[Resenha] Laranja Mecânica (1962)

Por @meire_md

“Usar o Ludwig Van desse jeito. Ele não fez mal nenhum a ninguém. Beethoven só escrevia música.  E foi aí que eu passei realmente mal e tiveram que me trazer uma tigela em forma de rim.” (fala do Alex, reabilitando de número 6655321 do Instituto Estatal para recuperação de tipos criminais)

O escritor inglês John Anthony Burgess Wilson (1917 – 1993) foi compositor e criou diversas peças para orquestras. Ele só começou a escrever livros em meados da década de 50, quando já estava com 39 anos de idade e publicou Time for a Tiger (1956).

Em 1960 Burgess sofreu um desmaio, recebeu o diagnóstico de  tumor cerebral e foi estimado que ele viveria por um ano ou menos. Enquanto muitos deixariam se tomar pelo desespero, ele arregaçou as mangas e viajou para o interior da Inglaterra com o plano de escrever dez livros para deixar sua futura viúva protegida financeiramente.

O quinto livro desta safra heroica é uma das minhas distopias favoritas. “Laranja Mecânica” estava sendo finalizado quando ele supostamente deveria estar morrendo. Mas ele não morreu: o diagnóstico não passou de um equívoco médico.

Uma vez constatado o erro médico mais bem vindo da história da ficção científica, a revisão de Laranja Mecânica foi interrompida porque Burgess precisava cuidar de outros trabalhos.

Durante uma viagem até Leningrado as últimas inspirações que faltavam para fechar o livro fluíram e em 1962 a história foi publicada.

Quando o livro foi escrito, Londres estava assolada pela violência perpetrada por gangues de adolescentes. Burgess criou um cenário futurista envolvendo as gangues e teve a brilhante ideia de apresentar gírias que não ficassem datadas, já que o vocabulário dos adolescentes se transforma tão rápido que chega a mudar dentro de uma mesma geração.

O genial vocabulário Nadsat* nasceu a partir de uma mistura de inglês vitoriano, russo e linguajar cigano. A edição da Aleph traz um glossário criado à revelia de Anthony Burgess, cabendo ao leitor a decisão de consultá-lo ou não. Preferi manter o estranhamento linguístico desejado pelo autor e foi bem interessante presumir os significados, tanto que nem esquentei ou toltchokei muito a gúliver pra krastar os slovos.

Laranja Mecânica tem como mote a evolução, consequências e ‘tratamento’ da psicopatia adolescente e ocorre em um futuro talvez não tão distante.

*Interessante citar que Burgess também criou as línguas faladas no filme A Guerra do Fogo (1981).

E o título “Laranja Mecânica”, de onde veio?

http://www.amazon.com.br

Burgess retirou o título da expressão “as queer as a clockwork orange” , um ditado que era popular entre os moradores do lado norte do Tâmisa (o ‘East End’ londrino) e que significa algo como ‘tão estranho (ou bizarro) quanto uma laranja mecânica’.

Na história, Laranja Mecânica é o título do livro que  vinha sendo escrito por uma das vítimas do protagonista Alex. Já detido e sob tratamento medicamentoso, Alex se recorda do texto que leu enquanto destruía os datiloscritos e diz: ‘- Será que eu serei apenas uma laranja mecânica?‘.

O papel crucial da música

A música é colocada na história como um dos únicos pontos onde a humanidade de Alex se destaca.

Ópera Das Bettzeug, de Friedrich Gitterfenster, Concerto para Violino do American Geoffrey Plautus por Odysseus Choerilos com a Filarmônica de Macon (Georgia), cantores pop como John Burnaway, Luke Sterne, Googly Gogol, Ike Yard e outros são exemplos de artistas e obras inventadas por Burgess para representar a música ouvida na época.

A Banda Heaven 17 foi batizada em homenagem a uma das bandas fictícias apreciadas pelos adolescentes do futuro e desprezadas por Alex, um amante de música clássica.

Interessante saber que “Singing in the rain” não aparece no livro. A  canção foi inserida no filme Laranja Mecânica por ser a música que veio à mente de Malcolm McDowell  quando o diretor Kubrick (1928 – 1999) pediu que ele cantasse qualquer coisa durante uma cena de ultraviolência.

📔 Box: Clássicos da Distopia

A partir daqui temos muitos spoilers

Alex é um garoto infrator de 15 anos de idade com histórico de passagem por Escola Correcional aos 11 anos. Filho de pais zelosos de classe média e detentor de uma vida confortável e acesso a educação, é amante de música clássica e proprietário de uma boa coleção de discos.

Guardadas as devidas proporções, a sociedade distópica de Laranja Mecânica lembra muito o Brasil de hoje. Há um número incontrolável de gangues, policiamento insuficiente, presídios superlotados e violência generalizada, com e$tupros, abu$o infantil, vandalismo e agressões físicas imotivadas.

A história é toda narrada pelo próprio Alex, que na primeira metade da obra cita suas experiências quando estava com 15 anos e fazia parte de uma gangue com três outros garotos quase nada mais velhos. Ele não demonstra qualquer tipo de empatia ou culpa e mesmo quando parece expressar simpatia por alguém, mostra segundas intenções e apresenta um comportamento dissimulado típico de pessoas com transtorno de personalidade antissocial. Ele não demonstra afeto pelos pais ou respeito por autoridade nem se esquiva de violentar crianças e idosos.

A única centelha de humanidade de Alex é a elevação espiritual promovida pela música clássica, mas nem mesmo ela o redime.

Laranja Mecânica” é uma experiência estranha e dolorosa. Certa parte lembra a intensidade de ‘Ensaio sobre a Cegueira’, de Saramago.

No final da primeira parte da narrativa ele comete um crime gravíssimo e é capturado pela Polícia. Após julgamento é condenado a 14 anos de prisão e transferido para o Instituto Estatal para Recuperação de Tipos Criminais, uma espécie de Hospital de Custódia.

Como ocorre com muitos indivíduos antissociais, Alex se volta para a religião buscando dissimular recuperação e atrair simpatia para si.  Esta estratégia é usada até hoje pelos psicopatas, e as pessoas continuam acreditando neles.

Após uma importante intercorrência dentro da prisão, o garoto é tido como de difícil controle e selecionado para um tratamento de duas semanas que envolve condicionamento pavloviano e utilização de uma droga experimental que produz sensações somáticas desagradáveis quando a pessoa é exposta a qualquer ato relacionado a violência, mesmo que seja apenas uma ideação.

O método, chamado de Técnica Ludovico, modifica a estrutura e/ou química cerebral e é supostamente irreversível. Burgess criou personagens com posicionamentos diversos sobre o tratamento, gerando uma discussão bioética interessante sobre os limites da punição imposta pelo Estado.

Alex é devolvido às ruas aos 17 anos de idade, porém não encontra a mesma disposição dos pais em acolhê-lo e se vê na posição de vítima, sendo incapaz de se defender das consequências da violência que ele mesmo imputou às pessoas com quem eventualmente volta a se relacionar.

Em um momento que podemos chamar de cármico e enquanto utilizado como arma política, Alex sofre um traumatismo crânio-encefálico e ao acordar percebe que o efeito Ludovico foi revertido. E obviamente ele forma uma nova gangue.

O que se passa daí em diante é a volta do Alex antissocial e sua escalada rumo à vida adulta. É possível que Burgess tenha escolhido passar alguma mensagem aí.

Para mim o futuro do Alex é o mesmo de qualquer garoto antissocial: ausência de empatia levando a tipos criminais diferentes ao longo da vida ou na melhor das hipóteses, alguma coisa entre um ‘simples’ parasitismo familiar até uma busca por profissão ou posição social que facilite explorar pessoas, como as buscadas por alguns líderes religiosos, médicos, advogados e políticos.

Afora a retirada química ou cirúrgica da capacidade de livre-arbítrio (quem leu “Um Estranho do Ninho?”), uma condição que pode modular para melhor o comportamento antissocial parece ser a velhice. Alguns criminosos simplesmente se cansam.

O filme de Kubrick mostra um final diferente e menos idealizado do que poderia ser esperado pela interpretação mais rosa do final do livro.

Músicas citadas no livro

Fiz uma playlist no Spotify com as músicas citadas por Burgess em Laranja Mecânica. Caso você queira ouvi-la, clique aqui.

Se você encontrou alguma música que não listei, deixe uma mensagem pra mim, tá?

Espero que você goste deste post.

Um abraço!

Meire

Referências:

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2 comentários em “[Resenha] Laranja Mecânica (1962)”

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