BAND-MAID, a sua nova banda favorita 

Por Igor Santos*

Eu sempre gostei de música. Tanto que passei anos da minha vida pagando minhas contas através dela e também tenho uma formação técnica em um instrumento (e metade da mesma formação em outro que precisei interromper por motivos de saúde) e um diploma em produção musical (além de uma considerável coleção de instrumentos, de viola-de-cocho mato grossense a didgeridoo australiano, passando por percussões caribenhas e cordas árabes). Por muito tempo eu não só vivi de música, como vivi música.

Até hoje, poucas coisas me dão mais prazer que conhecer uma música nova que me deixa feliz. No entanto, há anos tenho buscado algo novo e não encontrado.

E por “novo” não quero dizer “recente” ou “moderno”, mas sim “inovador”, “diferente”, ou pelo menos algo que não faça meus ouvidos bocejarem de tédio.

Existem milhares de bandas excelentes com instrumentistas ótimos hoje em dia fazendo música de primeira qualidade, só que inevitavelmente é sempre mais do mesmo.

Nenhuma delas me excita como quando, em várias fases da minha vida, descobri Led Zeppelin, Dave Brubeck, Luiz Gonzaga, Nina Simone, Yes, Fela Kuti, Racionais MC ‘s, The Meters, Lenine, Pixies, Fritzwicky e algumas poucas outras.

Ouvido ativo

Quanto mais eu envelheço, mais eu me interesso pelo processo artístico e tenho tendência a ouvir criticamente, analisando o que consumo.

Em outro artigo  eu expus (sem muitos detalhes – a tese original tem dezenas de páginas) o nível de minúcia no qual eu já precisava processar informação para me manter interessado em música (meu TCC foi sobre “pulsos binaurais e harmonização síncrona de ondas cerebrais).

De lá para cá já vão quase vinte anos, então música tem cada vez mais me deixado decepcionado e desestimulado. Claro, existem canções que me levam a lugares inesperados, mas é raro um artista conseguir isso mais de uma vez.

Isto é, até o começo de março deste, quando descobri BAND-MAID.

BAND-MAID é tipo sal de cozinha, que  brota da reação de um vapor letal com um metal explosivo

Tentar descrever sua música é impraticável como tentar descrever uma cor nova para quem nunca enxergou.

É impossível usar palavras para classificar algo que contém pop vocal, folk, prog rock, grunge, thrash metal, levadas dançantes e compassos complexos, letras românticas e agressivas, niilistas e esperançosas, solos de pop rock, speed metal e psicodélicos, e sonetos de Shakespeare; e isso só na faixa Sayonakidori  (da primeira vez que eu ouvi essa música eu demorei mais de uma hora para chegar ao final dos seus quatro minutos e meio pois eu ficava voltando para o trecho anterior porque eu simplesmente não conseguia acreditar no que estava ouvindo).

Mas eu entendo que isso não seja para todo mundo. Do que você gosta? Baladas de piano anos 90? start over  pode ser sua porta de entrada. Ou, para outra balada um pouco mais animada, Wonderland – dificilmente você vai ouvir um par de vozes mais bonitas na sua vida (acredite, eu passei a minha procurando).

Agora, se o que você quer é uma música que arranque suas obturações, aumente o volume e ouça 輪廻/RINNE  ou Black Hole, ou até you. se quiser um pouco de pop punk no seu dia.

Por outro lado, se quiser embarcar numa jornada, tente Puzzle ou secret MY lips. Mas se só quiser dançar e cantar junto, experimente Play, REAL EXISTENCEFREEDOM  ou DOMINATION .

E, se até hoje você achava que era impossível um solo de guitarra fazer você chorar, escute Daydreaming  num canto sossegado da sua casa e preste atenção à explosão extática que a guitarra dá à emoção contida e sofrida dos vocais.

Eu não entendo japonês suficiente e obviamente também não falo guitarra, mas a mensagem emocional é evidente até na explosão dos pratos, que funcionam como o subconsciente da protagonista que precisa extravasar sua frustração.

“Horas” é a quantidade de tempo que eu poderia discorrer acerca de Daydreaming.

Mottainai – evitando desperdícios

Enquanto no tópico de solos: praticamente todas as músicas têm (pelo menos) um e absolutamente nenhuma delas tem um chato, auto-indulgente, daqueles que são colocados depois só para ocupar espaço ou demonstrar a capacidade técnica da guitarrista. Todos eles existem para elevar ainda mais a composição. O mesmo com o baixo e igualmente a bateria.

Tudo, absolutamente tudo nesta banda existe para fazer as músicas melhores.

Não há egos, apenas musicistas do mais alto nível possível, tanto técnico quanto composicional. O entendimento musical das integrantes é inigualável.

A letrista (segunda voz, guitarrista base) quando quer escrever uma música de amor lê Romeu e Julieta; quando precisa compor para a abertura de um anime lê todos os livros que serviram de base para o desenho; ela tem até um cuidado especial na hora de escrever o título das músicas, daí a variedade de combinações entre maiúsculas/minúsculas, pontuação e alfabetos – ela é uma poeta também visual.

100%

Até existem outras bandas com um ou dois integrantes com tamanha sensibilidade, mas nenhuma tem (ou teve) cinco.

Eu poderia escrever laudas e laudas sobre cada uma, individualmente, e jamais seria suficiente para descrever seus brilhantismos.

Do mesmo grupo você também vai ouvir punk hardcore, classic hard rock, rap, progressivo experimental, shoegazing, hip-hop, tropical house, peças de quatro minutos tão complexas e cheias de movimentos como uma ópera ou balé de duas horas, baladas power pop, rock latino, psicodélico e j-rock… às vezes na mesma música.

É difícil imaginar, não importa o quão boa sua imaginação seja, para qual rumo uma música vai seguir. Muitas vezes até os refrões são diferentes dentro da mesma música.

E a cada disco que lançam elas só melhoram.

Uma coisa que você nunca vai ouvir de BAND-MAID: gritaria. As vocalistas são inteligentes e talentosas demais para desperdiçar suas vozes com notas desnecessárias ou ostentativas com o único intuito de saciar a própria vaidade. A música é mais importante. Aliás, essa banda é tão inteligente em suas composições que é capaz de aumentar o seu QI só de ouvi-las.

Um presente para o mundo

São músicas criadas em quatro dimensões; você pode ouvir enquanto dirige, cozinha ou joga videogame só como ruído de fundo para lhe deixar feliz ou pode sentar e prestar atenção e nunca parar de descobrir detalhe atrás de detalhe – como fractais, que de quanto mais perto se investiga, mais complexos ficam.

É indescritível, não sei nem porque estou tentando. As canções de BAND-MAID são um presente para o mundo. Vá ouvi-las e seja feliz.

As músicas desta banda têm uma função e uma função somente: não é aparecer, mostrar como são talentosas, ganhar dinheiro ou fama e admiração.

A função que esta banda desempenha é única e exclusivamente deixar o ouvinte feliz. Não importa se estão tocando o metal mais pesado que você vai ouvir na vida ou uma melodia de voz&violão, a felicidade do ouvinte é o único objetivo realmente importante.

Eu garanto que a música de BAND-MAID vai deixar você feliz. Porque funciona comigo, e eu tenho um cérebro quebrado.

Gênios só aparecem de tempos em tempos

BAND-MAID é uma banda importante. Não só para mim ou para os fãs de música, mas para a música em geral. O que elas fazem ninguém jamais fez antes e muitos vão fazer depois delas.

Esta não é a maior banda do mundo hoje pelo mesmo motivo de terem jogado repolho em Stravinsky na estreia de Sagração da Primavera: comumente, desprezo é o preço pelo apreço em não ser preso ao comum.

*Músico formado em Engenharia e Produção Musical
Fontes das Imagens: Instagram e Youtube

Guia do Spotify🎶 para iniciantes: músicas e podcasts na mão!

 

 

 

 

 

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5 comentários em “BAND-MAID, a sua nova banda favorita ”

  1. Eu compartilho do mesmo sentimento, é uma banda unica, a guitarra lider é uma gênio musical (Kanami Tono) simplesmente não sei porque não é uma das guitarristas mais famosas do mundo, simplesmente não sei porque não é uma das bandas mais famosas do mundo, não perde em nada pra nenhuma outra banda em atividade.

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    1. Sidney, certamente elas serão lembradas como uma das bandas mais importantes desta geração mas, infelizmente, jamais alcançaram sucesso comercial. Sua música é densa demais para consumo público geral. Repetição sempre vai ser mais “confortável” para o ouvinte médio e Band-Maid parece que tem alergia a repetir frases.

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  2. Adorei a indicação!
    Mas confesso que sou super ignorante em música e não consigo identificar o que é revolucionário. O que esperar de alguém que acha Beatles legalzinho né? 🤡🤣

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    1. Arte não precisa ser revolucionária para ser boa, ou sequer ser “boa” para ser apreciada. Você gosta daquilo que lhe traz algum prazer e isso sempre será inquestionável.
      A genialidade da música de BAND-MAID tem camadas sobre camadas; o grau de complexidade depende da atenção do ouvinte. Não há nada errado em gostar só porque é dançável ou tem uma batida interessante.

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