Memórias Póstumas

Por @meire_md

“Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias,
trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente* extenso, e aliás desnecessário ao entendimento
da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com
um piparote, e adeus. Brás Cubas.”


Machado de Assis (1839 — 1908), famoso escritor brasileiro de ascendência africana, iniciou sua carreira literária aos 15 anos de idade, foi o fundador da cadeira n° 23 da Academia Brasileira de Letras e a presidiu por mais de 10 anos.

Recentemente decidi reler Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e até os dois primeiros terços do livro me diverti horrores. As tiradas são fenomenais.

O último terço é ruim? Não, pelo contrário… É denso, é profundo e triste tanto quanto pode ser uma vida abastada impactada por perdas acumuladas.

Se para você a vida é um depósito de alegrias e tristezas cujo saldo é, no geral, positivo, você perceberá que para o defunto que nos fala, também é.

A morte do Brás


Brás Cubas morreu aos 64 anos em uma sexta-feira qualquer de agosto de 1869 e, uma vez morto, decidiu escrever suas memórias em 160 capítulos meticulosamente organizados em ordem cronológica.

Com uma fortuna avaliada em 600 contos de réis  – se você descobrir quanto isso valeria hoje me conta 🤭😁 -, solteiro e sem filhos, começou a escrever o livro enquanto estava sendo pranteado e velado na presença de onze amigos e familiares.

Antes de iniciar os relatos sobre sua infância, Cubas explica aos leitores como morreu e você já é fisgado pela estranhamente engraçada junção de humor mórbido com português rebuscado.

Se você tiver apego a esse humor refinado vai captar o quando Machado de Assis é espirituoso.

“…Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.”

A vida do Brás

Nascido em outubro de 1805, Brás Cubas dedica vários capítulos à sua infância privilegiada, não poupa espaço para cada uma das mulheres que passaram por sua vida, nos apresenta seu pitoresco amigo Quincas Borba, nos carrega tanto à Europa – onde finalizou os estudos – quanto à sua intimidade amorosa e aos momentos em que vivenciou a morte de pessoas próximas.

“Fui aos alforjes, tirei um colete velho, em cujo bolso trazia as cinco moedas de ouro, e durante esse tempo
cogitei se não era excessiva a gratificação, se não bastavam duas moedas. Talvez uma.”

A escravidão, o modo de vida da sociedade, as doenças endêmicas da época e a relação entre patrões e empregados são retratados de modo muito sutil.

“Depois do almoço fui à casa de D. Plácida; achei um molho de ossos, envolto em molambos, estendido sobre um
catre velho e nauseabundo; dei-lhe algum dinheiro. No dia seguinte fi-la transportar para a Misericórdia, onde
ela morreu uma semana depois. Minto: amanheceu morta; saiu da vida às escondidas, tal qual entrara.”


Machado de Assis foi deixando o texto emocionalmente mais denso a cada capítulo; percebe-se que Brás Cubas foi amadurecendo e assumindo um ar mais autocrítico e analítico a cada hora vivida após a sua morte.

Recomendo fortemente.

Caso queira ler meus comentários sobre ‘O Alienista’, clique aqui.

Meire

Fonte da Biografia:

     Academia Brasileira

*sinônimo de exageradamente

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3 comentários em “Memórias Póstumas”

  1. AMO esse livro(Se eu fosse escolher um livro para preferido, seria esse. Gostaria que fosse “Cem Anos de Solidão”, mas ainda prefiro “Memórias..”). Já o li 3 vezes. Leitura extremamente prazerosa(ao menos, para mim).

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  2. Como sempre terminei pensando: mas já acabou? Suas resenhas são iguais aos livros que ao final desejamos que houvessem mais páginas 🙈❤️
    Leitura fácil e agradabilíssima 😊

    Curtido por 1 pessoa

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