[Bate-papo e Resenha] O Guia Contra Mentiras | Daniel J. Levitin

Por @meire_md

“O conhecimento verdadeiro simplifica nossa vida, nos ajuda a fazer escolhas que aumentam nossa felicidade e poupam o nosso tempo”
(Daniel Levitin)

Senta que o preâmbulo é longo.

Nos gloriosos tempos do finado Orkut os brasileiros céticos, livres pensadores, ateus, agnósticos e nerds em geral descobriram que poderiam encontrar seus iguais e ocuparam um espaço maior do que julgavam existir.

A gente deixou de se sentir esquisito. A coisa foi tão revolucionária nas nossas vidas que, pasmem, a gente até achou cônjuges.

Em meados do anos 2000 ainda era muito difícil você encontrar um grupo de amigos céticos reunidos organicamente no mundo real (quem nos uniu foi a Internet). A época foi áurea porém em menos de uma década fomos afogados pelos que acreditam em tudo só ‘porque está na Internet.’

Produzíamos longos textos nas comunidades, fóruns e listas de discussão, muitos blogs tinham um conteúdo bastante rico em pensamento crítico, lógica e metodologia científica.

A época de ser normal analisar os fatos antes de falar ou escrever, e de discutir com base em argumentos, dados, réplicas e tréplicas foi substituída pela leitura de manchetes convenientemente distorcidas, juízos apressados, postagens impulsivas, gente magoadinha quando questionada e tweets cheios de ódio.

Ninguém está livre de falar sem fazer uma conferência rigorosa, deixo claro que não me coloco como um modelo.

Eu mesma recém postei algo no calor da emoção porque acreditei numa versão generalizada de um fato.  Se não considero que posso estar errada ou que fui levada pela maré, deslizo. E isso ocorre com todo mundo.

O exercício deve ser diário pois nosso cérebro nos empurra no sentido da manada.Use cada deslize como uma lição para prevenir outros.

Nem sempre é fácil parar e escolher uma direção diversa ou simplesmente optar manter a boca fechada até ter mais elementos, daí dar ouvidos a quem busca nos corrigir é algo bastante enriquecedor.

Costumo dizer que todo mundo merece ter um amigo advogado do Diabo.

Procuro seguir pessoas com visões de mundo diferentes justamente para tentar não engessar minhas ideias, coisa que tende a ocorrer quando vamos envelhecendo.

Vou chorar mais um pouquinho, já já a resenha começa

“No geral, a capacidade que os jovens têm de raciocinar sobre as informações disponíveis na Internet pode ser resumida em uma palavra: desoladora” (Conclusão de pesquisa da Universidade de Stanford que envolveu 7800 pessoas)

Convenci-me de vez o quão difícil (para não dizer impossível) é um cético isolado fazer algo significativo quando descobri que uma pessoa muito próxima a mim, que é por sinal bastante inteligente, está acreditando em uma teoria conspiratória equipada com inúmeros elementos de desonestidade intelectual.

Não fui capaz de convencê-la que o autor da ‘teoria’ é um mentiroso, mesmo demonstrando objetivamente que não é quem diz ser e que inclusive já foi detido pela Polícia por falsidade ideológica.

Tudo que pude fazer foi denunciar os canais que propagam seus vídeos e não citá-lo em nenhum lugar.

Citar um propagador de contraconhecimento* só aumenta o seu alcance. A maioria das pessoas vai acreditar nele, não em você, é sempre assim, acreditem em mim.

A mentira é muito mais sedutora, preenche lacunas, desperta sentimentos, mexe com caixinhas mentais poderosas:  vestida do modo ‘certo’ tem sucesso de público garantido e rende muito dinheiro.

O que a gente pode fazer?

Continuar o trabalho de formiguinha. 

O Guia Contra as Mentiras, de Daniel Levitin


O Guia Contra Mentiras, de Daniel Levitin, coloca o leitor em contato com diversas ferramentas de pensamento crítico indispensáveis para que não se deixem enganar ou para que pelo menos minimizem as suas chances de virar massa de manobra (ninguém está livre, ninguém mesmo, nem eu, nem você).

Daniel Levitin é músico, neurocientista e professor de neurociência e psicologia comportamental.

O Guia é um livro para ser estudado, lido, relido e presenteado.

Ele é sintético, honesto e bem escrito, tanto que tem um total de zero tentativas de encher linguiça.

Cada tema é tratado de modo resumido porém bastante esclarecedor e o autor fornece exemplos práticos para que conceitos que deveriam ter sido ensinados a todos no ensino fundamental e médio sejam assimilados de forma fácil.

Se você já teve acesso informal a esse tipo de conteúdo e sabe que o pensamento crítico é um treino diário porque nosso cérebro é lotado de armadilhas, vai poder revisar boa parte do que aprendeu de orelhada e consolidar seu aprendizado.

Para quem já tem um sólido conhecimento teórico e prático em pensamento crítico (duvidar de si mesmo faz parte disso) e metodologia científica, O Guia Contra Mentiras não vai trazer nada novo, mas a leitura vale para que você conheça, caso concorde comigo, um livro para indicar àqueles que admiram sua forma de pensar e perguntam por onde podem começar a estudar.

Três grandes temas


O livro é dividido em três partes, a primeira sobre desinformação numérica, a segunda sobre argumentos falsos e a terceira sobre o método científico.

Antes de analisarmos uma notícia, uma pesquisa ou um argumento precisamos entender como os dados foram coletados, como foram interpretados e como são apresentados.

Se boa parte das coisas acontecem nos bastidores e nunca saberemos de todos os detalhes nem quando o acontecimento a ser avaliado ocorreu com alguém de nossa família, atentar criticamente para os fatos disponíveis é mais importante ainda.

Quanto menos precisos os dados, menor deve ser o buraco da peneira.

Argumentos falsos são como lobos em pele de cordeiro. Estão por toda parte e mesmo quem é versado neles acaba sucumbindo uma hora ou outra. Repito: nosso exercício deve ser diário.

Todo mundo mente e todo mundo pode cometer falácias, nem o maior gênio do mundo sabe de todas as coisas.

Se temos esse cérebro viciado, precisamos lutar um dia após o outro contra os vícios.

O método científico nada mais é que um meio de reduzirmos nossa margem de erro na solução de questões que sejam da alçada da ciência, é importante que isso seja bem compreendido. Nem tudo é alçada da ciência, ok?

O método não produz respostas para tudo – tampouco pretende fazê-lo – nem defende verdades absolutas, é uma ferramenta a mais para que limitemos o espaço do contraconhecimento.

No apêndice do livro há a aplicação da regra de Bayes e a obra conta também com notas detalhadas incluindo a fórmula de como calcular a margem de erro (e o intervalo de confiança) e um glossário, que até poderia ter sido enriquecido com mais falácias, mas que atende bem ao conteúdo abordado.

“A Ciência não nos oferece certezas, só probabilidades”

Esse livro poderia ser vendido em um box chamado Uma Vela no Escuro no qual faria um trio com ‘O Mundo Assombrado pelos Demônios‘ e ‘Como Mentir com Estatística‘. 

Falando em Como Mentir com Estatística, Daniel Levitin reporta que foi inspirado por Darrell Huff e que gosta muito também de ‘Damned Lies and Statistics: Untangling Numbers from the Media, Politicians, and Activists‘ de Joel Best e de ‘Estatística: O que é, para que serve, como funciona‘, de Charles Wheelan, o mesmo autor do livro que mostrei esses dias nos stories (‘Economia: O que é, para que serve, como funciona‘).

O Guia Contra Mentiras foi o primeiro livro de Levitin que li e por ter apreciado bastante seu estilo planejo ler ‘A mente organizada: Como pensar com clareza na era da sobrecarga de informação‘ (mais um que vai ficar para 2021).

Estamos afundando num mar de conteúdo questionável e nossa tábua de salvação não é outra senão estudar e exercitar.

Acordemos.

Observação:
*Termo cunhado pelo jornalista inglês Damian Thompson e significa uma informação falsa trabalhada para parecer verdade. No caso das teorias conspiratórias e nos anúncios de remédios milagrosos e coisas do tipo, há verdades inseridas na mensagem para que o todo pareça verdadeiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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