Colapso

Por @meire_md

“A ratazana pulou alguns centímetros no sentido oposto e, sem perceber que já estava morta, correu” (Colapso, de Roberto Denser)

Se no país do Carnaval uma mãe é capaz de matar e incinerar seu filho de 9 anos, um pai é capaz de enforcar e jogar pela janela seu filho de 11 e um trisal macabro alimenta um bebê com carne humana, o que poderíamos esperar da nossa espécie caso acordássemos em um mundo pós-apocalíptico atapetado por terras inférteis e regado por água pútrida?

Como os diferentes brasileiros e brasileiras se comportariam caso fôssemos obrigados a adotar um estilo de vida tão errante quanto o dos caçadores-coletores que nos precederam?

E como seriam os filhos dessa geração?

Gosto de ficção científica, de romances densos com personagens que tenham perfis psicológicos bem estruturados, de histórias sobre mundos distópicos, apocalípticos e pós-apocalípticos, além de literatura clássica de horror.

Não é por acaso que O Ensaio Sobre a Cegueira, Fahrenheit 451, A Guerra dos Mundos, Laranja Mecânica, 2001 Uma Odisseia no Espaço, Frankenstein, Drácula, O Médico e o Monstro, A Revolução dos Bichos, O Guia do Mochileiro das Galáxias e O Planeta dos Macacos estão entre os meus livros favoritos. Nem muito menos é por acaso que sou fã de Donnie Darko, do Universo Cinematográfico da Marvel e de Star Wars.

Com o passar do tempo, fui percebendo que só aprecio a ficção que me desloca da realidade e me joga com força em um mundo bem distante do meu.

Utopia X distopia

No postAlém da Imaginação relatei que não gosto de ficção água com açúcar nem de  ‘romance utópico’, como costumo falar, mas preciso esclarecer que acredito que narrativas cor-de-rosa podem produzir efeitos contemplativos maravilhosos em algumas pessoas.

É possível que a coisa mais romântica — no sentido popular da palavra — que li na vida tenha sido Anna Kariênina, de Tolstói [minha edição é da Cosac Naify], que é um romance trágico focado na vida de uma mulher tipicamente fronteiriça.

Assim que o escritor brasileiro Roberto Denser anunciou que estava escrevendo um romance pós-apocalíptico, fiquei a postos para comprá-lo assim que fosse lançado.

Como ocorre com séries e livros de ficção que prendem minha atenção, li Colapso compulsivamente entre o fim da tarde de um dia e a manhã do outro, mas isso é totalmente fora da curva. É um livro grande.

E na hora de resenhar veio o desespero. Como não contaminar a juventude do livro dando spoilers malditos?

Quando vou resenhar um livro clássico não me preocupo com isso porque os spoilers já foram dados ao longo do tempo.

O lado bom de resenhar livros de autores mortos é que posso ser livremente pretensiosa e palpitar, com ares de certeza que só os ignorantes conseguem ter, sobre o que passou pela cabeça do autor sem correr o risco de receber um comentário tipo, ‘ei, nada a ver isso aí, minha senhora. Eu não pensei nada disso, não’.

A impressão que tenho é que Roberto Denser, autor dos excelentes ‘A Orquestra dos Corações Solitários‘ e ‘Para Elisa‘, acordou num belo dia com a meta de escrever um romance distópico pós-apocalíptico — algo muito mais opressivo que os seus livros anteriores — só para se testar.

Se estivesse morto, eu afirmaria categoricamente que ao terminar o livro ele pensou o seguinte: ‘com exceção dos meus filhos, isso foi a melhor coisa que pari na vida e f&%$-se quem não gostar, porque eu estou orgulhoso para um c&%$#@*&’.

Juro que vou tentar não soltar spoilers, mas deixo o alerta: se você não gosta de spoilers leia o livro primeiro, tá?

Colapso, de Roberto Denser

amazon.com.br

O livro tem 459 páginas e é dividido em três grandes partes, ‘Depois do Fim’, ‘Na Estrada’ e ‘Colapso’, além de contar com um epílogo que embora curto, colabora bastante com o fechamento dos arcos.

A história é ambientada no Brasil e acontece cerca de quatro décadas após um evento catastrófico de etiologia supostamente  incerta e que se estendeu para além das fronteiras do Brasil.

Se eu tivesse que classificar o livro colocaria um carimbo de ‘distopia punk’. Você já ouviu falar em overkill? Pois é.

A história floresce nas sombras promíscuas de um mundo em pedaços que precisa de tirania para reequilibrar-se, e consegue caminhar no sentido contrário — para toda tirania, desde que o mundo é mundo, há uma resposta social —nas horas certas, na dose certa e envolvendo as pessoas certas.

Será que o autor planejou isso? Ou as personagens fizeram isso sozinhas?

O livro não tem a complexidade das distopias clássicas nem plantou um caos maior do que o esperado para a quantidade de sobreviventes porque (olha aí a minha pretensão, parabéns para mim) o autor não escolheu rebuscar o texto para impressionar quem vive apegado ao modo com o qual que as gerações anteriores escreviam este tipo de ficção.

Sabe fã chato de Star Wars que vive no passado e odeia o Universo expandido só porque as coisas não são exatamente como foram nos episódios IV, V e VI?  Eles também são encontrados entres os amantes de distopias.

Colapso é uma distopia cristalina.

Ela é fácil de ler e fácil de entender, inclusive pode ser um ótima porta de entrada para quem quer se aventurar neste intrigante estilo literário.

Além de cortar excessos visuais, o autor focou no pós-apocalipse, onde há escassez de água, de alimentos e de pessoas.

Isso é o exato contrário das previsões malthusianas que embasam muitas das distopias mais antigas, onde os problemas são focados na superpopulação, nas grandes corporações e nas diferenças de classe.  Um exemplo  brasileiro que segue a mesma fórmula é a série 3%.

Quando boa parte das personagens tem relevância para o fluxo do enredo (inclusive a cadela Rainha) a leitura se torna muito mais amigável.

Das tribos

No início da história os humanos que conhecemos se dividem em pequenas “tribos” isoladas, com exceção do adorável Espanhol, um argentino nômade que se embrenha sozinho pelo Brasil vivendo como caçador-coletor e nutrindo a esperança de não ser o último ser humano vivo.

Os dois maiores núcleos são inicialmente mais organizados e, portanto, não tipicamente nômades, mas um deles eventualmente abandona por completo o assentamento.

Os núcleos são apresentados de modo alternado em pequenos capítulos. Em algum momento os fluxos migratórios provocados pelo instinto de sobrevivência começam a promover encontros e suas consequentes desgraças e graças, reviravoltas e voltas.

A história só cresce, as respostas que devem aparecer —inclusive as ligadas ao curioso cardápio que alimenta aquelas desafortunadas pessoas — vão surgindo e os arcos se fecham perfeitamente.

As perguntas sobre o que ocorreu antes e depois dos eventos narrados em Colapso só serão respondidas se novos livros forem escritos.

Quem sabe o autor não nos apresenta o Marco Zero em um novo livro?

Espero que sim, tanto que anotei o nome dos personagens para refrescar melhor a memória quando o segundo livro for lançado.

Personagens:

Núcleo principal
Camargo
Amanda
Velho
Garoto
Dona Maria
Os gêmeos Dirceu e Dirley
Cabeça
Mago
César

Núcleo 2
Nego Ju
Samuel

Núcleo 3
Samanta
Pedro

Núcleo 4
Bia
Adriano
João

Núcleo 5
Diana
Anita
Carminha
Uiara
Titina
Eli e outras
Homens sem nome

Caminheiro solitário
Espanhol

Recomendo a leitura.

Beijos,

Meire.

 

 

 

 

 

 

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2 comentários em “Colapso”

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