Claraboia | José Saramago

‘Só os olhos negros, profundos nas olheiras maceradas de diabética, eram paradoxalmente belos, mas tão graves e sérios que a graça não morava neles’

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Por @meire_md

O livro Claraboia foi finalizado por Saramago em janeiro de 1953, quando ele estava com 30 anos de idade.

Claraboia foi recusado pela editora e engavetado por décadas e, embora tenha sido resgatado bem antes da morte do autor,  só foi oficialmente publicado mais de um ano depois.

Teria sido a transcrição de um escandaloso trecho deA Religiosa‘ de Diderot a causa da recusa do preciosíssimo datiloscrito? A desconfortabilíssima cena de Justina e seu marido? Ou um dos nada pequenos temperos eróticos introduzidos aqui e ali?

De um modo que não me recordo exatamente e pouco antes de Saramago morrer, uma cópia digital de Claraboia — que rapidamente passei para o Kindle — veio parar em minhas mãos.

Em 2016 li novamente e achando pouco, recém comprei a edição da Companhia das Letra e li a adorável novela mais uma vez.

O narrador de Claraboia é onisciente/onipresente e faz pouco juízo de valor: afora as características físicas e o perfil psicológico das personagens, ele se foca em descrever com precisão extrema o que um e outro personagem vê ou sente.

Extrema,  mesmo.

A narrativa é linear e os acontecimentos daquelas famílias que eventualmente se cruzam são simultâneos, portanto os fragmentos de seu cotidiano surgem de modo alternado e não separados em ‘contos’ individuais como os escritores costumam fazer.

As elas e os eles vigiados através da Claraboia

Justina, uma diabética  amarga e atormentada pela morte da filha, vive uma relação de cárcere com Caetano Cunha.

O retrato desgraçado de muitos casais mundo afora é escancarado por uma das cenas que pode ter promovido a recusa do livro na década de 50. Pobre Justina, carrega nas costas a sina de muitas mulheres.

Silvestre e Mariana, idosos fofinhos e sem filhos, são um oásis em meio aos infortúnios que caracteriza boa parte das famílias. De boa índole, carinhosos, carismáticos e compreensivos, por motivos econômicos sublocam um quarto e acolhem o errante Abel,  com quem trocam afeto e discussões filosóficas.

mascara de beethoven

Adriana e Isaura, irmãs solteiras e filhas de Cândida, trabalham para sustentar a mãe e a tia Amélia. A rotina e a solidão que levam Isaura a violar o que é mais sagrado em uma família são quebradas, ao menos temporariamente, pelos serões de música clássica.

“Quando Maria Cláudia entrou, as sombras da cozinha saíram. A rapariga lembrava a capa colorida de uma revista americana, destas que mostram ao mundo que na América não se fotografam pessoas ou coisas sem que, previamente, se lhes aplique uma demão de tinta”.

Anselmo e Rosália têm um casamento tão igual quanto qualquer outro que gira em torno da prole, nem bom nem ruim, apenas normal.

Maria Cláudia, adolescente com hormônios à flor da pele e personalidade meio libertina, meio cruel, deixa um enigma para o leitor. Infelizmente só saberíamos o desenrolar se Claraboia tivesse sido publicada antes da morte de Saramago e por clamor público ganhasse um volume II. Eu clamaria.

Dona Carmen, uma espanhola borderline, nos deu Henriquinho, um menino doce e carente. Ciumenta e do tipo que sofre e faz os outros sofrerem, não mede limites para atingir o marido, que se vê em intenso conflito existencial.

Dona Lídia, balzaquiana que buscou o caminho supostamente mais fácil (ou pelo menos é assim que seus vizinhos a veem) para sustentar-se, odeia a mãe justamente por ser tão aproveitadora quanto ela. Seu amante, obeso e rico, pode sumir de seu domínio a qualquer instante, motivo pelo qual ela cede aos seus caprichos. Mas só até certo ponto.

Recomendo fortemente

É um livro que não posso deixar de recomendar para quem é fã de Saramago (sim, fiquei imaginando-o bem novinho datilografando as mais de 200 páginas e dando vida a seres tão complexos) mas tendo a recomendá-lo mais frequentemente para quem não gosta do estilo que tornou o autor mais conhecido.

O saramaguear ainda não existia quando ele tinha 30 anos: o texto é todo trabalhado com vírgulas, pontos e parágrafos e sem o brain storm que os fãs dele amam.

Claraboia já apresente a semente do humor inteligente de Saramago.

Beijos,

Meire

*Créditos da Foto: Jornal da USP

 

 

 

 

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2 comentários em “Claraboia | José Saramago”

  1. Uau. Preciso mesmo tomar vergonha na cara e começar a ler autores brasileiros. Meire, vc tem algum compilado de indicações para os iniciantes em leitura brasileira?

    Autores e ordem de leitura?

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    1. Acho imprescindível Machado de Assis, tanto que estou terminando um post com dicas para quem quer começar a ler e-books e coloquei a versão gratuita de Memórias Póstumas de Brás Cubas para o primeiro teste. Eu também preciso ler mais escritores brasileiros. Conheço mais sobre Saramago, que é português, do que sobre Lima Barreto ou Jorge Amado, por exemplo. Não escondo minha preferência pelos escritores vivos, como Daniel Galera, Roberto Denser, Patrício Júnior, Raduan Nassar, Drauzio Varella e João Paulo Cuenca.

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