Sem as Partes Chatas?

Por @meire_md

Dave Rear, autor de ‘Britain: The Unauthorised Biography: From the Big Bang to Brexit‘, é formado em História na Sidney Sussex College e atualmente dá aulas de inglês, história e ciências sociais na Chuo University (Tóquio).

O título original do livro de nossa resenha de hoje não éHistória do Mundo sem as partes chatas’.

Não consigo entender essa cultura brasileira de fazer alterações significativas em títulos … Sempre imagino que a equipe designada pela Editora é proibida de ler o livro para garantir que a mudança transforme a obra em algo mais vendável sem que as pessoas se sintam culpadas pela deturpação que acabaram de fazer.

O título brasileiro dá entender que o autor deliberadamente suprimiu fatos históricos porque são ‘chatos’. Na minha opinião isso é bem desrespeitoso.

Historiador que é historiador não suprime fatos por serem chatos

O título real do livro é ‘A less boring History of the World – From de Big Bang to Today‘‘, algo como “Uma História do Mundo menos Chata – Do Big Bang aos dias de hoje”.

O título, portanto, sugere que o autor objetivou narrar fatos históricos de uma forma menos entediante (e talvez até tivesse conseguido se não tentasse ser artificialmente engraçado).

Toda belicosa, ela

O autor formula muitas piadas que poderiam até arrancar risadas quando contadas por pessoas engraçadinhas em mesa de bar.

Zeus, como aborrecem. E olhem que sou o tipo de pessoa que ri facilmente.

As piadinhas se dividem religiosamente entre as deselegantes e as de mau gosto. O humor britânico que tanto apreciamos e que eu esperava encontrar no livro passou longe, não mandou lembranças e está sofrendo com vergonha alheia até hoje.

O segundo problema do livro é o primeiro capítulo inteiro, que vai da página 15 até a 38.

Todinho, mesmo.

Eu poderia dizer que você não leia o primeiro capítulo, mas suas impressões podem ser completamente diferentes das minhas. Só não diga que não avisei.

A  tentativa de deixar o Big Bang engraçado beira o insuportável e a impressão de que o autor fez uma pesquisa muito superficial para falar sobre a Evolução Humana  (e olha que não sou bióloga nem tenho propriedade para falar algo assim de modo tão categórico).

O primeiro capítulo só não me fez largar a leitura porque tenho com livros a mesma obsessão/hábito que tenho com filmes: quero ir até o final e  só não chego até o fim do livro se lá pela metade eu já estiver clamando por eutanásia.

O terceiro e grande problema é o fato do livro não ter apresentado a Bibliografia consultada, mas isso não tem sido raro em livros que simplificam assuntos complexos e até relevo (mais ou menos) por ser um desleixo até bem comum.

Peraí, mas você sempre diz que só resenha livros que gosta!

Sim.  Pronto, parei.

Não faço resenhas de livros que eu não gostaria que as pessoas comprassem por um motivo que pode parecer tolo.

Acho que qualquer resenha pode promover uma compra pois algo que deixa um leitor indignado – como um livro sobre investimentos ser todo contaminado por misticismo ou um livro supostamente escrito para estimular o pensamento crítico partir de premissas pseudocientíficas – pode ser exatamente o que outro procura.

Eu não me sentiria confortável colaborando com a disseminação de informações que para mim (para mim, repito) são nocivas.

Em 2020, por exemplo, devolvi três livros e eles nunca serão citados por mim.

Excluindo as piadas sem graça e todo o primeiro capítulo – sou mestre em ignorar trechos quando o conteúdo parece ser, em sua grande parte, bom – a releitura atendeu ao meu objetivo, que era apenas revisar pontos-chave da cronologia da História do Mundo para me preparar para ler três dos livros que estão na minha lista para 2021:

📔 História Ilustrada do Mundo Antigo (Dominic Rathbone),

📔 O Livro de Ouro da História do Mundo (J M Roberts) e

📔 Uma História do Mundo em Doze Mapas (J. Brotton).

A leitura, portanto, foi satisfatória.

‘História do Mundo Sem as Partes Chatas’

É um livro para leigos que não gostavam de História no colégio e que querem obter uma visão ampla/resumida e extrair algumas curiosidades sobre a complexa e multifacetada História do Mundo.

O autor tem uma capacidade incrível de síntese.

O livro conta com um esqueleto confortavelmente didático, cita coisas bem interessantes cuja dimensão pode ter sido subvalorizada quando estávamos no colégio, como, por exemplo, o fato do Brasil ter conseguido se libertar de Portugal de modo relativamente pacífico.

(Tudo bem que possivelmente isso ocorreu porque a Europa já havia nos espoliado o suficiente, estava renascida e havia perdido o interesse na até hoje quase paleolítica América Latina).

O livro é dividido em 10 capítulos e cada  um tem marcadores temporais bem definidos.

Embora eu tenha desprezado todo o capítulo 1, peneirei as piadas tolas, extraí o miolo dos outros 9 capítulos e a experiência findou boa.

Livros pequenos assim – esse tem 264 páginas mas é facilmente lido em poucas horas – tem a vantagem de nos mostrar padrões que se repetem ao longo do tempo.

A chamada Seta da História fica muito clara e só isso faz a leitura valer.

Outra coisa que fica bem fácil perceber em livros pequenos é que ao longo de toda nossa história temos nos alternado entre opressores e oprimidos e que sem governo voltamos à selvageria.

Já o futuro, é impossível prever. A História não é determinista e o grande peso do acaso e da imprevisibilidade são basicamente regra.

Somos todos uma ‘raça’ só

Nunca existiu paz sem governo, sempre estivemos em guerra, sempre querendo mais, sempre provocando aqueles que são diferentes de nós e explorando nossos iguais.

Estudar um pouco de história nos mostra que o Homem já nasceu autodestrutivo e genocida: tribos diferentes de índios tentando eliminar tribos de índios, tribos de brancos tentando eliminar tribos de brancos, tribos de negros tentando eliminar tribos de negros, chineses, mongóis e japoneses se matando, terras sendo dominadas, o mais forte do momento se impondo sobre o mais fraco da ocasião,  brancos espoliando pretos, pretos espoliando pretos.

Os conchavos com inimigos para promover o extermínio de um inimigo em comum só mudaram de nome. Continuam acontecendo. O bom selvagem nunca existiu, enfim. Somos todos uma raça só.

Estudar história extrai nossa inocência. Quando o oprimido chega ao poder, passa a ser o opressor.  Não tem bonzinho e mauzinho, enquanto espécie somos gregários, mas também bélicos.

A nossa história se repete desde a Savana e não é a toa que o romance ‘A Revolução dos Bichos‘, de George Orwell nunca ficará datado.

As diferenças que temos não são coletivas. São individuais. Podemos ser psicológica e moralmente mais diferentes do nosso vizinho com mesma cor de olhos, pele e cabelo do que somos de um morador do outro lado do Planeta.

Quem julga que seres humanos de etnia A são moralmente superiores aos seres humanos de etnia B não passa de um grande defensor de que não somos seres inacabados que compartilham a mesma ancestralidade.

Precisamos de moderação

E o interessante que reler ‘História do Mundo sem as partes chatas’ me transportou para um livro que já separei aqui para resenhar para vocês, ‘O Nazista e o Psiquiatra‘, de Jack El-Hai.

Estudar história só reforça o quanto precisamos de pessoas moderadas em todas as esferas do poder para garantir paz e prosperidade, que quando a população se vê enfraquecida o país fica propenso a ser dominado por ditadores e que as Guerras precisam ser evitadas a todo custo.

Se eu fosse alguém na fila do pão diria que nunca mais ninguém votasse em pessoas que se localizam muito à esquerda ou muito à direita do espectro político.

Não deem poder aos extremistas

A História nos mostra também que tipos de regimes políticos e econômicos trouxeram devastações e que tipos aumentaram prosperidade e qualidade de vida.

Tome suas conclusões.

Com estes aspectos em mente, ler História do Mundo sem as partes chatas pode ser um excelente passatempo introdutório.

Obs.Para saber sobre a Evolução da nossa espécie sob o olhar de um historiador, nada melhor do que ler Sapiens, de Yuval Noah Harari, sobretudo a primeira e a segunda partes (Revolução Cognitiva e Revolução Agrícola).

Leia também:

[Resenha] Sapiens: uma breve história da humanidade

Abraço,

Meire.

 

 

 

 

 

 

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2 comentários em “Sem as Partes Chatas?”

  1. Só queria dizer que dei muitas altas gargalhadas no início do post e que para mim vc é mais que alguém na fila do pão… você para mim é alguém na fila do croissant (que eu amo muito mais que pão)…😅❤️

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