Meditação Para Céticos Ansiosos | Dan Harris, Jeff Warren e Carlye Adler

Por @meire_md

“O budismo não é algo em que acreditar; é algo a se fazer.”

 

Dan Harris, jornalista âncora dos programas de TV norte-americanos Nightline e Good Morning America e autor do livro ‘10% mais feliz’, reuniu-se ao instrutor de meditação Jeff Warren e à escritora e jornalista Carlye Adler para escrever um livro sobre a prática de meditação voltado para o público mais resistente: os céticos.

Meditação Para Céticos Ansiosos’ é uma compilação de entrevistas e modelos práticos de meditação do tipo atenção plena que os autores fizeram com pessoas de várias profissões e diversas condições sócio-econômicas durante uma exaustiva jornada de ônibus que durou onze dias.

O ano de 2020 tem sido desafiador para todos nós e funcionou como uma forte pressão ambiental para que eu, reunindo impressões positivas quanto aos benefícios objetivos da meditação extraídas tanto de livros que resenhei  – como ‘O Segredo Está nos Telômeros’ e ‘Por que o Budismo Funciona’ – quanto de relatos de pessoas céticas que se voltaram à prática como um meio de dar um reset na mente e mitigar o estresse do dia a dia.

Quando vi o Grogu meditando não aguentei de tanto amor … acabei ‘adotando’ a Criança via cartão de crédito, ehehe. Agora preciso meditar para lidar com a espera, porque ele fará uma viagem bastante longa até minha casa.

 

O outro livro que resenhei, o  ‘Por que o Budismo Funciona’,  embora enfadonho e cansativo, trouxe exatamente o que eu precisava: a desnecessidade de exigir uma explicação científica plenamente convincente para uma prática que de fato tem um cerne absurdamente simples, tão simples que sempre foi feita de modo natural por seres humanos em todo tempo e lugar, até alguém batizá-la e sistematizá-la.

Pode ser um placebão? Pode.

Se a prática não tem efeitos colaterais e não faz com que as pessoas retardem a busca por tratamento de doenças que não são autolimitadas, sem problemas. Nunca vi meditadores sérios sugerindo, por exemplo, a cura do câncer pela meditação.

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Descascando uma cebola

Daí o ‘Meditação Para Céticos Ansiosos’ me mostrou que eu já havia transformado a meditação numa cebola e arrancado todas as cascas místicas até chegar ao miolo, que é muito simples e compacto.

Ligeiramente confusa percebi que eu já meditava desde criança, quando caladinha na minha cama sem conseguir dormir em razão da asma persistente e, imóvel, entoava canções mentalmente – a minha favorita era ‘Fui no Totoró’ – enquanto fazia anotações mentais e imergia em coisas que me deixavam feliz.

Essa meditação gentil e de autocuidado voltada a transformar os problemas em coisas menores – o problema não muda, o que muda é nossa forma de lidar com ele – em algum momento foi substituída pelo ASMR (no talking), que vinha me ajudando a parar de me divertir com minha insônia – sou dormidora curta e aproveito a  insônia para ler e ver bobagem na internet – e dormir mais horas por noite.

Aí depois desta misturada toda de coisas, hoje posso afirmar que sou uma pessoa que medita. Uau.

Há muitas formas de meditar ceticamente

‘Então na atenção plena tudo o que fazemos é… prestar atenção à respiração? Isso num primeiro momento. Essa é a prática fundamental’

Quando eu estava no primeiro terço do livro tentei estimular o Igor a começar a meditar e ele soltou uma: ‘eu já medito quando estou caminhando’.

Aquilo me soou muito curioso, porque só consigo meditar em estado semicomatoso, largada no escuro e em silêncio absoluto, porque minha mente é muito acelerada.

Então cheguei na passagem onde Dan coloca que não se tratar a meditação como algo dogmático e Jeff ensina como meditar caminhando e o que meu marido alegou fez completo sentido. Igor é o tipo de pessoa  que consegue meditar andando.

Ele relata que nas suas caminhadas frequentes em áreas de mata preservada – em nossa cidade há algumas – desliga-se do lado urbano, sente o vento e se desliga da realidade.

Para quê buscar explicações sobrenaturais, não é mesmo?

Uma religiosidade que dispensa conversão

Até metade do livro eu estava acreditando que os autores pecaram pela falta de objetividade e entrei no modo leitura dinâmica em várias partes.

Mas o relato do nono dia da viagem me conectou a um grupo entrevistado em particular  – cujos desafios da vida e nível de estresse descritos fizeram um paralelo perfeito com os meus próprios –  e percebi que a escrita de cada trecho da viagem foi meio que direcionada para demandas psicológicas específicas.

Você pode, portanto, se encontrar no meio de um ou mais grupos (ou em nenhum).

A trajetória de meditação de Dan Harris começou em 2004, quando ele teve um acesso de pânico ao vivo e enquanto buscava soluções complementares para sua cura, encontrou conforto na meditação de atenção plena.

As experiências e mini biografias da própria equipe do Dan e de muitos dos entrevistados, as dúvidas das pessoas e as orientações do Jeff – ainda que carregadas de um misticismo um tanto irritante  e um pouco melosas demais para céticos – podem ajudar você a configurar seus próprios métodos de meditação.

Eles, não

Eu já havia captado que gosto de meditar comigo mesma e que as interferências externas de uma meditação guiada me incomodam grandemente, mas até ler o livro do Dan eu achava que isso fosse uma deficiência de minha parte.

Com a leitura do livro percebi algo muito diferente. Percebi que gosto do silêncio porque já tenho uma tendência – que deve ser nata – a classificar os problemas, descomplicar a vida, ser gentil comigo mesma, não me imputar culpas que não tenho, de encontrar soluções práticas para as adversidades e de me resignar.  Eu sou basicamente uma pessoa que, tanto na vida pessoal como no trabalho,  sistematiza rotinas, descomplica as coisas e resolve problemas.

Minha necessidade não é atendida quando sou guiada por terceiros. Eles só aumentam meu stress. Preciso dedicar um tempo do dia completamente isolada – sem livros, sem internet, sem vozes, sem pessoas, sem luz – só sentindo minha respiração e entendendo meu corpo e minha mente ou conversando comigo mesma, visando atenuar o impacto que o estresse do trabalho e da vida diária imputam sobre a minha saúde física.

E tem funcionado muito.

A hora do Insight

Pode soar bobo, mas vou contar mesmo assim.

Uma das coisas que eu sempre me perguntava é por que, mesmo não sendo uma pessoa religiosa, sinto-me tão mal se não faço doações.

Com a experiência de um dos entrevistados me compreendi.

Sou muito parecida com a família do meu pai, nós somos muito empáticos e sensíveis. Sabe família que chora fácil, se emociona? Pois é, nossa família é, o que se pode dizer, cheia de gente fofinha.

As doações regulares me dão a liberdade de sentir compaixão pelas pessoas sem ter a sensação de que não estou fazendo nada pelo mundo, ou seja, posso exercitar minha empatia sem me sentir uma impostora.

O entrevistado mencionou que pessoas que são empáticas mas não fazem doações tendem a vestir uma falsa máscara de insensibilidade porque não se julgam no direito de sentir a compaixão, pois uma vez sentindo, deveriam fazer alguma coisa pelas pessoas em condições desfavoráveis.

Não sei se fez sentido para você, mas para mim foi uma espécie de iluminação. Até nos momentos de desprendimento somos, essencialmente, egoístas. Doar faz bem ao receptor, mas traz mais felicidade ainda a quem doa.

Espero que com a leitura de Meditação Para Céticos Ansiosos, apesar das partes que não venham a fazer sentido algum para você e mais pareçam um pequeno manual de autoajuda, você encontre algumas raízes para as suas ansiedades e gere um bom método de lidar com elas.

Se você quer se aprofundar no tema ou até começar a trabalhar e produzir conteúdo sobre meditação – acho que será algo que vai se expandir nos próximos anos – deixo a lista dos livros favoritos do Dan e do Jeff:

LISTA DE LIVROS FAVORITOS DO DAN HARRIS

📔 Por que o budismo funciona, de Robert Wright (Sextante, 2018)

📔 Despertar, de Sam Harris (Companhia das Letras, 2015)

📔 Budismo sem crenças (Palas Athena, 2005), de Stephen Batchelor

📔 Confissões de um ateu budista (Pensamento, 2012), de Stephen Batchelor

📔 A real felicidade – o poder da meditação (Magnitude, 2012), de Sharon Salzberg

📔 Real Love, de Sharon Salzberg

📔 Quando tudo se desfaz – orientação para tempos difíceis (Gryphus, 2012), de Pema Chödrön

📔A ciência da meditação: como transformar o cérebro, a mente e o corpo (Objetiva, 2017), de Daniel Goleman e Richard J. Davidson

📔 The Trauma of Everyday Life, de Mark Epstein

📔 Conselho não se dá – um guia para superar a si mesmo (Alta Books, 2018), de Mark Epstein

📔 Dharma: o caminho da libertação (Bertrand Brasil, 2004), de Joseph Goldstein

📔 Mindfulness, de Joseph Goldstein

📔 On Having No Head, de Douglas E. Harding

📔 Evolving Dharma, de Jay Michaelson

LISTA DE LIVROS FAVORITOS DO JEFF WARREN:

📔 As variedades da experiência religiosa (Cultrix, 2017), de William James

📔 Coming Home, de Lex Hixon

📔 Um caminho com o coração (Cultrix, 2012), de Jack Kornfield

📔 Depois do êxtase, lave a roupa suja (Cultrix, 2002), de Jack Kornfield

📔 The Science of Enlightment, de Shinzen Young

📔 Além do materialismo espiritual (Lúcida Letra, 2016), de Chögyam Trungpa

📔 The Making of Buddhist Modernism, de David L. McMahan

📔 The Progress of Insight, de Mahasi Sayadaw

📔 Mastering the Core Teachings of the Buddha, de Daniel M. Ingram

📔 Seja como você é: os ensinamentos de Sri Ramana Maharshi (Satsang, 2017), de David Godman

📔 O despertar do tigre: curando o trauma (Summus, 1999), de Peter A. Levine

📔 Como lidar com emoções destrutivas (Elsevier, 2003), do Dalai Lama, narrado por Daniel Goleman

📔 Waking, Dreaming, Being, de Evan Thompson

📔 Radical Dharma, de Angel Kyodo Williams, Lama Rod Owens e Jasmine Syedullah

📔 The Mind Illuminated, de Culadasa (John Yates)

📔 Nonduality, de David Loy

📔 Misticismo (AMORC, 2002), de Evelyn Underhill

📔 For the Time Being, de Annie Dillard

Edição em 02/01/2021

A série Headspace Guide to Meditation [Headspace Meditação Guiada] estreou na Netflix em 01/01/2021.

É uma animação gentil narrada por Andy Puddicombe, monge budista professor de meditação do tipo atenção plena.

Para quem que como eu não se adaptou à meditação guiada, a série é bem interessante para captar técnicas diferentes para depois aplicá-las sozinho. Já vi três capítulos e recomendo.

Para quem nunca meditou tudo parece bem inocente. Mas é mesmo, algo inocente e primitivo.

Para produzir melhor precisamos de pausas. A meditação nos fornece isso.

Beijos,

Meire

Feliz 2021

 

 

 

 

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2 comentários em “Meditação Para Céticos Ansiosos | Dan Harris, Jeff Warren e Carlye Adler”

  1. Amei Meire! Eu sou uma mistura de Igor e de Meire. kkkkkk….
    Medito andando, caminhando, correndo, de olhos abertos, mas também na quietude. Depende muito do que percebo que preciso e em que momento do dia estou.

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