Mais sobre o meu TDAH (e o seu)

Por @meire_md

“Eu nasci assim, eu cresci assim,  /E sou mesmo assim, vou ser sempre assim: /Gabriela, sempre Gabriela! /Quem me batizou, quem me nomeou, /Pouco me importou, é assim que eu sou/ Gabriela, sempre Gabriela!” (Modinha para Gabriela, de Dorival Caymmi)

As pessoas com TDAH brincam com as dificuldades e todo mundo faz piada, mas temos que admitir: é cansativo. 

O TDAH (Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade) é um transtorno do neurodesenvolvimento, ou seja, nós já nascemos com ele ou por algum motivo ele começa a surgir nos primeiros anos de vida. O transtorno tem critérios diagnósticos bem específicos e está codificado no grupamento 6A03 da nova Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, a CID 11.

O diagnóstico é fechado quando os sintomas e sinais não se enquadram em outros transtornos, começam antes dos 12 anos, mostram evidências claras de que estão presentes em pelo menos dois núcleos da vida (casa, familiares, amigos, escola, trabalho) e interferem negativamente no funcionamento social, acadêmico ou profissional.

Se não há prejuízos significativos, não há transtorno. Esquecer frequentemente onde está o celular não é ter TDAH. Ser irresponsável, pouco empático e não se importar em cumprir obrigações e compromissos não é ter TDAH.

Há três subtipos clássicos e cinco codificações:

  • Predominantemente desatento (CID 11 6A05.0)
  • Predominantemente hiperativo/impulsivo (CID 11 6A05.1)
  • Apresentação combinada (CID 11 6A05.2)
  • TDAH com outra apresentação (CID 11 6A05.Y)
  • TDAH com apresentação não especificada (CID 11 6A05.Z)

Só um profissional de saúde bem treinado pode fechar o diagnóstico. A gravidade depende da persistência dos sintomas e da intensidade dos prejuízos sociais, acadêmicos ou profissionais.

Algumas pessoas necessitam de tratamento medicamentoso e terapia cognitivo-comportamental, outras evoluem bem apenas com terapia e muitas atingem um bom grau de adaptação depois que recebem o diagnóstico e começam a adquirir conhecimentos sobre o transtorno e fazer mudanças no estilo de vida.

A gente é o que é, mas há meios de mudar nossa qualidade de vida

Ser perseguido pela sensação de que não vai conseguir terminar quase nada do que começa, viver perdendo as coisas ou ser taxado de irresponsável e desligado são alguns dos elementos que começam a se repetir na nossa vida quando ainda somos muito jovens. As frustrações acumuladas podem atingir várias áreas da vida e se arrastar por anos.

Você veste a camisa da incompetência, passa a acreditar que não é capaz, vê seus relacionamentos se deteriorando e pode perder grandes oportunidades de trabalho.

É preciso entender — e não importa que seja através da ajuda farmacológica, da terapia cognitivo-comportamental, da leitura de livros, de insights que você alcançou sozinho ou da junção de duas ou mais coisas — que a melhora da nossa qualidade de vida depende muito do nosso esforço.

A deficiência continua existindo, mas o esforço gera transformações.

A pessoa com TDAH é menos inteligente?

Não. Nós  somos tão inteligentes quanto a população sem déficit de atenção.

Ocorre que as nossas habilidades são pisoteadas enquanto sustentamos a bola de neve que se forma no nosso entorno. É por isso que o caos externo, seja dentro de casa, na escola ou no trabalho, precisa ser domado.

Você pode falhar miseravelmente por muito tempo, mas em algum momento consegue avanços e pode até superar as pessoas ditas normais.

É nessa hora que você começa a concluir o que ficou pela metade, consegue ser aprovado ou escolhido em alguma seleção disputada, abre sua empresa ou simplesmente começa a funcionar melhor e se torna alguém mais realizado e feliz, mesmo que não atinja todas as suas metas.

 Há coisas que possivelmente nunca seremos capazes de fazer;  isso vai de cada um e tudo bem.  As pessoas com TDAH não são iguais. Eu nunca tentaria ser arquiteta, motorista de Uber ou jogadora de futebol, por exemplo. Sou um desastre em um monte de coisas. Mas sou muito boa em outras. Você também.

Antes de desenvolver o tal autodomínio que me permite planejar e cumprir tarefas do modo mais eficiente que consigo (continuo falhando sim), eu costumava me sentir perdida dentro da minha própria casa. E isso é muito triste. 

Eu tinha a sensação que a casa não era minha. Parecia existir uma entidade desconhecida dando ordens nas coisas; até hoje chamo esta entidade de gnomo, porque ela não foi embora, só perdeu poder.

Costumava comprar inúmeros itens iguais — diversos carregadores para o celular, dezenas de canetas, incontáveis miudezas —  só para reduzir o tempo perdido procurando coisas. Eram kits e kits.  

Ter mais e mais coisas só piora a situação, você começa a não achar outras coisas que achava antes. Quando se dá conta percebe que a estratégia não deu certo e que criou mais um problema, fica ansioso e menos produtivo.

Se você tem dinheiro, começa a contratar pessoas e vai ficando menos dono de si mesmo. E, paradoxalmente, arruma mais obrigações ainda. São muitos nós para desatar.

Quando consegui me organizar satisfatoriamente?

Muitos estudantes com TDAH  desenvolvem métodos de estudo de maneira intuitiva e alguns chegam a ter alto rendimento.

Diversas técnicas que “inventamos” quando crianças e adolescentes têm sido reconhecidas pela ciência cognitiva, como: estudar lendo em voz alta, revisar pontos importantes após alguns dias, fazer resumos, dar aula para si mesmo, conversar sozinho, fazer conexões para ativar a memória, usar fichas e muito mais.

Bem antes de receber o diagnóstico (obrigada, Dra. Graça) eu já sabia que precisava me esforçar mais que os outros. Enquanto a maior parte das crianças e adolescentes acumulava assuntos não estudados, brincava bastante ou saia para festas, eu estudava todos os dias e costumava ler assuntos que ainda seriam dados e mergulhar em livros não didáticos. 

Nunca fui uma aluna capaz de chegar na sala sem caderno ou de conseguir uma boa nota procrastinado e deixando para estudar tudo em cima da hora. E eu via meus colegas conseguindo boas notas com muito menos esforço. Poderia ter me revoltado e desistido, mas persisti.  Fui uma aluna esforçada e sistemática porque tinha consciência das minhas limitações.

Vivi boa parte da juventude com a impressão de que estava com boletos vencidos, de que ia esquecer algo importante e o pior, lidando com a vergonha de interromper as pessoas, de responder algo antes que a pergunta tivesse sido completamente formulada, de não saber quem estava falando comigo tão animadamente porque eu não a reconhecia, de esquecer compromissos, datas de aniversários.

Foi um período bem chatinho que só começou a melhorar quando eu já havia passado dos 30 anos, mas a capacidade de organização extra-escola/faculdade só começou a amadurecer mesmo aos 40.

Você tem que tentar organizar cada área da vida até conseguir encontrar um método que funcione para você. Toda tentativa vai deixar uma experiência.  

O ponto de partida …

Tive o diagnóstico de TDAH aos 18 ou 19 anos, não lembro bem. Ser estudante de Medicina e aluna da médica que fechou o diagnóstico foi muito bom. Tudo começou a fazer sentido para mim.

A Dra Graça percebeu que eu ficava com o olhar vago na sala. A princípio ela achou que fosse uma crise convulsiva tipo ausência, mas observou que eu mudava as expressões faciais e a posição da cabeça e dos membros, bem como parava para fazer anotações. Ela percebeu que eu permanecia consciente, porém distante.

Expliquei que minha mente criava um outro ambiente para que eu pudesse ficar conversando comigo mesma enquanto ouvia o que estava sendo dito em sala de aula, pois do contrário eu iria ficar pensando em outras coisas. Eu colocava a professora dentro da minha cabeça e ficava conversando com ela. Você fica mentalmente exausto tentando evitar que a mente saia do seu corpo e vá passear.

… e as viradas de chave

 Comecei a trabalhar quando ainda estava na residência médica, então a sobrecarga foi grande.  A primeira virada de chave aconteceu quando esqueci um plantão.

Eu estava em casa de pijama, comendo pipoca e vendo um filme enquanto o colega, tão cansado e sobrecarregado quanto eu (ou até mais), estava desesperado procurando o número do meu pager. Não existia celular. 

Quem tem TDAH e pouca empatia não vai entender, mas quem se importa sabe que precisa tomar providências e assumir seus erros. Fiquei profundamente envergonhada e decepcionada. Inadmissível, eu deveria ter criado um meio de prevenir aquilo. Sai de casa voando e cheguei ao hospital com o rosto todo inchado de tanto chorar. As frustrações de duas décadas escorreram ali. 

Venho de família pobre. Se você tem origens como as minhas, sabe que não é favorecido pelo sobrenome da sua família, não recebe favores ou mimos nem é prioridade para ninguém. Se você não construir o seu nome e se transformar em uma pessoa realmente útil, é difícil se posicionar no mercado.

O que esquecer plantões faria com o nome de uma médica recém-formada vinda de uma família que ficou ainda mais pobre porque o pai havia acabado de falecer? O baque foi imenso. Foi uma sensação de morrer na praia. Eu sei o que passei para conseguir me formar em medicina e sabia que ainda tinha muitos anos a percorrer até conseguir um pouco de paz.

Se você não nasceu em berço de ouro, só cresce profissionalmente se for mais esforçado que a média e se conseguir desenvolver competências diferenciadas. Quando você tem TDAH o esforço precisa ser maior ainda. Eu gostaria de repetir isso muitas vezes até você entender.

Eu já fazia um planejamento financeiro rudimentar, mas as coisas não funcionavam como eu esperava e por assumir mais compromissos, comecei a depender de contador, secretária e empregada doméstica.

Não conseguia cuidar da casa; as coisas brotavam do nada, surgiam problemas que eu não sabia de onde vinham, vivia sempre perdida e contratando pessoas para resolver coisas que hoje parecem banais.

Intensifiquei as anotações, condicionei-me a consultá-las pelo menos três vezes por dia (agreguei a obrigação com as refeições, café, almoço e jantar), comecei a gerenciar as contas do consultório e descobri que alguns planos de saúde não me pagavam.

Eu estava trabalhando de graça e ninguém havia me avisado. Esta foi a segunda virada de chave: eu precisava podar compromissos, reduzir custos e, principalmente, depender menos de terceiros. 

Não depender de outras pessoas para me gerenciar passou a ser uma das minhas principais metas de crescimento pessoal.

Fui adquirindo novas habilidades, aprendi a fazer meu imposto de renda, consegui me descredenciar de planos de saúde e fui implementando outras mudanças, sempre no sentido de tornar a vida mais simples.

Ingressei em uma nova especialização, deixei os plantões, decidi seguir carreira pública, fechei o consultório, optei pela vida frugal e fui morar em um flat, de onde só sai quando casei com o Igor.

As coisas continuaram mudando aos poucos, porém a nossa casa  — até hoje não sei explicar como isso aconteceu —foi ficando superlotada de coisas e eu não conseguia organizá-la satisfatoriamente. Viver sem empregados? Nem em sonho.

Em algum momento o minimalismo foi entrando sorrateiramente na minha vida (não julgue o meu que não julgo o seu). Era o que faltava para me deixar mais leve e mais feliz.

Há 7 ou 8 anos fizemos um grande destralhe em casa. Esta foi a terceira virada de chave porque não atingiu só coisas, atingiu pessoas, comportamentos e crenças; listei coisas que gostaria de mudar, como aprender a dizer não, por exemplo. 

Foram muitas caixas doadas para um abrigo de idosos, uma biblioteca pública, uma escola, um museu e para pessoas conhecidas, além de itens que foram trocados por outros. 

A cada faxina geral recolhemos itens para doar, mesmo que sejam copos de geleia e embalagens de sorvete que nem estão ocupando um espaço que faça falta. Não tem jeito, mesmo com toda racionalidade nas compras, sempre há algo a destralhar, como livros já lidos, roupas e outros objetos que não desejamos mais. 

Quanto mais simplifico as coisas, mais a minha memória melhora. Recomendo.

O TDAH foi embora?

Não. Mas as adaptações tecnológicas melhoram o meu funcionamento.

Tenho uma péssima memória para eventos negativos, para rostos, para nomes, para números, não me localizo nos espaços.

O avô da minha melhor amiga morreu. Fiquei com ela, fui pro velório, chorei junto. E alguma semanas depois, perguntei: Xalxixa, como está o seu avô? E a gente riu, fazer o quê?

Por saber que sou assim, tento nunca perguntar por maridos, esposas ou filhos dos outros. Prevenção é tudo, mas às vezes cometo gafes.

Frequentemente troco palavras. Dar aulas é um tormento para mim. Aí onde entra o esforço, introduzido na minha vida pela Meire Criança. Repito o mesmo conteúdo dezenas de vezes, mesmo que isso tome meus horários de descanso e diversão. É o preço a pagar.

Não dirijo mais porque eu me perdia frequentemente e me acidentei algumas vezes. Não sou capaz de chegar à casa onde morei na adolescência e quando alguém precisa deixar uma encomenda na minha casa, passo o telefone para o Igor porque não sei ensinar o caminho. 

Quando estou fora dos ambientes que conheço, mesmo que seja um simples prédio, fico perdida e sem saber como sair ou como me localizar. Só levo na esportiva. Peço ajuda a alguém e pronto.

Tenho muitas outras deficiências e uma personalidade ansiosa. Consigo achar engraçado porque recuperei minha autoestima e sei que sou muito boa em outras coisas.

O funcionamento da pessoa com TDAH é diferente. Eu me meço pela minha régua, não pela dos outros. Não preciso fazer tudo como as outras pessoas fazem. Posso ser diferente em qualquer coisa que melhore a minha vida.

Você também.

De que lado está vindo a sua bola de neve? Onde você precisa agir primeiro?

Um beijo,

Meire

Para saber mais:

📔 Mentes Inquietas:  TDAH: desatenção, hiperatividade e impulsividade 

📔 Vencendo o TDAH adulto

📔 Fixe o conhecimento: A Ciência da Aprendizagem Bem-Sucedida

 

 

 

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5 comentários em “Mais sobre o meu TDAH (e o seu)”

  1. Chorando lendo seu relato Meire. Como é bonito ver tantos percalços transformados em transformações e adaptações para a sua melhor qualidade de vida. Não tenho o TDHA, mas tenho inúmeras outras deficiências. E o sentimento de impotência e não adaptação creio ser comum para as deficiências em geral. Obrigada por compartilhar. Me identifiquei muito e me fez refletir muito… sobre tudo e tantas coisas🥰😊

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  2. Maravilhosa como sempre ! Meu filho foi diagnosticado com autismo suporte 1 no ano passado, aos 24 anos, e há pouco com TDAH. Não é fácil! Está no último semestre do curso de arquitetura numa universidade pública, trancado, porque chegou à exaustão. E eu não sei o que fazer pra ajudá-lo…. 😔😔

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  3. Meire…
    Maravilhoso você compartilhar isso… Sei bem do que você está falando. Passei por isso a vida toda sempre camuflando os sintomas para ninguém perceber e sei o quanto é difícil.
    Sempre me achei burra por esquecer tudo mesmo tendo as melhores notas da sala.
    Só agora com 42 anos pesquisando sozinha que desconfiei que poderia ser TDAH.
    Agora estou considerando o uso de medicamentos ou não.
    Me sinto muito acolhida em saber que não estou sozinha. Obrigada por falar sobre isso.

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    1. Tudo começa a fazer sentido e a gente fica aliviado quando recebe o diagnóstico. Eu senti um alívio imenso ao entender porque eu era diferente, porque tinha uns comportamentos obsessivos e lia os enunciados das provas pelo menos três vezes.

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