Os ‘psicopatas’ do nosso dia a dia

Por @meire_md

“O temperamento é herdado geneticamente e regulado biologicamente. Já o caráter está ligado à relação do temperamento com tudo o que vivenciamos e aprendemos na relação com o mundo exterior. Portanto, a personalidade é considerada uma organização dinâmica, resultante de fatores de ordem biopsicossocial” (Katia Mecler)

Comecei a me interessar por estudar diferentes tipos de personalidade no terceiro ano de medicina. Foi algo tão novo e fabulosamente curioso que não só me fascina até hoje como dita minhas preferências em livros, séries e filmes.

Peguei gosto pela complexidade humana.

Penso que isso ocorreu porque até entrar no curso de medicina o meu contato com diferentes personalidades havia sido muito restrito.

Na minha família as pessoas são muito estáveis, cresci sem ouvir um só grito dentro de casa, meus pais, padrinhos e avós resolviam as coisas com educação e respeito.

Por um lado isso foi bom, mas por outro fez com que eu demorasse a amadurecer e a perceber o lado oculto das pessoas.

Aos 20 e tantos anos/quase 30 ainda era enganada por gente que certamente não teria  poder nenhum sobre mim hoje. Fui muito idiota mesmo, mas isso me equipou com desconfiômetro até bom.

Essas poucas pessoas – ainda bem – fizeram parte do meu processo de amadurecimento.

A vida não é justa. Os chicotes são inevitáveis por muitos  motivos que eu não sou capaz de  especificar, mas certamente um deles reside no fato de que uma parte considerável das pessoas é manipuladora ou perturbada o suficiente para transformar a vida dos outros em um inferno.

Precisamos aprender a identificar pessoas nocivas. Se você vem de uma família pacífica e amorosa, é uma vítima mais fácil ainda.

Conhecer mais sobre a variedade de personalidades – cada pessoa parece vir equipada com um kit – não vai nos livrar de armadilhas, mas poderá prevenir sofrimentos além dos que a vida já nos oferece naturalmente ou até nos ensinar a conviver melhor com essas pessoas, se for o caso.

Se você tem algum transtorno específico de personalidade e sofre com as consequências negativas dele, é possível que a terapia cognitivo comportamental traga algum tipo de auxílio. Procure ajuda.

Psicopatas do Cotidiano

Katia Mecler é doutora em psiquiatria e especialista em psiquiatria forense.

Psicopatas do Cotidiano‘ é mais um excelente livro de divulgação científica feito por especialista que sabe mastigar a informação e devolvê-la ao leigo de modo simples.

Porém, amplo o suficiente para torná-lo interessante e útil também para profissionais que atuam em mesma área e afins.

O termo ‘psicopata’ é colocado no livro com seu sentido puro, etimológico. A palavra vem do grego psykhé (mente) e pathos (doença/sofrimento).

🟣 Saiba como fazer a Alexa ler um livro para você!

O ‘psicopata de filme’ é, na verdade, a pessoa com transtorno de personalidade antissocial.  Não gosto de usar o termo psicopata para citar outros transtornos mentais por causa desse estigma, acho bem esquisito, não casa.

Prefiro usar o termo Transtorno de Personalidade ou Tipos de Personalidade. Cada um é o que é, e pode ou não estar doente e precisar de tratamento.

Fora do espectro do que é considerado transtorno temos traços que podem ser encontrados em pessoas ‘comuns’ (‘normais’). Cada um de nós tem algum traço de um transtorno de personalidade formalmente descrito, mas que não chega a causar um sofrimento patológico. Se houver algo doentio envolvido, a palavra transtorno se encaixa.


“A partir do fim da adolescência os indivíduos com essa natureza apresentam um jeito de ser caracterizado por um padrão de comportamento inflexível e repetitivo que causa prejuízo significativo na maneira como se relacionam afetivamente, em sociedade, no trabalho ou na família”


A autora se utiliza de personagens fictícios e de citações de filmes, músicas e livros para ilustrar as características de dez dos doze transtornos de personalidade* contidos na quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM V)**.

Ela coloca ainda um resumo dos critérios que formalizam cada um dos transtornos e dá pistas de como podemos alcançar uma convivência menos turbulenta com pessoas ‘difíceis’.

É preciso dizer que ‘Psicopatas do Cotidiano’ não é um livro técnico. Ele não mergulha em epidemiologia ou outras especificidades, é um livro acessível que pode ser um suporte valioso para quem se acha estranho ou inadequado e queira tentar se triar/diagnosticar (não é o caminho ideal, mas é algo possível) como para quem convive com pessoas que tenham algum transtorno de personalidade.

Outra coisa muito importante: os transtornos de personalidade não são doença per se, são parte daquilo que a pessoa é, mas podem se associar a doenças mentais.

Concordo com a autora quando defende que nossa personalidade não muda com nenhum tratamento, mas em alguns casos os psicotrópicos podem ajudar a minimizar sintomas depressivos, ansiedade ou instabilidade de humor ou até controlar a agressividade.

Pessoas que lidam com atendimento ao público, quer sejam atendentes de telemarketing, vendedores de loja, advogados, médicos ou psicólogos ou simplesmente pessoas que nutrem curiosidade sobre os padrões de comportamento humano podem gostar de Psicopatas do Cotidiano.

 

Meire

*Tipos de personalidade citados no livro: Esquizoide (frieza emocional, isolamento social), Esquizotípica (excentricidade, misticismo exacerbado, ideias delirantes), Paranoide (indivíduos ciumentos, desconfiados), Antissocial (popular ‘psicopata’), Borderline (gente explosiva, que vive no 8 ou 80, com altos e baixos, ‘no limite’), Histriônica (pessoa ciumenta, que exige ser o centro das atenções), Narcisista (pessoa egoísta, excessivamente vaidosa, que toma para si ideias dos outros e coloca culpa nos outros por seus erros), Dependente (pessoa que não decide seus problemas sozinha, insegura, susceptível a sofrer abusos morais), Evitativa (timidez patológica) e Anancástica (obsessivo-compulsiva, personalidade perfeccionista, com excesso de metodismo e organização)

** O DSM V não tenciona transformar o diagnóstico psiquiátrico num mero somatório de pontos, tampouco a reduzi-lo ao modelo puramente biomédico, já há muito ultrapassado. Há décadas já sabemos que basicamente não só toda condição médica como também nosso comportamento resulta em maior ou menor grau da interação da nossa carga genética com o meio em que vivemos. O Manual estabelece critérios sim – e qual seria mesmo o problema de se estabelecer critérios? -, e coloca também características associadas que podem apoiar os diagnósticos como as questões sócio-econômicas e as relativas à cultura na qual o paciente está inserido. O Manual deixa deixa bastante claro que só há doença onde existe um quadro persistente de má adaptação ou inaptidão que leve a prejuízo ou sofrimento.

 

 

Aviso: Este post contém links afiliados da Amazon
e isso não afeta o preço que você pagará no caso
de realizar uma compra por meio deles. 
A administração do Blog poderá receber
uma pequena comissão pela venda.

5 comentários em “Os ‘psicopatas’ do nosso dia a dia”

  1. Olá, Meire! Espero que esteja bem! 🙂
    Comprei esse livro há algum tempo e até comecei a lê-lo, mas acabeimabandonando porque não era o que eu esperava. (Acho que eu pensei que seria sobre os “psicopatas de filme” mesmo. XD)
    Mas darei uma nova chance, quem sabe esse ano ainda.

    Curtir

  2. Maravilhoso Meire… é um livro tem que ler… estudos indicam que em média passará por nossas vidas cerca de duas a três pessoas com psicopatia… fora os outros transtornos tão mais comuns em nossa sociedade e que infelizmente não fomos “preparados” ao longo da infância para lidarmos em caso de convivência…

    Curtir

    1. Sim! E quem vem de família boazinha precisa ser repetidamente exposto a essa realidade, pode nos poupar de muito sofrimento.

      Curtir

      1. Pode mesmo… isso deveria ser abordado tb em sala de aula no conceito de ética e sociedade…🤔

        Curtir

Os comentários estão desativados.