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O Jovem Marinheiro e o Meu Pai

Por @meire_md

 “Nunca esperei que minhas experiências mais significativas como médico -e, na verdade, como ser humano – fossem resultar de ajudar os outros a lidar não só com o que a medicina pode fazer, mas também com o que não pode”

O médico norte-americano Atul Gawande (1965 – ) é um prolífico escritor, defensor da excelência na cirurgia e sensível a questões relacionadas à saúde pública.

Seu belo livro ‘Mortais‘ expõe questões bioéticas angustiantes das quais nos desviamos frequentemente, mas que dizem respeito a todos nós, sem exceção. Caso você ainda não tenha, cedo ou tarde terá contato íntimo com a morte e/ou com dilemas espinhosos relacionados à proximidade dela.

O ano no qual indiquei a leitura deste livro para mais pessoas foi 2020.

A violenta crise sanitária, a súbita preocupação com os familiares idosos e a morte inesperada de muitos amigos e familiares fez com que pessoas que me seguem no Instagram há muito tempo tenham me dado a honra de ouvi-las.

Chorei muitas vezes aquele mesmo choro internalizado e abafado que me ocorria quando eu era médica assistente* e, para manter a capacidade de raciocínio lógico ativada, lutava contra os prejuízos da emoção.

O jovem marinheiro e o meu pai

Devo tanta gratidão ao primeiro paciente que vi morrer quanto aos professores que me formaram.

O jovem marinheiro que sofreu com angústia respiratória na Enfermaria do Hospital Universitário permitiu, mesmo ciente da minha completa insignificância, que eu participasse de cada fase de sua longa doença e estivesse presente na hora de sua morte, ainda que apenas segurando suas mãos, pois já tínhamos ordem de não reanimá-lo.

Por dias eu dormia e acordava pensando naquele que removeu da minha mente ingênua qualquer vestígio de crença em superpoderes médicos.

O marinheiro me cedeu a humildade e gentileza que eu precisava para, dois anos depois, tentar dar o meu melhor como médica.

Mas ele não fez só isso. Ele me aproximou mais da então ainda pouco valorizada Medicina Baseada em Evidências e me mostrou o quanto a vida humana é frágil, coisas que paradoxalmente me fizeram ter mais certeza de que queria ser médica.

No mesmo ano participei do doloroso caminho do meu pai até a morte e o que eu desejava, em um tempo onde pouco se falava em cuidados paliativos, era não só que ele fosse submetido apenas aos procedimentos estritamente necessários como que não morresse com a assustadora angústia respiratória que eu havia presenciado meses antes.

O livro ‘Mortais’  me fez perceber que ter coragem e a maturidade de levá-lo para morrer longe de punções, cateteres e respiradores inúteis para a fase na qual a doença dele se encontrava foi um dos maiores feitos da minha vida. Eu fui muito forte, muito corajosa.

A família, os médicos e a morte

Infelizmente hoje impera muito mais a indústria dos processos contra médicos do que a busca pela morte com menos sofrimento, como a morte que meu pai teve o direito de ter. Por algum motivo os médicos souberam que eu jamais os culparia quando meu pai morresse.

Meu pai teve o direito de morrer dormindo em um local de menor complexidade e sem dor após uma dose ótima de morfina e sem uma equipe de médicos e enfermeiros dissecando suas veias ou socando tubos em seu estômago e traqueia. Minha família deu-lhe o último banho e a última refeição.

Muitos médicos que desejam parar de fazer exames e procedimentos nos nossos parentes idosos ou gravemente enfermos continuam  invadindo o paciente porque do contrário poderão ser processados pela família. A família exige a invasão. A família não permite deixar o ente querido descansar ‘antes do tempo’.

Infantilização do Idoso

“Eu estou com oitenta anos e, com essa idade, eu tenho o direito de decidir o que eu quero fazer” (Truman, engolido por lava em sua residência, de onde se negou a sair quando o vulcão do Monte Santa Helena ameaçava entrar em erupção)

Muitas famílias e médicos infantilizam o idoso e o tratam como um indivíduo sem vontade própria e  incapaz de decidir seu próprio destino.

As tomadas de decisão diante da proximidade da morte e o trato com os idosos são os principais motivos pelos quais eu gostaria que todas as pessoas do mundo lessem ‘Mortais’. 

Meu desejo tomará sua mente quando você se deparar com os casos narrados por Atul Gawande.

Mortais

Logo no início do livro presumi, com zero margem de erro, que o autor tinha enfrentado uma situação familiar parecida com a da minha família.

A história do pai dele é reconstruída nos capítulo 7 e 8, que versam sobre conversas difíceis e decisões corajosas.

Nos cinco primeiros capítulos, o médico faz uma explanação histórica, cultural e fisiopatológica sobre a senescência e de como experimentar a velhice em um mundo onde, embora não seja nem de perto uma raridade, é indesejada (e cara).

Atul descreve vários casos ‘clínicos’ de pessoas que precisaram buscar casas de repouso e de como a perda da autonomia, a solidão e o sentimento de inutilidade agravam o prognóstico de condições clínicas alusivas à idade.

Se você é dono de uma casa de repouso ou pretende entrar nesse ramo de demanda cada vez maior, este livro também é para você.

‘Se fosse você que tivesse um câncer metastático – ou, na verdade, qualquer outra doença incurável em estágio avançado -, o que desejaria que seus médicos fizessem?’

O capítulo 6 trata da morte não acidental de pessoas jovens. Você pensa nisso? Você pensa que amanhã ou depois você, seu cônjuge ou um de seus filhos simplesmente venha a apresentar um declínio rápido de saúde por uma condição irreversível?

O exercício de se imaginar no fim da vida ou imaginar como o fim da vida de alguém que amamos nos afetaria é doloroso, mas pedagógico. Pesquisas mostram que modelamos nossas prioridades de acordo com o tempo que acreditamos ter pela frente. Imaginar a proximidade do fim nos torna subitamente sábios.

Quais seriam as suas prioridades hoje se você fosse morrer na semana que vem?

O autor produziu um livro muito eficiente, honesto e necessário.

Despedidas

Sugiro a todos a leitura do texto ‘The Good Short Life’ de Dudley Clendinen, que foi traduzido para o português pelo pelo Igor e disponibilizado aqui.

Recém comprei o livro ‘Para Toda a Eternidade’, de Caitin Doughly, que faz uma jornada global baseada nos rituais de despedida de vários povos.

No terreno da ficção, um livro que gosto muito é ‘Intermitências da Morte’, de Saramago — Resenha aqui.

Os temas são difíceis, mas precisamos lidar com eles.

Não fugir da realidade e encarar a finitude da vida pode mudar completamente nosso  modo de encará-la.

Acordo todas as manhãs invadida por uma imensa sensação de gratidão pela minha vida e pela vida das pessoas que amo e tenho absoluta certeza que isso tem uma relação muito forte com a consciência do quanto minha vida é frágil.

Somos seres raros e a vida é muito, mas muito curta.

Meire

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