Anna Kariênina

Por @meire_md


“Recebi ontem uma caixa de livros de Gautier. Não, eu não vou me entediar”

Oi gente,
 
O escritor russo Liev Tolstói (1828 – 1910) escreveu Anna Kariênina, um dos maiores romances da literatura mundial,  entre 1873 e 1877.

Sorte a nossa que ele tenha escrito o livro nesse período porque, pouco tempo depois, ele se converteu a uma espécie de anarquismo cristão, passou a defender uma castidade que ele mesmo não mantinha, radicalizou-se nos questionamentos morais e repudiou boa parte de sua obra.

Há quem defenda, e por tudo que já li concordo, que por volta dos 50 anos de idade ele sofreu o surto maníaco mais longo de sua vida.

Anna Kariênina

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Trata-se de um grande romance que se passa durante um período de cerca de dois anos envolvendo três cenários da Rússia Czarista:

  • Moscou;
  • São Petesburgo;
  • e a vida no campo.

A ebulição sócio-cultural das duas capitais russas (como eram consideradas à época),  a transição da relação entre os senhores de terras e os mujiques (antes da Revolução Russa) e o papel das mulheres das classes privilegiadas foram levantados por Tolstói através de seus personagens.

Estes  foram submersos em discussões filosóficas, políticas e religiosas que ocorriam em repartições públicas, reuniões sociais, teatros, corridas de cavalos e jantares familiares.

Como em todo romance, a história conta com vários núcleos e incontáveis personagens que entram e saem do enredo, mas que de alguma forma orbitam em torno dos protagonistas ou são influenciadas por eles.

Da mesma forma que ocorre com os brasileiros, os russos têm apelidos que para nós parecem bem diferentes de seus nomes (para quem não fala português Francisco e Chiquinho não parecem o mesmo nome, não é?), o que pode ser um pouco confuso se você não ativar sua atenção.

Com um número grande de personagens, cada um deles com até dois apelidos às vezes usados na mesma frase pode haver alguma bagunça (quem gosta de Dostoiévski sofre o mesmo), mas felizmente algumas edições apresentam tanto uma linha genealógica como uma lista com todos os personagens, o que acho que deveria ser um tipo de regra em romances gigantescos.

Tolstói dá nome e perfis também a basicamente toda a criadagem e são muito raros os personagens que não contam com uma construção psicológica e física suficientes para que sejam amados ou odiados.


“Aleksiei Aleksándrovitch manifestou a ideia de que a educação das mulheres geralmente se confunde com a questão da emancipação das mulheres e só por isso pode ser considerada nociva”


Montar um resumo da história faz o livro parecer tolo, pois o conteúdo mais interessante dele ou é abstrato ou é aquele que surge da conversa silenciosa de alguns personagens com eles próprios.

O que se passa pela cabeça de Dolly, Kitty, Liévin, Anna, Kariênin e Vrónski é de um realismo e consistência impressionantes.

Aliadas ao conteúdo do pensamento dos personagens, as discussões temáticas que ocorrem entre eles são mais interessantes do que o fio condutor da história em si.

Quem é Anna Kariênina?


Anna Kariênina é a jovem esposa de um funcionário público influente, cerca de 10 anos mais velho e com quem tem um filho em idade escolar.

O menino recebe pouco afeto do pai e é praticamente criado por preceptores. O amor de Anna pelo filho é tão superficial e teatral quanto pode ser o amor de uma mãe limítrofe ou histriônica, enquanto o seu amor pela filha bastarda é praticamente nenhum.

Teria Anna tido depressão pós-parto? Possivelmente sim.

Em uma das passagens Anna demonstra não saber sequer com quantos dentinhos a nenê já estava e mesmo contando com todo tempo do mundo para cuidar dela, entrega criança a uma ama de leite e a uma babá.

Com uma personalidade transtornada, porém lapidada por uma educação primorosa e adornada pelo desejo de aceitação familiar e social, Anna é aquele tipo de mulher eternamente insatisfeita.

Impulsiva, destinada à infelicidade tanto quanto são as pessoas muito ciumentas, que findam se entregando a uma paranoia insuportável para si e para os outros porque sofrem, fazem os outros sofrerem e vampirizam justamente quem mais as amam.

Alguém aí lembrou de Madame Bovary? Sim, este tipo de personalidade é um dos clássicos da psiquiatria.
 

“A maioria das jovens, invejosas de Anna, que já havia muito tempo se aborreciam dela ser chamada de virtuosa, alegravam-se de ver cumpridas sua conjecturas e só esperavam a guinada da opinião pública para investir contra ela com toda a carga do seu desprezo”
 

O mais belo na construção de Anna é que Tolstói o fez sem a brutalidade com a qual ela é vista pela sociedade conservadora nas fases em que age de modo contrário ao esperado para uma senhora da época.

O intenso sofrimento psíquico é esmiuçado por Tolstói de uma forma tão perfeita e sem contradições que é difícil acreditar que ele não se inspirou em uma pessoa real. Do começo ao fim e considerando a estrutura da personalidade de Anna, todos os seus atos fazem sentido.


“A questão é apenas encontrar a melhor maneira possível de suportar a situação”

Kariênin e Vrónski


Kariênin, o marido, é uma figura sóbria, perfeccionista, pragmática, preocupada com sua reputação e fortemente contida.

Ele não foi construído por Tolstói para ser motivo de pena ou para ser transformado em mártir ou bastião da moralidade, mas protagoniza momentos dolorosos para o leitor.

Racional em alguns momentos, intransigente em outros e por vezes agindo apenas de modo a proteger sua própria reputação, ainda assim é mostrado como uma pessoa de espírito elevado.

Vrónski, um belo e atlético oficial por quem Anna deixa até o próprio filho, é também um senhor de terras vindo de família abastada e que embora tenha até tentado suicídio diante do medo de perdê-la e esteja sempre pronto a satisfazer todas as vontades, vive sob o fio da navalha como refém da montanha russa emocional que é Anna.

Nada do que ele faz é suficiente para torná-la feliz; ela testa seus limites e o pune até as últimas consequências.

Outros familiares


Dolly é uma flor. Cunhada de Anna, vive um casamento morno com Stiva, com quem tem cinco filhinhos. Ela representa a maior massa de mulheres da época: a procriadora rainha do Lar de quem se espera pureza e perfeição na administração da casa e educação dos filhos.

Kitty, irmã de Dolly, é uma adolescente romântica em ‘idade de casar’ e que protagoniza os mais belos momentos da trama graças ao seu envolvimento com Liévin, o personagem mais interessante do livro (em minha opinião).

O relacionamento de Kitty e Liévin mostra muito da vida de primeiros anos de casados do próprio Tolstói e de sua esposa — desde a forma com a qual ele a pede em namoro até o fato de ter entregue à ela seu diário onde confessa não ter sido uma pessoa casta no passado.

O irmão preferido de Liévin tem também o mesmo nome do favorito de Tolstói. É quase impossível não pensar que Liévin é um alter ego de Tolstói ou alguém que ele próprio gostaria de ser.

Alguns pontos mais impressionantes do livro são os sentimentos de Liévin durante a doença do irmão, durante as 22 horas de trabalho de parto de Kitty e a sua reação perante o filho recém nascido, que de fato é algo comum a muitos pais, mas ninguém fala sobre isso.

A linha do tempo


A história tem uma linha do tempo mais ou menos única, porém alternando informações entre um núcleo e outro.

Você tem a sensação de estar assistindo a uma série, onde tudo sobre todos vai se desenrolando episódio a episódio.

Em minha opinião, Tolstói ficou nos devendo as considerações finais sobre Kariênin, pois ao contrário de Anna, Kariênin decididamente não é uma pessoa previsível.

Já o meu personagem favorito, Liévin, fecha a história sendo desnudado por Tolstói. Todo o conflito existencial da personagem que culmina num salto do materialismo ao cristianismo, se consolidaria na vida do próprio Tolstói cerca de um ano depois da publicação do livro.

Recomendo a leitura.

Esse é um dos livros que quero reler antes de morrer.

Uma consideração sobre “Anna Kariênina”

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