O Mundo Vai Girando Cada Vez Mais Veloz

Por @meire_md

“Então, quando se fugia para salvar a vida de um massacre ou de um pogrom, de um incêndio em casa ou na sinagoga, eram as crianças e os livros que se levava junto. Os livros e as crianças”

(Os Judeus e as Palavras, de Amós Oz e Fania Oz-Salzberger)

É preciso mastigar bem os alimentos e o mesmo ocorre com as palavras.

Em que momento exatamente começamos a engolir, vomitar e evacuar palavras que não foram mastigadas, degustadas e  apropriadamente digeridas?

Conseguiremos nos libertar da sensação contínua de pressa e interromper nosso aparente destino rumo ao emburrecimento?

Quando e como aniquilaremos o mau hábito de analisar superficialmente as coisas e nos libertaremos da crença de que precisamos nos posicionar nas redes sociais mesmo quando não temos um domínio mínimo sobre o assunto?

A triste verdade é que parte das pessoas perdeu o amor às palavras…

Temo que a pressa e a sensação contínua de estar perdendo algo interessante façam o mesmo comigo.

Essa semana me vi angustiada porque estou demorando muito para terminar a leitura de ‘A Ciência da Meditação‘.

Bizarro. Lendo um livro sobre meditação e me sentindo assim, como se fosse obrigada a terminar logo!

Recuso-me a engolir palavras sem pensar no significado delas e exijo ao meu cérebro que diante das constatações de que não vou consumir a maior parte do conteúdo interessante que está disponível e que vou morrer antes de ler ou reler todos os livros que quero, ele pense ‘Oi, Meire, está tudo bem, deixa de pressa, aproveita a viagem porque ela é curta mesmo’.

Você acha que já foi engolido (a) pela pressa?

Parar para interpretar o que lê vai ser transformar em um ato de resistência contra um mundo que parece girar cada vez mais rápido?

Nossa pressa pelo consumo desenfreado de imagens, de legendas, de títulos, precisa ser revista.

Quando a dúvida vem, a pergunta vem mais rápido ainda.

E elas não existiriam, nem dúvida tampouco a pergunta, se o texto de referência tivesse sido lido com uma atenção mínima.

“Judeus sempre tentaram argumentar racionalmente com os outros, mesmo que estes outros jogassem conforme regras diferentes, não verbais, irracionais, brutalmente físicas e violentas.”

O dedo age de modo veloz na tela e no teclado só porque você segue mais de mil pessoas? Será que é só por isso ou você está se deixando engolir pela ânsia de ver tudo?

Isso é optar por  acumular desconhecimento.

Algumas pessoas estão levando o hábito das redes sociais para o trabalho.

E-mails não são lidos. Documentos vitais são ignorados e no momento em que o conhecimento que estava ali passa a ser demandado, a pessoa se vê perdida.

Se dividirmos a nossa atenção, que é um recurso limitado, com tudo que passa pela nossa frente distribuindo gotas dela para cada coisa, significa que nada é importante para nós.

Experimente voltar a ler palavra por palavra e a procurar entender o que está sendo lido. Estimule seu cérebro.

Volte a amar as palavras como você as amou quando era criança, quando você as repetia várias vezes, quando você tinha sede de saber o que elas significavam.

O amor pelas palavras

“Que magia manteve este templo familiar da memória textual vivo durante 25 séculos? Achamos que a resposta tem algo a ver com a mistura de pão e livros.”

Não sou religiosa nem tenho um conhecimento significativo sobre a Liturgia Judaica, mas por guardar muitas semelhanças com os judeus seculares, acabo me expondo a muita literatura produzida por eles.

Judeus – não todos, não vamos generalizar – são apegados a livros desde a infância, costumam ser bem-humorados, questionadores, céticos e afetos ao mundo nerd e às ciências em geral.

O amor dos judeus pelas palavras é estimulado desde tempos imemoriais. Não se trata de genética, de um dom inato, nem nada do gênero.  É cultural.

Os Judeus e as Palavras, de Amós Oz e Fania Oz-Salzberger

Compre sem sair de casa

Amós Oz é um renomado escritor israelense e Fania, sua filha, é historiadora e professora da Universidade de Haifa.

Eles são judeus seculares e publicaram este Ensaio para expor um pouco da trajetória de amor que os judeus nutrem pelo conhecimento e a mistura de fé com questionamentos e irreverência.

Risos e Lágrimas 

O livro é dividido em quatro ensaios.

“Uma descendência informada é a chave para a sobrevivência coletiva. Crianças — meninos e meninas, de maneiras distintas e desiguais — eram socializadas de modo a salvaguardar e transmitir a sabedoria cumulativa da sociedade.”

Em Continuidade são abordadas as marcantes diferenças da educação infantil entre judeus e outros povos antigos; elas possivelmente justificam a persistência de algumas características que de certa forma tornam os judeus peculiares.

A relação/devoção entre professores e alunos, que se provocam e questionam-se como se fossem pais e filhos, é marcante.

Algumas partes podem ser desagradáveis para pessoas religiosas porque há uma exposição muito aberta sobre como o secularismo judaico vê os Textos Sagrados, que embora respeitosa, está muito longe da visão daquele que tem fé.

O bom humor dos judeus, que dá um balanço às neuroses que parecem caracterizá-los, é também abordado.

Em Mulheres Vocais aborda-se a trava imposta às mulheres judias, que por séculos ocuparam uma posição social inferior e só passaram a se alfabetizar quando os livros saíram das Sinagogas e foram ‘domesticados’.

“O século XIX e o começo do século XX foram um Tempo de Dádiva para muitas mulheres judias. Por toda a Europa, algumas ainda em trajes tradicionais, e certamente em lares tradicionais, elas obtinham livros e liam avidamente, liam com grande sede, pavimentando o caminho para suas filhas e netas.”

Essa é minha parte favorita do livro.

Os autores fazem um passeio interessante sobre teorias quanto à real autoria de Cântico dos Cânticos, falam sobre o estereótipo da mãe judia (e a influência delas sobre seus filhos escritores e pensadores de diversas épocas) e citam diversas mulheres bíblicas.

Preciso reproduzir um trecho que exprime bem como o povo judeu age para superar a marginalização:  com apego às palavras, ao estudo, ao esforço, à repetição. Depois de séculos de repressão, em menos de duas gerações a mulheres judias ocuparam o espaço que lhes era – e ainda é, considerando o meio religioso ortodoxo e ultraortodoxo – negado:

Não levou duas gerações, nem mesmo uma. No mesmo momento, imediatamente, as mulheres judias se lançaram para a dianteira acadêmica, até onde lhes era permitido. A química e física Elsa Neumann, a primeira mulher a obter um diploma de doutora na Universidade de Berlim (em 1899), nove anos antes que as mulheres fossem oficialmente autorizadas a estudar. Lise Meitner, a segunda mulher a obter um Ph.D. em física na Universidade de Viena e, segundo muitas opiniões, bem merecedora de um Prêmio Nobel. A bacteriologista Lydia Rabinovitsch-Kempner em Berna. A filósofa política Simone Weil. Hannah Arendt, que brilhou em Königsberg, Marburgo e Heidelberg. Também em Heidelberg, a acadêmica de medicina Rahel Goitein Straus e a historiadora Selma Stern. Judias alemãs e austríacas foram as pioneiras deste avanço feminino nas ciências; muitas logo se seguiram, inclusive a biofísica britânica Rosalind Franklin.

Em Tempo e Atemporalidade discute-se como olhar para o passado sem se perder no presente. O que realmente é atemporal?

A História dos Judeus não é agradável. Há muito sofrimento, escravidão, perdas, espoliação, perseguições religiosas, genocídio; como dizem os autores, é uma história com ‘mais vítimas que heróis’.

Mas a história deve ser contada pelos perdedores também.

Cada judeu que sobrevive carrega consigo todos os seus ancestrais, mas cada indivíduo é único.

“Cada Alma é um Mundo Inteiro”.

No último Ensaio, Cada pessoa tem um nome; ou os judeus precisam do judaísmo?, mergulha-se na abstração do termo ‘Judaísmo’, na identidade judaica coletiva e no maior empreendimento linguístico dos últimos tempos, o Hebraico Moderno, que durante o século XX passou a ser falado por mais de 10 milhões de pessoas.

Recomendo a leitura para quem tem afinidade com o tema.

Você pode gostar de:

Bate-papo – Valores Judaicos e Outras Coisas

 

 

 

 

 

 

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7 comentários em “O Mundo Vai Girando Cada Vez Mais Veloz”

  1. Oi Meire!
    Tô tentando (e conseguindo) caminhar mais devagar em relação aos estudos, tanto os oficiais quanto os por lazer, mas olha… Ainda é muito frustrante hahahaha é doido porque tenho consciência de que esse é o ritmo mais saudável e mais proveitoso, mas a comparação é inevitável quando entro em redes sociais. Volta e meia deleto o app do Instagram quando acho que não tá me fazendo bem 😂
    Caminhar devagar pra caminhar sempre tá sendo meu lema de vida. Sobrou até pro japonês: de 4 anos minha meta passou pra 10 e ansiedade zerou kakakaka (inclusive se possível faça um post sobre como Igor estuda pfvr🙏)
    Nas leituras uma tendência que tô tendo é ler várias coisas ao mesmo tempo, conforme sinto vontade. Mas me deixa meio angustiada não terminar tudo super rápido que nem antes. Meio louco ter essa sensação de obrigatoriedade com algo que é lazer.
    Enfim, adorei o post. Não conheço quase nada sobre o povo judeu, são um mistério pra mim em termos culturais. Minha lembrança mais forte (além das aulas de história) é uma ilustração na Bíblia de adolescente sobre uma casa no velho testamento e a rotina de uma esposa judia. Nem sei se era datada, não tinha referência e era material cristão, ou seja, zero confiável. 🤣
    Obrigada por compartilhar!

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  2. Oi, Meire! As redes sociais me deixam assim, ansiosa, por isso não participo mais de nenhuma e evito até acessar. Fico feliz que alguns blogueiros, tipo você, estejam mantendo a tradição viva e ainda postem fora da bolha. Obrigada!
    Quanto ao comentário anterior, uma coisa que me desanima é quando vou ler um post e ele é curtinho, hahaha. Eu quero é que a pessoa desenvolva o assunto, encha de parênteses, cite leituras semelhantes…
    Além dos blogs, outra coisa que sigo ultimamente são newsletters. Estou adepta do slow blog.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Segurando as lágrimas após ler esse post…
    Estava conversando ontem com meu marido sobre como estava angustiada com a forma que a velocidade das informações tem mais limitado e prejudicado do que auxiliado. É claro que muito de fato por escolha de quem manuseia as informações. Somos e estamos ávidos por conhecimento, mas na era das redes sociais me parece tudo tão supérfluo e o supérfluo é que tem fama, status e poder. É bem desanimador para ser sincera.
    Escrevi um post essa semana sobre nós mulheres e meu marido inocentemente indagou ao fim da leitura: não está muito longo para um post?
    E eu respondi: e tem limite para tal? Quem precisa ditar minha escrita sou eu. É o meu espaço de escrita. E se preciso me limitar e caber em regras não explícitas, mas socialmente incapacitantes, então estou no lugar errado. Mas não creio nisso. Posts sempre foram desde sempre para aqueles que apreciam ler. Ler cada palavra, saboreando-as. Pelo menos, é assim que faço. Se for preciso, releio.
    E ele ao fim meio controverso concordou…rsrs
    Creio que estamos o tempo todo tentando caber em espaços que tentam limitar nossas palavras, cabe a nós não permitir que elas sejam caladas.
    Obrigada pelo post Meire. Precisava de cada palavra. E lerei o livro que parece ser esplêndido.

    Curtido por 1 pessoa

Obrigada pela visita ;)

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