Alice no País das Maravilhas | Lewis Carroll (1832 – 1898)

Por @meire_md

 

E começou a pensar sobre outras crianças que conhecia que ficariam bem como porcos, e bem na hora  em que estava pensando “se ao menos alguém soubesse a maneira correta de transformá-las” teve um ligeiro sobressalto ao ver o Gato de Cheshire sentado no galho de uma árvore a alguns metros de distância ( ‘Alice no País das Maravilhas‘)

Quando eu tinha menos de 20 anos costumava me angustiar ao pensar que não teria tempo de vida suficiente para ler todos os livros que gostaria de ler.

Minhas malas de viagem de férias eram recheadas de livros.

Aqueles anos viram duas décadas passando e fui ficando cada vez mais pragmática, porém a sensação de que todo tempo que disponho para ler tem que ser bem aproveitado bloqueava o meu impulso de reler algum livro.

Alice no País das Maravilhas voltou para me dizer que eu estava errada, redondamente errada.

Ler um clássico de novo pode ser muito mais prazeroso do que ler um outro livro qualquer pela primeira vez.

Raphus cucullatus

Em uma das nossas idas a Londres vimos um modelo do Dodo no NHM. Fiquei fascinada pelo bichinho e lembrei de Alice.

(O Dodo foi descrito pela primeira vez em meados do século XVI mas infelizmente foi extinto cerca de 100 anos depois).

Mas o golpe de misericórdia veio quando visitamos ‘O Monumento’ e fomos ao Dinning Room Lewis Carroll no Pub ‘The Walrus & Carpenter.

Fui tomada por uma vontade incontrolável de reler ‘Alice no País das Maravilhas’.

Reler, logo eu. Sim. Reler.

Quando pequena gostei do livro mas não foi uma leitura que marcou minha infância/ adolescência; se não me falha a memória, a edição que li tinha uma tradução para o português de Portugal.

Foi meio que um livro para crianças como outro qualquer. Na minha cabeça o livro era gigante, uma saga interminável.

Gagueira e Enurese Noturna


Gosto de ler pelo menos um resumo da biografia dos autores que chegam à minha cabeceira, mesmo que sejam informações coletadas meio aleatoriamente da Internet, cuja precisão deixa a desejar.

Saber mais sobre o escritor sempre me ajuda a compreender um pouco melhor sua obra e até a admirá-la mais (ou desistir de lê-la, admito) porque concordo com quem defende que no geral há um tempero autobiográfico em praticamente tudo que se reconhece como arte.

Uma enurese noturna somada a gagueira, uma assimetria facial, a surdez em um ouvido e uma sinistro-dominância que à época era mal vista possivelmente levaram Lewis Carroll a desenvolver severos traumas psicológicos.

Alguns textos biográficos que achei por aí falam em um possível passado de abuso sexual (?), bem como de que seu diário – hoje incompleto não se sabe por qual motivo exatamente -revelava uma enxaqueca com aura. Há ainda relatos de médicos da época que sugeriam que Lewis tinha epilepsia ou alguma síndrome epileptiforme.

A parte bastante controversa da biografia do autor é uma alegação extemporânea de que ele seria pedófilo, mas até onde pude apurar não há elementos suficientes para afirmar que ele tenha sido.

O que temos por certo é que Lewis Carroll foi um grande nome em matemática + lógica e além de poeta e escritor, foi um apaixonado pela tecnologia então mais recente e empolgante, a fotografia.

Sobre Alice 


Alice no País das Maravilhas é uma história que se passa entre sono e vigília.

A trama é tipicamente onírica, subverte os padrões da realidade e inclui mudanças de esquema corporal. Essas são manifestações/sensações que podem ser comuns em quem tem enxaqueca e epilepsia, sobretudo a do lobo temporal.

Não me impressionaria nada se a Alice do livro fosse a projeção dele mesmo nem que boa parte da história brotou sem que ele precisasse fazer nenhum esforço intelectual para criá-la.

Como de hábito ele incluía as crianças ou o nome de crianças com as quais convivia em suas histórias, poemas e fotografias.

Alice era o nome de uma menininha de uma família com a qual Lewis Carroll mantinha relações próximas.

Esse clássico da literatura nonsense mostra uma menina destemida, que tenta controlar o impulso de chorar consolando a si mesma de modo racional, que tem respostas prontas para tudo, que calcula as possibilidades de suas escolhas e coloca a curiosidade acima do medo: ‘eu quase desejo não ter entrado na toca do coelho… mas, mas, é tão curioso, sabe, esse tipo de vida!’

O mais interessante é que nem nos momentos em que a menina chora, ela pensa nos pais.

A ‘pessoa’ que mais surge em seu pensamento durante o período em que está presa num país onde lagartas azuis fumam narguilé, gatos tem sorrisos largos, cartas de baralho são pessoas e onde a Rainha manda degolar pessoas que nunca são degoladas, é Dinah, a sua gata.

Os gatos já eram o dono do  mundo mesmo.

A menina faz uma análise interessante sobre as diferenças entre adultos e crianças:Talvez seja a pimenta que deixe as pessoas mal humoradas (…) e o vinagre as deixa azedas… e a camomila as deixa amargas…e…e… as balas de cevada e este tipo de coisas é que deixam as crianças tão doces. Eu queria que as pessoas soubessem disso: então, eles não seriam tão sovinas com doces, sabe…

Problemas matemáticos, tiradas impagáveis e um julgamento nonsense


Há teorias de que há problemas matemáticos e outras coisas encriptadas no livro, mas confesso que não percebi  nada (teria que ler mais uma vez, e é pouco provável que eu encontre). Quanto a isso, uso as palavras do Grifo: Não, não! As aventuras primeiro (…). Explicações tomam um tempo louco.

O diálogo da Duquesa com Alice no campo de críquete é legendário e o Julgamento na Corte (sobre o caso das tortas) é incrivelmente engraçado.

Alice, que serviu de testemunha de algo que não viu, voltou a crescer durante o Processo e findou por ser liberada com base no Artigo 42, que diz que todas as pessoas com mais de um quilômetro e meio de altura devem abandonar o Tribunal.

Não houve como desconectar as minhas gargalhadas nestes dois episódios com O Guia do Mochileiro das Galáxias, mas segundo meu marido, Douglas Adams negou ter retirado o 42 daí.

Parafraseando o Rei, segue o meu conselho para que vocês leiam o livro:

“Por onde devo começar, se Vossa Majestade permite?”

“Comece pelo começo”, disse o Rei com muita gravidade, “e siga até o fim: daí pare.”


Beijos,

Meire

 

 

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2 comentários em “Alice no País das Maravilhas | Lewis Carroll (1832 – 1898)”

  1. Genial Meire. Quando mais nova pensava igual sobre reler livros e hoje releio alguns que se tornaram de cabeceira. Leio e releio e sempre descubro novas reflexões. Os livros continuam iguais, mas nós mudamos e assim cada releitura traz novos aprendizados.

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