Verdadeiras Histórias de Sangue, de Cesar Bravo (VHS)

Por @meire_md

As nossas verdadeiras histórias de sangue começam antes de nos alimentarmos dele pelo cordão umbilical.

Podem ser pequeninas ou imensas, mas sempre existem.

Eu poderia contar para você que quando eu tinha uns dois anos de idade fui entregue ao meu pai com sangue jorrando pela boca.

Ou que nas férias de um ano qualquer eu estava esparramada no sofá assistindo à “Porta da Esperança“, senti um solavanco pélvico e fugi da sala desajeitadamente enquanto um sangue inesperado deslizava entre as minhas pernas.

Ou que desmaiei no primeiro plantão como estudante de medicina ao ver uma pessoa com a face esmagada. Ou eu poderia, também, recontar uma história de horror do Cesar Bravo, assim:

Paciente do sexo masculino, 32 anos, lavador de janelas, nascido em Cordeiros e procedente da cidade de Três Rios, solteiro e sem filhos, reporta que em meados de junho foi acometido por prurido no terço distal do membro inferior direito, inicialmente leve, e que rapidamente evoluiu com intenso desconforto.

Por julgar tratar-se de condição passageira, o paciente tentou alívio com medidas caseiras, aplicando babosa, álcool, gasolina e querosene, sem obter melhora. Relata que o prurido assemelhava-se a “vermes por dentro da carne” e que por usar certos objetos durante a coçadura — tais como toalhas e lixas — passou a apresentar lacerações cutâneas que exigiram tratamento com “pomadas” de nomes dos quais não se recorda.

Cursou com transtorno de sono, sonhos catastróficos e prejuízo em relação afetiva não estável; ao fim da primeira semana de foi demitido e, a despeito de declarar-se portador de doença que requer tratamento médico, não foi reintegrado pelo empregador.

Declara que procurou assistência à saúde com diversos especialistas, incluindo imunologistas e profissionais ligados às práticas alternativas. Não sabe informar que hipóteses foram formuladas e não apresenta fotocópia dos prontuários médicos correspondentes ao período, que se estendeu até agosto.

Houve agravamento da insônia, passou a apresentar pensamentos com conteúdo persecutório e, crê quem em razão disto e das lesões de pele, houve ruptura do relacionamento com a companheira. Foi encaminhado à psiquiatria e fez uso de múltiplos esquemas psicotrópicos.

Ao adentrar o quarto mês de evolução, o prurido incoercível atingiu estágio crônico e houve sedação abrupta com desenvolvimento de distrofia simpático-reflexa. Descreve que a dor complexa regional era “alucinante, como sentir os ossos congelando”.

Realizou consultas com todos os profissionais de saúde de Três Rios e, em busca de novas opiniões, fez petições para instâncias superiores e houve indicação de uso de Morfina (…), mas as histórias extraordinárias saídas das mentes dos escritores que se dedicam ao horror são muito mais legais.

Esqueça meu relatório médico, comece tudo de novo lendo a história original e descubra como ela acabou.

Acerca do gostar de literatura de horror

Dia desses eu estava pensando por qual motivo muitas pessoas consideradas fofinhas e sem quaisquer traços antissociais gostam de literatura e/ou cinema de horror.

Por que eu, Meire, gosto de literatura de horror?

Um dos meus hobbies é estudar psicopatias, destrinchar crimes reais e consumir literatura de horror e fantasia. Minhas sobrinhas —lindas, inteligentes e meigas — compartilham gostos similares. Meu marido conhece praticamente todos os filmes de terror já lançados e Contos Assustadores da Masha é o desenho favorito da filhinha de um casal de amigos.

De onde veio esse apego pelo “susto”, que faz com que crianças, adolescentes e adultos gostem de “histórias de medo”?

Não acredito que existam pessoas imunes ao horror, seja ele real ou imaginário. O horror incita, provoca. Ele tira você de um lugar e coloca em um outro. A mágica está aí e no quão satisfatório é este deslocamento.

Defendo que exista, no mínimo, dois tipos de consumidores de horror: os que empatizam com o sofrimento das pessoas inocentes* e os que empatizam com os perpetradores de crimes violentos.

E empatia é conexão. E conexão é algo humano, demasiado humano.

A nossa mente consegue isolar a dor quando ela é substituída por outro estímulo. Isso ocorre, por exemplo, com uma massagem que finda produzindo efeito analgésico. A sensação dolorosa é substituída pela tátil, que é bem mais agradável.

Se você foca sua mente em um medo ou uma dor maiores que os seus, o que acontece? Você passa a minimizar os seus? Você dá à sua mente uma sensação de que na verdade você não está tão vulnerável assim? Penso que, no meu caso, é mais ou menos isso e se não for, que não seja.

E o que passa pela cabeça dos que endeusam os criminosos?

Não sei.

A glamourização do crime é observada tanto em casos sem uma verdadeira história de sangue, como o episódio Anna Sorokin X Rachel Williams que mostrei para vocês no Instagram (na microrresenha do livro Inventando Anna), como em casos de matadores em massa ou de serial killers que contam com um exército de fãs apaixonados.

No tão chato quanto interessante “Insania Furens, Guido Palomba coloca que quanto mais grave o crime, mais admiradores tem o criminoso. Ele cita que o Bandido da Luz Vermelha, o Monstro do Trianon e o Maníaco do Parque são os campeões em número de cartas de apoios e de pedidos de casamento.

Cesar Bravo: Verdadeiras Histórias de Sangue (VHS)

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Cesar Bravo (1977 – ) é um talentoso escritor brasileiro dedicado ao horror e ao suspense que conheci quando tive a sorte de cair na bolha dos escritores Roberto Denser, autor de Colapso, e Verena Cavalcanti, autora de Inventário de Predadores Domésticos.

Em 2013, pouco tempo depois de começar a escrever profissionalmente, Cesar Bravo foi agraciado com o Prêmio FNAC Novos Talentos da Literatura e em 2016 publicou Ultra Carnem, hoje considerada sua obra-prima.

VHS é o segundo livro que ele publica pela Dark Side.

As partes externa e interna da capa e as folhas de guarda fazem alusão às antigas fitas VHS e a edição toda é, bom, é bem Dark Side mesmo.

As ilustrações (de Micah Ulrich) e detalhes que podem passar despercebidos por leitores que não curtem aproveitar os presentes que intercalam os textos, tornam a experiência de leitura ainda mais interessante. Há quanto tempo eu não ouvia Sting? Ou Faith no More? E The Housemartins, que eu nem lembrava mais que existia? Pois é. Consuma direito os livros da Dark Side, jovem Padawan.

A “reprodução” de reportagens de jornais da região e de uma moção de pesar dispostas nas primeiras páginas, bem como os anúncios que aparecem ao longo do livro —sobretudo os Classificados que figuram nas folhas 164 a 168 — são bastante importantes para complementar algumas histórias e para localizar o leitor no espaço, ou seja, para que ele descubra exatamente em qual cidade aquele fato está acontecendo.

As histórias ocorrem em uma microrregião fictícia localizada no noroeste de São Paulo e chamada “Região Bravo”, que é formada pelo município de Três Rios (cidade maior, atravessada pelos rios da Onça, Verde e Choroso) e oito municípios que o cercam.

Vi resenhas comentando que todas histórias se passam em Três Rios, mas só para exemplificar sem ir muito longe, a segunda se passa em Cordeiros, a terceira se passa em Assunção e a quarta, que faz menção a um mito que basicamente já assombrou todo cidadão brasileiro, acontece em Velha Granada.

Há uma ou outra que não consegui localizar no espaço exato, mas ainda acho que numa releitura atenta podemos encontrar alguma referência.

O escritor localiza o leitor no tempo com referências que vão do fim da década de 80 ao início da década de 90; você pode ser ver pesquisando quando Sarney foi Presidente ou quando a novela Vale-Tudo estava no ar, mas há uma ou outra história que não consegui listar no tempo, como ‘Bicho-papão’, por exemplo, e acho que “Museu das Sombras” acontece um pouco depois da maioria das histórias.

As dezoito histórias gore são independentes, mas algumas são ligadas por um fio invisível, como o aparecimento de uma notícia sobre a Senhora Shin na história seguinte, por exemplo.

Estou com Ultra Carnem e DVD na lista.

Recomendo VHS de Cesar Bravo fortemente, inclusive para aqueles que nunca tiveram contato com literatura de horror. O livro é estimulante, muito bem escrito.

Algumas histórias lavam a alma de quem, como eu, pergunta-se — apesar de ser contra a pena de morte —o que um cidadão brasileiro precisa fazer para pegar e cumprir pena máxima.

Bravo, Cesar.

 

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4 comentários em “Verdadeiras Histórias de Sangue, de Cesar Bravo (VHS)”

  1. Oi, Meire!! 🙂

    Eu me dei esse livro de presente de aniversário no ano passado e que edição mais caprichada, até o marcador de páginas!! Eu sou da época das VHS (hehehelp) e todos os detalhes me transportaram de volta pro final dos anos 90/início dos anos 2000…

    Estava bem curiosa com o autor e gostei da maioria dos contos. Aquele do taxista é sensacional e o da loira do banheiro me fez fechar o livro e pensar, NOT TODAY SATAN, hahaha. E esse que você recontou, meu deus a aflição… Também quero ler outros livro do autor.

    Quanto ao seu questionamento do por que as pessoas gostam de horror… Confesso que eu gostava muito mais antes de “assimilar” que essas coisas acontecem/podem acontecer na vida real. Acho que eu gostava porque era ficção extrema. E creio que é por isso que não gosto muito de histórias envolvendo crimes reais.
    (Depois de Quando os Adams Saíram de Férias, minha vida não foi mais a mesma.)

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  2. Caramba, Meire!!! Que legal o seu reconto da história! Achei criativo pra caramba (e, para quem leu já a história, ficou com um sabor de novidade, uma metaficção em que o caso fosse narrado pelo viés médico). Eu gostei bastante desse livro! Quanto ao gosto por textos de horror, partilho de sua teoria. Não sei se é o que é ou o que quero acreditar que seja rsrsrss! Beijo grande!

    Curtido por 1 pessoa

Obrigada pela visita ;)

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