[Bate-Papo e resenha] Como Identificar um Mentiroso | David Craig

Por @meire_md

Dr David Craig é advogado especialista em operações secretas e realizou pesquisas nos EUA, Canadá, Holanda e Reino Unido.

Quase desisto de comprar ‘Como Identificar um Mentiroso‘ em razão do subtítulo apelativo ‘Torne-se um verdadeiro detector de mentiras humano em menos de 60 minutos’,  mas como materiais sobre o tema são escassos, resolvi ler mesmo assim.

O livro é bom, no entanto o conteúdo apresentado caberia em um terço do volume, que já é pequeno.

O formato escolhido pelo autor é interessante para leigos, pois lembra o de livros de ensino médio. Ele conta com resumos ao final dos capítulos e  reforça citações de dados anteriores ao longo do texto.

Eu esperava que houvesse mais profundidade em temas como quesitação eficiente, porém o autor se fixou mais na leitura da linguagem corporal e das microexpressões, duas coisas que contam com um forte apelo popular.

Alguns dados apresentados são interessantes , como nossa relativa incapacidade de detectar mentiras quando temos muita intimidade com a pessoa  – o que fala contra o senso comum – e o fato da capacidade de Juízes detectarem mentira ser basicamente igual à da população geral.

Não é fácil identificar um mentiroso 

Detectar simulações requer não só técnica formal, mas anos de treino, sobretudo para captar mudanças de padrões desde o tom de voz ao comportamento da pessoa durante a emissão de respostas genuínas e falsas, o nível da sua colaboração e tudo mais, porém um conhecimento técnico sobre a matéria envolvida, seja ela de Direito ou Medicina, é imprescindível.

Há pessoas que são como atores bem treinados pois já contaram a mesma mentira tantas vezes que seu corpo nem reage mais ao estresse ou ao medo.

Outras conseguem se safar de várias situações apenas omitindo dados, ou seja, mentem sem precisar mentir, fora os que sofrem de pseudologia fantástica, que tendem a acreditar de verdade nas mentiras que contam. Não é fácil identificar um mentiroso como o subtítulo do livro sugere.

Ciência ou especulação?

Certos métodos de detecção de mentira são pura especulação e contam com uma margem de erro muito alta e as ‘dicas’ derivadas da programação neurolinguística são um excelente exemplo do quanto a coisa é falha. O autor teve uma postura muito honesta quando expôs algumas opiniões.

Todo mundo mente é realmente um aforismo médico  

Na minha experiência [sou médica] há uma coisa fortemente recorrente  em quem simula doença, é a famosa ‘saída pela tangente’ que tecnicamente chamamos de deflexão, ou seja, a capacidade de mudar de assunto ignorando o fato principal. Isso ocorre porque boa parte das pessoas não se sente confortável quando está mentindo.

Muitos defletem olhando nos olhos e sorrindo, sobretudo os mais inteligentes. Alguns apelam para a vaidade do entrevistador, exaltam a sua capacidade técnica ou algum traço físico. Aduladores, isso não é regra, podem ser pessoas bem pouco confiáveis.

Uma coisa bastante vista por médicos que avaliam uma situação na qual a pessoa esteja correndo algum risco de prejuízo financeiro ou algo parecido [o paciente simula doença para escapar de prisão ou multa, por exemplo] é a crescente impaciência.

Pessoas culpadas criam uma insatisfação galopante contra quem está buscando a verdade, principalmente quando enxergam competência no profissional.

Já as pessoas inocentes se sentem aliviadas quando percebem que o profissional está atento à verdade.

As pessoas interessadas em mascarar a verdade vão ficando irritadas quando percebem que precisam inventar outra mentira para sustentar a anterior ou quando temem que podem começar a entrar em contradição, então promovem qualquer tipo de tumulto para encurtar a análise, como dizer que estão passando mal ou  alegar que estão sofrendo algum tipo de agressão por parte do profissional. Policiais são vítimas frequentes desse tipo de comportamento.

Outras pessoas partem para agredir sutilmente o entrevistador fazendo pouco de sua técnica, apelam para compaixão ou modulam seu comportamento de qualquer forma que pareça mais vantajosa.

As reações do examinado são importantes pistas para o avaliador, mas nas áreas do Direito, supervalorizar a linguagem corporal é um grande risco e o Dr David Craig teve o cuidado de pontuar isso.

É importante saber que em muitas situações uma pessoa não olha nos olhos por estar mentindo e sim por ser tímida, bem como mentirosos podem priorizar o contato visual para passar uma impressão de que são confiáveis.

Estudar a linguagem corporal pode ser útil? 

Acredito que toda técnica de quesitação seja importante para se conseguir estratificar a avaliação de certos casos, mas nenhuma conclusão que possa mudar a vida de um cidadão pode ser baseada apenas em linguagem corporal.

As evidências documentais e outras provas objetivas nunca serão dispensáveis, então se você é leigo nestas questões e lê este livro, não se julgue especialista.

Não existe isso de “ser um verdadeiro detector de mentiras humano em menos de 60 minutos”.

A linguagem corporal pode nos direcionar para procurar evidências mais fortes.

Acredito que com estes pontos que abordei em mente você pode aproveitar bastante o conteúdo de ‘Como Identificar um Mentiroso‘, que não deixa de ser interessante para estudantes de Direito, de Medicina e para aqueles que querem seguir carreira Policial.


Beijo,

M.

 

 

 

 

 

 

 

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