Mamãe, não quero ser Prefeita

Por @meire_md

“Resumindo: é um fato bem conhecido que todos os que querem governar as outras pessoas são, por isso mesmo, os menos indicados para isso. Resumindo o resumo: qualquer pessoa capaz de se tornar Presidente não deveria, em hipótese alguma, ter permissão para exercer o cargo. Resumindo o resumo do resumo: as pessoas são um problema.” (segundo volume de O Guia do Mochileiro das Galáxias’, de Douglas Adams)

Não importa em que época foram escritas, se nasceram por inspiração em algum evento histórico nem tampouco se foram elaboradas por um escritor famoso ou um sábio anônimo.

As histórias sobre a luta pelo Poder (político) são basicamente idênticas.

Fábulas que se tornam imortais são justamente aquelas que funcionam em qualquer tempo e lugar porque retratam claramente a realidade que está por trás, por cima, por baixo, na frente, nas laterais, escorrendo pelos poros e em toda parte interna do comportamento de qualquer grupamento humano, mesmo que os seres humanos estejam separados não só por oceanos como por milênios.

As que retratam o poder do Poder, sejam elas derivadas de uma sabedoria tão antiga quanto aquela que gerou os mitos greco-romanos ou as contemporâneas que conhecemos muito bem, possuem a mesmíssima alma.

Se você quiser escrever uma fábula sobre o Poder, basta seguir a fórmula de todas as outras.

Escrevendo sua própria Fábula

Um Grupo A de pessoas encontra-se dominado/oprimido pelo Grupo B, que detém maior riqueza e influência.

O Grupo A não elege pessoas moderadas nem muito menos elege aquelas que não tem sede de Poder, porque o discurso apaixonado dos candidatos que fincam seu mastro em polos bem específicos do espectro político é muito mais sedutor.

Diante das más condições de vida impostas ao grupo A, abre-se margem para a Revolução, que habitualmente começa assim (não esqueça disso na hora de criar a sua história).

Deixes um povo faminto e viverás uma revolução; nem sei se essa frase está correta, mas ficou linda.

As revoluções ocorrem mais frequentemente quando quem está no Poder é tão mesquinho e ganancioso que é incapaz de reconhecer que a perpetuação da pobreza prejudica toda a sociedade, inclusive quem está no topo.

A rebeldia e paixão do grupo A disputam um cabo de guerra contra a força política e econômica do grupo B, que diante das mortes e da violência sucumbe, entrega o Poder à massa e foge.

A ilusão messiânica começa.

É prometida – por aquele Rebelde que deseja ter poder sob os demais e derrama lágrimas de uma emoção que até parece genuína –  uma vida em comunidade, onde todos são iguais e trabalham para o bem comum.

Alguns mandamentos são criados, tudo parece paradisíaco, ai que lindo.

Mas a realidade  é outra

Ainda que todos frequentem a mesma escola, alguns aprenderão mais que outros, ainda que todos trabalhem em mesma indústria, alguns produzirão mais que outros, ainda que todos tenham problemas, uns os resolverão com mais eficiência que outros.

A comunidade bucólica dos rebeldes que venceram o opressor começa a se diferenciar por classes.

O líder, inflado pelo direito que julga ter,  muda-se para a Casa Grande ou para a cabine de luxo do trem (depende de que seriado, evento histórico ou filme você estará tentando criar).

As adjacências do Poder são blindadas.

Segurança? Sim.

Boa alimentação? Óbvio.

Impunidade? Logicamente.

Champagne, Uísque? Por que não?

Em momentos de escassez a organização social percebe, nas entrelinhas até bastante bojudas, que algo de errado não está certo, mas rebelar-se contra os rebeldes  – veja que coisa mais estranha – vira crime sujeito a penalidades severas.

Melhor calar e trabalhar mais, dizem.

Moderados tentam um reequilíbrio, mas são calados, mortos ou banidos em nome do interesse da comunidade.

A nova polarização cresce organicamente sem que a massa perceba

A crença de que a comunidade poderia viver de modo independente cai por terra.

A nova classe que se diferencia inicia comércio e parcerias com o inimigo e enquanto cresce em poder e bens, a polarização das massas segue sendo reforçada por quem está no topo do Poder. Sem essa ferramenta – a polarização – é impossível demonizar o oponente  e mais difícil eliminar o perigosíssimo raciocínio crítico, que dá as pessoas a capacidade de ver vantagens e desvantagens em ideias diversas.

Se você briga por política nada mais é que alguém manipulado por este mecanismo, é alguém dominado pela paixão.

A população adoece e envelhece

É preciso cuidar dos doentes e dos idosos, já que o sistema anterior foi destruído.

Mas isso gera despesas, que rapidamente são amputadas para atender aos interesses dos rebeldes que estão no Poder, afinal mesas bem postas custam caro.

Uma assistência à saúde de segunda categoria se forma e o povo é convencido de que é melhor ser atendido por um servidor público humilde e mal pago que visita o doente usando uma carroça do que ter acesso a serviços bem montados, já que eles custam caro e profissionais de saúde nada mais são do que mercenários que só pensam em si mesmos.

Transformar policiais, professores e outros servidores públicos em parasitas e dar um jeito que eles sejam chamados de marajás também é uma ótima ideia. Os salários precisam ser bem baixos, de todos, menos daqueles que estão no Olimpo.

As fraudes, que nunca deixaram de existir completamente, começam a surgir de novo por todos os lados, já que a promessa de que a corrupção acabaria, não passou de balela.

Manipulando a massa

A massa não se recorda mais de como a vida era antes, embora sinta que o regime totalitário a deixou mais pobre, afinal não há liberdade para empreender, coisa que fica restrita a um pequeno grupo controlado pelo Estado.

A cevada, entendedores entenderão, não será distribuída para todos. Jamais.

Mas isto não é um problema, já que todo mundo ficou mais pobre, não é mesmo?

Se todo mundo está mais pobre, a desigualdade social reduz. Que maravilha.

Melhor então sentir-se grato ao líder, que neste momento já editou leis cada vez mais rígidas e, enquanto engorda a olhos vistos, é adorado pelo povo.

Os líderes engordam e precisam de roupas novas.

Doutrinando as Crianças

Para se manter no Poder a doutrinação de crianças em prol da polarização pode ser feita tranquilamente tanto dentro da escola como com educação em casa, fique a vontade para escolher como seus personagens vão resolver este problema simples.

É preciso ser inimigo do outro lado e banir os moderados, é preciso ensinar às crianças que ser moderado e buscar convergência não é algo apenas ruim, é alta traição.

Que os filhotes de um lado sejam isolados dos filhotes do outro lado.

Traidores

Os moderados são proclamados inimigos da Revolução.

São traidores, são párias, são escória, são ratos, são ‘mornos’, são ‘os em cima do muro’, são os ‘isentões’.

Dica para sua história: Faça com que os moderados sejam vistos como covardes, despersonalize-os, torne a sua opinião fraca, tire o seu direito de se pronunciar.

O personagem que não desenvolver cegueira quanto aos problemas relacionados a seu espectro político e for capaz de vislumbrar boas soluções no espectro contrário, tem que ser cancelado.

Notícias Falsas

É preciso manter o eleitorado preso ao medo de que um ou outro lado ‘volte’: faça com que as fake news se propaguem feito penas ao vento, tanto perpetradas por um lado, quanto pelo outro.

Quanto mais contraconhecimento, melhor.

A convergência que realmente ocorre

Uma vez bem definidas as classes sociais e a completa aniquilação daqueles que buscam um equilíbrio de forças sociopolíticas no regime vigente, os líderes da Rebelião – que nesta altura estão com corpo ou o bolso trabalhados na fartura, tais como o Napoleão de George Orwell ou quaisquer outros ditadores de esquerda ou direita da ficção ou da vida real – aproximam-se do antigo inimigo.

Aproximam-se nos trejeitos.

Aproximam-se no modo de falar.

Aproximam-se no modo de se vestir, no corte de cabelo.

Aproximam-se nos costumes de comer e beber.

Fazem acordos, conchavos, alianças.

E eles ficam tão próximos, mas tão próximos dos seus antigos inimigos de forma que, parafraseando Orwell, chegamos a um ponto no qual é impossível distinguir quem é Homem e quem é Porco.

Fim da Fábula. Amém.

Perenidade

O Povo dá poder a quem mais quer o poder, isso se repete tanto ao longo de nossa História que parece ação de algum feitiço antigo, sei lá, um feitiço protetor dos radicais.

Você pode enxergar este modelo de roteiro para uma história sobre Poder Político lendo o que mais de um autor tem a dizer sobre Revolução Francesa, vendo a fabulosa e imperdível série Snowpiercer ou lendo atentamente ‘A Revolução dos Bichos‘, uma das melhores Fábulas já escritas.

Aproveite e leia ‘O Príncipe’, de Maquiavel,  livros como a ‘A Ciência da Política‘ ou dê uma volta nos pós-acontecimentos de diversas revoluções  e golpes.

Homens e mulheres estarão lá, sempre, oprimindo, sendo oprimidos, oprimindo, sendo oprimidos, numa alternância sem fim.

Eles (nós) somos um problema.

Pergunte-se

Vale mesmo a pena cultivar Políticos de estimação, estragar amizades e romper laços familiares por causa deles?

Não sabemos de quase nada do que rola nos bastidores nem do quanto riem  às nossas custas.

Enquanto o poder for entregue àquele que muito o deseja, o oprimido se tornará opressor e viveremos neste ciclo sem fim.

Votem em pessoas moderadas e retirem-nas do Poder sempre que se tornarem radicais.

É isso.

Aproveitando o ensejo, quem é você em ‘A Revolução dos Bichos‘? Eu sou Benjamin, o Burro.

Beijos!

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