Mulheres Assassinas

Por @meire_md

Já mencionei em posts anteriores que gosto muito de mergulhar em tópicos de criminologia, sobretudo quando são fortemente relacionados à psiquiatria.

Um dos meus temas favoritos em psiquiatria são os transtornos de personalidade. O interessante é que minha curiosidade é ligeiramente inexplicável, porque vai muito além do fato de ser médica.

Isso é um passatempo um tanto bizarro, concorda aquela que está com ‘Ted Bundy‘ de Ann Rule (Dark Side) na cabeceira. Percebo que este tipo de leitura me ajuda a entender melhor o mundo ao meu redor e prever com boa margem de segurança como devo esperar que as pessoas se comportem.

Sinto que ler sobre a maldade humana vai abatendo minha tendência a acreditar demais nas pessoas e me ajuda a não baixar a guarda.

Preciso provocar a todo tempo a minha mente para que ela não esqueça que uma parte dos seres humanos é essencialmente má.

Leio com medo, mas leio.

Qual o motivo do sucesso de séries e filmes que exploram crimes hediondos?

Séries e filmes com temáticas que exploram crimes brutais e assassinatos em série costumam fazer sucesso entre pessoas sem qualquer perfil violento, como eu, por exemplo.

Por quê pessoas tranquilas, pacíficas e ordeiras desenvolvem fascínio por histórias reais ou ficcionais que envolvem pessoas com transtorno de personalidade antissocial?

Há quem defenda que a curiosidade acerca da mente criminosa é um sintoma do nosso instinto de sobrevivência. Aprender a identificar essas pessoas poderia, em tese, servir como aprendizado.

Em minha impressão isso parece bastante plausível. É como se meu cérebro tendesse a esquecer que há gente demoníaca no mundo porque confio demais nas pessoas.

Como entender a mente de uma serial killer de bebês?

O estudo da mente criminosa começou a se aprofundar tecnicamente a partir da década de 80, mas até hoje há quem pense que não existem serial killers do sexo feminino.

Isso pode ser um pensamento com raízes machistas, pois parte do princípio que a mente feminina não seria capaz de articular planos sofisticados que incluem a perpetração de um crime bem elaborado.

Como as mulheres psicopatas são muito hábeis em matar com suavidade e dissimular a autoria, no geral só são pegas quando já ceifaram muitas vidas, incluindo as de parentes.

Tenho uma certa repulsa de quem defende que fulano (a) mata em série exclusivamente porque sofreu abuso na infância.

Em minha opinião de pessoa que acompanhou pacientes abusados, esse tipo de leniência é um total desrespeito às vítimas de abuso infantil.

Podemos, parece que sim, defender que a carga genética tenha um peso muito importante na gênese do mal e que há variáveis ambientais e gatilhos que podem, em conjunto, ‘criar’ um serial killer.

Não acredito que sem uma carga genética significativa uma mulher seja capaz de dar um pouco mais de veneno a um idoso inocente que está se afogando nas próprias fezes ou a assassinar bebês e descartá-los como se fossem lixo.

Acreditar que alguém se transforma em psicopata porque nasceu pobre ou porque sofreu negligência na infância é coisa de quem acha que bondade está relacionada à riqueza e à “vida perfeita”. Isso não   é só elitista. É cruel.

Dentre pessoas que nasceram e viveram em bonança há demônios e a  maioria das pessoas que passou por horrores inimagináveis na infância não se transforma em assassinos.

Defender inexistência da gênese do mal como um caráter herdado é esquecer a quantidade de crimes perpetrados por pessoas sem barreiras ambientais significativas e glamourizar a riqueza como fonte de empatia e retidão.

O número absoluto de pessoas com personalidade antissocial provenientes de classes sociais desfavorecidas será sempre maior do que os nascidos em ‘berço de ouro, isso é logico. Ricos/multimilionários são uma parcela muito menor da população.

Eu arriscaria até afirmar que proporcionalmente há mais antissociais ricos do que pobres, pois dentre eles há inúmeros golpistas de sucesso.

Ricos ou pobres, homens ou mulheres, estes tipos são monstros e merecemos que os que perpetram crimes sejam isolados da vida em sociedade.

Lady Killers, de Tori Telfer

A escritora Tori Telfer tem formação em redação criativa e tem experiência com edição de revistas infantis.

Recém li seu novo livro, ‘Mulheres Confiantes‘, que traz histórias reais de mulheres golpistas e logo mais publicaremos a resenha.

Lady Killers passeia pela biografia de quatorze mulheres monstruosas sem exibir a complacência injustificada de certos autores, mas sem desumanizar as mulheres.

Embora existam monstros entre nós, somos todos humanos.

Apesar do tema sombrio, a leitura é leve e fluida porque não foca em aspectos técnicos.

A edição brasileira é mais interessante que as gringas pois traz uma galeria com a história de outras 14 mulheres e uma lista de livros que Tori sugeriu a pedido da Dark Side.

Lista dos livros favoritos de Tori Telfer

📔 Infamous Lady: The true story of Countess Erzsébet Barthory, de Kimberly L Craft

📔 A Condessa Sangrenta, de Alejandra Pizarnik

📔 Erzsébet, de Nunsky

📔 Mary Ann Cotton: Britain’s first female serial killer, de David Wilson

📔 The Good-bye Door: The incredible True Story of the first female serial killer to die in the chair, de Diana Britt Franklin

📔 Black Widow: Tillie Klimek, de Cara Davidson

📔 A contemporary narrative of the Proceedings Against Dame Alice Kyteler: Prosecuted for Sorcery in 1324, de Richard de Ledrede

📔 Kate Bender, the Kansas Murderess: The Horrible History of an Arch Killer, de Allison Hardy

📔 Tiszazug: A Social History of a Murder Epidemic, de Béla Bodó

📔 The Angel Makers, obra de ficção histórica de Jessica Gregson

📔 The Affair of the Poisons: Murder, Infanticide, and Satanism at the Court of Louis XIV, de Anne Somerset

📔 Serial Killers: Anatomia do Mal, de Harold Schechter

📔 Arquivos Serial Killers, de Ilana Casoy

📔 O Teste do Psicopata, de Jon Ronson

📔 A History of Evil in Popular Culture, editado por Jody W. Pennington e Sharon Packer

📔 Femme Fatale: Images of Evil and Fascinating Women, de Patrick Bade

📔 Serial Killers: Death and Life in America’s Wound Culture, de Mark Seltzer

📔 Mindhunter: O Primeiro Caçador de Serial Killers Americano, de John Douglas e Olshaker Mark

📔 Female Serial Killers: How and Why Women Become Monsters, de Peter Vronsky

📔 Women Who Kill: Profiles of Female Serial Killers, de Carol Anne Davis

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🗒 Serial Killers Anatomia do Mal

Beijos,

Meire

 

Uma consideração sobre “Mulheres Assassinas”

  1. Uau Meire, vou ter que reler esse post porque possui muitas nuances sociais… minha cabeça já está explodindo pensando nas possibilidades de milhões de narrativas🤔❤️

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