Quando Aquele Abril de Partir o Coração Desabrochou em Maio

“(…) minha mãe perdeu todos os dentes nas seis terríveis semanas que precederam a morte de Gerard” (Visões de Gerard, de Jack Kerouac)

Quando uma criança adoece gravemente todo o seu entorno se enluta e uma avalanche de medo atinge subitamente pais, avós e irmãos. Quando a condição cronifica e o sofrimento progride, a devastação emocional vai produzindo efeitos diferentes em cada pessoa.

Muitas crianças afetadas por doenças crônicas graves tendem a desenvolver uma resistência emocional impressionante.

Elas amadurecem prematuramente e, não raro, passam a ser o ponto de apoio emocional dos pais e irmãos. Enquanto passam pelas diversas fases de sua condição clínica, vão se transformando em Pequenos Sábios, lidam majestosamente com o próprio sofrimento e buscam meios de confortar a família, gerando assim um ciclo virtuoso de apoio.

Acompanhei muitas crianças sábias e elas começaram a me lapidar quando eu ainda era estudante. 

Vai dar certo, mainha, mesmo que eu não volte

Minha memória frequentemente me leva ao garotinho com Fibrose Cística que algumas horas antes de morrer chamou a todos que cuidaram dele e nos deu o privilégio de ouvir seu pequeno discurso. 

Ele sentiu a proximidade da Morte, aceitou de modo resignado o que viria e morreu como um Gigante. Quando ele disse “estou vendo uma névoa nos meus olhos”,  perguntei-me por quais mecanismos psicológicos aquele anjinho se tornou um ser humano tão resiliente e de onde havia tirado aquelas palavras.

Acompanhei uma menininha cardiopata cuja curta vida foi marcada por inúmeras internações e graves restrições físicas. Quando foi levada para o Centro Cirúrgico olhou para a mãe com a expressão serena que só um estoico alcança e disse: ‘vai dar certo, mainha, mesmo que eu não volte’.

Com esta pequena e única frase a menininha deixou claro para a mãe o alívio que estava sentindo. O seu sofrimento estava chegando ao fim, mesmo que o desfecho fosse a morte.

Se uma criança cronicamente doente não for capaz de tornar sua mãe ou pai uma pessoa melhor, nada será.

Reconstruindo a morte do irmão

Aos 4 anos de idade, o cidadão do mundo Jack Kerouac, ícone da geração beat e autor de  ‘On The Road’,  perdeu seu irmãozinho Gerard, falecido aos 9 anos. 

As memórias da tragédia deram origem ao belíssimo e comovente ‘Visões de Gerard’, um dos meus livros favoritos de todos os tempos.

Jack Kerouac (1922-1969) nasceu em Massachusetts no seio de uma família franco-canadense amorosa e embora tenha morrido precocemente, escreveu vinte e três livros, sendo 20 de prosa e 18 de ensaios, cartas e poesias.

No início dos anos 30 sua família passou por importantes dificuldades financeiras e seu pai sucumbiu ao consumo nocivo de bebidas alcoólicas, coisa que em algum momento também ocorreu com Jack.

Entre uma viagem e outra Jack escreveu seu primeiro livro, ‘Cidade pequena, cidade grande’ (1950). Embora não tenha sido um sucesso de crítica, foi bem aceito pelo público e em menos de um ano rapidamente escreveu a primeira versão de ‘On The Road’, que findou sendo publicado em 1957.

Tenho uma edição antiga 3 em 1 que além de ‘On The Road’ tem também ‘O Vagabundos Iluminados’, obra com óbvia inspiração budista, e ‘Subterrâneos’.

Kerouac morreu por hemorragia digestiva relacionada à Cirrose Hepática Alcoólica quando estava com 47 anos de idade.

Visões de Gerard (1963)

Trata-se de um relato recheado com a inocente brandura gerada pelos devaneios e falsas memórias resgatadas de uma criança pré-escolar que foi testemunha ocular do sofrimento pungente de seu irmão mais velho.

É, portanto, um retalho de reminiscências e confabulações. 

O livro mistura realidade e preenche as lacunas da memória com todas as licenças poéticas possíveis e levanta questionamentos filosóficos usando como pano de fundo sua interpretação sobre a vida e morte de Gerard.

A prosa espontânea de Kerouac concede à leitura um sabor único. 

Gerard é santificado e as cenas de infância do pequeno Jack, um menino gordinho de bochechas rosadas, são reconstruídas com uma beleza ímpar.

Beijos,

Meire

Referência do título do post:

“E quando aquele abril de partir o coração desabrochou em maio e as manhãs e as noites transformaram-se em música, a morte na casa ficou mais marrom (…)”

Para saber mais sobre Jack KerouacBiography