As armadilhas do cérebro são implacáveis

Por @meire_md

“As pessoas encontram razões para continuar apoiando os candidatos políticos de sua preferência mesmo quando eles são acusados de graves e comprovados deslizes; mas acreditam em comentários de terceira mão sobre qualquer ilegalidade como prova de que o candidato do outro partido deveria ser banido da política de uma vez para sempre” (Leonard Mlodinow)

Há alguns anos atendi um moço que sofreu uma grave injúria física que resultou em paraplegia (paralisia das duas pernas). Enquanto ele estava no Hospital, foi preso por ter sido apontado como sendo responsável por um certo crime.

Assim, passou imediatamente a ser tratado como se fosse culpado. Foi algemado na maca, conduzido sem delongas e encarcerado em cela comum.

Mesmo negando ser a pessoa que afirmaram, mesmo com os depoimentos de toda sua família, do seu chefe e apesar de estar paraplégico e cheio de escaras, permaneceu preso por quase um ano até ser libertado.

Ele era inocente.

Estudos de psicologia experimental sugerem que quando pessoas são colocadas em frente a um grupo de suspeitos tendem sempre a apontar um, mesmo que o culpado não esteja ali. A imagem de quem a pessoa apontou ocupa em sua mente o lugar do rosto que ela realmente viu ou pensou ver.

O livro Subliminar, de Leonard Mlodinow é um mini tratado sobre armadilhas cerebrais que podem ser tão nocivas ao ponto de criar uma situação como a sofrida por aquele rapaz.

Lapidando o pensamento

Leonard Mlodinow é doutor em Física e vem fazendo um grande trabalho como divulgador científico.

Seu livro mais conhecido é ‘O Andar do Bêbado’, que nos ensina de modo muito estimulante como a aleatoriedade está por toda parte e o quanto interfere em nossas vidas, mas gosto ainda mais de ‘Subliminar‘.

Coloquei ‘Elástico’ em minha lista de leitura porque temo que meu eu do futuro – um dos meus planos é viver na companhia do meu marido por muitos e muitos anos, ehehe – acabe como boa parte das pessoas idosas, com um modo de pensar acomodado, rígido e resistente ao novo.

Planejo manter meu pensamento flexível e certamente consumirei toda literatura neurocientífica que puder me apoiar nessa jornada contra o pensamento engessado.

Sobre Subliminar

Disponível em capa comum, Kindle ou edição de bolso.

Subliminar não traz tanta novidade para quem já tem uma boa base teórica sobre o funcionamento da mente ou para quem entende bastante sobre evolução humana.

Isso porque Leonard não é pesquisador nas áreas, nem criador de nenhum conceito que o livro carrega. O autor tratou de compilar de modo bastante acessível para leigos (nós) boa parte do que a ciência da mente, surgida na década de 90, vem nos mostrando  — e como teorias caducas estão sendo abandonadas graças à psicologia experimental.

O livro conta com muitos exemplos úteis para publicitários e também resume alguns estudos interessantes que ilustram as formas com as quais o inconsciente se manifesta diariamente em nossas vidas.

Uma parte melhor que a outra

Na primeira metade do livro Leonard discorre sobre o novo inconsciente e cita como captamos informações nas entrelinhas, como presumimos informações, como usamos nosso ‘sexto sentido’.

Também dala de como nossa visão e audição preenchem informações ao resgatarmos um evento e reporta de forma bem simples a construção das nossas memórias e a importância que nosso cérebro dá à socialização, sem a qual podemos adoecer física e mentalmente.

Na segunda parte do livro o autor tece explicações sobre a Teoria da Mente, que exercitamos desde a tenra infância sem nos darmos conta.

Como o autor não se aprofunda no tema (não cita os neurônios-espelho nem as grandes variações individuais), sugiro que você complemente a Subliminar com ‘O que o cérebro tem para contar: Desvendando os mistérios da natureza humana’, do Ramachandran.

‘Eu vejo a sua aura’

O escritor segue mostrando como julgamos pessoas por uma ‘aura’ de características diversas que em conjunto nos levam a alguma conclusão que pode ser socialmente útil (ou bem errada em alguns casos) e como e por quais motivos tendemos a rotular as pessoas.

Como costumo falar, ninguém consegue (nem deveria tentar) negar a existência das preconcepções porque elas são tão naturais à espécie humana quanto são os nossos mais primitivos instintos. Nossa mente é basicamente uma máquina de fabricar preconceitos.

O que precisamos entender é que nossas preconcepções, que são praticamente automáticas e generalizadoras, sejam questionadas pela nossa racionalidade e quebradas sempre que se mostram nocivas.

Leonard  fala que  ‘Podemos todos lutar contra os vieses inconscientes, pois as pesquisas tem mostrado que nossa tendência a categorizar as pessoas pode ser influenciada por nossos objetivos inconscientes. Se estivermos cônscios de nossos vieses e motivados para superá-los, conseguiremos fazer isso’.

No capítulo 8 o livro expõe a dinâmica dos grupos sociais que naturalmente se formam desde dentro de uma pré-escola (meninos X meninas) ou no país como um todo (esquerda X direita) e como cada pessoa do grupo se vê, como vê uma pessoa qualquer do mesmo grupo e como vê uma pessoa qualquer do outro grupo.

Os capítulos 9 e 10 se centram nas nossas emoções e na nossa autoimagem, de como nos vemos melhores do que realmente somos e do bom efeito de se acreditar em si mesmo.

Enfim, Subliminar é um livro bastante interessante.

Um beijo,

Meire

 

 

 

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4 comentários em “As armadilhas do cérebro são implacáveis”

  1. Vai subir na lista de prioridade de leitura por causa da resenha, obrigada! 💜

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