[Bate-Papo] Valores Judaicos e Outras Coisas

Por @meire_md

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“Se você não vai ser melhor amanhã do que foi hoje, então para que serve o amanhã?” (Rabi Nachman de Bratslav)

Se grande parte das pessoas defende que o mundo precisa de mais bondade e o exercício dela pode partir dessas mesmas pessoas, por que a bondade não prevalece?

Por que em um país religioso e pacífico como o Brasil há tanto ódio nas ruas e nas redes sociais?

Como entender o apedrejamento moral perpetrado por pessoas que se autointitulam honestas mas usam seus perfis – anônimos ou não – para julgar, perseguir, agredir, difamar, linchar, desumanizar e aniquilar pessoas, coisas que são o exato contrário do que essas mesmas pessoas exigem da sociedade?

Todos precisamos de correção, todos erramos uma vez ou outra. Alguns, de punição. Mas não há como existir punição justa quando inquisitores da internet objetivam extrair a humanidade do outro.

A capacidade de discordar com educação e cordialidade tem sido uma habilidade cada vez mais rara.

Onde vamos parar?

Além dos canceladores fluidos que agem por efeito manada e atuam de acordo com a mão invisível do Twitter, temos a figura do hater, aquele internauta obsessivo que destila ódio de modo organizado e repetitivo contra  um alvo em particular.

Tal qual todo assediador moral, o hater objetiva levar a outra parte à exaustão emocional e pode agir sozinho ou valer-se de sua influência para agregar mais seguidores de forma a induzi-los a reproduzirem as injúrias.

O hater é o seguidor mais presente e não raro cria ou consulta tantos perfis quanto forem necessários para manter-se atualizado.

Para obter munição ele (a) investe horas praticando stalking  visando consumir as publicações do alvo para seguir com as táticas de perseguição sistemática, sejam elas através de publicação de notas de menosprezo ou do envio de mensagens diretas e e-mails.

Quando o hater é confrontado por quem tenta defender-se das  injúrias e da difamação perpetrada por mensagens públicas, que no geral revelam um ódio ainda maior do que as enviadas em privado, responde com mais agressividade.

Em casos graves* o hater delira acreditando conhecer intimamente o perseguido, acredita que ouve seus pensamentos ou que se comunica telepaticamente com ele e pode chegar a sair do campo psicológico e partir para ameaças e agressões físicas.

Somos essencialmente malignos?

Isso seria a explicação para todas essas coisas? Talvez. Não sei. Onde estamos errando?

Talvez deixar-se civilizar não seja uma capacidade que todos tenhamos adquirido, mas eu acredito que, em não se tratando de psicopatas/sociopatas, seja possível aprender a ser bondoso ou menos egoísta, bem como ser mais gentil ao julgar as pessoas.

Egoístas todos somos, até nosso altruísmo é egoísta, disso ninguém foge.

Somos animais imperfeitos e sujeitos a erros, mas  deixar a barbárie para trás tem sido uma opção inteligente.

Repetição é algo que funciona, tanto para o bem, quanto para o mal. Defendo fortemente que o nosso esforço para ser alguém melhor a cada dia traga benefícios para toda a sociedade e deve ser estimulado por quem tem alguma influência na internet. Precisamos disso.

Passamos muito mais tempo inconformados com a falta de bondade no mundo do que olhando para nós mesmos e buscando meios de nos transformar e de transformar as pessoas.

Será que precisamos dar um passo para trás, como se fôssemos crianças sendo educadas para dizer muito obrigada, pedir por favor, pedir licença, não praticar bullying, não espalhar mensagens de ódio, compartilhar os brinquedos e voltar a dar aos outros o benefício da dúvida e o direito à defesa, coisa que parecemos ter esquecido?

Parece que sim.

O Livro dos Valores Judaicos

O Rabino Joseph Telushkin é autor de mais de dez livros relacionados ao Judaísmo – inclusive um de humor, que ainda não tenho – e mora com sua esposa Dvorak em Nova York.

Esse livro é um compêndio com 550 páginas dividido como um Guia Diário, onde são abordados temas éticos baseados na interpretação que o Rabino e as pessoas consultadas por ele dão aos documentos religiosos judaicos.

Para o Judaísmo  o ser humano se aproxima da divindade através da Ética, daí não é de se admirar que o ateísmo seja tão bem tolerado entre boa parte dos Judeus.

Ressalto que o autor também apresenta ideias de outros Rabinos, nem sempre iguais às suas, já que a Ética Judaica tende a acompanhar a mudança dos tempos, com seus novos problemas e desafios.

As diretrizes éticas ultrapassam o limite doméstico e norteiam (ou deveriam  nortear) a vida de uma parte dos judeus, mesmo aqueles que não são religiosos.

Uma parte? Sim. Quão grande? Não tenho a menor ideia.

Religiosos não são robôs. Indivíduos discordam entre si nas interpretações do que consideram Sagrado, tanto que a Bíblia gerou e continua gerando incontáveis religiões/denominações diferentes.

O ponto central do livro é que a influência ética no Judaísmo, aprendida por repetição e exemplos, deve acompanhara infância e adolescência do povo judeu, mesmo quando as suas famílias não sejam propriamente religiosas.

Como se comportar num velório?

“As pessoas são, na maior parte das vezes, cruéis com aqueles que são mais íntimos delas”

Judeus aceitam o aborto? O que Ética Judaica teria a falar sobre a cultura do cancelamento? Como lidar com problemas no casamento? E quanto à doação de órgãos? Como lidar com vendedores em lojas? As mulheres devem se calar diante do abuso doméstico? Doações devem ser mantidas em segredo?

Judeus não são evangelistas.

O livro não vai tentar convencer você a se converter à religião tampouco vai criticar a que você tem ou não tem: pretende apenas expor ensinamentos éticos passados e atualizados de pais para filhos ao longo dos séculos.

Se você, que como eu não é uma pessoa religiosa mas tem curiosidade sobre o tema, pode tratar a parte religiosa como um aprendizado antropológico e bonito, lindo, na verdade. Vejo com carinho a Fé das pessoas e isso me faz ser mais tolerante com elas.

Se as pessoas tivessem tanta curiosidade sobre a Ética Judaica quanto têm sobre como Judeus investem seu dinheiro, o mundo seria muito melhor.

Um beijo,

Meire

                                          EXTRAS

Estou sendo perseguido por um hater, como devo agir?

O modus operandi do hater é a repetição das ofensas morais, como insinuações de que a pessoa seja desonesta (‘lixo’ é uma palavra frequentemente usada por eles) por exemplo, pois o objetivo é minar a resiliência psicológica da pessoa.

É o mesmo modus adotado pelo perpetrador de violência doméstica, que abusa da mulher até remover a sua dignidade. Dentre os haters muitos são sociopatas, mas não temos dados para afirmar que todos sejam.

Se você está sendo vítima de um hater é mais prudente agir com cuidado extremo, pois são potencialmente perigosos. Não interaja com ele ou ela. Sociopata ou não, eles são impermeáveis ao diálogo e nada que você diga para se defender vai surtir qualquer efeito.

Procure aconselhamento profissional porque o adoecimento mental promovido pelas agressões repetitivas sofridas pode evoluir de forma severa, principalmente se você já sofre de ansiedade ou tem histórico de depressão.

É importante que as ofensas sejam salvas e que atas notariais sejam realizadas, pois com a evolução do caso o hater ‘chega ao seu quintal’ e providências devem ser tomadas. Nunca se sabe do que um hater é capaz.

Os riscos para as vítimas de pessoas com perfis psicológico de bullies, haters e stalkers estão bem descritos em ‘Social Killers‘, de RJ Parker e JJ Slate. Fiz resenha deste livro interessantíssimo  aqui.

Mas é preciso pontuar que além da vítima, o hater pode estar em sofrimento também, como diria meu professor de psiquiatria o saudoso Dr Severino Lopes, estes tipos ‘sofrem e fazem os outros sofrerem’. É possível que além das consequências emocionais nefastas de viver em estado de insatisfação e ódio, sofram prejuízos familiares e até ocupacionais em razão do tempo investido com a perseguição.

Quando o hater apresenta doença psicótica, o prognóstico pode ser sombrio, mas é  provável que a maior parte daqueles que tenham algum transtorno psiquiátrico esteja no espectro F60 a F69 da CID 10 e venha a responder bem à terapia cognitivo-comportamental associada ou não a psicofarmacoterapia.

  Curiosidades aleatórias

  1. Você sabia que a população judaica nos Estados Unidos não chega a 3% mas uma considerável parcela dos humoristas do país é Judia? Se você gosta do tema, indico a leitura de ‘Do Éden ao Divã‘.  Muitos arquétipos com o do judeu mão-de-vaca, da mãe neurótica (quem nunca ouviu um ‘fui criado por mãe judia’? ), do rabino com tiradas impagáveis, do judeu ranzinza e dos pedintes exigentes são extrapolações criadas pelos próprios judeus, que costumam rir de si mesmos através de anedotas e textos irônicos.
  2. Embora a tal prosperidade judaica não seja um mito absoluto porque proporcionalmente há muito mais milionários e bilionários entre judeus do que entre a população geral, nem todos os judeus são ricos, pelo contrário. Há muitos judeus bem pobres ou de classe média baixa. A questão é que a comunidade judaica é muito unida (não teria sobrevivido se fosse diferente) e apoia os seus.
  3. Cientes de todo sofrimento desde os tempos babilônicos, das proibições de possuir terras ou exercer determinadas profissões, das perseguições implacáveis, das diásporas, da Santa Inquisição, do Holocausto e do preconceito, desde sempre os pais e mães ensinam aos seus filhos judeus que devem dar o melhor em tudo que fazem e evitar atribuir seus fracassos a terceiros.  Há uma piadinha antiga ironizando essa visão, a de um rabino que foi espancado por antissemitas que em vez de reclamar, disse “acho que eu não deveria ter saído de casa hoje“.
  4. Para o judaísmo fazer doações é uma das obrigações sociais e morais dos ricos. Por considerar que todos os judeus são uma só família, muitos dos que doam – não estou dizendo que todos doam, ok? – costumam destinar suas doações mensais prioritariamente para pessoas da sua família ou comunidade.
  5. Judeus não tem aversão ao dinheiro, não tratam a riqueza como algo moralmente desabonador nem nutrem ódio a empreendedores, a pessoas que criam  novas formas de ganhar dinheiro licitamente ou a bilionários. Se você observar alguém menosprezando a forma lícita com a qual alguém ganha dinheiro ou enriquece, é pouco provável que seja Judeu.
  6.  Mesmo sendo claro que inúmeras famílias judias multimilionárias começaram ou recomeçaram do nada, a despeito de todo o esforço muitas pessoas permanecem pobres durante toda a vida, pois há variáveis pessoais e ambientais que não conseguimos mudar e oportunidades que não surgem para todos. Esse é um dos motivos  que, para o Judaísmo, proporcionar emprego a outros é um importante ato de bondade. Ter acesso ao trabalho e continuar agindo nos moldes da mentalidade judaica fará com que seus descendentes venham a ter mais oportunidades e melhorem o padrão de vida da família a cada geração.
  7. O tal ‘segredo’ da prosperidade judaica e que vende tantos livros de autoajuda não é místico nem mágico. É estudar e trabalhar com foco e afinco, procurar ser a melhor pessoa  a cada dia, ser generoso e grato, zelar pela família e persistir plantando, mesmo que os frutos só sejam colhidos na velhice ou pela geração seguinte.
  8. Sobre a Mentalidade Judaica e como os Judeus investem seu dinheiro, você pode consultar o canal do querido Ben Zruel.

Beijos,

Meire

 

 

 

 

 

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2 comentários em “[Bate-Papo] Valores Judaicos e Outras Coisas”

  1. Nossa Meire, que post lindo! De uma sensibilidade!
    Quero muito o livro! Acho que o curso de Harvard sobre Judaísmo não chegou aos pés da sua breve descrição dessa religião. Fiquei realmente encantada. Porque casa muito com minha visão de mundo. Você tinha razão quando disse que eu ia gostar. Eu amei! Obrigada!

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