Holocausto Brasileiro

Por @meire_md

“O fato é que a história do Colônia é a nossa história. Ela representa a vergonha da omissão coletiva que faz mais e mais vítimas no Brasil. Os campos de concentração vão além de Barbacena. Estão de volta nos hospitais públicos lotados que continuam a funcionar precariamente em muitas outras cidades brasileiras. Multiplicam-se nas prisões, nos centros de socioeducação para adolescentes em conflito com a lei, nas comunidades a mercê do tráfico.” (‘Holocausto Brasileiro‘ de Daniela Arbex)

Em 1961 o fotógrafo Luiz Alfredo fez parte da equipe de uma reportagem da Revista ‘O Cruzeiro’ que demostrou as condições desumanas sob as quais os internos do Hospital Colônia de Barbacena viviam.

Em 2008 o seu acervo fotográfico foi publicado no livro ‘Colônia‘ (indisponível) e  graças ao médico psiquiatra José Laerte, um dos volumes foi parar na mão da jornalista Daniela Arbex.

De 2009 até finalizar a escrita de ‘Holocausto Brasileiro‘ (2013), Daniela atuou como pesquisadora incansável e recolheu depoimentos não só de funcionários e ex-funcionários do nosocômio como de sobreviventes do vergonhoso episódio que ceifou a vida de pelo menos 60.000 pessoas.

Sobre o livro muito já se falou em releases e resenhas acerca da riqueza do material, da impressionante documentação fotográfica e das biografias dos sobreviventes – reconstruídas pela jornalista com sensibilidade ímpar.

Mas o  zelo pela verdade que está por trás da luta antimanicomial no Brasil, iniciada muito tempo antes que profissionais que a arrogam para si atuassem na área, parece ter passado convenientemente despercebido.

Muito embora Daniela Arbex tenha dedicado muitas páginas aos primórdios da luta antimanicomial no Brasil e ter demonstrado o incalculável papel da classe médica na batalha contra os abusos sistemáticos sofridos por pacientes psiquiátricos, isto não tem sido ressaltado em basicamente nenhuma resenha sobre o livro.

Quem foi o responsável pelo Holocausto Brasileiro?

O Hospital de Barbacena abriu em 1903 e até a entrada da década de 60 não havia médicos lá.

Psicólogos? Nenhum.

Todos os horrores que aconteceram a partir de 1920 tinham a conivência do Estado, da Igreja Católica, dos Diretores da Instituição e de seus funcionários.

Depois da década de 60 houve conivência de muitos médicos, do pessoal da enfermagem e de toda a população sadia diretamente beneficiada pelo recolhimento das pessoas doentes.

Quem deixava seu  parente  lá raramente retornava para buscá-lo.

E veio a Ditatura Militar…

Com a Ditadura Militar a situação dos internos mudou para pior.

Boa parte dos admitidos não tinha doença mental alguma porque as internações passaram a ser usadas por pessoas influentes que visavam descartar desafetos, incluindo esposas.

Os internos passaram a dormir em cima de capim; quando morriam e não eram reclamados pela família eram vendidos para Escolas de Medicina.

E ai de quem tentasse denunciar.

Os médicos vieram em um número insuficiente para atender a enorme demanda e os pacientes eram de fato tratados por pessoas sem formação em saúde. Essas pessoas decidiam quem recebia uma eletroconvulsoterapia que, no geral, era usada como punição e não raro levava o paciente à morte.

Muitos pacientes foram lobotomizados e transformados em ‘vegetais’.

Os médicos que denunciavam as condições do Hospital, muitos deles citados por Daniela Arbex, foram exonerados e perseguidos, o que fez com que cozinheiras e outros funcionários simplesmente se calassem.

Ora, se os médicos que denunciavam eram exonerados de seus cargos, o que ocorreria com uma cozinheira ou um faxineiro que tentasse fazer o mesmo?

Quando a imprensa estrangeira coloca o dedo na ferida

Às vezes, o Brasil só cria vergonha na cara quando vira manchete internacional.

Graças ao psiquiatra Antônio Simone, em 1979 o hospital recebeu a visita de um dos pioneiros da luta antimanicomial no mundo, o psiquiatra italiano Franco Basaglia.

O timing foi perfeito porque a Ditadura Militar estava esfriando e o Dr Basaglia pode prestar declarações à Imprensa e citar que: ‘Em lugar nenhum do mundo presenciei uma tragédia como essa‘.

A visita resultou em um escândalo dentro e fora do país.

O Dr Antônio Simone foi processado pelos Hospitais e seu diploma correu o risco de cassação.

E foi exatamente assim, com uma entrevista dada por um psiquiatra estrangeiro que quase custou a vida profissional de um dos nossos psiquiatras, que a luta antimanicomial no Brasil começou a caminhar.

Foucalt

Quando eu era estudante de Medicina, o movimento médico antimanicomial no Brasil já era antigo.

Como já citado, ele começou antes das visitas de Foucault ao Brasil (anos 60-70) e inclusive é sabido que  a classe médica brasileira foi digna de seus elogios.

Paguei psiquiatria na década de 90. Naquela época ainda não havia um suporte ambulatorial mínimo que desse conta da demanda dos pacientes e, pasmem, a eletroconvulsoterapia ainda podia ser feita sem anestesia.

De modo bem mais intenso do que vivemos hoje, em minha época de estudante a superlotação em hospitais psiquiátricos era realidade permanente e pessoas clamavam por internar os seus parentes porque não contavam com nenhuma estrutura para cuidar deles em casa.

Imagens que ficam gravadas na memória

Quando já médica fui escalada para um atendimento domiciliar numa residência  onde foi construída uma cela com dimensões diminutas e sem ventilação nenhuma para abrigar uma pessoa esquizofrênica.

O odor que saia da cela, cuja limpeza era feita raramente com um mero jato de água, era insuportável e me perseguiu por vários dias.

Durante trabalhos voluntários visitei um senhor em um abrigo para idosos que havia sido mantido como um animal em estado de semi-abandono, vivendo em um cercado no quintal da casa da irmã.

Antes da expansão nacional dos CAPS essas histórias não eram raras.

Muitos médicos da minha idade visitaram pacientes plenamente desassistidos que dormiam, alimentavam-se e faziam suas necessidades fisiológicas em chão de areia batida.

O avanço

Graças à evolução dos medicamentos para uso ambulatorial e ao crescimento da rede dos CAPS, onde há o valoroso trabalho dos psiquiatras, psicólogos e demais terapeutas, tem sido possível evitar a internação de uma parcela importante dos pacientes.

Discussões teóricas sobre desconstruir a loucura são tão lindas e românticas quanto estéreis.

O que parece funcionar mesmo é a abordagem multidisciplinar com atendimento ambulatorial preferencial e internamento para os casos indicados.

Quando os CAPS surgiram?

Em idos da década de 80 surgiu em São Paulo a primeira unidade dos CAPS no Brasil e ela recebeu o nome de Luís da Rocha Cerqueira, médico psiquiatra brasileiro nascido em 1911 e falecido em 1984.

Dr Cerqueira ficou conhecido por ensinar aos seus alunos que todo médico deve se voltar para a literatura afim de buscar conhecer a alma humana e a unidade que recebeu seu nome serviu de modelo para implantação de outras em todo o país.

Novos Ventos

A Lei que sedimentou a mudança do cenário sombrio da psiquiatria brasileira foi a Lei 10.216, baseada em projeto de lei proposto em 1991 pelo sociólogo Paulo Delgado, cujo incentivo partiu de seu irmão, o médico psiquiatra Pedro Gabriel Delgado.

Por questões que fogem ao escopo deste pequeno post, a lei só só foi sancionada em 2001.

Em 2002 o Conselho Federal de Medicina proibiu a prática de eletroconvulsoterapia sem anestesia e em 2004 a OAB e o Conselho Federal de Psicologia promoveram uma inspeção nacional nos Hospitais Psiquiátricos, encontrando e denunciando condições precárias em vinte e oito deles.

Cada pessoa apresentada em ‘Holocausto Brasileiro‘ merece estar ali.

Daniela Arbex, obrigada por enriquecer a História da Medicina do nosso país.

Meire

 

 

 

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5 comentários em “Holocausto Brasileiro”

  1. Os CAPS são um alento no meu coração de Assistente Social… triste não terem surgido antes… mas a humanidade da pequenos passos no seu reencontro de humanidades…. infelizmente.

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      1. Sim, pouquíssimos recursos. O campo da saúde e social são sempre muito neglicenciados, assim como da educação. Infelizmente.

        Curtido por 1 pessoa

  2. Há alguns anos li o livro da Daniela Arbex e também fiquei chocada com o que representou o Hospital Colônia de Barbacena e quantas pessoas lá sofreram:

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Obrigada pela visita ;)

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