[Post Longo] Erros Sistemáticos & Falácias de Discurso

Post dedicado às pessoas curiosas e aos estudantes de todas as áreas de saúde

“Comece pelo começo, vá até o fim e então, pare” (Lewis Carroll, em Alice no País das Maravilhas)

 

Por @meire_md

Por mais inacreditável que isso pareça para você que é novinho ou novinha e gosta de tudo que é ligado a pensamento crítico, estudar erros sistemáticos e falácias de discurso foi uma das primeiras manias de algumas pessoas que batiam boca na internet antigamente.

A gente batia boca por e-mail ou por chats primitivos.

Você se imagina chegando em casa à noite e indo debater temas polêmicos através da troca de longos e-mail? Não, né.

Tentei deixar o post menor, porém o tema é muito extenso. As doze laudas que estão aqui não podem ser chamadas nem de introdução, são apenas um aperitivo para atiçar sua curiosidade.

Conhecer possíveis erros sistemáticos e falácias de discurso antes de mergulhar no estudo das evidências científicas das terapêuticas praticadas pela profissão que você escolheu abraçar – seja fisioterapia, enfermagem, nutrição, medicina, odontologia, medicina veterinária ou outras – não é só necessário ou importante: é um ato de responsabilidade e respeito pela vida humana e animal.

As falácias de discurso são resumidamente um raciocínio degenerado que teima em parecer correto e os erros sistemáticos – conhecido como viéses – são os desvios introduzidos ou que surgem em pesquisas científicas.

Quando você conhece argumentos falaciosos e aprende a detectar vieses, começa a perceber ocorrências em todos os lugares, do grupo de WhatsApp da família ao ambiente acadêmico.

Pensar criticamente não é sinônimo de reclamar de tudo ou de encontrar erro em todo lugar, é uma espécie de proteção contra embustes.

De nada adianta você defender o pensamento crítico se usa argumentos falaciosos.

Neste post vou colocar algumas falácias e alguns vieses comuns no dia a dia dos médicos e uma pequena lista de livros que podem auxiliar você neste estudo.

Pensamento Crítico

Estimular o pensamento crítico deve ser um exercício diário por dois motivos: porque a nossa mente nos prega peças continuamente e porque o contraconhecimento se espalha mais rápido que o conhecimento.

A coisa está ficando séria.

Se você não gosta de ser enganado precisa manter uma pulga atrás da orelha em estado de constante alerta e entender que duvidar de si mesmo é um grande exercício de honestidade.

Nenhum de nós está livre de cometer falácias ou de ser engabelado por vieses porque somos seres humanos com um cérebro tão imenso quanto lotado de subprodutos evolutivos.

Meta isso na sua cabecinha: nós sabemos muito menos do que acreditamos saber.

Raciocínio perfeito?

Quando analisamos discursos e estudos científicos a pressa é arqui-inimiga da perfeição.

E a perfeição é um ideal inatingível.

Como muito bem explicado por Siddhartha Mukherjee, não existe nenhum estudo científico sem vieses.

Nenhum.

A sistematização melhora o resultado mas não elimina riscos porque Medicina (Saúde) não é matemática.

Se não existe nenhum estudo sem vieses, mastigar o artigo demoradamente e lê-lo com atenção  é mais importante ainda.

Não sejam leitores apressados.

O que é um argumento?

Um argumento é algo estruturado que parte de afirmações, cujas premissas dão suporte à conclusão.

Se o argumento for direcionado para defender ou afastar algo que seja da alçada da ciência, suas proposições precisam ser falseáveis, ou seja, passíveis de refutação por meio da observação ou de um experimento.  A frase que acabei de escrever é um exemplo de argumento.

Ser falseável é, resumindo, a qualidade de permitir ser questionado dentro do espectro do mundo natural.

Um segundo ponto importante é que o ônus da prova é daquele que afirma.

Se eu afirmo que existe um ser humano com vinte e uma cabeças não posso exigir que você prove que isso não existe. Eu que devo demonstrar que existe.

Um exemplo clássico de argumento não falseável é o do Dragão na Garagem, descrito por Carl Sagan em ‘O Mundo Assombrado pelos Demônios’.

A ciência tem um escopo limitado. Mas ela é como um forno autolimpante, corrige-se o tempo todo.

Qualidade da metodologia

A qualidade do desenho de todo o estudo – desde a alocação da amostra até a discussão dos resultados – vai fazer toda a diferença nos resultados e a capacidade do leitor/avaliador do estudo determinará o quão adequada será a aplicação prática do conhecimento obtido.

Um bom estudo pode ser severamente desviado se lido e aplicado por um mau leitor, bem como um estudo de ciência básica sem quaisquer indícios de relevância clínica pode fazer um fármaco qualquer ser visto como panaceia. Isso é particularmente preocupante porque abre margem para a venda de curas milagrosas.

Quando você já tiver lido muitos estudos e estiver avançando na prática, irá reconhecer o que conta ou não com relevância clínica porque a aplicação do aprendizado não é automática.

O fato de existirem evidências favoráveis a um tratamento não indica que ele seja o ideal para um paciente em particular porque o manejo clínico é resultado de um raciocínio mais complexo que envolve custo-benefício e a vontade do paciente e de sua família, por exemplo.

O estudante da área da saúde precisa ser um bom Sherlock Holmes e um bom leitor.

Hoje vamos brincar com isso

Quando você entende bem a estrutura de um pensamento organizado e lógico você consegue encontrar vieses e falácias mesmo que não entenda tanto assim sobre o assunto que está sendo discutido.

Deixe sua mente pipocar de perguntas.

Tipos de vieses

Viés de encaminhamento

Ocorre quando, em razão da origem do encaminhamento, as características de um grupo de pacientes que estão sendo estudados diferem muito daquelas do outro grupo.

Por exemplo, um grupo foi encaminhado de um consultório privado e o outro é formado por pessoas internadas em um hospital público com poucos recursos. Se o estudo não for muito bem delineado isso pode comprometer bastante a confiabilidade dos resultados.

Viés do entrevistador

Ocorre quando uma pesquisa é feita por vários entrevistadores, o que tende a fornecer erros sistemáticos comuns. Um deles pode sondar mais informações, fazer perguntas de modo mais eficiente ou um mesmo entrevistador pode obter mais ou menos informações de diferentes pacientes por questões culturais, por exemplo.

Viés de publicação

Ocorre porque os pesquisadores tendem a submeter mais trabalhos quando os resultados são positivos do que quando são negativos e/ou porque as revistas selecionam mais estudos com resultados positivos do que com resultados negativos. Se você quiser parecer muito mais culto, pode chamá-lo de viés de notificação seletiva de desfechos.

Viés de preferência social

Quando os participantes do estudo respondem conforme o que se espera deles. Você precisa ficar atento porque isso não ocorre só em pesquisas, ocorre na prática diária.

Por exemplo, uma pessoa que fuma maconha ou consome cocaína pode omitir isso para não se sentir constrangido ou pode dar respostas que façam com que pareça mais adequado às convenções sociais.

Esse viés poderia ser reduzido com ajuda da tecnologia, mas as pessoas tendem a mentir mesmo quando acreditam que as respostas serão enviadas ao pesquisador de modo anônimo. Para saber mais sobre isso, você pode ler ‘Todo Mundo Mente’, de Seth Stephens-Davidowitz.

Viés da Integridade dos Dados

Quando os grupos de participantes registram seus dados de modo diferente. Vamos supor que um alguns tenham acesso a um aplicativo de celular para registrar todos os sintomas tão logo apareçam e outros não usem o aplicativo, prefiram usar papel e caneta ou deixem para reportar os sintomas pessoalmente, numa próxima consulta.  A diferença pode ser gigantesca.

Viés de Expectativa

O entrevistador pode ter, por características e experiências pessoais ou por estar há mais tempo no grupo de pesquisa, acesso a informações que influenciam suas expectativas.

É por isso que, às vezes, o próprio médico encaminha o paciente para uma segunda opinião, ou seja, para conseguir um olhar “fresco” sobre o caso e eu costumava fazer isso quando fazia consultório e me deparava com um caso sem solução aparente.

Costumo dizer que quando o paciente está em uma fase onde o tratamento parece não surtir qualquer efeito, é importante que o médico ‘passe a régua’ e colete a história toda do começo de novo. Nós erramos frequentemente e os pacientes mentem frequentemente, mesmo que não façam isso conscientemente.

Viés do observador técnico

As observações técnicas de um pesquisador ou outro podem diferir significativamente, sobretudo em questões que envolvem subjetividade.

Não é maldade afirmar que um mesmo paciente pode passar com três psiquiatras diferentes e sair com três diagnósticos diferentes. Imaginem um estudo feito apenas com pacientes esquizofrênicos. Pergunte-se: como o diagnóstico foi feito?

Viés de Memória

Ocorre porque os pacientes que tiveram efeitos colaterais tendem a se lembrar dos eventos favoráveis de um modo diferente dos pacientes que não tiveram efeitos colaterais. A nossa memória, na verdade, é uma fábrica de falsas lembranças.

Viés de Vigilância

Acontece pela tendência que temos, como médicos, de procurar eventos de modo mais detalhado em um grupo em particular. Imagine que sua pesquisa ou seu ambulatório tenha um grupo de pessoas com diabetes e um grupo sem diabetes.

A sua tendência será valorizar e esmiuçar mais as queixas das pessoas diabéticas do que as queixas das pessoas saudáveis. Se você não conhecesse esse viés, seria mais fácil se deixar levar por ele. Lute contra o viés de vigilância que você já estará a um passo de ser um profissional melhor que a maioria.

Esse viés pode prejudicar bastante as pessoas hipocondríacas. O médico tende a baixar a vigilância e deixar passar um câncer, por exemplo.

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Falácias

Generalização Precipitada

Quando se chega a uma conclusão sobre um fato complexo com base em uma amostra não representativa. Isso é muito comum na vida real, inclusive.

Uma pessoa que não tem parentes e amigos advogados ou médicos e tem uma experiência ruim com um ou dois tende a considerar que todos os médicos e advogados são ruins, por exemplo.

Post Hoc, Ergo Propter Hoc (depois disso, logo por causa disso)

Ocorre quando a pessoa interpreta que a correlação sugere causalidade. Por ser uma falha comum, fiz um post no Instagram para ilustrar isso usando como exemplo a falsa correlação entre uso de talco e o câncer de ovário. Um não causa o outro, embora estejam correlacionados, ou seja, a hipótese nula nunca foi refutada.

Cum Hoc, Ergo Propter Hoc (com isso, logo por causa disso)

Quando dois eventos que ocorrem ao mesmo tempo são considerados causa e consequência. Por exemplo, uma lâmpada da casa queimou na mesma hora em que a pessoa teve diarreia e ela conclui que o evento elétrico mexeu com sua fisiologia corporal. Vocês vão ver isso muito na prática clínica. O paciente comeu uma coxinha na rua e adoeceu no mesmo dia, então jura de pés juntos que a coxinha causou a apendicite.

Falácia de Origem ou Falácia Genética

Quando o argumento é valorizado ou desvalorizado de acordo com sua origem, sem que o conteúdo da proposição seja avaliado. Essa falácia é muito comum na internet, você a vê o tempo todo.

Se a pessoa não gosta dos EUA, tudo que vem de lá é automaticamente visto como inadequado. Se a pessoa é de esquerda, tudo que vier da direita é inadequado. É uma forma lamentavelmente preguiçosa de raciocinar.

Argumento ‘ad hominem’

Uma das falácias de discurso mais comuns e adotada por pessoas despreparadas e/ou desonestas intelectualmente. O argumentador tece ataques à pessoa e não às ideias que estão sendo discutidas.

O objetivo é desqualificar e desestabilizar emocionalmente o oponente. Ele se associa frequentemente com a Falácia do Espantalho.

Falácia do Espantalho

Ocorre quando a pessoa deturpa ou simplifica demais o argumento da outra pessoa para depois atacá-lo. É uma falácia extremamente usada na internet, minha paciência para quem usa este tipo de falácia é um total de vários zeros porque a experiência já me mostrou que as pessoas que fazem isso são puramente desonestas, fazem de propósito.

Quem é macaco velho em argumentação não prolonga muito a conversa. Não vale a pena, saia de fininho e deixe o desonesto falando sozinho ou use meios socráticos: não acrescente nenhuma informação nova, só faça perguntas.

Raciocínio Circular

Quando a conclusão volta para a premissa. Eu costumo chamar isso de argumento de quinta série. Exemplo: ‘Você está redondamente errado porque o que você falou não está certo’. É o ‘porque sim’ do discurso.

Perseverança de Crença

Quando o argumentador tem forte apego a um ponto vista e o transforma em crença (crença=algo que dispensa evidências), resistindo de modo impermeável às evidências que demonstrem o contrário de modo muito claro.

É possível que essa falha de raciocínio piore com o avanço da idade, porque o cérebro parece ficar mais resistente às novas ideias com o passar do tempo, então é preciso manter o treino em dias.

Um exemplo clássico de Perseverança de Crença é a defesa da Terra Plana, mas você vai ver isso em pessoas que defendem práticas alternativas de tratamento já consistentemente refutadas, por exemplo.

Culpa por Associação

Quando o argumentador desacredita a ideia/característica de um indivíduo em particular porque tem alguma similaridade a ideia/característica de um grupo mal visto socialmente.

Um bom exemplo é você concluir que uma pessoa tatuada é criminosa porque há muitos criminosos tatuados. Esse argumento é também uma forma de transformar toda e qualquer característica de um grupo em algo essencialmente mau.

Apelo à Popularidade

Quando a pessoa argumenta que a prova que algo é verdadeiro reside no fato de que muita gente acredita nele. Também é uma forma preguiçosa de raciocinar.

É aqui onde muitos paradigmas podem ser quebrados caso você se faça perguntas simples: como esse conhecimento foi produzido? de onde isso saiu? é plausível?

Apelo à Ignorância

A pessoa argumenta que algo é verdadeiro só porque não foi provado como falso. É uma espécie de inversão do ônus da prova, quando a ausência de prova é transformada em prova por ausência.

É um argumento muito comum entre pessoas que não compreendem como o conhecimento científico é produzido. Você vai se deparar muito com isso junto aos colegas que escolhem trilhar por práticas ‘alternativas’.

Falácia do Equívoco

Ocorre quando o argumentador explora a ambiguidade de certas palavras para fazer o outro parecer dissonante. É um modo comum de atacar ateus. “Você diz que não tem fé, mas tem fé no seu marido” (a pessoa esquece o que tem em Hebreus, 11:01 só na hora de formular o ataque).

Falso dilema

Quando o argumentador apresenta apenas duas possibilidades de escolha dentre as inúmeras possíveis e conclui que se pessoa não aceita uma, consequentemente segue a outra.

Para essas pessoas, se você critica um político imediatamente passa a ser visto como defensor do outro porque elas não têm capacidade de entender que você pode criticar alguém que também defende, nem que você pode preferir um terceiro, nenhum dos três ou ver aspectos favoráveis em um, dois ou três deles.

Se alguém critica a política de cotas é tratado imediatamente como racista, mesmo que seja preto e tenha argumentos sólidos para sustentar suas proposições. Essa falácia também é conhecida como pensamento preto no branco e como falsa dicotomia.

Geralmente é usada por pessoas extremistas. Antigamente eu achava que era desonestidade pura e simples, mas hoje vejo que é uma falha lógica que não foi adequadamente trabalhada na Escola.

Tu quoque (Você Também)

Essa é a cara do finado Orkut e hoje poderia ser chamada de ‘enfim, a hipocrisia’. Basicamente consiste em rebater um argumento com uma acusação, visando desviar o assunto.

Falácia de apelo ao medo

Usada por pessoas que querem vender ideias, cursos ou determinados produtos, por exemplo. Elas deturpam fatos e propagam contraconhecimento para implantar medo e fazer com que as pessoas façam outras escolhas de compra. Essa falácia é muito usada no período eleitoral e atualmente tem sido usada pela indústria de cosméticos naturais.

Bola de Neve

Falácia na qual o argumentador alega que uma proposta irá gerar uma cadeia gigante de eventos. Foi muito usada na época em que se discutia mais generalizadamente o casamento gay. Algumas pessoas diziam que todo mundo iria virar gay ou que ser hétero ia acabar sendo proibido.

Falácia do Escocês (Nenhum Escocês de Verdade)

Em vez de contestar a evidência, o argumentador refaz o critério para que alguém pertença a um grupo. A pessoa fala que pessoas criativas têm insônia.

Outra contra-argumenta, reportando que fulano é muito criativo mas não tem insônia. E a primeira conclui que Fulano não é criativo de verdade, pois se fosse teria insônia.

Falácia de Divisão

Quando a pessoa infere que cada uma das partes deve ter a característica significativa da parte inteira, seja ela real ou não. Por exemplo: Uma pessoa afirma, dando os seus motivos, que a Universidade X tem um viés ‘esquerdista’.

A pessoa com raciocínio enviesado conclui que todos os universitários daquela Universidade fazem parte do espectro político de esquerda. Ou pode concluir, por exemplo, que todos os muçulmanos são terroristas porque um grupo Y deles é formado por terroristas.

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Lista de Livros que podem contribuir para sua caminhada

O Guia Contra Mentiras’, de Daniel Levitin

É um livro que compila muita coisa interessante para qualquer pessoa que tenciona treinar o pensamento crítico. Leia e releia.

Tenho a versão para Kindle e a de papel; acho mais interessante a de papel porque você pode utilizá-la como um caderno para complementar os textos com anotações vindas de outras fontes.

Usar papel e caneta pode, aparentemente, reforçar o aprendizado.

  • Resenha sobre ele, aqui.

O Mundo Assombrado pelos Demônios‘, de Carl Sagan

Fiz resenha dele nos stories do Instagram há uns quatro anos. É um livro que dispensa apresentações e mesmo sendo antigo, é eternamente relevante porque foi todo montado dentro de preceitos que continuam clássicos.

O Livro Ilustrado dos Maus Argumentos‘, de Ali Almossawi

  • Notinhas sobre ele, aqui.

Subliminar‘, de Leonard Mlodinow

Livro essencial para livres pensadores e para pessoas que gostam de saber mais sobre as armadilhas da mente humana.

‘As Leis da Medicina’, de Siddartha Mukherjee

Resenha sobre ele, aqui. É um livro delicado que mais parece uma palestra ministrada por um grande médico. Vale muito a pena, inclusive para médicos experientes.

‘Todo Mundo Mente’, de  Seth Stephens-Davidowitz

É um livro mais divertido e curioso do que propriamente útil para estudantes da área da saúde, porém pode abrir um leque para profissionais que se interessam em pesquisa.

Como Mentir com Estatística‘, de Darrell Huff

É um livro miudinho, bem básico e de leitura rápida. Se você é estudante de Medicina e já tem o do Gordon Guyatt, ele é dispensável, mas se você é estudante do ensino médio ou recém entrou na Universidade, a leitura vai ser bastante proveitosa. É um dos livros favoritos de Daniel Levitin.

Diretrizes para Utilização da Literatura Médica‘, 2ª Edição, Gordon Guyatt & Cols

Livro escritos por pioneiros da Medicina Baseada em Evidências (contém 15 capítulos).

User’s Guides to The Medical Literature, 3rd Edition, Gordon Guyatt & Cols

(Atualizado; contém 29 capítulos)’: A terceira edição do Diretrizes tem 14 capítulos a mais que a 2ª Edição porque inclui tópicos avançados sobre o mesmo tema.

Se você não pretende ser pesquisador e não quer gastar muito com livros paradidáticos, pode comprar a segunda edição mesmo porque ela não está ultrapassada. Eu tenho as três edições e vez por outra faço comparações.

Só mais um

Gostaria de acrescentar aqui um livro de História da Medicina que pode interessar quem tiver interesse de enveredar pela pesquisa científica: ‘O Imperador de Todos os Males’.

Fiz resenha sobre ele, hoje um dos meus livros favoritos de História da Medicina. Imagino que seja uma excelente leitura para estudantes de Biomedicina.

Recadinhos para estudantes da área de saúde

O Erro Sistemático (ou viés) é muito diferente do erro aleatório, que de fato é um agente do acaso, algo imprevisível e não produzido, mas que precisa ser considerado fortemente na análise dos resultados.

O acaso é tão poderoso que está por trás do desenvolvimento de coisas tão diversas quanto a pólvora – que foi descoberta por alquimistas taoístas que estavam tentando encontrar o elixir da vida  – ou um quimioterápico.

O Acaso age a favor da morte e a favor da vida o tempo todo e se infiltra em basicamente todas as pesquisas em saúde humana.

Como se chegou a um resultado tal? Ele é plausível? Há correlação de uma coisa com outra? O resultado terá sido uma mera obra do Sr. Acaso?

Desprezar o poder do acaso é um dos erros mais comuns entre pessoas que interpretam literatura médica.

#somostodosignorantes

A real busca pelo conhecimento admite a ignorância.

Nem sempre temos ou encontramos explicação para tudo, portanto seja um eterno estudante. Não permita que a crença numa suposta superioridade intelectual – por ser estudante da área de saúde – subverta esse princípio básico.

Estudar nos permite saber que não sabemos. Profissionais que não sabem que não sabem de alguma coisa podem ser perigosos. Eles podem ser bem prepotentes e apegados ao conhecimento passado, inclusive.

Admitir ignorância, buscar aperfeiçoamento contínuo e pedir uma segunda opinião são grandes virtudes.

Outro aspecto importante: lembre que ciência é feita por homens e para homens.

A Ciência não deve ser vista como religião tampouco como algo que prescinda de imposição de limites.

Ela não tem respostas para tudo pelo simples fato de ter alçada limitada. E pode ser usada também para o mal.

Foi o suporte de cientistas quer permitiu, por exemplo, a criação da bomba atômica.

Toda pesquisa deve ser cerceada por limites éticos e você precisa ler sobre isso para não sair por aí distribuindo desconhecimento sobre como a ciência funciona ou tratando-a de modo dogmático.

O fato de possuir conhecimento não nos dá carta branca para fazer o que quisermos

A ciência é uma ferramenta para produção de conhecimento, deve ser usada para mitigação de decisões danosas para nossos pacientes e jamais ser usada como desculpa para vender falsas promessas.

Conflitos de interesses

Basicamente todas as pesquisas vão ter algum interesse comercial, ideológico, político ou até religioso.

Ciência não se faz sem dinheiro. Sempre haverá financiamento da parte de alguém.

Procurar consultar literatura médica de modo mais cético, rigoroso e  objetivo possível é a decisão mais correta, sempre.

Nunca, jamais, concorde com algo apenas pelo fato de ser a esquerda ou a direita que defende. Mantenha-se aos fatos, forme as suas opiniões e as defenda com moderação e humildade, pois elas podem cair tão logo melhores evidências surjam.

O poder do conhecimento básico

Tenha paciência.

Quando você avançar nos estudos vai aprender vários conceitos, como por exemplo o de hipótese nula, que nada mais é que um marco que parte do princípio de que uma coisa não tem relação com a outra (que um remédio não cura uma doença, por exemplo).

A hipótese nula será refutada através de evidências que sugiram que o resultado encontrado não poderia ser, em princípio, atribuído ao acaso. Quando falamos de relevância estatística estamos falando sobre isso, sobre um valor-p pequeno, que rejeita a hipótese nula.

Saber que o intervalo de confiança é uma faixa onde podemos encontrar a resposta certa para uma pergunta só passará a ser importante quando você souber detalhadamente quais são os três princípios básicos da Medicina Baseada em Evidências, por exemplo, e estiver capacitado a fechar um diagnóstico correto.

Procurar pular etapas antes de treinar seu pensamento crítico e conhecer falácias e vieses pode fazer como que você adquira vícios difíceis de remover depois.

Por que?

Porque quem aprende o avançado desprezando o básico não só erra mais como engrossa o corpo das pessoas presas à persistência no erro.

Quem pula o básico tem pressa. Pessoas apressadas não tem a obstinação que caracteriza os detalhistas, que serão os profissional de excelência, focados no paciente, atentos, ligeiramente obsessivos e que erram menos.

Foque fortemente no básico e vá crescendo. Não há como ser um bom profissional de saúde buscando atalhos.

Leia e releia. Faça anotações. E vá subindo. Além de fixar mais e errar menos, o conhecimento complexo será aprendido mais rapidamente.

Você pode ser o melhor leitor de literatura médica do mundo, mas se não souber semiologia médica nem interpretar exames de laboratório, vai partir de um erro crasso e seu paciente perderá a chance de alcançar o melhor desfecho.

E, por fim, quando o assunto é tratamento, é melhor ter um arsenal terapêutico menor e dominá-lo com destreza do que sair atirando para todo lado com armas que você não conhece.

Extra

Em novembro de 2019 fiz um pequeno post no meu Instagram para explicar o Dragão na Garagem e vou reproduzi-lo aqui, pois meu perfil é fechado:

– Um Dragão que cospe fogo pelo nariz vive bem aqui na minha garagem.

– Ué, mas eu não tô vendo Dragão nenhum.

– Ah, esqueci de dizer! Ele é invisível.

– Massa, então vamos jogar farinha no chão, daí dará para ver as marcas das pegadas.

– Humm, não vai funcionar… meu Dragão só flutua.

– Então vou pegar aqui meu sensor de infravermelho, dará de boas para captar a presença do bicho ou a do fogo.

– Não vai dar… tudo nele é atérmico.

– Bom, então vou borrifar tinta em toda a garagem, será bem fácil ver o contorno do corpo do Dragão.

– Mais uma má ideia sua, é lógico que a tinta não vai aderir, ele é incorpóreo.

Essa alegoria é muito popular entre divulgadores científicos e foi publicada por Carl Sagan em ‘O Mundo Assombrado pelos Demônios’.

Se a conversa continuasse, o dono do Dragão seguiria formulando outras desculpas para validar sua alegação extraordinária até começar a dizer que está sendo vítima de um complô dos donos de zoológico, que não querem que as pessoas descubram que não precisariam pagar por visitações porque já possuem animais exóticos em casa.

É assim que as pseudociências fogem do escrutínio científico: elas buscam alegações imunes aos testes e apelam para a inocência das pessoas colocando-se como uma solução simples para problemas complexos e como vítimas da indústria, do capitalismo ou de qualquer outra coisa fácil de demonizar, levando as pessoas a acreditarem que certas evidências não existem ou não são aceitas por desinteresse dos malvados cientistas, que só pensam em torturar animais e trabalhar a serviço da indústria farmacêutica.

Se eu sumisse do Instagram hoje e apenas essa mensagem, só essa, de que alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias, ficasse na cabeça de vocês e evitasse que parassem de acreditar em certas soluções fáceis para problemas complexos, eu já me recolheria satisfeita.

Beijos,

Meire

 

 

 

 

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2 comentários em “[Post Longo] Erros Sistemáticos & Falácias de Discurso”

  1. Li esse post escutando minha música clássica favorita: Clair de lune – Debussy e foi a escolha certeira😊
    Esse post cabe bem em qualquer contexto, tempo e classe profissional. É um adendo aos conceitos de ser um ser humano. Retrata a valorização do pensamento crítico não aleatório. Uma abordagem de quem somos quanto seres humanos… refleti sobre tantas coisas lendo seu post…
    Senti alívio na alma por me enquadrar nas situações descritas relembrando equívocos e momentos de clareza.
    Me senti grata por ter te conhecido nesse vasto mundo de redes sociais e saber que cada livro lido, cada artigo, escrito e falas foram imprescindíveis para eu conseguir ler de peito aberto cada palavra de forma a absorver conhecimento sem resquícios de preconceitos pré estabelecidos.
    Obrigada Meire!
    Ps: continuei esperando mais… kkkk
    Leria um livro seu e acho que ainda iria querer mais….🤣
    Diz a pessoa que quando leu o livro – O capital aos 20anos terminou e disse: achei que era maior…🤣
    E tb O Mundo de Sophia aos 15anos e disse para minha mãe… tem mais algum parecido com esse?!🤣
    Resumindo: pode escrever bastante que eu curto muito posts longos😊😊😊😊

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