A Queda | Albert Camus

Por @meire_md

“Os homens só se convencem de nossas razões, de nossa sinceridade e da gravidade de nossos sofrimentos com a nossa morte“

Albert Camus (1913-1960) nasceu na Argélia às vésperas da 1ª Guerra Mundial e veio de uma família bastante pobre.

Seu pai era agricultor e morreu na Guerra, restando à mãe, Catherine Hélène Sintès Camus (1882-1960), uma faxineira/lavadeira nunca alfabetizada e pessoa com deficiência auditiva, a responsabilidade de sustentar a família.

Ter conseguido formar o filho em Filosofia foi um grande feito, pois muitas crianças da época se viram obrigadas a abandonar os estudos para trabalhar em condições insalubres, prestando longos expedientes em fábricas e realizando serviços braçais penosos.

Vida caótica, doença e aflições existenciais

Camus contraiu tuberculose* na adolescência e apresentou algumas recaídas até meados da década de 40, o que possivelmente dificultou sua carreira acadêmica e garantiu aquela boa dose de aflição existencial que permeia a biografia de parte considerável dos grandes escritores.

Aproximei-me de Camus quando descobri que ele apreciava dois de meus escritores favoritos, Kafka e Dostoiévski.

Foi um encontro muito agradável. Li ‘A Queda’ pela primeira vez há uns doze anos.

Seus casamentos foram tumultuados, fez uma breve passagem pelo partido comunista, depois se encontrou como libertário/anarquista, rejeitou o rótulo de existencialista e rompeu com Sartre depois de uma amizade que durou 10 anos.

Albert Camus morreu em decorrência de um acidente automobilístico.

A Queda

 


A Queda trata-se um romance filosófico publicado em 1956, quando Camus estava com 43 anos.

É um diálogo onde a fala exata do interlocutor não é registrada, então do ponto de vista teatral pode ser considerado um monólogo.

O curso do pensamento é muito organizado e a identidade da segunda pessoa fica engavetada até a ‘cena’ final.

O protagonista é um advogado francês de quarenta e poucos anos que reside em um bairro judeu de Amsterdã e costuma frequentar Mexico-City, um bar apreciado por marinheiros e comandado por um holandês de modos brutos.

Seu escritório, pelo que entendi sediado no mesmo prédio do Bar, se sustenta às custas de burgueses extraviados e dos chamandos ‘bons bandidos’.

Numa certa noite regada a genebra, o protagonista se encontra por acaso um turista francês**,  a quem se apresenta como Jean-Baptiste Clamence.

Discorre inicialmente acerca de questões genéricas antropológicas e políticas até desembocar, na noite do terceiro encontro, em uma via crucis de autopenitência tão tipicamente existencialista ao ponto de se tornar uma das obras preferidas de Sartre.

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“Um homem sensível compreenderá essas esquisitices”

Nos preâmbulos da questão vital ele expõe a visão de mundo que tivera enquanto advogado jovem, idealista, supostamente honesto e justo, ao mesmo tempo em que analisa de modo inflexível as motivações e o caráter de pessoas e mostra-se um tanto narcisista ao elencar suas generosidades e virtudes.

“Uma mulher que me perseguia, em vão, teve o bom gosto de morrer jovem”

Seu divisor de águas, aquele evento que de uma hora para outra ou nos transforma em outra pessoa ou nos faz assumir quem realmente somos, ocorreu no cais de Paris.

Acometido por uma espécie de transtorno ansioso-depressivo ou pós-traumático reativo ao evento ocorrido no Sena e que evoluiu com múltiplas recaídas, ele finda deixando Paris definitivamente.


“Fiquei onde estava, imóvel”


Em algum momento da narrativa nasce o Juiz Penitente: Juiz, defensor e carrasco de si mesmo.

Derrubando a veracidade da antiga suposta humildade, ele se descobre com maior nitidez e desnuda também o leitor.


“Quanto mais me acuso, mais tenho direito de julgar os outros. Melhor, provoco as pessoas no sentido de julgarem a si próprias”


O escracho autobiográfico e autocrítico segue em certas partes tragicômico, mas sem drama barato.

Gosto muito de quem não se comporta como vítima daquilo que de fato não é em vez de assumir suas próprias deficiências.

Para alguns este livro desacredita a humanidade, mas para mim é justamente o contrário, porque defendo que ainda estamos em processo de civilização.


“Digamos que completei o circuito no dia em que bebi a água de um colega agonizante (…) É assim meu caro, que nascem os impérios e as igrejas, sob o sol da morte “


O trecho sobre suicídio é particularmente interessante, bem como a sua interpretação do significado da vida de ‘orgias’ que algumas pessoas levam e sua visão sobre religiosidade.

 Recomendo fortemente.

Beijos,

Meire

Observações


* Na época em que Camus contraiu a doença não havia tratamento antibiótico específico, por isso seu diagnóstico funcionou como uma sentença de morte.

Por vezes a doença evoluía de forma lenta e sofrida mas em alguns casos cursava com longos períodos assintomáticos alternados com crises de tosse, febre, fadiga e cansaço respiratório de gravidade variável.

O tratamento específico só foi iniciado em meados da década de 40; possivelmente Camus foi especificamente tratado por esta época, mas não posso afirmar com certeza.

** Algumas informações emergem aos poucos. Na terceira noite o interlocutor é tratado como ‘compatriota’.



 

 

 

 

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Uma consideração sobre “A Queda | Albert Camus”

  1. O livro parece ser pura poesia…
    Autores tidos como existencialistas para mim são puro regozijo. Gosto demais…🙃😊

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