De pés descalços e subindo pelas escadas

Por @meire_md

“Quando a Idade do Gelo chegou ao fim, todos os nossos parentes próximos estavam extintos, deixando os seres humanos modernos como a única espécie sobrevivente da linhagem humana“ (A História do Corpo Humano, de Daniel E. Lieberman)

Meu marido adora andar descalço, coisa que ele faz em locais públicos e privados sem a menor cerimônia.

Você se imagina andando descalço a maior parte do tempo?

Além de esperar que a pele fique mais queratinizada e mais resistente ao atrito e calor, para voltar às origens e andar descalço por aí você precisará ter a autoestima em dias e cultivar uma boa dose de tô-pouco-me-lixando, porque os olhares inquisitores surgem de todos os lados.

Possivelmente isso ocorre porque pés descalços simbolizam a pobreza extrema. Ninguém espera que uma pessoa circule descalça em um shopping não praiano ou na festa da firma.

Por mais esquisito que isso pareça, trata-se do resgate de um hábito ancestral defendido por Daniel Lieberman, professor do Departamento de Biologia Evolutiva Humana da Universidade de Harvard e autor de ‘A História do Corpo Humano‘, um dos meus livros favoritos da vida.

A História do Corpo Humano

O livro tem 495 páginas e a leitura é muito fluida, porém as abordagens podem parecer confusas e até pouco factíveis para quem não foi corretamente exposto à Teoria da Evolução. 

Se você pretende aproveitar melhor ‘A História do Corpo Humano‘, talvez seja interessante ler ‘O Gene Egoísta’ (Richard Dawkins) antes. 

A despeito de ser um livro antigo, ‘O Gene Egoísta‘ permanece como uma forte referência da área. Outro livro que pode ser bastante útil para formar um entendimento sobre a Teoria da Evolução é o ‘Darwin Sem Frescura‘, dos brasileiros Pirula e Reinaldo José Lopes.

Bem organizado e didático


A Parte I de A História do Corpo Humano descreve de modo detalhado as pressões ambientais que impulsionaram o início do bipedalismo e as que  garantiram o desenvolvimento do nosso cérebro e corpo até sermos capazes de colonizar/dominar o mundo combinando inteligência e força.

Essa longa e rica parte é uma compilação da experiência de 20 anos do autor como professor universitário.

Fiquei bem satisfeita por ter tido a oportunidade de atualizar, reorganizar, confirmar e principalmente complementar meu conhecimento sobre Evolução Humana.

Não conheço a voz do autor, mas tive impressão de ouvi-la. Não sei vocês, mas me sinto muito grata e privilegiada quando tenho a chance de receber tanto conhecimento quase de graça.

Algumas partes podem parecer repetitivas, mas é assim mesmo que bons professores atuam.

Na Parte II entramos no neolítico, quando a vida do Homo sapiens passa por pressões muito mais súbitas do que as até então impostas.

Revoluções Culturais e Lixo Genético

“As habilidades para rastrear um animal podem estar subjacentes às origens do pensamento científico”

As duas grandes revoluções culturais que ocorreram desde que saímos da Era do Gelo – agricultura e revolução industrial – fizeram com que alguns dos produtos e subprodutos da nossa lenta evolução emergissem imputando prejuízos à saúde do homem moderno.

Os indivíduos que são munidos de variações genéticas aleatórias que eventualmente promovem uma melhor adaptação ao meio tendem a ter maior sucesso reprodutivo e, assim, transmitem mais facilmente a sua carga genética às gerações seguintes.

Não somos uma espécie pronta. O processo evolutivo é constante.

O nosso DNA está empanturrado de lixo genético decorrente das mutações ao acaso e variações que foram úteis para nossa sobrevivência num passado remoto, mas que para o meio em que vivemos hoje não são úteis ou podem até ser deletérias, como a tendência a acumular gordura na região do abdome, por exemplo.

Por outro lado,  muitas de nossas habilidades e até a resistência a  algumas doenças podem ser subprodutos de adaptações anteriores.

À luz da evolução


O autor defende que condições como Hipertensão Arterial Sistêmica, síndrome metabólica, câncer do sistema reprodutivo, lombalgias, fasciíte plantar, obesidade, miopia, pé chato, diabetes tipo II, alergias, doenças por desuso e tantas outras podem ser melhor compreendidas quando estudadas sob a ótica evolucionista.

Faz sentido.

Em um passado distante mantínhamos nossa musculatura trófica às custas de exercícios aeróbicos e de carga – um caçador coletor chegava a andar 16km por dia, muitos dos quais carregando um animal nas costas -, andávamos de pés descalços e só sobrevivíamos a uma infecção caso nosso sistema imunológico respondesse.

Nossa visão evoluiu com atividades ao ar livre e sem a demanda de leitura que temos hoje e mulheres engravidavam muito mais vezes do que engravidam atualmente.

Os hábitos de vida do ser humano mudaram muito em um intervalo bastante curto de tempo (considerando nossa história evolutiva), o que possivelmente gerou um choque adaptativo.

A nocividade da vida contemporânea


Na Parte III o professor explica de forma muito acessível para leigos como a vida atual, caracterizada por alimentação inadequada e sedentarismo, tem nos deixado doentes.

Aqui você pode compreender como nosso corpo armazena e utiliza energia, como a Diabetes tipo II se instala, recebe uma excelente aula sobre a multicausalidade da obesidade e entende como a osteoporose e alguns cânceres se processam.

Os incômodos da comodidade


Daniel Lieberman finaliza a obra apresentando como as comodidades da nossa vida – seja usar um elevador, um sapato macio ou uma cadeira confortável – contribuem para a epidemia de dor crônica que o mundo vem enfrentando.

Por fim, A História do Corpo Humano questiona sobre como tirar as pessoas da inércia física e da alimentação processada e propõe algumas soluções.

Oitenta e cinco páginas do livro são destinadas à bibliografia, notas do autor e a um índice remissivo muito bem detalhado.

É um livro sobre Evolução Humana tão estimulante quanto Sapiens, do Yuval Noah Harari.

Ô dupla, viu.

Recomendo fortemente.

Beijo,

Meire

2 comentários em “De pés descalços e subindo pelas escadas”

  1. Vou botar na minha listinha! Acho que vai passar na frente de outros por estar alinhado com minhas metas de alimentação e exercício físico. Tô doida pra ler o dos telômeros também.

    Ando muito descalça, inclusive uma das histórias que eu mais ouvia quando criança era de como eu quando era muito muito pequena não podia ficar sozinha na roça porque jogava as sandálias pela janela, pra desespero de todo mundo por causa de escorpião e correr atrás dos cachorros quando eles pegavam. 🤡🤣🤣🤣

    Enquanto essa história chega a minha geração de primas mais novas, tô aprendendo a passar menos vergonha em lugares públicos – ainda não atingi elevação espiritual suficiente pra não importar nem com a sujeira nem com os olhares – porque se a sandália sai do pé e eu sentei, eu vou ficar descalça. Não posso mais ir pro médico(que é o único lugar que a gente vai hoje em dia né) de sandália por causa disso Kkkkkkkk

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