Inventário de Predadores Domésticos

Por @meire_md

Não acredito em bruxas ou bruxos, mas tenho certeza que alguns escritores são.

Eles sabem exatamente que tipo de gente vai ser impactada pelos seus textos e, por algum motivo, conseguem prever nossas reações. Fazem de propósito.

Grandes escritores escrevem com as próprias vísceras e a coisa toma forma de modo incoercível, o que pode ser tão rápido quanto um vômito em jato ou tão custoso quanto um abscesso que demora a supurar.

Quando as palavras ganham o mundo os escritores conseguem (vivos, mortos ou em coma dépassé) fazer uma conexão emocional violenta com alguns leitores.

Se você se conectou com Saramago lendo O Ensaio sobre a Cegueira ou com Tolstói lendo Senhor e Servo, sabe bem do que estou falando.

Os bons escritores “dopam” nossa mente. É um plug & play.

Eles nos carregam para o mundo deles e nos transformam em uma testemunha ocular atenta.

Demorei mais de quarenta anos para perceber que o vício de leitura vem daí. Se não é todo mundo que se vicia em exercício, não é todo mundo que se vicia em leitura. Para cada doido, uma mania.

Quando Kafka dedicou um exemplar de Um médico rural para sua amiga Irma Singer*, ele escreveu: “Você é muito saudável, Irma, não vai entender isto”.

Ele sabia que o livro não era para Irma.

Gosto muito de ficção científica, fantasia, distopias, horror, mundos pós-apocalípticos e romances labirínticos. Quanto mais denso e mais perturbador, melhor para mim.

O motivo é muito simples: o mundo real é estupendo, conta com histórias de vida tão interessantes e minha imaginação é muito fértil, então a literatura que me prende é a produzida por quem é capaz de ir muito além do que eu poderia imaginar sozinha.

Venerando a Verena

Foto e dados extraídos da Wikipedia

O que é essa menina de olhos claros e traços delicados que conseguiu publicar um livro pela DarkSide?

Onde vive, o que come, como se reproduz?

Estou apaixonada pela escritora Verena Cavalcante.

Não sei em que buraco de minhoca eu estava que só a conheci em meados de fevereiro, o que ocorreu graças a um comentário qualquer do escritor Roberto Denser (autor de “Colapso”).

Ando na fase de reagrupar meus escritores favoritos para relê-los ou para achar alguma coisa que não sei se deixei para trás, por isso estou com uma pilha de escolhas por aqui.

Mas a Verena chegou, e a Verena passou na frente.

Meu plano inicial era ler primeiro Larva (2015) e O Berro do Bode (2018) para depois ler o Inventário de Predadores Domésticos“, mas os dois primeiros estão indisponíveis na Amazon no momento.

Quando finalizei a leitura  do Inventário fiquei tão sem teto, tão sem chão e tão sem paredes que conclui que não teria capacidade de resenhá-lo. Foi estranho.

Citei nos stories que a leitura deOs Crimes do Amor“, do Marquês de Sade, é bem levinha perto da leitura do Inventário. Sei que foi engraçado, mas não. Não, não foi brincadeira.

É um livro que, a exemplo de outros que gosto muito, como o Volume 1 da Biblioteca Gaiman ou Confissões do Crematório da Caitlin Dought, eu não saberia a quem  indicar nem a quem dar de presente.

Se você resolver comprá-lo, faça isso por sua conta e risco.

Inventário de Predadores Domésticos

amazon.com.br

Inventário de Predadores Domésticos  foi publicado pela Dark Side em 2021.

Ele conta com 240 páginas e vinte e seis contos cujas histórias não se interligam e acontecem em tempos e locais distintos.

A edição é belíssima, vem com uma fitinha marcadora cor-de-rosa, há detalhes rosados na folhagem que ilustra a guarda e a folha de guarda, o que, em conjunto com o fundo branco da capa, escondem a escuridão que há nas páginas.

O cor-de-rosa acaba aí. Acaba mesmo.

Quando você ouve “predador doméstico” pensa em quê? Pois é.

Boa parte dos contos são narrados ou protagonizados por crianças e os temas variam do pesado ao mais pesado.

Depois não digam que não avisei. Alguns (muitos ou todos) são espantosamente dolorosos e perturbadores.

Cerca de seis contos são apresentados por um narrador inconsciente e um par deles, ou um outro mais, são narrados por uma mulher adulta.

Nada fica de fora do horror produzido pela Verena Cavalcante: ela junta o real ao fantástico.

Em Missiva Póstuma (começa na página 171) eu despenquei, chorei muito. E foi muito bom.

Nos agradecimentos do livro, a escritora pede desculpas aos leitores. Doeu, Verena.

Aceitei o seu pedido de desculpas.

Beijos,

Meire

*Miriam Irma Singer era professora de Jardim de Infância e morreu em 1989

 

 

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2 comentários em “Inventário de Predadores Domésticos”

  1. Oi, Meire!!

    Eu gosto de livros “perturbadores” e senti que a indicação foi pra mim, hahaha.

    Eu tenho ressalvas com as traduções da Darkside, além do PREÇO $$, mas acho os nacionais um pouco mais caprichados (se bem que só li um do César Bravo até hoje).

    Minha mãe gostou do muito do Confissões de Crematório e eu até comprei outro livro da autora, mas ainda não lemos.

    Posso te indicar um livro? No começo do ano eu li Tender is the Flesh, de uma escritora argentina chamada Agustina Bazterrica, e olha, até hoje, estou chocada. Parece que a Darkside comprou os direitos de publicação, mas não sei se pretendem lançar por agora. (Eu li a versão em inglês porque não entendo nada de espanhol.) Eu achei a escrita maravilhosa e é um livro bem gráfico. (Pra quem for pesquisar, um aviso antes: o tema central é canibalismo.)

    Não tinha lido o post sobre Colapso; vou lá ver o que perdi!

    Beijos!!

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