Aqui Jaz um Pecador

Por @meire_md

“Diante de resultados decepcionantes onde padres não conheciam a história de suas igrejas, estudantes de Artes que nunca ouviram falar em nossos grandes artistas, pessoas que sempre viveram em Salvador e nunca entraram em igrejas como a Catedral Basílica e a Igreja de São Francisco, sentimos uma necessidade de revelar as preciosidades do acervo baiano.” (Helenita Hollanda & Biaggio Talento)

Nunca fui uma pessoa que ama viajar.

Por muito tempo minhas viagens foram basicamente aquelas destinadas aos congressos de Medicina ou a visitar a família. Só viajo mais do que gostaria porque ainda não existe tecnologia que mimetize a experiência encantadora de visitar um Museu ao vivo.

Não nego que viajar gere experiências interessantes e que a exposição a outras culturas e costumes nos ajude a ampliar a visão sobre o mundo, mas isso não muda o fato de achá-las exaustivas.

Acredito que isso tenha relação com meu forte apego a viajar através de bons livros, documentários, filmes, séries, músicas e dos intermináveis debates comigo mesma, com Igor, com amigos e com a família.

Embora eu possa afirmar que os maiores insights e melhores memórias que tenho acumulados ao longo da vida envolvem alguma coisa simples, rotineira ou imersiva, quero compartilhar com vocês uma significativa experiência de viagem ocorrida na hora em que eu mais precisava.

No berço do Brasil

“Monumento exemplar da determinação de um povo oprimido pela escravatura, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos levou quase cem anos para ser construída e foi partícipe do grande esforço que os negros realizaram no território brasileiro, primeiro, para sobreviver numa terra desconhecida, procurando preservar seus valores espirituais dentro de uma religião estranha; depois, objetivando inserir-se numa sociedade dominada pelos brancos.”(Helenita Hollanda & Biaggio Talento)

Pois bem.

Era uma tarde de um verão soteropolitano qualquer e minha vida estava uma merda.

Alguns meses antes minha saúde física havia começado a desestabilizar. Eu estava muito magra em razão de uma esmeraldite de apresentação confusa que subverteu meu padrão habitual de felicidade.

Sem ver beleza em nada e torcendo para que aquela caminhada pelas adjacências da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos chegasse ao fim, meus olhos pararam em um senhor possivelmente menos preto e menos velho do que minha mente insiste em apontar.

Deitado no chão quente, emoldurado por moedas e notas surradas de poucos reais, maltrapilho, com dentes tão raros quanto deteriorados e exibindo uma extensa lesão ulcerada em uma das pernas, lançou-me um olhar cheio de ternura e um sorriso tão feliz e inocente que me senti invadida por uma vergonha profunda.

Profunda e transformadora

Se uma pessoa em condição de penúria aparentava paz de espírito e tamanha felicidade, por que eu estava me sentindo tão mal?

Eu imagino que a epifania religiosa descrita por quem se vê convertido a algum credo seja similar ao que senti ali.

Naquele dia sudorético e lacrimoso a cidade de Salvador não me trouxe apenas a esperada dor nas panturrilhas mal condicionadas e pouco nutridas, concedeu-me um belo tapa na cara.

O que se seguiu dentro do meu palácio mental foi algo terapêutico e bom, bastante bom.

Essa experiência me veio imediatamente à mente quando eu soube que o jornalista Biaggio Talento e a médica e pesquisadora Helenita Hollanda relançaram ‘BASÍLICAS E CAPELINHAS : Um estudo sobre a história, arquitetura e arte das igrejas de Salvador’.

Basílicas e Capelinhas

“Não menos geniais são os artistas baianos e, acreditamos, até mais numerosos. Assim é que escultores como O Cabra, Frei Agostinho da Piedade, Manuel Inácio da Costa e pintores do quilate de José Joaquim da Rocha e José Theófilo de Jesus, entre outros, não podem permanecer nos porões da História (…)”

Em uma extensa pesquisa que levou seis anos, os autores fizeram uma compilação histórica de quarenta e três igrejas e o livro as apresenta de modo organizado – doze delas construídas no século XVI, cinco no século XVII, vinte e quatro no século XVIII e duas no século XIX.

O livro reproduz detalhes sobre a sociedade e resgata a propriedade intelectual de muitas das obras ainda presentes nos templos ou transferidas para o Museu de Arte Sacra, administrado pela UFBA.

Além de muito bem nos localizar no tempo, os autores incluíram um capítulo com preços de produtos, serviços e salários praticados na Salvador dos séculos XVI a XIX para que possamos nos orientar quanto ao valor das obras e construções.

Muitas das Igrejas retratadas foram demolidas e reconstruídas, outras sofreram desabamentos, incêndios, pilhagem e vandalismo, outras passaram por reformas ao longo do tempo e algumas estão necessitando de reparos.

É uma história mais interessante que outra. Que riqueza!

Peco, pago quando puder

‘BASÍLICAS E CAPELINHAS : Um estudo sobre a história, arquitetura e arte das igrejas de Salvador’ descreve o interessante e demorado processo de construção de cada Igreja, muitas das quais erigidas com materiais vindos de Portugal e outras tantas com pedras carregadas pelos membros das diversas irmandades.

Os autores mostram como a busca do pecador por uma passagem mais rápida do purgatório ao céu garantiu a beleza das edificações, cujo custeio que somava verdadeiras fortunas foi em parte garantido por doações de traficantes de pessoas africanas, membros da elite, exploradores, genocidas e agiotas.

Durante a leitura me reportei várias vezes à Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Fatos Pitorescos

“O Convento da Lapa será sempre lembrado na História da Bahia pelo martírio de Madre Joana Angélica de Jesus, morta ao tentar impedir a invasão do local por soldados portugueses, em 20 de fevereiro de 1822”

O livro apresenta muitas curiosidades que poderiam ser pinçadas e transformadas em um outro livro, como o fato de pinturas da Igreja de Nossa Senhora da Graça retratarem a vida de Caramuru e da índia Catarina Paraguaçu. Ela deixou vultosa doação para os monges beneditinos de Salvador.

Fiquei bem impressionada ao saber que a Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia foi pré-fabricada em Portugal envolvendo três gerações de artesãos.

E o safadinho do Gregório de Matos? Esse livro precisa ser transformado em mais um livro.

Assim como são as pessoas, são as criaturas

Para melhorar mais ainda a sua experiência de leitura, sugiro duas coisas. Primeira: que ela seja feita por celular ou tablet para que você visualize melhor as fotos.

Segunda: que após a leitura da apresentação escrita  pelo jornalista Carlos Navarro, você pule para o capítulo que lista os interessantíssimos personagens envolvidos e só depois retorne para o fluxo normal.

Na lista de personagens, encontramos o Padre Manuel da Nóbrega, o genocida Mem de Sá, o humanista Padre Antônio Vieira, diversos escultores, carpinteiros , pintores e o aventureiro Gabriel Soares de Souza, cuja inscrição na lápide dá nome a este post.

Dai graças a Gabriel, o pecador

Conforme Helenita e Biaggio nos contam, Gabriel Soares de Souza desembarcou na Bahia em 1570 e é o autor de uma importante obra colonial, o  ‘Tratado Descritivo do Brasil’.

Segundo a editora Hedra, os textos foram recuperados no século XIX pelo historiador  Francisco Adolfo de Varnhagen e reúnem temas como botânica, geografia, história,  antropologia e descreve os povos nativos, engenhos e outras particularidades dos primórdios da nossa história.

Compramos a edição mais recente compilada por Fernanda Trindade Luciani & Ieda Lebensztayn, publicada em agosto de 2020, mas há opções de edições com menor preço.

Gabriel morreu em 1591 e seu corpo está sepultado na porta da Capela do Capítulo do Mosteiro de São Bento.

Ele doou parte de sua fortuna para os Beneditinos em troca de missas pela sua alma, que são rezadas pelos Frades até hoje.

Privilégio

Os autores arrolaram toda a bibliografia consultada, incluindo 111 livros e uma extensa lista de arquivos oficiais, jornais, revistas e textos disponíveis na internet.

É um privilégio poder sentar e desfrutar horas de leitura graças à generosidade dos pesquisadores que sintetizaram um conhecimento acumulado por anos em 248 páginas agradáveis e bem escritas.

Para quem já ama o tema, nem preciso indicar.

Recomendo BASÍLICAS E CAPELINHAS : Um estudo sobre a história, arquitetura e arte das igrejas de Salvador’ também para todos que odiavam História no colégio e para quem quiser saber mais sobre o Brasil Colônia.

Os autores do livro são responsáveis pelo Canal Cultura Popular Brasileira,  que divulga histórias populares que poderiam se perder ao longo do tempo.

Enfim… estudar História é uma ótima forma de viajar!

Um abraço,

Meire

 

 

 

 

 

 

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7 comentários em “Aqui Jaz um Pecador”

  1. 😮 uau… consegui visualizar as igrejas mentalmente…😊

    Eu amo viajar Meire, além dos livros… minhas memórias mais lindas são viajando, por vezes me vem lágrimas nos olhos de felicidade por lembrar de cada lugar que fui…

    Me remonta a minha infância, não tínhamos muito, mas quase todo fim de semana meu pai nos levava para conhecer um cantinho do meu estado natal (Espírito Santo)… ele plantou uma semente viajadora aqui….🤣

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  2. Uma resenha primorosa, rica em detalhes, que dá prazer em ler. Eu mesmo fiquei com vontade de adquirir o livro. Parabéns. Biaggio Talento.

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  3. Boa noite Não consegui visualizar esse post/resenha na íntegra. Algum problema? Obg Helenita

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