[Resenha] O que o Cérebro tem para contar | V.S. Ramachandran

Por @meire_md

“Cérebros são compostos de módulos, sem dúvida, mas esses módulos não são entidades fixas, eles estão constantemente sendo atualizados por meio de poderosas interações mútuas, com o corpo, o ambiente, e na realidade com outros cérebros” (V.S. Ramachandran)

Vilaynur S. Ramachandran é neurologista e diretor do Center for Brain and Cognition (Universidade da Califórnia). Segundo a Newsweek, ele faz parte do grupo das cem pessoas mais importantes do nosso século. 

Vocês já ouviram falar em membro fantasma? 

Ele foi o cara que descobriu o tratamento da dor fantasma através do uso de espelho, método que foi mostrado em um dos episódios da série Dr. House.

Não foi sem motivos que Oliver Sacks definiu esse livro como ‘um guia profundo, intrigante e atraente para as complexidades do cérebro humano’.

Li “O que o cérebro tem para contar” há uns cinco anos e ele continua sendo um dos meus livros favoritos de divulgação científica. 

Quem me acompanha sabe o quanto sou fascinada por assuntos ligados ao funcionamento do cérebro e ao comportamento humano, coisa que se reflete fortemente nas minhas escolhas de filmes, séries e livros.

Texto denso e organizado

O livro tem mais de 400 páginas e condensa o rico histórico dos estudos que tentam desvendar o cérebro humano, foi escrito de modo muito organizado e os temas são expostos  sem trechos circulares ou exemplos repetitivos, problemas que habitualmente encontro em alguns livros do Dawkins, por exemplo.

“(…) só descobrimos uma minúscula fração do que há para saber sobre o cérebro humano”

Parte das condições que já foram tidas como casos de exclusiva alçada da psicologia são na verdade resultado (ou em parte resultado) de anomalias estruturais cerebrais adquiridas por doença/acidente ou da interação entre doenças congênitas/predisposição genética e ambiente, como por exemplo o autismo e a síndrome de Capgras.

Experiências de Quase Morte

O que nos torna diferentes de outros primatas, como desenvolvemos a capacidade de introspecção, como a curiosa sinestesia funciona, por que existem Savants, como nossa linguagem evoluiu de grunhidos a línguas bem constituídas, por que ocorrem experiências extra-corpóreas com pessoas em UTI e como a síndrome do pânico acontece são alguns dos assuntos expostos de maneira tão fascinante quanto acessível ao leitor com conhecimentos básicos nos assuntos.

Nossa Caixa-Preta

As hipóteses mais aceitas para a origem do autismo e o levantamento de possíveis tratamentos incluindo o uso de ecstasy, além de apresentação de condições interessantes como a síndrome do telefone, síndrome de Fregoli, síndrome de Cotard e a da mão alienígena atiçam mais ainda nossa curiosidade e mostram por que o nosso cérebro merece o apelido de caixa preta.

O estudo dos neurônios-espelho, seu papel na nossa humanidade e sua correlação com algumas condições neuropsiquiátricas são um dos pontos mais significativos do livro porém há tanta informação importante que é difícil apontar o que gostei mais.

Lesões cerebrais

Há pelo menos 20 passagens no livro com exposição de sintomas neurológicos associados a lesões cerebrais específicas de modo muito mais interessante do que os encontrados nos livros de semiologia. Só isso já torna esse livro muito atrativo  para estudantes da área de saúde.

Sinto um misto de compaixão e curiosidade quando atendo um paciente com sinais tão estranhos quanto a afasia nominativa ou quando atendo pacientes que perderam o freio de inibição ou mudaram subitamente de personalidade após algum acidente ou doença.

Ramachandran explica muitas síndromes idiopáticas (odeio essa palavra, vocês também?) com base em toda a lógica proporcionada pelo conhecimento acumulado. Exercitar o raciocínio com ele não é só bastante prazeroso, é um privilégio. 

No capítulo sobre membros fantasmas e cérebros plásticos você pode entender mais claramente como e por quais motivos o espelho funciona.

Sinais e sintomas esperados para lesões cerebrais específicas estão espalhados por todo o livro em pelo menos vinte passagens, o que o torna um bom manual para médicos que lidam com acidente vascular encefálico e traumatismos cranianos, para médicos que lidam com questões médico-legais e para fisioterapeutas.

Leis da Estética sob à luz da Evolução Cerebral Humana

Ramachandran propõe e conceitua nove leis da estética, todas sob à luz da evolução do cérebro humano. 

Não é surpresa alguma quando percebemos que os gênios da pintura se utilizam de traços, esmaecimentos, cores e perspectivas que inundam nossa mente de sentimentos como encantamento, curiosidade, tristeza, alegria, estranhamento e prazer. 

Possivelmente o que nos torna mais diferentes de qualquer outro animal é a nossa capacidade de produzir e de apreciar arte.

E o público-alvo de O que o Cérebro tem para contar? 

Embora O que o Cérebro Tem Para Contar seja particularmente interessante para médicos, psicólogos, fisioterapeutas, biomédicos e biólogos, trata-se na verdade de uma obra que pretende (e consegue) socializar o conhecimento técnico em neurociência cognitiva, uma área nada fácil de se compreender.

Se você é uma pessoa curiosa e não tem qualquer tipo de domínio sobre o assunto mas gosta de ler sobre temas intrigantes assim, sugiro que comece a leitura pelo glossário e faça apontamentos para fixar o conteúdo. 

 

Um abraço,

Meire

 

 

 

 

 

Aviso: Este post contém links afiliados da Amazon
e isso não afeta o preço que você pagará no caso
de realizar uma compra por meio deles. 
A administração do Blog poderá receber
uma pequena comissão pela venda.

4 comentários em “[Resenha] O que o Cérebro tem para contar | V.S. Ramachandran”

  1. Eu leio seus posts com o Google aberto para pesquisar palavras e termos que não conheço… aprendo muito mais do que o assunto do post em específico…🎉🎊

    Curtir

  2. Tô encantada com neurociência, vai pra listinha já! Muito obrigada! ❤️

    Curtir

Os comentários estão desativados.