Número Zero

Por @meire_md

‘A esperteza está em pôr antes entreaspas uma opinião banal e depois outra opinião, mais racional, que se assemelhe muito à opinião do jornalista. Assim o leitor tem a impressão de estar sendo informado de dois fatos, mas é induzido a aceitar uma única opinião (…)
(Personagem Colonna lecionando como se faz jornalismo ‘imparcial’)

O multifacetado Umberto Eco, falecido em 2016, começou a enveredar pela ficção só aos 50 anos, mas já debutou com nada mais nada menos que o fascinante ‘O Nome da Rosa’.

Gostei muito de ‘Número Zero‘, livro de ficção que me fez entender claramente as artimanhas da comunicação de massa; esta foi a melhor parte da experiência.

Aliás, algo que me encanta na ficção é a oportunidade de aprender coisas que eu não procuraria ativamente.  Quem lê ficção como vê novela não percebe isso, mas boas obras de ficção abrem vastamente a nossa mente. É só você se manter atento e aberto.

O primeiro livro de Umberto Eco que li  foi “Em que crêem os que não crêem“,  um livro pequeno mas muito denso que compila as correspondências trocadas pelo autor em meados da década de 90 com o Cardeal Carlo Maria Martini, falecido em 2012.

Meus livros favoritos dele são ‘História da Beleza‘, ‘On Ugliness’ (História da Feiúra) e História das Terras e Lugares Lendários.

‘Número Zero’

‘Existe uma ótima palavra alemã, Schadenfreude, satisfação pessoal com a infelicidade alheia. É esse sentimento que o jornal deve respeitar e alimentar’
(Personagem Simei, referindo-se ao hábito dos jornais em explorar as lágrimas de pessoas que perderam entes queridos)

Número Zero é um romance de ficção que, embora se passe em 1992 e desenterre fatos verídicos e vergonhosos da história política da Europa pós-Guerra, é de fato uma grande contribuição crítica ao jornalismo.

Como jornalista que foi, o escritor mostrou de modo ‘didático’ e bem humorado que a forma de fazer jornalismo de alguns durante a época pré-internet continua exatamente igual duas décadas depois.

Não é a toa que alguns críticos chamam o livro de um ‘manual do mau jornalismo’.

Alerta: Contém spoilers

‘(…) nosso editor vai ficar satisfeito de ver que se pode lançar uma sombra de suspeita sobre um juiz intrometido. Percebam que hoje, para contra-atacar uma acusação não é necessário provar o contrário, basta deslegitimizar o acusador’ (personagem Simei, diretor do Projeto Amanhã, o jornal criado para traficar influência)

O livro mostra os bastidores de um semanário que possivelmente nunca sairá do prelo, ou seja, que sempre será o Número Zero, pois foi concebido para ameaçar poderosos com as descobertas dos jornalistas e induzi-los a permitir que o Editor entre para um seleto clube em troca da não publicação de algumas notícias.

A redação do Jornal é entregue a um Diretor de poucos dotes literários que faz a contratação de uma equipe heterogênea para gerar notícias e previsões sobre fatos recentes e passados.

Ele também planeja aproveitar o projeto para escrever um livro – obviamente através de um ghost writer – tendo em vista que já sabe que ficará desempregado em alguns meses.

Com algumas exceções,  os fatos históricos expostos à boca pequena pelo interessantíssimo personagem Braggadocio (o conspiracionista) já haviam sido noticiados ou estavam disponíveis para consulta pública na época em que o enredo se passa.

Então, dá para presumir que Umberto Eco usou o personagem para mostrar como a memória do leitor é curta e como uma notícia bombástica faz a anterior morrer.

Mais um sistema que prejudica os bons


Outra coisa interessante que Umberto Eco ressaltou no livro é que uma jornalista com inteligência, perspicácia e cultura acima da média acaba sendo subutilizada pelos jornais por onde passa e o mesmo ocorre com um jornalista culto, experiente e habilidoso que se autodenomina ‘perdedor’ apesar de ser portador de um vasto conhecimento.

Isso ficou muito secundário na história, mas me chamou atenção pois conheço não só um, mas vários jornalistas inteligentes e capazes, mas que nunca receberam o reconhecimento que merecem.

Como enganar sem mentir (muito)


Quem ‘quiser’ saber como manipular o leitor e levá-lo a crer que está diante de algo novo ou polêmico ou induzi-lo a compartilhar a notícia com chamadas que distorcem a realidade e a tornam mais interessante, tais como inventar previsões de horóscopo, criar obituários falsos, requentar notícias para ‘encher linguiça’ ou, o melhor, como parecer alguém imparcial, encontra nesse novo romance de Umberto Eco todas as dicas.

O enredo da novela é secundário, mesmo.

Acredito que alguns jornalistas vistam a carapuça e até se irritem, mas para muitos o livro será bem engraçado.

Na entrevista abaixo, Umberto Eco esclarece que não ter sido contra o jornalismo – tampouco contra a Imprensa – e leciona sobre como deveria ser o jornalismo atual:

“depois de tudo que disse de mau sobre o jornalismo, a existência da imprensa ainda é uma garantia de democracia, de liberdade, porque especialmente a pluralidade dos jornais exerce uma função de controle.

Mas, para não morrer, o jornal tem que saber mudar e se adaptar. Não pode se limitar apenas a falar do mundo, uma vez que disso a televisão já fala.

Já disse: tem que opinar muito mais sobre o mundo virtual. Um jornal que soubesse analisar e criticar o que aparece na Internet hoje teria uma função, e até um rapaz ou uma moça jovem leriam para entender se o que encontraram online é verdadeiro ou falso.

Por outro lado, acho que o jornal ainda funciona como se a Internet não existisse. Se olhar o jornal de hoje, no máximo encontrará uma ou duas notícias que falam da Internet. É como se as rotativas nunca se ocupassem de sua maior adversária!”

Recomendo fortemente a leitura.

Aproveitem e leiam também ‘O Guia Contra Mentiras’, ótimo livro de não ficção para fazer par com ‘Número Zero‘.

Parabéns a todos os jornalistas pelo seu dia!

Beijos,

Meire