O Nazista e o Psiquiatra | Jack El-Hai

Vídeo com um dos episódios de ‘Criminal Man’, série de TV baseada nos estudos do sobre criminologia realizados pelo célebre psiquiatra californiano Dr Kelley

Por @meire_md

“O nazista era divertido, carismático, com bons modos e culto. Essas qualidades admiráveis, contudo, não impediam que o psiquiatra visse a maldade inata de Göring.
Kelley estava intrigado com sua habilidade de executar medidas, não importando quão brutais.”

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O Nazista e o Psiquiatra’ é um livro fascinante para quem, como eu, gosta de história da medicina, de história da maldade e de conhecer mais sobre a biografia de pessoas que deixaram alguma marca, boa ou ruim, no mundo.

Jack El-Hai, também autor de ‘The Lobotomist: A Maverick Medical Genius and His Tragic Quest to Rid the World of Mental Illness’, é um jornalista americano brilhante cujo livro ‘The Lost Brothers: A Family’s Decades-Long Search’ foi recém premiado pela American Society of Journalists and Authors.

“Eu assumi a responsabilidade de examinar os padrões da personalidade daqueles homens e, até certo ponto, as técnicas que eles empregaram para vencer e manter o (Dr. Kelley)

O psiquiatra apresentado no livro é o Major americano Douglas McGlashan Kelley (1912-1958), um homem de alto rendimento e herdeiro da personalidade obsessiva da abastada família materna.

Kelley foi um idealizadores de ‘The Rorschach Technique‘ e serviu ao Exército na II Guerra Mundial, onde adquiriu experiência com recuperação de traumas psicológicos de Guerra. Além deste histórico, foi um dos pioneiros na aplicação da Terapia de Grupo.

Várias biografias em uma só

O médico é uma figura muito mais complexa do que os vinte e dois genocidas que estiveram sob seus cuidados durante os preparativos e fases iniciais dos Julgamentos de Nuremberg, cidade tipicamente fascista e que costumava não só sediar congressos nazistas como a dar suporte a qualquer ato que negasse direitos humanos a Judeus.

Todas as observações levantadas por ele, mesmo aquelas que com o conhecimento que temos hoje parecem extremamente lógicas, são particularmente ricas.

Consternado, Kelley chegou à conclusão que aqueles nazistas não tinham nada de diferente. Eles não tinham uma mente especial, eram homens tão manipuladores e com tanta sede de poder quanto quaisquer outros facilmente encontrados no meio político mundo afora: em qualquer tempo ou lugar o nazismo e o fascismo, ou coisas tão cruéis quanto, poderiam voltar a florescer.

E isso foi, para ele, algo desestabilizador.

Lição de Humanização

“Com menos autoridade apenas do que Hitler, Göring oficialmente se tornou o sucessor designado do Führer em 1935”

A relação médico-paciente desenvolvida por Dr. Kelley junto ao ultranacionalista e antissemita Hermann Göring (1893-1946), chefe da Força Aérea do III Reich e pessoa envolvida diretamente na criação da Gestapo e dos campos de concentração — um psicopata típico que não se importaria em assassinar metade da população mundial para conseguir apoio da outra metade e desleal o suficiente para mandar assassinar o melhor amigo —, é uma verdadeira lição de humanização da Medicina.

Uma das atitudes de Kelley foi solicitar que o Tribunal providenciasse cadeiras mais confortáveis para os réus, quase todos idosos.

Kelley, que não era propriamente uma pessoa livre de  problemas psicológicos, conseguiu se desvencilhar do horror promovido pela certeza da culpa de Göring e tratá-lo da obesidade da dependência química de modo muito gentil.

Extremistas monotemáticos

“O psiquiatra se espantava com a mente monomaníaca de Rosenberg, que era capaz de transformar uma conversa a respeito de qualquer tema em um discurso sobre a pureza racial.” (Atitude comum de muitos extremistas, tanto de direita quanto de esquerda, ao atribuírem todo o mal contra o qual lutam a uma pessoa ou a um grupo em particular)

Dentre os vinte e dois nazistas atendidos por Kelley, sujeitos com idades variando entre 38 e 72 anos, estavam:

  • Alfred Roseberg, filósofo nazista e conselheiro de Hitler;
  • o pútrido antissemita Julius Streicher —que além de utilizar sua influência como jornalista para propagar as crenças nazistas, era sádico, estuprador e um grande colecionador de pornografia;
  • Hess, um simulador de amnésia que ludibriou inúmeras autoridades e especialistas.

O Julgamento

“Foram necessárias semanas de trabalho para a promotoria reparar os estragos e tirar o brilho da personalidade de Göring”

O Julgamento de Nuremberg, descrito no livro em poucos pormenores, foi emocionalmente exaustivo e estendeu-se por impensáveis 218 dias.

Enquanto eram exibidos filmes dos campos de concentração, crematórios e corpos empilhados, soluços sofridos e gritos abafados emergiam da galeria dos espectadores.

A mera imaginação do choque que aquelas pessoas tiveram me levou às lágrimas. As imagens foram tão dilacerantes para os presentes que dois dos acusados apresentaram franco descontrole emocional, pois sabiam que as provas contra eles eram irrefutáveis.

A vida depois de Nuremberg

Kelley levou a experiência de Nuremberg para casa. O restante de sua trágica biografia, cuja leitura recomendo fortemente,  comprova isso.

Ele chegou a publicar um livro,  ’22 cells in Nuremberg’ [22 celas em Nuremberg], deu inúmeras palestras, fez aparições em TV e rapidamente tornou-se um famoso criminologista, aplicando sua experiência em muitos crimes cometidos na região e prestando trabalhos de consultoria em várias partes do mundo.

Em suas palestras Kelley instava os clientes a se recusarem a votar em ‘qualquer candidato que fizesse “capital político” da raça e das crenças religiosas de qualquer grupo, ou se referissem direta ou indiretamente ao sangue, à herança ou à moral dos oponentes‘.

A preocupação em criar cidadãos empáticos e atentos aos perigos do mundo transferiu-se para a criação de seus filhos, que findou sendo tão severa e inflexível quanto sua própria personalidade.

Afora toda a riqueza do livro, que em menos de 400 páginas trouxe tanta informação, você se depara com um texto muito bem escrito, sensível e, por vezes, até poético.

Beijos,
Meire

*Sete dos nazistas condenados (Hess, Funk, Dönitz, Raeder, Schirach, Speer e Neurath) receberam sentenças de prisão que variaram de 10 anos a prisão perpétua. Os demais, incluindo Martin Bormann, julgado in absentia, foram condenados à morte.

Os condenados à morte por enforcamento foram Göring, Rosenberg, Streicher, Ribbentrop, Jodl, Keitel, Kaltenbrunner, Frank, Frick, Seyss-Inquart e Sauckel.

Para evitar adoração de seus túmulos, todos os corpos foram levados para os crematórios do campo de concentração de Dachau e após incinerados, suas cinzas foram desprezadas em um rio.

Que essa história nunca mais se repita.

 

 

 

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5 comentários em “O Nazista e o Psiquiatra | Jack El-Hai”

  1. Meire, há vários documentários sobre a segunda guerra no Netflix. Também um filme , O Jogo da Imitação , com o Bene (como diria Marina Smith) que mostra a inteligência que ajudou os ingleses a virarem o jogo . Filme que vale ver! Bjs para Gomuzinho .

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