Mulheres Confiantes

Por @meire_md

Afinal, ela estava dirigindo um carro rosa-shocking. Tinha uma van com 38 cachorros. Não seria a tarefa mais difícil do mundo, certo? Um porta-voz do FBI disse a jornalistas, cheio de confiança, que encontrar Margaret seria como encontrar “um elefante num monte de neve” (Mulheres Confiantes, de Tori Telfer)

As mais de trezentas páginas lidas tão rápido quanto as fugas de Margaret Lydia Burton colocaram ‘Mulheres Confiantes’ na minha lista de livros favoritos.

No geral as pessoas não esperam que mulheres ‘trabalhem’ como golpistas porque isso soa como uma aberração da natureza, já que o senso comum trata mulheres como se fossem robôs feitos em série – maternais e sempre empáticos -, quando de fato há um bom contingente de mulheres manipuladoras operando livremente por aí. 

As redes sociais estão cheias de mulheres que odeiam e perseguem não só seus ex-companheiros, como pessoas que mal ou nem conhecem. Quando estamos diante de mulheres sendo agredidas virtualmente, percebemos que boa parte dos agressores é do sexo feminino. 

É dessa laia de gente que não se importa suficientemente com os sentimentos dos outros que saem os golpistas e as golpistas. 

Como escrevi no post ‘Mulheres Assassinas’, desconsiderar a capacidade criminosa do sexo feminino nada mais é, em minha opinião (que isso fique bem claro), mais uma manifestação de machismo.

Mulheres ‘gênios do crime’ e mulheres perversas em geral existem em número percentualmente expressivo em quaisquer classes sociais. 

As visões distorcidas facilitam muito o trabalho das trapaceiras, mas nada é tão útil para elas como a concepção de que uma vida de bonança torna as pessoas honestas e confiáveis e que a pobreza justifica crimes tipicamente perpetrados por mentes antissociais.

Para muitas trapaceiras não é preciso mais do que uma bolsa de grife e um cabelo bem penteado para parecer rica e independente (quem seria olhada com desconfiança usando uma bolsa da Chanel?), roupas sensuais para conseguir arrancar dinheiro fácil de homens ainda mais fáceis, fingir um desmaio ou apresentar um atestado para adiar uma audiência judicial, planejar uma gravidez para fisgar um milionário ou colocar-se como vítima de uma tragédia qualquer para conseguir atenção e dinheiro. 

A lista de golpes que exigem um esforço pequeno para o lucro esperado é imensa. Golpistas sabem exatamente como vampirizar suas vítimas porque são hábeis em ler seus pontos fracos.

Da mesma forma que ocorre com homens, para uma mulher ser golpista ela precisa de um pré-requisito que a maior parte das pessoas não têm: possuir um grau de perversidade maior que o ‘normal’.

No geral os trapaceiros não são fisicamente violentos, mas há exceções e elas não foram esquecidas por Tori Telfer, a aclamada autora de Lady Killers

Mulheres Confiantes

De modo diferente daquele pintado no filme ‘As Golpistas’, no qual mulheres que deliberadamente drogam homens para roubá-los, usam o produto do saque para comprar itens luxuosos e torram centenas de dólares com a mesma facilidade que eles entram em seus bolsos são retratadas com glamour, Tori Telfer expõe as personalidades reais das mulheres golpistas e até onde estão dispostas a ir para espoliar suas vítimas, incluindo assassinar uma mulher idosa e descartar seu corpo em uma lixeira.

O mundo inteiro está repleto de mulheres com histórico de uma infância sofrida, que levam uma vida digna, trabalham oito horas por dia ou mais por um salário diminuto, dividem-se em três para cuidar da casa, dos filhos e de parentes idosos e nem por isso se voltam para o crime.

Claro que há exceções, mas mulheres de boa índole tendem a apurar mais ainda sua empatia quando passam por experiências dolorosas. 

Não consigo rir de histórias que envolvem ladras e acredito que isso ocorre porque sou uma pessoa vinda de família com baixo poder aquisitivo (nossa vida melhorou quando eu já era adulta), atendo pessoas que vivem em condições sociais bastante desfavoráveis desde antes de completar 20 anos e nunca fui seduzida pelo mito nutrido pela classe bem escolarizada de que pobreza é causa de mau-caratismo ou transforma alguém em um matador por motivo fútil. 

Trapaças e outros crimes perpetrados por gente pouco ou nada empática são bem diferentes de um furto de alimento ou outro crime não violento que resulta em subtração de algo de pouco valor em um momento de desespero, mas ainda assim, a maior parte das pessoas em condição de pobreza e que se vê sem fonte de renda e sem o suporte material do Estado estende a mão e pede ajuda antes de pensar em lesar terceiros. 

‘Só ele deu para roubar’ é uma frase saída da boca de mães pobres decepcionadas com o filho que se desgarrou dos ensinamentos recebidos mas que cuidam em demonstrar que os outros filhos não trilharam o mesmo caminho.

Mulheres para todos os lados

O livro foi publicado no Brasil pela editora Harper Collins, que desenvolveu uma belíssima edição em capa dura onde o roxo predomina. 

O texto foi traduzido por Paula di Carvalho e as ilustrações são de Carolina Abreu.

Tori Telfer esquartejou as mulheres nos seguintes grupos: As Glitterati, formado pelas sedentas por glamour e que escolhem vítimas com maior poder aquisitivo; As Videntes, formado pelas golpistas religiosas, cuja crueldade é uma marca registrada, pois as pessoas são espoliadas justamente no momento em que estão mais vulneráveis emocionalmente ou doentes; As Fabulistas, formado pelas que mentem em tantas camadas que findam assumindo outra vida – incluindo as tragediennes, que se apropriam de tragédias de terceiros para angariar fundos em vaquinhas e outras doações – e, por último, mas não menos importantes, As Fugitivas, com destaque para a abusadora e assassina Sante Kimes.

Os retratos de Tori são perfeitos e a leitura de Mulheres Confiantes é intelectualmente estimulante.

Aprender a reconhecer estas pessoas pode nos ajudar a reduzir a chance de ser uma vítima delas.

Obs.

Na página 151 há um pequeno erro de edição e a última frase foi publicada de modo incompleto. 

A Marina Smith fez a delicadeza de consultar sua edição para Kindle e me passou o restinho da frase.

Onde se lê: “Muito melhor ignorar todas as evidências e acreditar que a história foi gentil, que os homens tiveram mise-”, leia-se “Muito melhor ignorar todas as evidências e acreditar que a história foi gentil, que os homens tiveram misericórdia e que as princesas sobreviveram”

Comuniquei o achado à Editora e eles foram muito gentis, verificaram que houve erro em um lote dos livros e reportaram que farão a correção.

 

Beijos,

Meire

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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