Dez dias em um Hospício

Por @meire_md

“As pacientes estavam azuis de frio, e cada minuto parecia durar quinze”

Nellie Bly é o pseudônimo da jornalista Elizabeth Jane Cochran (1864 – 1922), uma jovem de parcos recursos que aos dezesseis anos de idade escreveu uma carta para o editor do Jornal Pittsburgh Dispatch contestando de modo veemente um artigo que tratava a mulher como um ser limitado à lida doméstica.

O editor ficou tão impressionado com o conteúdo da mensagem que a contratou.

Mesmo sendo tão jovem e, em razão do falecimento do seu pai, não teve condições financeiras para finalizar seus estudos, Elizabeth produziu artigos densos e escreveu sobre temas polêmicos como jornadas exaustivas, péssimas condições de trabalho e baixos salários pagos às mulheres e crianças trabalhadoras.

Aos 23 anos e já bastante experiente, ela foi contratada pelo jornal New York World, cujo editor era nada mais nada menos que Joseph Pulitzer, sim, o cara do Prêmio Pulitzer.

Dez dias em um Hospício

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Em 1887 “Nellie Bly” aceita a proposta audaciosa do World: ela teria que simular insanidade mental para ser internada no manicômio da então Ilha de Blackwell —hoje Roosevelt Island — afim de investigar supostos abusos às pacientes ali confinadas.

Sem entrar no assunto coragem, já que o internamento em manicômios funcionava quase como uma sentença de morte ou uma prisão perpétua, o ato foi um feito surpreendente e muito a frente do tempo, pois o conceito de jornalismo investigativo só apareceu uns sessenta anos depois.

“Depois disso, comecei a ter uma consideração menor pela capacidade dos médicos, e uma maior pela minha. Agora, tinha certeza que nenhum médico saberia dizer se as pessoas eram insanas ou não, se o caso não fosse violento”

O livro ‘Dez dias em um Hospício‘ é um relato sumário porém detalhado da experiência da jornalista, que demonstrou que quando há interesses secundários é bastante fácil simular loucura e enganar pessoas recém conhecidas, médicos e profissionais do direito, convencendo-os sem muitas delongas de que apresenta insanidade mental.

Apesar da natureza do tema, a leitura chega a ser quase leve, sobretudo para quem já leu ‘O Holocausto Brasileiro’, de Daniela Arbex, que retrata uma situação bastante pior.

Vestida de modo simples, com centavos de dólar no bolso, sem bagagem ou documentos de identificação e negando saber onde morava, hospedou-se no Lar Temporário para Mulheres e antes do final da primeira noite não só a assistente da proprietária do Lar quanto as hóspedes estavam convencidas de que a moça era “lunática”.

Após passar por avaliação de mais de um psiquiatra e receber o diagnóstico de insanidade mental, foi encaminhada para internação.

Naquela época as pessoas eram frequentemente levadas aos hospitais por amigos e familiares. E eram basicamente enterradas vivas; poucas recebiam cartas ou visitas. A existência de manicômios em ilhas representava bem o quanto a sociedade desejava isolar-se das pessoas ditas insanas.

“Um dia, uma mulher insana foi trazida. Ela era barulhenta, e a srta. Grady bateu nela e a deixou com um olho roxo. Quando os médicos perceberam e perguntaram se aquilo havia acontecido antes de ela chegar, as enfermeiras disseram que sim”

Uma vez internada, presenciou o descaso de alguns médicos, a crueldade e sadismo de alguns profissionais da enfermagem e presumiu, com uma margem de erro possivelmente muito baixa, que algumas mulheres estavam presas ali por escolha de outras pessoas, ou seja, sem qualquer indicação médica genuína.

Mulheres que mudam o mundo não são as que odeiam homens, são as que amam a humanidade

Como resultado do seu trabalho, a cidade de Nova York destinou um milhão de dólares a mais por ano para os cuidados com as pessoas portadoras de transtornos mentais.

E ela não parou por aí. Minha edição conta com pequenos relatos de outros trabalhos que ela realizou infiltrada, com destaque para o trabalho numa fábrica de caixas.

E se fosse hoje?

Atualmente o quadro representado por Nellie, que não aparentava imputar riscos a si ou a terceiros e mais sugeria um episódio psicótico transitório, não indicaria institucionalização porque há medicamentos que permitem um controle domiciliar adequado.

Se a proposta ocorresse hoje, para conseguir ser internada sem um atestado falso, a jornalista teria que promover uma simulação de doença psiquiátrica com uma atuação teatral um pouco mais complexa, como a feita por pessoas que querem abrandar penas judiciais ou obter benefícios fraudulentos.

Vivemos em um período que, teoricamente, a internação é reservada para casos cujo manejo domiciliar não é possível.

Como ocorreu nos EUA, aqui no Brasil também foi graças à denúncia da imprensa que os horrores do Hospital de Barbacena, que ocorriam sob o olhar complacente da Igreja Católica, do Estado, dos diretores e dos profissionais do Hospital, foram expostos.

A luta antimanicomial, que foi encabeçada por médicos em todo o mundo e depois ampliada graças à inestimável participação profissionais que foram incluídos nos tratamentos das pessoas com transtornos mentais, chegou a um ponto de equilíbrio mas ainda há muito a se fazer.

Internar algumas pessoas com transtornos mentais ainda é uma necessidade.

Como diversas outras doenças, as mentais podem exigir internamento.

O que não podemos aceitar são as internações por quadros que, mesmo irreversíveis, sejam passíveis de estabilização ambulatorial, nem que os pacientes sejam tratados de modo desumano.

Novas ‘naus de loucos’?

Infelizmente estamos vivendo uma fase de proliferação de clínicas, muitas delas com apoio de Igrejas e médicos que por motivos que não cabem a mim teorizar, fomentam a institucionalização estupidamente prolongada de pessoas com histórico de consumo de drogas lícitas e ilícitas, excluindo-as da vida produtiva em sociedade mesmo quando já passaram da fase aguda da intoxicação.

Se nunca houve antes, tampouco hoje há qualquer amparo técnico para este tipo de segregação.

Vamos adiante.

Dez dias em um Hospício é um ótimo exemplo de livro interessante para ser colocado para a Alexa ler, pois o relato não é complexo e o nome das personagens, embora todos reais, nem precisa ser memorizado.

O relato da jornalista faz com que o seu cérebro desenhe a situação e coloque você ali, no ambiente, enxergando tudo através dos olhos dela.

Obrigada, Monique, pela indicação deste livro! ❤️

Ah, em janeiro de 2019 foi lançado um filme baseado na história real de Elizabeth Cochran: “Fuga do hospício — A História de Nellie Bly”, dirigido por Karen Moncrieff.

Outro livro da mesma autora é A Volta ao Mundo em 72 dias.

Beijos,

Meire

Caso você queira ler a minha resenha sobre “O Holocausto Brasileiro“, clique aqui.

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2 comentários em “Dez dias em um Hospício”

  1. Nossa. Me senti em uma tragédia grega.
    A luta antimanicomial realmente avançou muito nessas últimas décadas, principalmente pela criação das CAPS, centros de apoio psicossocial), embora muito há que se melhorar, pois no Brasil, as legislações são incrivelmente substantivas, porém pouco viabilizadas.
    Quanto as instituições para dependentes de drogas ilícitas, na minha visão, o estado inadvertidamente vem transferindo responsabilidade para a sociedade civil.
    Misturar religião com assuntos tão complexos com raízes sociais, emocionais e dentre tantas subjetividades do ser humano é simplório e preocupante. Apesar da boa vontade, há de se ter capacitação profissional técnica.
    E as internações a longo prazo por vezes possuem muito dinheiro envolvido. É quase um novo modelo de mercado privado como planos de saúde. Poucos podem pagar. Mas os poucos pagam caro, assim a balança financeira se compensa.

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