A Divina Comédia | Dante Alighieri (1265-1321)

Por @meire_md


Por @meire_md

Alguns pontos da vida de Dante Alighieri são fundamentais para um entendimento mínimo de ‘A Divina Comédia’, obra exaustivamente reestudada ao longos dos séculos e que exige muitas horas de consultas a material acadêmico para ser analisada com a profundidade que merece.

Se você tem interesse no entendimento mínimo, este post é para você. Mínimo, mesmo.

Dante nasceu em Florença no ano 1265, cresceu numa Itália politicamente conflituosa e ao adentrar a maioridade já era órfão.

Em algum ponto da adolescência ele teve um breve contato com a garota Beatriz*, por quem nutriu amor platônico por toda a vida.

Dentre as influências que recebeu durante a educação, sobretudo aquelas ministradas por Brunetto Latini, Dante mostrou apreço particular pelo poeta romano Virgílio, falecido no ano 19 da Era Comum.

Por questões afetas a dois grandes grupos políticos, em 1301 o escritor foi exilado.

A pena foi convertida para perpétua porque a multa que lhe daria direito a um exílio temporário não foi paga.

Dante começou a conceber a história enquanto atormentado pelo abandono dos antigos partidários e pela perda de contato com sua cidade natal.

A obra foi publicada em partes com o título ‘A Comédia’ a partir de qualquer momento entre 1304 e 1308 e finalizada entre 1313 e 1321.

Comédia ou Tragédia?

Importante lembrar que Comédia é um gênero literário destinado a entreter e a entregar um final esperançoso ou feliz, o que não ocorre com o gênero Tragédia, cujo final é… trágico.

Do ponto de vista literário, um texto engraçado baseado em coisas do cotidiano pode ser considerado uma Comédia, mas nem toda Comédia é engraçada.

A Comédia é, resumidamente, uma representação dramática com final feliz e a tragédia é uma representação dramática com final catastrófico.

As duas podem ter momentos pontuais engraçados, ou não. Quando a tragédia é marcada por momentos felizes/engraçados ou tem um final híbrido pode ser chamada de tragicomédia.

A transformação de ‘Comédia’ para ‘A Divina Comédia’

A obra só ganhou o nome definitivo após a morte de Dante. Ela foi rebatizada para ‘A Divina Comédia’ por Giovanni Bocaccio (1313-1375), escritor humanista que se especializou na obra de Dante e o único que me fez esconder um livro embaixo do colchão quando era adolescente.

Mágoa e Morte

Dante Alighieri morreu em 1321 sem nunca ter conseguido alcançar o sonho de retornar à sua amada cidade natal.

A dolorosa mágoa pela traição sofrida não passa despercebida no livro.

Triste saber que a condenação de Dante só foi revertida 687 anos após sua morte.

Os restos mortais do escritor nunca foram transferidos para Florença, onde o túmulo construído para seu descanso permanece vazio.

Ficção, Mitologia, Religião, Autobiografia

A ‘Divina Comédia’ é um grande poema filosófico de estrutura épica, dividido em três partes e, com exceção das súmulas de cada um dos cem Cantos, todo escrito em primeira pessoa.

A primeira parte é dedicada ao Inferno, a segunda ao Purgatório e o terceira ao Paraíso.

O personagem principal é o próprio autor, que registra em forma de Cantos as lembranças de uma extraordinária viagem sobrenatural nunca antes realizada por um ser humano vivo, honra que lhe foi concedida por intercessão da virgem Beatriz* (Beatrice Portinari), falecida precocemente.

Enquanto confuso no Limbo, Dante é acolhido pelo poeta romano Virgílio, que o acompanha até o sétimo círculo do Purgatório.

A cada etapa da viagem, em parte feita a pé e em parte feita em uma barca ou com ajuda de seres místicos, Dante entabula ricas conversas com Virgílio e com as almas de conhecidos e desconhecidos que encontra pelo caminho.

O leitor viaja junto com Dante e se vê tão ricamente imerso em filosofia, história, política, mitologia romana e ciência (particularmente astrologia) que a parte religiosa em si até parece  secundária, mas conhecer elementos da fé católica é bastante útil para a compreensão do todo.

Interessante saber que para a tradição explorada por Dante, o Paraíso foi criado para cristãos praticantes, portanto almas de crianças não batizadas, de pessoas virtuosas nascidas antes de Cristo ou de cristãos que não se arrependeram de seus pecados antes da morte são enviadas ao Inferno sem qualquer direito a defesa. Essa lógica, bem como a de outros pontos que pude reconhecer (não sou religiosa) se mantém intacta em todo o livro.

Acredito que Dante era proprietário de uma mente muito organizada e tinha um caráter bastante piedoso.

O que enxergo como esqueleto do livro, a forma com a qual o autor trata as almas em danação e a evolução do estilo de escrita, que se torna mais sofisticada conforme o escritor vai chegando mais perto do Paraíso, são admiráveis.

Um dos pontos mais bonitos do livro é o momento em que Dante deseja, vejam o quão humanista isto é para a época, consolar os sodomitas. Para conferir esse momento curioso que só percebi depois de adulta, você pode consultar a primeira parte do livro (Canto XVI).

Durante a viagem – o objetivo dela você vai entender quando chegar à terceira parte – Dante, purifica-se em vida, entrevista diversas almas, é sabatinado por Santos e conhece os destinos não só de muitos de seus afetos e desafetos já mortos, como de príncipes, reis, Cleópatra, Judas, Adão, Eva, Maria e diversos outros personagens que conhecemos muito bem.

Não se incomode com eventos e pessoas que você não conhece, foque-se na lógica dos fatos e das penas, mas se quiser saber mais sobre a política e os conflitos contemporâneos ao livro, pode ser uma ótima imersão.

Enquanto lia fiz uma breve lista geográfica do universo dantesco para me localizar melhor quando quiser relembrar a experiência da leitura e resolvi compartilhar com vocês.  Espero que seja útil:


Guia turístico da comédia


1. Limbo

É uma espécie de antessala para o primeiro círculo do Inferno descrita como uma medonha selva e povoada por animais de grande porte. É neste ponto que Dante é acolhido por Virgílio.

Vi resenhas que tratam o Limbo como se fosse o primeiro círculo, mas para mim resta claro (posso estar esfericamente errada) que o Limbo está para o Inferno como o  Antepurgatório está para o Purgatório e o Jardim do Éden está para o Paraíso Celeste: são espaços fisicamente distintos porém interligados.

2. Inferno

Profundeza localizada no centro do Planeta Terra e dividida em nove grandes círculos. Cada círculo, a exceção do primeiro, tem terríveis flagelos e tormentos específicos.

2.1 – Primeiro Círculo

Onde residem, por exemplo, as almas das crianças não batizadas e de pessoas virtuosas nascidas antes do advento do Cristianismo.

2.2 – Segundo Círculo

Onde são castigados os afetos à luxúria.

2.3 – Terceiro Círculo

Destinado aos Gulosos.

2.4 – Quarto Círculo

A morada das almas dos pródigos e dos avarentos.  O desequilíbrio financeiro, para a Bíblia, é um grave pecado.

2.5 – Quinto Círculo

Onde os coléricos são penalizados.

2.6 – Sexto Círculo

Onde queimam os heréticos.

2.7 – Sétimo Círculo (onde começa o Alto Inferno)

Esse grande círculo tem três fossos, onde separadamente se distribuem homicidas, ladrões, suicidas, pessoas que dilapidam seu patrimônio e aqueles que agem com violência contra o Deus Cristão, contra a arte e contra a natureza.

2.8 – Oitavo círculo

Este círculo ocupa o maior espaço do Inferno, é destinado às almas dos fraudadores e dividido em dez valas, cada uma com pena diferente. Aqui residem as almas dos simoníacos, de adivinhos, farsantes, aplicadores de golpes, políticos corruptos, hipócritas, peculatários, falsos conselheiros e outros.

2.9 – Poço dos Gigantes

É um espaço reservado à alma dos gigantes que habitaram a Terra. O poço se localiza entre o oitavo e o nono círculo do Inferno. Genial, não é? Tive até vontade de reler o Pentateuco.

Mármore do Inferno: Influência da tradição islâmica?

2.9 – Nono Círculo

Para Dante o Centro da Terra, onde o nono círculo está cravado, é o ponto mais profundo e mais frio do Universo. Sim, no ponto mais terrível e maligno do Inferno há um Lago de Gelo.

O 9º círculo é dividido em quatro recintos: Caína, Antenora, Ptolomeia e Judeca.

Conforme a tradição católica da época – não sei exatamente como os católicos pensam hoje – as almas dos protestantes e de outros cristãos heréticos que não se arrependeram na hora da morte permanecem no Inferno para sempre.

3. Antepurgatório

A partir deste ponto há citação de músicas sacras. Fiz uma Playlist do Spotify e, em meio às músicas que eu estava ouvindo na semana da leitura, relacionei as que encontrei no livro.

Esta antessala sobrenatural coincide com o ponto mais alto de Jerusalém e alberga, dentre outras, almas de excomungados, indolentes e omissos que se arrependeram antes da morte e aguardam julgamento.

4. Purgatório

Ele contém sete círculos, em algumas passagens descritos em minha tradução* como ‘recintos’. Nestes espaços as almas de cristãos pecadores expurgam seus pecados pelo sofrimento e oração até que, purificadas, preparam-se para ascender ao céu.

4.1 – Primeiro Círculo: Soberbos e Presunçosos
4.2 – Segundo Círculo: Invejosos
4.3 – Terceiro Círculo: Iracundos
4.4 – Quarto Círculo: Negligentes com as obras de Fé e Caridade
4.5 – Quinto Círculo: Avarentos
4.6 – Sexto Círculo: Gulosos
4.7 – Sétimo Círculo: Luxuriosos

5. Jardim do Paraíso (“Eden”)

Espaço de convivência frequentado por almas celestes como as dos Santos Católicos, é tipo uma reserva ecológica para entretenimento santo.

6. Paraíso Celeste

De forma similar ao Inferno, é dividido em 9 círculos, aqui chamados de Céus e que correspondem às esferas do sistema Ptolomaico.

Cada esfera alberga boas almas de acordo com seu merecimento, como uma espécie de prédio de luxo onde os andares acima são mais valiosos.

6.1 – Primeiro Céu: Lua
6.2 – Segundo Céu: Mercúrio
6.3 – Terceiro Céu: Vênus
6.4 – Quarto Céu: Sol
6.5 – Quinto Céu: Marte
6.6 – Sexto Céu: Júpiter
6.7 – Sétimo Céu: Saturno
6.8 – Oitavo Céu: Estrelas Fixas
6.9 – Nono Céu: Acima do Universo – Onde reside o Amor Divino

7. Anéis da Hierarquia Angélica

São nove, movem-se sem parar e entoam Hosanas em tríplice harmonia.

Espero que minha contribuição seja útil para sua leitura.

*Em nota de rodapé de minha edição de A Divina Comédia (Editora Nova Cultural, 2003) é mencionado que Beatriz teria falecido em 1290, quando Dante estaria com 25 anos de idade. É possível que Dante tenha tido um único contato com a moça durante toda sua vida.


PARA SABER MAIS SOBRE A BIOGRAFIA DE DANTE

Britannica.com

Biography.com

Beijos,

M.

 

 

 

 




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2 comentários em “A Divina Comédia | Dante Alighieri (1265-1321)”

  1. Espetacular! Obrigada por compartilhar! Vou pesquisar mais e estudar sobre. Achei interessante demais…❤️

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