Abuso Sexual

Por @meire_md

“É como se os fantasmas tomassem anabolizantes”
(Malcom Montgomery)

Enquanto ‘folheando’ o Instagram, cai na página de um digital influencer brasileiro que foi investigado por um suposto crime de pedofilia.

As investigações e a perícia técnica não revelaram provas  que corroborassem a denúncia, portanto é possível que ele seja inocente.

Os pagamentos em dólar do grande canal outrora milionário que o rapaz mantinha no YouTube foram substituídos por doações de seguidores.

Abuso sexual envolvendo crianças é algo tão desprezível que mesmo que o youtuber seja inocente será alvo de repulsa pelo resto da vida.

Se o instinto de proteção às crianças é tão forte na espécie humana ao ponto de presumirmos que um denunciado supostamente inocente não vai conseguir se desvencilhar da condenação eterna das pessoas, por que o abuso sexual infantil é tão frequente?

Que espécie é essa que mais viola do que protege os seus filhotes?

Frequente e disseminado

Pais, mães, tios, primos, babás, padrastos, madrastas, avós, professores, cuidadores, padres… A lista dos possíveis predadores infantis é infinita.

Crianças abaixo da linha da pobreza ou tão ricas quanto é possível ser são molestadas por adultos dos quais espera-se proteção com frequência bastante similar.

À Flor da Pele

Malcolm Montgomery, médico especialista em ginecologista e obstetrícia com ênfase em sexualidade e reprodução humana, é autor de ‘Mulher’, a obra que deu origem à minissérie homônima da Rede Globo e de ‘Era uma vez a Menopausa’.

Após apaixonar-se por uma mulher sobrevivente de abuso sexual incestuoso e, de certa forma, falhar em lhe proporcionar ajuda, Dr. Montgomery passou a estudar mais o tema.

Com a morte da ex-companheira, ele se sentiu na obrigação de compartilhar o conhecimento adquirido e o resultado foi o pungente livro ‘À Flor da Pele’.

A obra tem traços autobiográficos e, por isso, por vezes o assunto é tratado de modo passional  – o que não é ruim, sobretudo sendo o tema tão espinhoso.

“É mais honesto ir direto ao assunto. Existem famílias predominantemente saudáveis e famílias
predominantemente doentes”

Infelizmente


Durante os anos em que atuei em clínica privada, atendi menino abusado por babá, menina abusada por avô e até hoje lembro com certo pesar de uma garota adolescente abusada sob o olhar negligente de outros cuidadores.

Os conselhos tutelares fazem um bom trabalho, mas infelizmente não é suficiente. Não é possível colocar um fiscal no seio de cada família, onde o pior acontece.

Dr. Malcolm coloca o dedo na ferida e desfere golpes em famílias formadas por gente que não tem a menor condição de colocar outro ser humano no mundo e no moralismo hipócrita que reprime o desenvolvimento sexual do adolescente ao mesmo tempo em que induz a criança a uma sexualidade precoce.


“Assim, a mensagem que o incesto coloca no outdoor da parede do quarto infantil é: sua vida sexual não é sua, sua sexualidade não lhe pertence, seu corpo não é seu (…) antes da menina ter tido a chance de se desenvolver em etapas sucessivas de sentimentos, curiosidades e experiências, a sexualidade adulta é imposta a ela goela abaixo”

Pai X Filha

Amazon Brasil


Considerando que as mulheres são as principais vítimas e os pais os principais perpetradores, ‘À Flor da Pele‘  filtra o tema e o centra no incesto pai-filha.

É doloroso perceber que uma parte das mães age como cúmplice, seja por agredir a filha que busca ajuda e chamá-la de mentirosa ou por muito perceber e nada fazer.

Certamente há casos nos quais a mãe é dependente economicamente do perpetrador e se sente paralisada e isso foi muito bem levantado por Danielle Silvestre, Assistente Social e produtora de conteúdo de Beleza que recém produziu uma série de vídeos sobre Abuso com o olhar técnico de quem fez pesquisa de campo sobre o tema.

Realmente é preciso destacar que embora muitas mães pareçam tão criminosas quanto o companheiro que escolheram, outras certamente são vítimas de um ambiente selvagem  e se utilizam de mecanismos de defesa para fugir da realidade.


“(…) a depressão pode vir fantasiada com vários disfarces: obsessão pela estética corporal, mania por dietas milagrosas, perseguição pela referência da mídia”

Consequências permanentes


O livro discorre muito sumariamente acerca das consequências psicológicas do abuso ilustrando-as com depoimentos de pacientes não identificadas.

Pesadelos, fobias, angústia, depressão, sensação de abandono e desamparo, depressão, medo de aglomerações, atitudes autodestrutivas, isolamento social e ninfomania são, conforme suas observações, sequelas comuns.

Dr Malcolm defende que a abordagem do tratamento destas mulheres precisa ser tripla, envolvendo psicotrópicos, psicoterapia individual e terapia de grupo.

Embora o livro tenha sido escrito em 2005, o tratamento multidisciplinar que o profissional já defendia permanece sendo o padrão-ouro para o manejo das nefastas consequências do Abuso sexual infantil.

É um bom livro para quem quer entender esse tipo bizarro de crime, para quem percebe algo estranho ocorrendo no ninho familiar, por quem passou por este tipo de experiência ou convive com uma pessoa sobrevivente dela e também para profissionais da área de saúde e outros que lidam com mulheres.

Meire

 

 

 

 

 

 

 

 

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3 comentários em “Abuso Sexual”

  1. Infelizmente a maioria dos abusos é perpetrada por alguém familiar, a maioria esmagadora. Quem devia proteger é o algoz. Mais absurdo, ainda, pensar em pais abusadores e mães coniventes.

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  2. Excelente post Meire. Não conhecia esse livro, já vou colocar na lista de leituras. A scielo tem um compilado muito bom também de artigos sobre o tema. Vale a busca. Mas é sempre um assunto doloroso. Eu tenho outros varios assuntos para abordar ainda no IGTV e ainda estou digerindo esse tema. Muito obrigada pela menção ❤️

    Curtido por 1 pessoa

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