

Como de hábito ele incluía as crianças ou o nome de crianças com as quais convivia em suas histórias, poemas e fotografias.

Alice era o nome de uma menininha de uma família com a qual Lewis Carroll mantinha relações próximas.

Esse clássico da literatura nonsense mostra uma menina destemida, que tenta controlar o impulso de chorar consolando a si mesma de modo racional, que tem respostas prontas para tudo, que calcula as possibilidades de suas escolhas e coloca a curiosidade acima do medo: ‘eu quase desejo não ter entrado na toca do coelho… mas, mas, é tão curioso, sabe, esse tipo de vida!’

O mais interessante é que nem nos momentos em que a menina chora, ela pensa nos pais.

A ‘pessoa’ que mais surge em seu pensamento durante o período em que está presa num país onde lagartas azuis fumam narguilé, gatos tem sorrisos largos, cartas de baralho são pessoas e onde a Rainha manda degolar pessoas que nunca são degoladas, é Dinah, a sua gata.

Os gatos já eram o dono do  mundo mesmo.

A menina faz uma análise interessante sobre as diferenças entre adultos e crianças:Talvez seja a pimenta que deixe as pessoas mal humoradas (…) e o vinagre as deixa azedas… e a camomila as deixa amargas…e…e… as balas de cevada e este tipo de coisas é que deixam as crianças tão doces. Eu queria que as pessoas soubessem disso: então, eles não seriam tão sovinas com doces, sabe…

Problemas matemáticos, tiradas impagáveis e um julgamento nonsense


Há teorias de que há problemas matemáticos e outras coisas encriptadas no livro, mas confesso que não percebi  nada (teria que ler mais uma vez, e é pouco provável que eu encontre). Quanto a isso, uso as palavras do Grifo: Não, não! As aventuras primeiro (…). Explicações tomam um tempo louco.

O diálogo da Duquesa com Alice no campo de críquete é legendário e o Julgamento na Corte (sobre o caso das tortas) é incrivelmente engraçado.

Alice, que serviu de testemunha de algo que não viu, voltou a crescer durante o Processo e findou por ser liberada com base no Artigo 42, que diz que todas as pessoas com mais de um quilômetro e meio de altura devem abandonar o Tribunal.

Não houve como desconectar as minhas gargalhadas nestes dois episódios com O Guia do Mochileiro das Galáxias, mas segundo meu marido, Douglas Adams negou ter retirado o 42 daí.

Parafraseando o Rei, segue o meu conselho para que vocês leiam o livro:

“Por onde devo começar, se Vossa Majestade permite?”

“Comece pelo começo”, disse o Rei com muita gravidade, “e siga até o fim: daí pare.”


Beijos,

Meire

 

 

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[Meu Querido Diário] Doença Celíaca, Sobrepeso, Vício em Exercício, Mente de Gordo e Outras Coisas

Por @meire_md

“A senhora baronesa, que pesava cerca de trezentos e cinquenta libras, granjeava com isso elevada consideração e fazia as honras da casa com uma dignidade que a tornava ainda mais respeitável”   (Em ‘Cândido, O Otimista’, escrito em 1759)

 

A obesidade como símbolo histórico de riqueza, bonança e prosperidade que caracterizava a nobreza: enquanto os súditos pegavam no pesado e se sustentavam com sopas ralas e pães mofados, os nobres se refastelavam em banquetes.

O mundo segue nessa assimetria alimentar, onde pessoas desnutridas continuam existindo – ainda que em menor proporção que antigamente – enquanto outras comem em excesso.

Só descobri que tenho Doença Celíaca quando minha história já tinha sido avaliada por vários colegas. Olhando para trás parece ter sido um diagnóstico muito simples, mas não foi.

E quando comecei a tratá-la, entrei para a estatística do sobrepeso/obesidade.

Meu quadro realmente não tinha ‘cara, cor e cheiro‘ de Doença Celíaca.

Os sintomas da Doença Celíaca são deflagrados por uma complexa reação imune desencadeada pela ingestão de glúten, uma proteína encontrada no trigo e outros grãos e bastante comum em diversos alimentos como pães, bolos, molhos e em muitos alimentos industrializados.

É importante saber que o glúten é uma molécula grande e por este motivo não ultrapassa a pele, mas quando está presente em cosméticos pode ser absorvido caso aplicado nos olhos ou boca.

Febre de Origem Obscura


Passei alguns anos tendo febre vespertina diária, constipação intestinal, redução de força muscular e dores articulares recorrentes. Em certo momento eu já não conseguia subir escadas sem apoio, enfim, foram anos bem complicados.

Como nenhum médico – nem mesmo eu – desvendava a causa de todo o cortejo e eu já havia passado por coisa pior, decidi que a doença sem nome não iria paralisar a minha vida.

Alterei meus hábitos, inclusive a rotina de trabalho, para que na ‘hora da febre’ eu pudesse repousar por pelo menos uma hora, já que os calafrios eram bem desconfortáveis.

Esse período modulou bastante a minha relação com a Medicina, com as pessoas e com as coisas. Passei a valorizar muito mais o meu tempo, tornei-me menos perfeccionista e quando dei por mim os três empregos que eu tinha se resumiram a um.

O diagnóstico final brotou por acaso. Enquanto o Igor fazia uma consulta médica e eu batia papo com sua alergista, ela mencionou que uma colega recém havia se descoberto celíaca e soltou algo como ‘o quadro dela era igualzinho ao seu‘.

Bam! Não deu outra. Procurei um gastroenterologista e minha jornada febril chegou ao fim. Foi um alívio sem tamanho.

Só sei que foi assim


Trocar o pão francês na chapa e que tais por uma vida sem dor e sem febre foi um sacrifício irrelevante perto de outros que já faço pela minha saúde, que nunca foi lá grandes coisas.

Foi experimentando novos bolos & novos pães & novas pizzas & dias sem febre & semanas sem dores que passei de um corpo magérrimo e invariavelmente cansado para um corpo com uma rechonchudância radiante tão inesperada que as pessoas achavam que eu estava grávida.

Em 2016 eu já estava com sobrepeso/obesidade leve e comecei a aparar excessos da alimentação, mas o máximo que consegui foi parar de ganhar peso e ser uma contratadora serial de Personal Trainers.

Embora todos devam, quem tem antecedentes familiares como os meus (doenças cardiovasculares, câncer e diabetes) precisa cuidar muito bem do seu peso.

Eu sabia que estava sendo negligente por deixar a obesidade entrar, condição que além de ser concausa e aumentar a mortalidade dos eventos que citei acima, promove uma sobrecarga articular muito maior do que a ocorrida durante a evolução da nossa espécie, mas fui levando o problema na valsa.

Aí veio a Pandemia


Depois da morte de uma colega percebi que se a tragédia que se abateu sobre a família dela e que enlutou toda a minha turma de Medicina não fosse suficiente para que eu assumisse a responsabilidade sobre a minha própria composição corporal, o que mais precisaria acontecer?

Fixei o dia 02/07/2020 como data de início da dieta e dos exercícios. Alguns problemas eu já havia resolvido antes, como a redução do consumo de alimentos industrializados e a substituição do achocolatado por coalhada sem açúcar e com Cacau a 100% (o meu favorito é esse aqui).

Como a nutricionista que escolhi ainda não reorganizou o consultório, usei um aplicativo indicado por minha amiga Patrícia, o Fat Secret, e montei a dieta com a mesma disciplina que organizo as minhas finanças e as do Igor.

Com o aplicativo descobri que eu estava comendo muito além do necessário. Muito, mesmo.

Em razão da doença Celíaca e das alergias já cumpro uma dieta meio beco sem saída, com poucos itens e bem monótona, mas precisei mexer fortemente nos carboidratos consumidos .

Com o passar dos dias eu e meu marido (obrigada, amor)  fomos achando opções mais saudáveis para os momentos quero-atacar-uma-coisa-açucarada, assim as frutas frescas ou grelhadas sem nenhum açúcar e com ou sem um tico de creme de leite substituíram completamente os pudins e doces.

O Brownie da Belive Chocolate com Coco zero açúcar (zero lactose e zero glúten; cada unidade tem 40g) substituiu todos os bolos que vez por outra apareciam por aqui e estou tentando me adaptar ao Creme de Avelã zero açúcar.

Confesso que sentir vergonha de mim mesma ao pensar no significado histórico do tipo de excesso que eu vinha cometendo tem sido muito importante para que eu mantenha o foco. 

Falo da minha realidade, ok? Para mim, para o  meu caso, a culpa cabe. A culpa foi minha, ninguém foi responsável pelas minhas escolhas alimentares erradas nem por minhas faltas à academia. Tenho plena consciência que muitas pessoas se tornam  obesas por falta de opções – findam consumindo muito carboidrato e pouca proteína – e falta de acesso a orientações alimentares.

Cai feito um patinho em um mito. Logo eu?

O segundo problema foi conseguir manter uma rotina regular de exercícios de exercícios físicos.

Cai na armadilha mental de acreditar que meu corpo se viciaria em exercícios, que um dia eu iria gostar e tudo seria mais fácil. Todo mundo diz isso, e mesmo sendo uma pessoa cética, nunca parei para questionar.

Eu ficava esperando o tal vício e ele não vinha. Ora, faz sentido.É uma atividade imersiva durante a qual são secretados hormônios relacionados ao bem-estar.

O esforço investido para manter uma rotina regular de exercícios é, no meu caso, muito grande.

Em Medicina nem nunca, nem sempre

Esse mito estava me impedindo de ver a coisa como ela é. Quando você se liberta de certas ilusões – a esperança de que algo impossível aconteça é uma delas – você simplesmente aceita.

E o engraçado é que só tive esse insight cético lendo Por que o Budismo Funciona*.

Para ilustrar melhor esse efeito da nossa mente vou dar um exemplo bem significativo (obviamente desproporcional à minha questão) e que ficará gravado na memória de vocês: quando uma pessoa desaparece a família não supera a perda enquanto houver esperança de que a pessoa esteja viva.

Quando o corpo aparece o luto se completa e a aceitação, mesmo que muito sofrida, chega.

Como disse a Bela Cuca, se um problema não tem solução, solucionado está. O único caminho razoável é se adaptar à nova realidade.

A realidade tem sua  mágica, já a ilusão é um atraso na nossa vida. Parafraseando Daniel Levitin, a verdade nos faz poupar tempo.

Foi nessa virada de chave que, entendendo que meu corpo jamais vai sentir prazer em se exercitar, assumi o exercício como meu remédio amargo e até fiz uma playlist para me exercitar. 

É um remédio amargo, mas seguro e necessário. Faço na força do ódio, mas pelo menos sei que tem que ser assim.

Edição em 31/10/2020: Continuo mantendo a dieta e me exercitando regularmente. Espero que este post seja útil para vocês.

Edição em 12/06/2021: Continuo  mantendo a dieta mas com dificuldades de consumir toda a proteína necessária. Tenho conseguido fazer exercícios pelo menos duas vezes por semana. Perdi peso (não todo o peso que preciso perder) e não voltei a ganhar.

Mente de Gordo: isso existe?

Reconheço que a obesidade é um problema, nunca dei desculpas como ‘ah, eu não como nada, devem ser os hormônios‘ porque até onde sei a Nutella não mudou de nome e a mente humana é capaz de gerar armadilhas infinitas de autoengano, mas sei que o problema da pessoa obesa nem de longe é falta de autocrítica, muito menos é preguiça.

Tem algo além, essa tal mente de gordo deve existir. Não se fica obeso da noite para o dia, a obesidade é insidiosa, sorrateira, entra sem pedir licença e a cada ano que passa fica mais resistente.

Para um obeso assumir o controle sobre seu próprio corpo precisa vencer muitos obstáculos, começando por reconhecer que está fomentando uma condição patológica.

Se fosse fácil todo mundo que quer retomar uma composição corporal saudável conseguiria, mas mesmo com apoio técnico muita gente não consegue ou recidiva frequentemente.

Eu mesma não sei se vou ser suficientemente persistente, mas o plano é esse.

Hoje já em se fala reverter a obesidade, mas em controlá-la, tipo como se faz com o alcoolismo e outras adições.

Não recomendo que ninguém faça o que eu fiz, que leve a questão na maciez e espere quase quatro anos para assumir seu compromisso de lidar com o sobrepeso/obesidade ou só fazê-lo depois de passar algum susto.

Buscar ajuda multidisciplinar é bastante importante, sinto que sozinha (mesmo sendo médica) não sou capaz de me atender.

Há perfis no Instagram muito interessantes para quem quer ter acesso à dicas técnicas, como o do médico endocrinologista Bruno Halpern e da médica Patrícia Freire, que está se especializando em Medicina do Estilo de Vida e Medicina Culinária.



Nota.: Demorei a considerar a meditação como algo válido, mas tenho estado aberta a entender mais sobre o método não pelo sentido religioso/místico, mas como uma ferramenta para aliviar a mente das tensões do cotidiano. Li  ‘Por que o Budismo Funciona’ por influência de um livro de divulgação científica que resenhei esse ano, ‘O Segredo Está nos Telômeros’.

 

 


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[Resenha] A Magia da Realidade | Richard Dawkins

a magia da realidade

A Magia da Realidade’ é um livro infanto-juvenil escrito por Richard Dawkins com ilustrações de Dave McKean, o mesmo cara que trabalhou no departamento de arte dos filmes de Harry Potter.

Por @meire_md

Se a ideia é impulsionar a curiosidade científica de seus filhos e estimular seu pensamento crítico não há nada melhor do que um auxílio dos grandes divulgadores, já que há algum despreparo nesta área em boa parte das escolas brasileiras e nem sempre sabemos como abordar alguns assuntos com as crianças.

Em 2011 o biólogo Richard Dawkins, o mesmo que ao publicar a emblemática carta à sua filha Juliet já havia mostrado uma habilidade incrível para falar com crianças, publicou ‘A Magia da Realidade’, que na minha opinião é um dos melhores livros dele. Arrisco-me a dizer que Dawkins fala melhor para crianças e adolescentes do que para adultos.

O livro foi traduzido para o português alguns meses depois e conta com temas interessantíssimos para os pais dividirem com seus filhos em idade escolar.

Em minha opinião, a obra é indispensável para adolescentes e bastante útil para adultos jovens ainda alheios aos desdobramentos mentais que livres pensadores trilham para entender a realidade que nos cerca ou que foram crianças que não tiveram oportunidade de acessar livros com conteúdo do tipo.

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Se você associa Dawkins à militância ateísta e já começou a ler o post com um juízo negativo antecipado, é preciso que saiba que este livro não é um manual de ateísmo para crianças ou tampouco  um manual contra religiões específicas, já que lida com todas de uma maneira igual.

É um manual que exorta a criança e o adolescente a evitar um preenchimento de lacunas ainda não respondidas com explicações mágicas.

A Magia de Dawkins está na Realidade

Se a família tem uma crença e segue um determinado dogma isso não deve ser um motivo para impedir que a criança desenvolva um ceticismo em diversas áreas.

A curiosidade científica não é nem deve ser atrelada ao ateísmo ou tratada como sendo propriedade de não religiosos. Quem afirma que a ciência é incompatível com religião está apenas caindo num vício de seleção por pura ignorância ou querendo agredir ou rebaixar pessoas religiosas, o que é lamentável de uma forma ou de outra.

Uma criança deve crescer aprendendo a questionar inclusive quem nega a religião da sua família, isso é salutar. Precisamos estimular as crianças a questionarem o status quo. Questionar não é ser rebelde.

Se há algo a atrelar à curiosidade científica é a liberdade de pensamento, isso sim.

Um livre pensador pode ser religioso sem que isso prejudique seu juízo crítico na área que pretende estudar, desde que ele tenha se desenvolvido como indivíduo dono do seu pensamento e entenda o que é e o que não é alçada da religião.

Presto aqui todo meu apoio à família que doutrina seus filhos dentro do que crê, que não os impede de buscar explicações racionais para fenômenos naturais, ou seja, que não os escravize e que entende que a ciência não precisa ser inimiga da religião. Repito: o conhecimento científico não é propriedade dos não religiosos (nem nunca foi).

Uma família pode ser cristã e aceitar as fortes evidências em favor da Evolução da nossa espécie bem como uma família Budista, judia, espírita ou politeísta pode aceitar o mesmo.

Enquanto as religiões podem dividir as pessoas em grupos muito diferentes entre si a ciência tem a capacidade de nos unir e este livro mostra como o mundo natural é fascinante.

Como pessoa que enxerga a Magia da Realidade me sinto inserida na maior ‘religião’ do planeta, porque nela há pessoas de todas as religiões e pessoas sem credo também.

Se a família professa quaisquer credos só terá problemas com A Magia da Realidade se refutar boas evidências científicas disponíveis para explicar diversos fenômenos naturais, então se for especificamente este o caso de sua família não recomendo a leitura.

Para os demais religiosos e para os não religiosos só vejo diversão e uma porta aberta para aumentar mais ainda o vínculo afetivo e admiração que os filhos nutrem pelos seus pais.

Como pode ter dito o avô de qualquer um de nós, a Educação é a herança maior que os pais podem deixar para os seus filhos.

Um beijo,

Meire

[Resenha] Malleus Maleficarum – O Martelo das Feiticeiras | Padre Heinrich Kramer

Por @meire_md

Heinrich Kramer foi o escritor mais intelectualmente desonesto que já consultei em toda minha vida, e olhe que estou incluindo dos acadêmicos que distorcem a Teoria da Evolução aos pseudocientistas vendedores de polivitamínicos.

Até 2015, ano em que li O Martelo das Feiticeiras, não achava que seria possível encontrar tanta desonestidade junta em uma obra só e de lá para cá não encontrei nada pior.

Ele está disponível aqui em vários formatos, inclusive para Kindle e em edição econômica (de bolso).

Até tentei, mas não encontrei nenhuma redenção para o Padre Heinrich e estou certa de que se fosse vivo hoje teria milhões de seguidores no YouTube e seria muito rico, pois a capacidade de distorcer argumentos sempre foi algo bastante lucrativo.

Nem ignorância ou inocência podem ser apontadas como atenuantes, pois ele mesmo citou argumentos contemporâneos contra o que ele defendia para depois refutá-los com um corolário interminável de falácias.

Quase infartei quando ele usou a semiologia de Avicena para defender a existência de bruxaria, sugerindo que era dessa sandice que o estudioso falava quando ensinava seus alunos a observarem o facies e o aspecto do olhar dos doentes para diagnosticá-los.

O livro inteiro pode ser utilizado como fonte de estudo de falhas de discurso e apenas por este motivo tendo a considerá-lo uma preciosidade que deve ser lida.

Quem quiser estudar e treinar lógica pode até fazer um blog só com esse livro, pois ele tem material para inúmeros posts.

Da Falácia do Espantalho ao Declive Escorregadio, passando pela Falácia do Escocês ao apelo para emoção, medo e autoridade, há de tudo. Tudo mesmo. O Padre não deixou escapar nenhuma falácia de discurso, nenhuminha.

Interessante e até apaziguador para mim foi saber que na Idade Média – tanto que lembrei deste livro quando resenhei o ‘Mulheres e Médicas – haviam muitas pessoas que não acreditavam na existência de bruxas, muitas que tentavam influenciar grupos contra a ideia e outras que, embora acreditassem, não defendiam que bruxas tivessem tanto poder ao ponto de criar tempestades, dizimar rebanhos ou fazer pênis desaparecerem.

Antes de ler O Martelo das Feiticeiras eu não sabia que o controverso era tão significativo à época, eu via como generalizada a crença das pessoas em coisas como mau olhado, crença até certo ponto justificada pela privação pedagógica e pela falta de conhecimento científico.

Mas não.

Havia muita coisa produzida e de conhecimento público defendendo que o fato de um evento não ter causa conhecida não autorizava a Igreja a atribui-la ao Demônio, textos comparando crenças religiosas a superstições e outros ligando-as a um sincretismo entre diversas mitologias e o cristianismo.

Sensacional, mas por outro lado desanima ter constatado que muita gente ainda tem um nível de raciocínio lógico bem inferior a algumas pessoas da Idade Média…

Há muitos textos interessantes em língua inglesa sobre o Malleus, de como ele foi utilizado, da real importância que teve à época e de como a proibição não conteve suas reedições ou utilização.

Quem se interessar pode dar uma procurada, mas eu gostaria de mostrar algumas coisas sobre ele.

No British Museum (que já tive o prazer de visitar por longas horas pelo menos quatro vezes) tem seis edições do Malleus sem formalização de uma data correta e de um lugar de publicação claro, então elas foram datadas considerando que uma edição tende a corrigir os erros – sejam ortográficos ou outros – da anterior.

Hoje se defende que o Padre Sprenger foi acrescentado como coautor do livro por desonestidade de Kramer, que queria dar mais autoridade à obra.

Kramer se utilizou de uma Bula Papal que foi escrita ANTES do livro como se tratasse um aval para o mesmo e parece ter forjado um Certificado de Aprovação do Malleus por uma Faculdade de Teologia.

Essas três ações garantiram sucesso de vendas até a Igreja tentar barrar a publicação, mas aí já era tarde demais.

Ele e os assassinos que já seguiam crença similar condenaram à humilhação, tortura e morte um número expressivo de pessoas.

No que se refere à bruxaria, condenaram principalmente mulheres pobres, muitas das quais parteiras ou mulheres que praticavam medicina popular que foram vítimas de inveja, ciúmes, conflitos entre vizinhos ou simplesmente de maridos que queriam se livrar delas.

Uma das coisas que a Inquisição defendia é que enquanto a mulher não confessasse a tortura deveria continuar e que alegar inocência só falava mais contra a acusada.

Era impossível se defender.

A orientação era a de que a mulher fosse torturada nua, com pelos raspados, e que se gozasse de pouca reputação no condado ou fosse pobre, que não recebesse qualquer informação sobre a pessoa que a acusou, ou seja, a coisa parecia um romance de Kafka.

Se a acusada fosse rica poderia ter mais direitos, embora as pessoas ricas raramente fossem a julgamento por Bruxaria pois os letrados, segundo a Igreja, gozavam no geral de imunidade contra o Diabo pois tinham a mente mais forte.

Algumas Igrejas Evangélicas continuam com essa noção de que a susceptibilidade demoníaca varia de acordo com a nossa conta bancária, tanto que nunca se vê um homem milionário ou uma mulher milionária possuídos pelo Demônio e sendo fortemente chacoalhados por um Pastor, no entendimento deles só os pobres são vítimas do Satanás.

O famoso Padre defendia também que o julgamento fosse sumário, que a pessoa não tivesse acesso sequer conteúdo do depoimento dos acusadores e que, preferencialmente não fosse defendida por um advogado, salvo em situações especiais.

Naquela época a Justiça já era baseada no contraditório e defesa (não tão ampla, mas sim), ou seja, não havia justificativa para que o Inquisitor defendesse isso.

E ele defendia que se a pessoa teve acesso a um advogado e conseguiu um Recurso, certamente o fez com ajuda do Diabo, então merece morrer.

Óbvio, né?

Vocês sabem o que significa Herege?

Segundo Padre Agostinho, herege é ‘aquele que dá origem a novas opiniões e as segue’.

Na Idade Média os teólogos defendiam que a Igreja só pode considerar herege aquele que é cristão mas modifica suas crenças ou não aceita seus dogmas, passando a ter novas concepções.

Mas foi justamente a alegação de Heresia que fez muitas pessoas não cristãs serem assassinadas, entre eles judeus e muçulmanos, pois embora tivessem outra religião e não devessem obrigação nenhuma à Igreja Católica, foram condenados e assassinados porque um dos motivos da Inquisição foi expandir a Igreja e aumentar a sua riqueza.

Ao contrário da possessão demoníaca, foi definido que a heresia não era tão comum assim em pobres, daí a Igreja arrumou uma forma de confiscar os bens de ricos que professassem fé distinta.

Só quem estava relativamente protegido contra a Inquisição eram os homens cristãos, principalmente os ricos.

Quando um homem cristão traia sua esposa era bem fácil resolver. Bastava dizer que foi enfeitiçado pela amante. Ela passava por todo processo e poderia ou ficar a pão e água o resto da vida ou morrer queimada, mas com o homem que traia não acontecia nada, bastava ele admitir que agiu de modo contrário às Escrituras que estaria perdoado.

A primeira parte do livro discorre sobre as condições para que a Bruxaria exista, que são o Diabo, a Bruxa e a permissão de Deus. Essa parte parece uma comédia de mau gosto e não se precisa passar da terceira página para perceber as falácias clássicas brotando.

“A que for considerada culpada, mesmo tendo confessado o seu crime, há de ser supliciada, há de sofrer todas as torturas prescritas pela lei (…)”.

Na questão IV desta parte o Padre explica por que a mulher é mais predisposta ao pacto com o Demônio, pois ela tem a natureza perversa e traiçoeira, é fraca, mais carnal e tem menos inteligência.

Aí a gargalhada alta vem quando ele fala que todos os Reinos caíram por culpa da uma mulher e usa Helena de Troia como evidência que comprova sua premissa.

Como pode?

Mesmo se a história fosse real, o que na época já se sabia que não era, Helena de fato era a vítima da história. Fruta que me partiu, a mulher foi sequestrada e mesmo assim o infeliz das costas ocas atribui a culpa do conflito a ela…

Na parte dois ele cita a metodologia das Bruxas, onde fica bastante clara a fixação sexual do religioso. A mulher é a coisa imunda e o homem é o Santo tentado pela mulher, que é inclusive capaz de obstaculizar sua função reprodutora, tanto através de disfunção erétil quanto de esterilidade. O chamado sexo frágil é o homem.

Para o Padre, a disfunção erétil é totalmente culpa da mulher, e por isso ela deve ser, com a permissão de Deus e para a sua Glória, torturada até a morte.

Ele trata também dos Exorcismos.

O interessante é que o Padre comenta que os amuletos são considerados ilícitos pela Igreja (com base nos estudos de Santo Agostinho) mas hoje são muito comuns entre católicos, como aquelas medalhinhas com Santos e correntes para o pescoço que contam com medalhas na frente e atrás. As medalhinhas e outros pequenos amuletos usados na Idade Média para espantar o Demônio viraram presentinho, um tipo de souvenir religioso.

Ele explica também como a pessoa faz o pacto com o Capiroto e como se processam as relações sexuais e toda luxúria com Íncubos e Súcubos, restando claro a nós, aqui do século XXI, que o Demônio foi o pioneiro em fecundação artificial e sabe selecionar bem o sêmen, visto que homens nascidos de relações sexuais mediadas por demônios costumam ser grandes e ‘avantajados’.

E a história ‘real’ da bruxa que guardava os pênis dos homens em um ninho de passarinho?

A cópula com demônios e a confecção de pomadas feitas a partir de ossos de criancinhas batizadas eram, para os Padres Inquisitores da época, comum a todas as bruxas, no entanto ninguém nunca viu a cópula nem viu a confecção das pomadas, já que eram feitas de modo secreto.

Mulher que gosta de sexo? Lascívia diabólica

“Não menos que quarenta e oito foram queimadas em cinco anos”, disse ele acerca de um povoado onde mulheres com vinte anos de idade ou menos foram queimadas vivas.

Imaginem o que é para um povoado pequeno, como eram os povoados à época, ver quarenta e oito de suas mulheres e filhas assassinadas? Se 48 foram condenadas a morte imaginem quantas foram condenadas a diversos suplícios e ou à prisão perpétua…

No Capítulo XIII as parteiras, criaturas nobres que ajudavam mulheres de seu povoado a parir e que garantiam uma melhor sobrevida à mãe a ao filho do que os médicos da época, foram mortas aos montes.

A mortalidade infantil era alta, muitas mães morriam durante o parto ou morriam de febre puerperal. Era assim, seja por más condições de nutrição e higiene ou simplesmente por eclâmpsia, outras doenças maternas ou até doenças congênitas.

Mas a culpa era das Parteiras e não adiantava um médico ou outro estudioso tentar defendê-las. Hoje sabemos que muitos homens letrados que gozavam de respeito junto à Igreja tentaram defender as mulheres da morte certa.

Se a criança tivesse alguma deficiência ou até fosse muito sapeca ou desobediente quando crescesse era tida como criança consagrada ao Demônio pela parteira. Imaginem aí as consequências também para as crianças, que eram ‘disciplinadas pela vara’ ou submetidas a exorcismos.

A terceira parte do livro trata dos trâmites legais propriamente ditos, discorre sobre a competência dos Julgamentos em casos de Heresia e/ou Bruxaria, colocando que a Bruxaria nem sempre se acompanha de Heresia, afinal só crê no Demônio quem também crê em Deus.

Nessa época a Igreja defendia que o Julgamento deveria ser feito na presença de um Inquisitor (Padre) e um Bispo, mas Kramer defendia que não seria necessário, bastaria uma pessoa para julgar e condenar. Aliás, esse foi um dos motivos principais pelo qual ele escreveu o livro, pois tinha desejo de provar ser capaz de julgar sem a presença de um Bispo.

Ele segue discorrendo como era a rotina da época, como as testemunhas eram ouvidas, como a Bruxa deve ser presa, como deve ser condenada, que deve ser torturada nua, interrogada de novo e torturada de novo e de como deve ser enganada com promessas falsas para confessar.

O Padre ensina como dar a entender que a mulher seria exilada quando de fato ficaria a pão e água numa cela escura ou como é lícito um Padre fazer um acordo com ela para manter sua vida mas depois largar o caso, para que outro Padre possa mandar queimá-la. E também como fazer uma espécie de delação premiada mórbida.

Se dentre as testemunhas há um criminoso, o depoimento dele só tem valor se for para condenar a mulher. Se for para defendê-la, ele não pode ser aceito, já que até prova em contrário (quase impossível de se obter) a pessoa pode ser condenada inclusive por rumores do povoado.

Ele descreve que o Julgamento deve ser sumário, mas a tortura não. Orienta que ninguém se apresse na tortura, que se comece de modo mais brando e que um notário vá registrando o que a acusada falou e como estava sendo torturada na hora, porque depois isso vai ser testado novamente para confirmar a veracidade.

O Padre também recomenda que se o torturador sentir prazer na hora da tortura procure não demonstrar.

A mulher que se paralisasse diante dos abusos e do medo e não chorasse, era considerada ainda mais culpada, mesmo se caísse no choro quando a sessão de tortura acabasse. Essa capacidade de se manter quase catatônica durante a tortura só poderia mais uma ação do Demônio e era chamada de poder maléfico de preservar o silêncio.

Gente, poder maléfico de preservar o silêncio…

Isso ocorre com muitas mulheres enquanto estão sendo estupradas, é uma forma que a mente humana encontra para fugir de uma violação intensa à integridade física e mental. Mas se a mulher chorasse enquanto muitas ‘evidências’ apontam para que seja Bruxa, também era considerada mais culpada por ter simulado o choro transferindo sua saliva através da bochecha para os olhos, o que só pode ser feito com ajuda do Demônio.

Não tinha escapatória.

E por fim a obra traz os modelos de sentença para cada tipo de crime e para cada condenação.

Quando uma mulher era considerada inocente eles tinham um cuidado de colocar na sentença que apenas não havia sido provado nada contra ela para que ela pudesse passar por todo processo de novo caso rumores surgissem ou ela fosse acusada pela mesma ou por outra pessoa.

Algumas pessoas condenadas pela Inquisição propunham a realização da Ordália, um tipo de prova mágica usada na Idade Média inspirada na Lei bíblica de Águas da Amargura. Isso mostra que eram pessoas crentes, que tinham esperança que Deus ouvisse seu clamor e concedesse assim a evidência de sua inocência e as livrassem de uma morte terrível.

Mas isso nunca acontecia.

Na Ordália o teste para a prova de inocência ocorria de acordo com a classe social do acusado, poderia ser por imersão de partes do corpo em água fervente ou por queimadura com ferro incandescente.

O procedimento foi proibido em 1.200 e pouco porque se descobriu que alguns Padres pagavam pessoas para andar em ferro supostamente em brasa visando enganar o povo, induzindo-o a acreditar que algumas pessoas não se queimavam por ação de Deus.

Como a verdade era que todo mundo se queimava, a Igreja decidiu que Deus havia escolhido não se pronunciar nos Julgamentos e assim concedeu total autoridade aos Inquisitores.

A Igreja Católica já pediu desculpas por todo esse passado sombrio. O Martelo das Feiticeiras.

[RESENHA] O Conto da Ilha Desconhecida | Saramago

Por @meire_md

“A ilha desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma”.


Se não for o menor, é um dos menores livros de Saramago e pode ser lido em menos ou pouco mais de uma hora.

Ele foi publicado em Lisboa em 1998 e no mesmo ano foi lançado aqui no Brasil pela Companhia das Letras.

Posso considerar ‘O Conto da Ilha Desconhecida’ uma degustação do estilo do autor, que amo com força; é atemporal, o enredo não tem localização geográfica definida e os personagens são desnudados pelo que são ou representam, não por seus nomes.

Saramago nunca permitiu que suas obras fossem adaptadas para o português do Brasil, e só tenho a agradecer a oportunidade de lê-lo como no original desde a época eu era estudante e não tinha meios de comprar livros importados.

A minha edição foi adquirida no Sebo do Messias há alguns anos e uma de suas donas sublinhou vários trechos ‘traduzindo’ de português para português algumas palavras, ou seja, ela fez notas de rodapé na edição brasileira, então eu tenho uma edição muito mais legal, com glossário.

Muito se especula sobre o significado deste conto.

Em minha opinião Saramago fez uma crítica ao inchaço da máquina estatal e à ineficiência do Poder Público, que insere vários degraus de dificuldade para atender o cidadão e deu uma alfinetada nos governantes, que trabalham mais para si que para o povo.

Mas não é sobre isso que o conto se centra.

Ele é uma ode à persistência, à esperança, à resiliência, à capacidade de adaptação e ao autoconhecimento, ‘simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida’.

Em ‘O Conto da Ilha Desconhecida’ cada um de nós é uma ilha desconhecida que precisa ir em busca de si mesmo.

 

 

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[BATE-PAPO] Como os Vírus e as Pandemias Evoluem | Reinaldo José Lopes e Paulo Pedrosa (Pirula)

Por @meire_md

Não costumo reter memórias negativas ao ponto de conseguir evocá-las sem qualquer esforço, mas o curso de Medicina me fez fixar quatro.

Umas delas é ter estado – ainda que como estudante – na linha de frente da última Pandemia de Cólera, uma doença bacteriana que não teria matado tanta gente por aqui se tivéssemos uma boa cobertura de saneamento básico.

As lágrimas, as mortes uma atrás da outra, aqueles odores pútridos e toda a umidade cinza e quente do ambiente hospitalar com seus baldes improvisados e suas camas sem lençol realmente me marcaram.

Quando as primeiras notícias sobre o então ‘novo Coronavírus’ começaram a sair na mídia e numa rápida pesquisa descobri que a coisa estava ligada a um transbordo viral recente [um vírus que não era ‘nosso’, que veio de outra espécie] e não a uma mera ‘mutação’ de um corona velho e conhecido. Fiquei perplexa quando ouvi as pessoas dizendo coisas como ‘nem deve chegar por aqui’, ‘bobagem, coronavírus mata menos que gripe’.

Até Dr. Drauzio fez pouco caso no início e enquanto as pessoas se preparavam para viajar no Carnaval, eu pensava: estou doida? Ninguém está vendo o que vai acontecer no Brasil se as pessoas se aglomerarem no Carnaval? E quando essa porra desse vírus pegar os cardiopatas? Não relembrar o quão traumática pode ser uma Pandemia foi impossível.

Infelizmente a evolução do SARS Cov 2, nome do vírus que causa a COVID-19, provou que eu não estava maluca.

O balanço disso tudo só teremos no futuro mas é certo (ou deveria ser) que 2020 será lembrado pela intensa produção acadêmica, pela necessária valorização dos divulgadores científicos e pelas constatações lamentáveis de que profissionais de saúde trabalham sem condições sanitárias mínimas e de que as Pandemias anteriores não ensinaram as pessoas a lavar as mãos corretamente nem a largar o hábito de apertar as mãos dos outros.

Se olharmos para trás não houve nenhuma grande tragédia natural, Pandemia, atentado terrorista ou Guerra que não tenha feito a humanidade avançar de alguma forma. Com as pressões ambientais certas pelo menos algum impulso Humano, demasiado Humano* pode resultar em mudanças boas.

“Como os Vírus e as Pandemias Evoluem” foi publicado por Reinaldo José Lopes e Pirula, os mesmos autores de “Darwin Sem Frescura”, em abril de 2020.

Trata-se de um ensaio de distribuição gratuita e cujo conteúdo, de linguagem muito objetiva e clara, explica as teorias e fatos por trás da origem dos vírus e de como eles interagem com os humanos.

O ponto de partida não poderia ser outro senão a Teoria da Evolução, sem a qual qualquer tentativa de explicar a origem dos vírus não faz qualquer sentido. A discussão sobre a origem dos vírus é curtinha e não se propôs a esgotar o tema, porém é bastante rica.

Os vírus são como zumbis, nem são seres vivos nem estão propriamente mortos; como bem explicam os autores, são em suma fragmentos de material genético que agem como parasitas intracelulares obrigatórios e ‘objetivam’ se perpetuar, coisa que é mais importante para eles do que simplesmente matar sua máquina copiadora.

Um dos vírus humanos mais bem sucedidos é o da Herpes, presente em uma ou outra de suas formas em boa parte da população, certamente em mais de 50%.

Ele fica em segurança, dorme longos sonos da beleza, acorda quando bem entende (mais ou menos, ele aproveita certas fragilidades do hospedeiro), multiplica-se, atinge outras pessoas, nem sempre gera sofrimento ao hospedeiro e segue em um ciclo quase pacífico, mas potencialmente letal quando atinge o cérebro e pode promover sequelas em outras complicações específicas, tanto neurológicas como oculares.

O livro discorre sobre esse tipo de sucesso que exemplifiquei usando o vírus da Herpes e explica por quais motivos essa relação pouco letal nem sempre ocorre.

Na segunda metade do livro os autores demonstram como a seleção natural, os nossos hábitos alimentares/culturais e a invasão dos espaços anteriormente ocupados pelos animais ‘dão’ motivos para que diversos vírus transbordem dos bichos para os seres humanos e que isso certamente continuará acontecendo, já que o principal fator não parece ser a similaridade genética entre nós e eles e sim a proximidade física entre as espécies.

O entendimento das razões desses transbordos, que os autores chamam de ‘saltos’, é bastante importante para a criação de estratégias preventivas e os exemplos do livro são excelentes.

Como pode um livro tão miúdo trazer tanta informação?

Se você gosta de animais vai apreciar bastante o julgamento dos morcegos (a parte que mais gostei do livro, owww).

Ao final do texto os autores apontam as referências consultadas para o Ensaio.

Recomendo a leitura, que pode ser embalada pela playlist que fiz no Spotify, aqui.

Se você se perguntar por qual motivo a Dua Lipa está na playlist saiba que pode ter sido simplesmente porque meu marido, que é engenheiro de áudio, em algum momento de nossas vidas me disse que o produtor musical da menina edita suas músicas de modo extremamente minucioso: ele decide o tamanho de cada sílaba de acordo com o que acredita que se encaixa melhor na batida da música.

Se você não tem o Kindle basta fazer uma conta na Amazon, instalar o app no seu celular, adquirir o livro de graça e começar a ler. Você pode ler pelo computador também. 

Beijos,

* “O homem não é igualmente moral em todas as horas, isso é sabido: julgando sua moralidade segundo a capacidade de grandes decisões de sacrifício e abnegação (que, tornando-se duradoura e habitual é santidade), então é no afeto que ele é mais moral; a excitação forte lhe fornece motivos inteiramente novos, dos quais ele, estando frio e sóbrio como de costume, talvez não acreditasse ser capaz. (…)

Nietzsche (in Humano, Demasiado Humano, aforismo nº 138).

 

 

 

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[Resenha] Como diz o Ditado | Helenita Yolanda Monte de Holanda

Por @meire_md

Assombração sabe pra quem aparece.

Em meio à insônia rebelde, a médica Helenita Yolanda Monte de Holanda, sabendo que acreditar é inventar um novo mundo e a cultura é a única riqueza que os tiranos não podem confiscar, aninhou-se em sua mesa e ao raiar do dia já estava com uma boa lista de ditados populares em mãos.

Como a caixa menos cheia é a que mais chacoalha e a tentação nasce da ocasião, ela continuou coletando mais e mais e provérbios, adágios e frases feitas.

A atividade é mesmo a mãe da prosperidade e a perseverança tudo alcança, mas sendo a pressa inimiga da perfeição, o danado do livro Como diz o Ditado demorou uns pares de anos para sair do forno.

Helenita é natalense mas enfrentou a maior jornada, que é sair de casa, e lançou seu livro perfeito lá na Bahia.

Comprei lá atrás direto com a autora antes do lançamento no Rio Grande do Norte, pois a boa obra se vai pedida, já vai comprada e bem vendida.

O livro já está na 3º Edição e pode ser adquirido na Amazon.

Cada um é pro que nasce. Lembro bem de Helenita, minha colega de turma de Medicina, e como eu admirava sua disposição quando já mãe começava um curso de Medicina enquanto éramos moleques cheirando a bananada com Nescau.

Que mulher! Cada um mede o trigo alheio pelo seu próprio alqueire e sabe onde o sapato lhe aperta, né?

Ela abriu dos peitos e achou ditados a dar com pau, do Oiapoque ao Chuí, e acertou na mosca: o livro é amontoado de bom conteúdo como uva em cacho, completinho completinho.

E eu aqui me abro feito fole de sanfona de tanto orgulho da minha querida Helenita. São mais de 6000 adágios e mais de 1300 frases feitas, por isso fiz esta pequena resenha brincando com ditados extraídos do livro.

E quem pensa que ela baixou o facho está muito enganado.

O garimpo da sabedoria popular continua na vida e no seu Canal Cultura Popular Brasileira.

Beijo,

Meire.

 

 

 


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Administração | Monique Gomes| blogdamonique.com.br

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