Cândido (ou mais um post destinado a flopar)

Por @meire_md

“Entende perfeitamente de tragédias e livros; escreveu uma tragédia que foi vaiada e um livro cujo único exemplar a sair das prateleiras de seu livreiro foi aquele que me dedicou.” (comentário de uma personagem parisiense sobre um sábio não reconhecido em sua época)

O filósofo Voltaire (1694-1778) foi defensor, dentre outras bandeiras, da Justiça, da Razão e da Dignidade Humana.

Ele ficou conhecido entre seus pares como detentor de um humor sagaz e, embora não tenha sido ateu, foi um grande crítico das religiões organizadas.

Cândido, ou O Otimismo’ foi escrito em 1759, quando Voltaire já estava com 65 anos de idade.

Trata-se de uma sátira em formato de novela composta por trinta capítulos tragicômicos organizados em ordem cronológica e narrados em terceira pessoa.

O início da saga

A história parte da adolescência de Cândido, um garoto doce e ingênuo que vivia de favor no Castelo de barões alemães e recebia a educação do Professor Pangloss, um filósofo otimista de raciocínio enviesado que defendia que não há efeito sem causa – o nariz, por exemplo, teria sido feito para sustentar os óculos – e de que vivemos no melhor dos mundos possíveis.

Surpreendido beijando a bela Cunegundes, a filha caçula dos barões, Cândido foi expulso da morada aos chutes e juntou-se ao exército búlgaro.

“De fato, se Colombo não a houvesse apanhado numa ilha da América, esta doença que envenena a fonte da geração, que muitas vezes impede até mesmo a geração e que é evidentemente o oposto da grande finalidade da natureza, não teríamos nem o chocolate, nem a cochonilha” (Pangloss, vendo o lado bom da doença que o acometeu, possivelmente a Sífilis)

A experiência de Cândido com toda sorte de desgraças como espancamentos por motivos fúteis, pena de morte e inúmeras perdas materiais e afetivas se repetem ao longo da história, que é entrelaçada com momentos cômicos e desenrola-se em três continentes.

Conhecendo a natureza humana

Sua jornada ao conhecimento da natureza humana começa nos arredores da Alemanha, segue por outros países europeus, passa pelas Américas –  o que  inclui uma interessantíssima e imperdível hospedagem na lendária Eldorado citada por Umberto Eco – e termina na Transilvânia, à época parte do Império Otomano.

Os diversos personagens se encontram e desencontram por uma série de intercorrências desagradáveis, incluindo estupro, estripamento, enforcamento e mortes que não foram de fato mortes.

A história expõe hipocrisias da classe religiosa dominante, os horrores das guerras, a maldade dos homens e sua natureza selvagem, mas também demonstra os atos de bondade que podem surgir em favor de pessoas que estão em  situação de penúria.

Enquanto passava pela América do Sul, o pupilo do otimismo inveterado teve contato com distintos modos de vida e chegou a presenciar o bestialismo e  o canibalismo.

Quem leu percebeu?

Em um certo momento da expedição o livro deixa as mazelas físicas de lado e passa a lecionar os valores mais caros à Voltaire.

Foi aqui que percebi a maturidade da obra.  Captei seis grandes diálogos; caso você tenha sido impactado por outros, quero saber.

O primeiro deles, na minha opinião, ocorre no momento em que Cândido chora e ensaia renunciar ao otimismo quando presencia o relato de um homem preto que discorre sobre a escravidão e de como foi vendido pela própria mãe, que nutria esperança de que servindo aos brancos ele teria uma vida melhor.

Pensar que essa sensível dramatização humanista aconteceu no século XVIII aqueceu meu coração.

Um segundo importante diálogo foi protagonizado pelo velho Martim, o segundo companheiro de viagem do protagonista, e versa sobre a maldade humana.

Em Veneza somos surpreendidos com um diálogo sobre dignidade humana e prostituição, estrelado pela Srta. Paquette, antiga criada de Cunegundes e na ocasião amante de um Padre.

Ilustrando fortemente o quanto Voltaire enxergava as coisas por vários ângulos, o  quarto diálogo que aqui listo como muito relevante refere-se ao sofrimento de homens forçados à vida paroquial. Confesso que eu nunca havia pensado nisso até ler Voltaire.

“Cândido, que tinha sido educado para nunca julgar nada por si próprio, estava muito surpreso com o que ouvia. Martim achava o modo de pensar de Pococurante bastante razoável.”

O quinto grande diálogo me remeteu bastante ao humor britânico de hoje e ocorre também em Veneza, quando o Sr. Pococurante tece críticas a várias obras clássicas e às manifestações de teatro e arte em geral.

Ao final de mais um de tantos golpes financeiros sofridos, Cândido segue para Constantinopla e o grupo original aos poucos vai se reencontrando.

“O trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade.”

O sexto importante diálogo, em  minha opinião, é protagonizado pelo bom turco, um essencialista rural que faz com que todos quebrem um importante paradigma e mudem significativamente os seus modos de vida.

Recomendo a leitura de ‘Cândido, ou O Otimismo’ .

É um livro pequeno, clássico e com muita substância.

Beijos.

2 comentários em “Cândido (ou mais um post destinado a flopar)”

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