Bate-papo, a Morte de Ivan Ilitch e outras coisas

Por @meire_md

Post dedicado aos meus leitores do Instagram

Quando parei para fazer as contas quase faleço de susto e confesso que estou impactada até agora.

Comecei a usar a internet há 28 anos e divido ideias com vocês por aqui há 27. Gente, isso é muito tempo.

Minha primeira “home page” foi no finado Geocities, que certamente muitos de vocês nem chegaram a conhecer.

A parte mais legal do meu quase falecimento foi perceber que tenho contato razoavelmente frequente com muitos de vocês há pelo menos 15 anos: a gente simplesmente veio caminhando de mãos dadas de plataforma em plataforma.

Em 2013 fechei o Salada Médica (2009-2013) e fui me “reservar” no meu perfil fechado do Instagram,  mas vocês acabaram me encontrando.

Voltei a compartilhar minhas experiências, dicas bobas e ideias aleatórias e, por uma feliz junção de motivos, desde meados de 2020 o Salada está de volta.

Mantenho o perfil do Instagram fechado porque gosto da atmosfera de intimidade.

Como o Instagram não valoriza quem tem perfil fechado e reduziu consideravelmente a entrega de tudo que produzimos por lá, só quem realmente gosta do que posto busca ativamente o meu perfil para ver se tem algo novo e isso acabou sendo muito bom: a nossa interação é afetiva e a minha relação com vocês é muito frutífera.

E foi respondendo nos stories à pergunta relacionada ao que fazer para ser aprovado em Medicina, que lembrei de ‘A Morte de Ivan Ilitch, um dos meus livros favoritos da vida e de leitura tão importante quanto os livros de História da Medicina.

(Se você não viu os stories, eles estão salvos no destaque “Estudantes”)

Conheça um pedacinho de Tolstói (Leo Tolstoy)

Um homem tão atormentado quanto produtivo.

Tolstói, escritor russo mais conhecido por ‘Guerra e Paz‘ e ‘Anna Kariênina’ (ou Anna Karenina), nasceu em 1828 e morreu em 1910.

Ele viveu em um conflito psicológico intenso entre usufruir e condenar a riqueza e a propriedade privada e possivelmente nutria autêntica preocupação com a vida dos camponeses.

O escritor defendia a democratização da educação, o cristianismo primitivo e o pacifismo.

Quando jovem foi viciado em jogos de azar e usuário compulsivo de bebidas alcoólicas — inclusive vendeu propriedades da família para quitar dívidas de jogo — e durante a vida adulta passou por importantes episódios depressivos.

Seu casamento trouxe alguma estabilidade emocional e felicidade que só se abalaram após a conversão para uma espécie de anarco-cristianismo, quando passou a ter impulsos de doar propriedades, abrir mão dos direitos autorais de suas obras e a defender a abstinência sexual.

O vício em jogos, além do abuso de bebidas alcoólicas, podem funcionar como uma espécie de automedicação contra depressão e ansiedade, então pergunto: terá sido ele pessoa com transtorno de humor?

Faço coro com os que acreditam que sim.

A religiosidade extrema, dependendo do restante do quadro médico e social, pode ser parte do suposto cortejo psiquiátrico.

Em pessoas com transtorno de humor, um hábito compulsivo pode ser substituído por outro com o passar dos anos.

Da mesma forma que em Igrejas há religiosos fundamentalistas que no passado foram alcoolistas sistemáticos, há pessoas que no passado foram obesas e hoje são vigoréticas, ou que no passado foram anoréticas e hoje são bulímicas, ou que eram viciadas em compras e depois se viciam em sexo ou em velocidade.

Em meio aos militantes de diversas causas, entre radicais de direita ou de esquerda, no meio de torcidas organizadas, entre fundamentalistas religiosos e entre viciados em compras ou workaholics, possivelmente há mais pessoas com transtorno afetivo bipolar do que na população geral.

O lado bom é que vira e mexe uma dessas pessoas destina seu excesso de energia para uma causa boa e traz melhoras para o mundo, mas o lado complicado é que elas podem sofrer muito durante os ciclos do humor e  podem afastar-se da família e dos amigos.

Possivelmente foi o que aconteceu com Tolstói…

Ao final do post coloquei uma cronologia e algumas referências para você saber mais.

A Morte de Ivan Ilitch

Trata-se de uma novela escrita em 1886, quando Tolstói estava com 42 anos.

Em minha opinião é um livro importantíssimo para toda a humanidade, mas é especialmente importante para estudantes da área de saúde.

A história começa com o funeral de um Juiz de Direito.

Como em todos os funerais, ali há curiosos, há gente que comparece por mera obrigação social, há colegas que já estão interessados em substituir o morto em suas funções e aqueles que estão de olho na partilha dos bens.

Esses aspectos por si só já dão ao livro um resumo do que Tolstói pensava da sociedade aristocrática de sua época, mas os pontos altos da narrativa são a relação médico-paciente e as respostas psicológicas à proximidade da morte.

Quem já passou por uma enfermidade potencialmente fatal ou se conectou com um parente durante este tipo de processo pode ter uma ideia do quão bem Tolstói conseguiu traduzir as frustrações, a revolta, o medo, a vergonha, a sensação de impotência, a solidão e por fim, o conformismo e a aceitação que caracterizam os meses ou dias finais dos que padecem de uma doença crônica debilitante.

Sinto-me particularmente atingida por esta novela porque acompanhei de perto últimos meses de vida do meu pai e porque sou testemunha do calvário de muitas pessoas com dor crônica cujas queixas são frequentemente subestimadas e mal manejadas.

Muitos pacientes crônicos são tratados pelos empregadores, família, profissionais de saúde e amigos como um ‘peso morto’.

As respostas psicológicas do doente crônico, a falta de sensibilidade de alguns médicos e a incompreensão da família também figuram como importantes personagens do livro.

Da mesma forma que ocorreu com o Sr. Ivan Ilitch, muitas vezes o paciente terminal só encontra conforto e compreensão em um empregado.

As reminiscências do passado, os questionamentos do que valeu ou não a pena viver, o arrependimento do que foi ou não feito, a extrema solidão e a relação com o cuidador foram elementos incluídos pelo escritor com particular acurácia.

Impressionante como uma obra tão curta seja tão rica e tenha tantos elementos para se discutir.

É uma leitura que recomendo para pessoas a partir de 16 anos.

CRONOLOGIA


1828 – Leon Tolstói nasce em uma família da nobreza russa. Aos 8 anos fica órfão de pai e mãe. É criado por sua tia Toinette e pela sua avó.

1847 – Tolstói recebe sua herança.

1847 a 1852 – (19 aos 24 anos) – Vicia-se em jogos de azar e bebidas alcoólicas, tem vida desregrada e acumula dívidas de jogo, sendo obrigado a vender propriedades para quitá-las. Nesta época funda uma escola para filhos de camponeses que laboravam em suas terras.

1851 a 1856 – (23 aos 28 anos) – Atua no Exército.

1851 – Escreve seu primeiro romance.

1855 – Vende outra casa da família para pagar dívida de jogos.

1859 – (31 anos) – Funda outra escola e se torna amante de uma camponesa casada, com quem tem um filho.

1861 – Por decisão do Czar Alexander II os camponeses passaram a ser livres e a ter o direito de possuir terras. Neste mesmo ano a Guerra Civil Americana começa.

1862 – (34 anos) – Casa-se com a adolescente Sofja (Sophie, Sonya, Sophia), sua parceira na literatura e mãe de seus 12 ou 13 filhos (as fontes que consultei divergem). Sofja organizava, corrigia, copiava e editava os manuscritos.

1869 – Finaliza Guerra e Paz, depois viaja para comprar mais terras. Durante estadia em Arzamas apresenta um surto depressivo grave.

1871 – Viaja para Samara e obtém nova propriedade. Tem novo surto depressivo grave.

1874 – Tia Toinette morre.

1875 – Tolstói perde o terceiro filho.

1877 – Finaliza Anna Karenina, onde há elementos de sua vida com Sofja e sua experiência com a morte de um irmão, falecido por tuberculose.

1878 – (50 anos) – Converte-se ao cristianismo, para de beber e fumar, passa a trajar roupas de camponês e torna-se pacifista, anarquista e vegetariano.

1880 ou 1883 – (52 anos ou 55 anos) – Sofja obtém os direitos sobre as propriedades da família.

1891 (63 anos) – Decide abrir mão dos direitos autorais dos livros que ainda viria a escrever. Após pedido da esposa e filhos, passa os direitos para a família.

1893 – O governo russo começa a perseguir Tolstói acusando-o de revolucionário perigoso. Por intervenção de uma tia, que argumentou que ele poderia ser transformado em mártir, Tolstói passa a ser tratado pelo governo como o maior gênio de toda a Rússia

1901 – (73 anos) – Em razão da publicação de ‘Ressurreição’, é excomungado pela Igreja Russa.

1902 – Escreve ao Czar pedindo que conceda liberdade ao país e evite uma guerra civil.

1905 – Tosltói condena o marxismo e a repressão imperial, defendendo que a reforma espiritual deve preceder a ação política. Em mesmo ano o Czar Nicholas II tentou conter a onda revolucionária garantindo ao povo o direito de reunir-se em assembleia e a liberdade de imprensa, o que não foi suficiente.

1907 – Chertkov, seu seguidor, recebe o controle editorial e financeiro das obras.

1908 – Tolstói está doente e acamado e escreve um testamento onde especifica que após a morte todos os direitos autorais de seus livros serão de propriedade pública e que ele deve ser enterrado na Floresta Zakaz.

1909 – Um novo testamento é feito (ou fraudado) dando a Chertkov todo o direito aos manuscritos e diários de Tolstói. Em mesmo ano, não consegui descobrir se antes ou depois, ele sofre um acidente vascular encefálico e fica com parte do corpo paralisado.

1910 (82 anos) – Deixa a família e decide viajar para Cáucaso e viver como um camponês. Sua filha Aleksandra, então com 26 anos, o acompanha durante a viagem. Como já estava muito debilitado, morre na estação de Astapovo.

Obs.: Na edição da Martin Claret consta que Aleksandra era médica, mas as outras fontes nada citam e relatam que ambos viajam em companhia de um médico.


Referências


http://www.lev-tolstoy.com/tolstoy-timeline.php

http://www.pbs.org/wgbh/masterpiece/anna/timeline_text.html

http://www.russia-ukraine-travel.com/leo-tolstoy.html

http://www.bipolarworld.net/Bipolar%20Disorder/Articles/art14.htm

https://www.biography.com/scholar/leo-tolstoy

 

 

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6 comentários em “Bate-papo, a Morte de Ivan Ilitch e outras coisas”

  1. Oi Meire!
    Sabe que eu te acompanho há alguns anos, não sei ao certo a data… é desde aquela época dos vídeos no carro, em que você deixava o celular no colo e ia “conversando” sobre algum assunto.
    Gosto muito de ler o que você escreve, das resenhas dos livros e dos seus bate-papos no instagram 🙂
    Já refleti sobre vários assuntos desde então e agradeço bastante por isso!
    Abraços!

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  2. Meire ou Monique,
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