Luxo Democrático [ou: Um Post para Ana]

Por @meire_md

Post dedicado à querida maquiadora Ana Cândida

 

‘My ultimate dream is that anyone who reads this book will never look at their makeup bag in the same way again and might even look at the history of women from a new perspective’ (Lisa Eldridge)

 

Desde pequena acho fascinante saber de onde as coisas vieram, como surgiram e como se comportam ao longo do tempo.  E quando o tema central é algo que gosto, a curiosidade é maior ainda.

Tenho melasma há 14 anos. Quando ele apareceu os protetores solares disponíveis  tinham uma cosmética muito ruim, então a maquiagem – que comecei a usar para camuflar as manchas – acabou substituindo minha proteção solar primária por muito tempo.

Maquiagem não substitui proteção solar, mas certamente o uso regular de base e pó com filtros solares evitou que meu melasma piorasse mais enquanto eu descobria protetores líquidos que permitissem um uso correto (três camadas) – coisa que só ocorreu há uns onze anos – e me adaptava ao uso de chapéu, sombrinha e roupas com proteção UV.

Hoje em dia uso protetor solar em bastão [8 passadas por área a ser protegida] e finalizo a proteção com maquiagem, pois é possível que a luz visível promova escurecimento do melasma.

As bases de maquiagem e outros produtos que contenham óxidos de ferro – como blush e corretivos, por exemplo – agem como se fossem um quebra luz de abajur: a opacidade produzida pela cor + cobertura minimiza a quantidade de luz visível (‘claridade’) que atinge a nossa pele.

Esse fenômeno é chamado de Efeito Pantalha.

Graças ao bem que a maquiagem me fez e faz, sua História passou a ser um tema do meu interesse.

História da Maquiagem

O pouco que eu sabia sobre História da Maquiagem havia visto de modo picotado pela internet, por isso adquiri ‘Face Paint’ na mesma hora que soube de sua existência.

Lisa Eldridge  é uma ‘make-up artist’ mundialmente conhecida por seu estilo de maquiagem elegante e ‘limpa’.

Ela aparenta ser tão culta e tão acima da média que não tive dúvidas de que seu livro seria particularmente interessante.

Comprei primeiro a versão para Kindle, porém fiquei tão encantada com as imagens e o conteúdo que acabei comprando a versão capa dura, que à época só estava disponível no Book Depository  (hoje já pode ser encontrado na Amazon Brasil.)

Ao referenciar estudos antropológicos e exibir a história, a ciência e a tecnologia que estão  por trás da maquiagem, Lisa eleva o patamar do ato que maquiar-se e o sedimenta como um modo de expressão resiliente ao tempo.

Face Paint

‘The natural world provided everything needed for the ancient makeup bag. Ingredients like chalk, manganese dioxide, carbon, lapis lazuli, copper ore, and red and yellow ochre were used to embellish in every corner of the globe – from de aboriginal and tribes of Papua New Guinea to the earliest civilizations of Mesopotamia and Egypt (…)’

 

O livro tem duas seções principais, The Ancient Palette e The Business of Beauty.

A autora  descreve como a maquiagem facial e corporal de tribos africanas e dos antigos povos foi confeccionada e trata da toxicidade de muitos ingredientes largamente adotados.

Lisa reporta que a intensidade da maquiagem e a paleta de cores tem flutuado nos diferentes tempos e lugares tanto de acordo com os padrões de beleza da época em questão como por intromissões religiosas e até políticas.

Um dos pontos altos do livro é a rica discussão da relação entre a maquiagem e autonomia feminina.

Pele clara e rosada

Retrato de Madame de Pompadour (1758), amante de Luís XV.

Segundo sua pesquisa, o blush começou a ser comercializado nas  perfumarias francesas em 1780 e à época as mulheres menos abastadas o aplicavam de modo sutil, enquanto a aristocracia o usava de modo bem marcado.

Essa interessante diferença de estilo foi mantida até a Revolução Francesa.

A obsessão pela pele clara levou ao uso de pigmentos brancos e ao abuso de despigmentantes caseiros, incluindo os a base de arsênico, mercúrio e chumbo, que foram populares por séculos.

A saga da maquiagem

‘Democratized and empowered, young woman used makeup to express themselves and set themselves apart from their mothers and grandmothers for whom makeup had been frowned upon’

Os caminhos pelos quais a maquiagem passou – em uma fase histórica tida como algo a ser usado apenas por mulheres ‘pouco respeitáveis’ – até atingir o status de aceitação social se misturaram com a história da imprensa, da fotografia, da I Guerra Mundial, dos movimentos feministas, da desmarginalização do teatro, da ascensão das divas de Hollywood – Greta Garbo fabricava seu delineador com carvão e vaselina e sua sombra misturando vaselina com pó facial –  da televisão, do jornalismo, da publicidade…

As minibiografias de rainhas, princesas, atrizes e outras musas da maquiagem que com seu estilo nos influenciaram e continuam nos influenciando torna o livro ainda mais interessante.

Primórdios da Indústria da Maquiagem

‘Hazel Bishop was the inventor of the first truly long lasting lipstick, which was heavily advertised on live TV throughout the 1950s’

Os capítulos sobre alguns dos pioneiros da indústria da maquiagem no século XIX também são repletos de informações interessantes.

Neles são incluídos os primeiros maquiadores profissionais com um destaque para a saga do judeu polonês Max Factor, que participou ativamente do desenvolvimento de maquiagens que atendiam as necessidades dos filmes da época, quando a luz das filmagens gerava sombras nas faces dos atores e não evidenciava o tom vermelho dos pigmentos.

Max Factor* que introduziu na indústria o princípio de harmonia das cores (1918), foi também o primeiro maquiador a ser contratado para trabalhar como parte da equipe de um filme.

Estratégias desonestas

‘Elizabeth Arden even created a makeup kit for the American Marine Corps Women’s Reserve with a red lipstick that matched elements os their uniforms’ (a maquiagem foi importante para as mulheres lidarem com as perdas, a crise em seus países e os novos desafios trazidos pelas duas grandes Guerras Mundiais).

Lisa registrou as desonestidades de muitos empresários – inclusive a espionagem cosmética – para criar e glamourizar seus produtos, como as artimanhas de Helena Rubinstein, que não só mentiu sobre os ingredientes de seu primeiro creme como inventou um nome para um suposto químico responsável, que nunca existiu.

O creme que fez HR acumular uma fortuna e foi vendido por um preço exorbitante por mais de 50 anos era uma simples mistura de vaselina + óleo vegetal + lanolina. A empresa alegava que o creme contava com miraculosas ervas extraídas de montanhas do leste europeu.

Não menos fascinante, porém muito mais honesta, é a história de Estée Lauder, que morreu em 2004 deixando um Império que hoje alberga mais de 25 empresas, incluindo a MAC. Foi ela quem introduziu no mercado americano/europeu a cultura de fornecer amostras grátis.

Muitos outros criadores que seguiram o rastro dos pioneiros ou inovaram em cores, embalagens e texturas aparecem no livro.

História dos truques de contorno e iluminação

Para quem acha que os truques de luz e sombra foram criados pelo maquiador da Kim Kardashian, a seção relativa aos truques relacionados ao jogo de luzes e sombras é bem interessante.

Para produzir uma pele iluminada, Marilyn Monroe aplicava vaselina como primer e criava sua base fazendo uma mistura de duas cores de bases da Max Factor com uma gota de base branca.

 História da nossas necessaires

‘In many ways makeup was the most democratic of all “luxury” goods (…) making it available to women beyond just the middle and upper classes.’

Por volta da metade do livro somos presenteados com a interessantíssima ‘History in Your Handbag’.

Você sabe como foram as primeiras máscaras de cílios? Quais foram os primeiros “must-haves”? Por que as sombras coloridas se popularizaram ou desde quando e como unhas são pintadas?

Quem foi o cara que inventou o glitter? Em que circunstâncias a maquiagem para as pernas foi criada? Quais eram os produtos usados por Amy Winehouse?

Você sabia que o criador da Bourjois era de uma trupe de teatro e para começar a produzir e vender seus cosméticos foi financiado por Alexandre Dumas, autor de ‘Os três Mosqueteiros‘ , ‘O Conde de Monte Cristo‘ e ‘A Rainha Margot‘?

Maquiagem masculina e evolução tecnológica

Lisa presta algumas notas históricas sobre a maquiagem masculina e discorre sobre a influência científica e tecnológica que permitem substituir materiais instáveis por equivalentes sintéticos melhor controlados e faz comentários sobre a tecnologia japonesa, que tem produzido excelentes texturas.

Maquiagem e Saúde Mental

No capítulo ‘I Want to Look Like You’ de ‘Face Paint’ a autora expressa a mesma preocupação que muitos psicólogos e outros estudiosos vêm manifestando acerca do crescimento do número de pessoas que não se buscam nas imagens perfeitas de editoriais de revistas, fotos e vídeos publicados na internet e por esse motivo perseguem um ideal de perfeição inatingível.

Cinco anos depois da publicação do livro, encontramos a materialização dessa preocupação estampada em rostos super preenchidos ou fabricados em série.

O desafio de nossas trisavós era poder usar maquiagem sem sofrer agressões por isso. Para elas a maquiagem foi um direito a ser conquistado.

Hoje a maquiagem é o luxo mais democrático que existe e temos toda liberdade de usá-la (ou não usá-la). Dispomos de um arsenal gigantesco de produtos acessíveis para todos os bolsos e gostos.

O nosso desafio é muito menor que o delas: é apenas não sucumbir ao consumo desenfreado.

Beijos,

Meire

 

*Em 1938 ele morreu, porém, seu filho manteve a empresa, que foi vendida para a Procter & Gamble em 1991.

 

📙 Face Paint: The Story of Makeup (Inglês) Capa dura – Ilustrado

📙 A mulher que inventou a beleza: A vida de Helena Rubinstein eBook Kindle

📙 Estée Lauder:: Businesswoman and Cosmetics Pioneer (Inglês) Encadernação para biblioteca – Ilustrado

📙 Fragmentos. Poemas, Anotações Íntimas, Cartas (Português) Capa dura

📙 Max Factor – O homem que mudou as faces do mundo

📙 Amy, minha filha (Português) Capa comum

📙 Kim Kardashian (English Edition) eBook Kindle

📙Mulheres, cultura e política (Português) Capa comum 

📙 Greta Garbo: Divine Star (Inglês) Capa dura

 

 

 

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4 comentários em “Luxo Democrático [ou: Um Post para Ana]”

  1. Oi Meire. Sempre bom falar com vc! Muito legal seu blog. Parabéns! (tive um por mais de 10 anos mas resolvi parar muito por causa de assuntos da sua postagem mais nova sobre complexidades humanas e vidas injustas…).
    Bjs

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  2. Oi!
    Meire, ex-aluna do Neves (pré-1987)?
    Se sim, aqui é Alexandre Costa.
    Se não, aqui tmb é Alexandre Costa, hehe.

    Abraços!

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