[Meu Querido Diário] Doença Celíaca, Sobrepeso, Vício em Exercício, Mente de Gordo e Outras Coisas

Por @meire_md

“A senhora baronesa, que pesava cerca de trezentos e cinquenta libras, granjeava com isso elevada consideração e fazia as honras da casa com uma dignidade que a tornava ainda mais respeitável”   (Em ‘Cândido, O Otimista’, escrito em 1759)

 

A obesidade como símbolo histórico de riqueza, bonança e prosperidade que caracterizava a nobreza: enquanto os súditos pegavam no pesado e se sustentavam com sopas ralas e pães mofados, os nobres se refastelavam em banquetes.

O mundo segue nessa assimetria alimentar, onde pessoas desnutridas continuam existindo – ainda que em menor proporção que antigamente – enquanto outras comem em excesso.

Só descobri que tenho Doença Celíaca quando minha história já tinha sido avaliada por vários colegas. Olhando para trás parece ter sido um diagnóstico muito simples, mas não foi.

E quando comecei a tratá-la, entrei para a estatística do sobrepeso/obesidade.

Meu quadro realmente não tinha ‘cara, cor e cheiro‘ de Doença Celíaca.

Os sintomas da Doença Celíaca são deflagrados por uma complexa reação imune desencadeada pela ingestão de glúten, uma proteína encontrada no trigo e outros grãos e bastante comum em diversos alimentos como pães, bolos, molhos e em muitos alimentos industrializados.

É importante saber que o glúten é uma molécula grande e por este motivo não ultrapassa a pele, mas quando está presente em cosméticos pode ser absorvido caso aplicado nos olhos ou boca.

Febre de Origem Obscura


Passei alguns anos tendo febre vespertina diária, constipação intestinal, redução de força muscular e dores articulares recorrentes. Em certo momento eu já não conseguia subir escadas sem apoio, enfim, foram anos bem complicados.

Como nenhum médico – nem mesmo eu – desvendava a causa de todo o cortejo e eu já havia passado por coisa pior, decidi que a doença sem nome não iria paralisar a minha vida.

Alterei meus hábitos, inclusive a rotina de trabalho, para que na ‘hora da febre’ eu pudesse repousar por pelo menos uma hora, já que os calafrios eram bem desconfortáveis.

Esse período modulou bastante a minha relação com a Medicina, com as pessoas e com as coisas. Passei a valorizar muito mais o meu tempo, tornei-me menos perfeccionista e quando dei por mim os três empregos que eu tinha se resumiram a um.

O diagnóstico final brotou por acaso. Enquanto o Igor fazia uma consulta médica e eu batia papo com sua alergista, ela mencionou que uma colega recém havia se descoberto celíaca e soltou algo como ‘o quadro dela era igualzinho ao seu‘.

Bam! Não deu outra. Procurei um gastroenterologista e minha jornada febril chegou ao fim. Foi um alívio sem tamanho.

Só sei que foi assim


Trocar o pão francês na chapa e que tais por uma vida sem dor e sem febre foi um sacrifício irrelevante perto de outros que já faço pela minha saúde, que nunca foi lá grandes coisas.

Foi experimentando novos bolos & novos pães & novas pizzas & dias sem febre & semanas sem dores que passei de um corpo magérrimo e invariavelmente cansado para um corpo com uma rechonchudância radiante tão inesperada que as pessoas achavam que eu estava grávida.

Em 2016 eu já estava com sobrepeso/obesidade leve e comecei a aparar excessos da alimentação, mas o máximo que consegui foi parar de ganhar peso e ser uma contratadora serial de Personal Trainers.

Embora todos devam, quem tem antecedentes familiares como os meus (doenças cardiovasculares, câncer e diabetes) precisa cuidar muito bem do seu peso.

Eu sabia que estava sendo negligente por deixar a obesidade entrar, condição que além de ser concausa e aumentar a mortalidade dos eventos que citei acima, promove uma sobrecarga articular muito maior do que a ocorrida durante a evolução da nossa espécie, mas fui levando o problema na valsa.

Aí veio a Pandemia


Depois da morte de uma colega percebi que se a tragédia que se abateu sobre a família dela e que enlutou toda a minha turma de Medicina não fosse suficiente para que eu assumisse a responsabilidade sobre a minha própria composição corporal, o que mais precisaria acontecer?

Fixei o dia 02/07/2020 como data de início da dieta e dos exercícios. Alguns problemas eu já havia resolvido antes, como a redução do consumo de alimentos industrializados e a substituição do achocolatado por coalhada sem açúcar e com Cacau a 100% (o meu favorito é esse aqui).

Como a nutricionista que escolhi ainda não reorganizou o consultório, usei um aplicativo indicado por minha amiga Patrícia, o Fat Secret, e montei a dieta com a mesma disciplina que organizo as minhas finanças e as do Igor.

Com o aplicativo descobri que eu estava comendo muito além do necessário. Muito, mesmo.

Em razão da doença Celíaca e das alergias já cumpro uma dieta meio beco sem saída, com poucos itens e bem monótona, mas precisei mexer fortemente nos carboidratos consumidos .

Com o passar dos dias eu e meu marido (obrigada, amor)  fomos achando opções mais saudáveis para os momentos quero-atacar-uma-coisa-açucarada, assim as frutas frescas ou grelhadas sem nenhum açúcar e com ou sem um tico de creme de leite substituíram completamente os pudins e doces.

O Brownie da Belive Chocolate com Coco zero açúcar (zero lactose e zero glúten; cada unidade tem 40g) substituiu todos os bolos que vez por outra apareciam por aqui e estou tentando me adaptar ao Creme de Avelã zero açúcar.

Confesso que sentir vergonha de mim mesma ao pensar no significado histórico do tipo de excesso que eu vinha cometendo tem sido muito importante para que eu mantenha o foco. 

Falo da minha realidade, ok? Para mim, para o  meu caso, a culpa cabe. A culpa foi minha, ninguém foi responsável pelas minhas escolhas alimentares erradas nem por minhas faltas à academia. Tenho plena consciência que muitas pessoas se tornam  obesas por falta de opções – findam consumindo muito carboidrato e pouca proteína – e falta de acesso a orientações alimentares.

Cai feito um patinho em um mito. Logo eu?

O segundo problema foi conseguir manter uma rotina regular de exercícios de exercícios físicos.

Cai na armadilha mental de acreditar que meu corpo se viciaria em exercícios, que um dia eu iria gostar e tudo seria mais fácil. Todo mundo diz isso, e mesmo sendo uma pessoa cética, nunca parei para questionar.

Eu ficava esperando o tal vício e ele não vinha. Ora, faz sentido.É uma atividade imersiva durante a qual são secretados hormônios relacionados ao bem-estar.

O esforço investido para manter uma rotina regular de exercícios é, no meu caso, muito grande.

Em Medicina nem nunca, nem sempre

Esse mito estava me impedindo de ver a coisa como ela é. Quando você se liberta de certas ilusões – a esperança de que algo impossível aconteça é uma delas – você simplesmente aceita.

E o engraçado é que só tive esse insight cético lendo Por que o Budismo Funciona*.

Para ilustrar melhor esse efeito da nossa mente vou dar um exemplo bem significativo (obviamente desproporcional à minha questão) e que ficará gravado na memória de vocês: quando uma pessoa desaparece a família não supera a perda enquanto houver esperança de que a pessoa esteja viva.

Quando o corpo aparece o luto se completa e a aceitação, mesmo que muito sofrida, chega.

Como disse a Bela Cuca, se um problema não tem solução, solucionado está. O único caminho razoável é se adaptar à nova realidade.

A realidade tem sua  mágica, já a ilusão é um atraso na nossa vida. Parafraseando Daniel Levitin, a verdade nos faz poupar tempo.

Foi nessa virada de chave que, entendendo que meu corpo jamais vai sentir prazer em se exercitar, assumi o exercício como meu remédio amargo e até fiz uma playlist para me exercitar. 

É um remédio amargo, mas seguro e necessário. Faço na força do ódio, mas pelo menos sei que tem que ser assim.

Edição em 31/10/2020: Continuo mantendo a dieta e me exercitando regularmente. Espero que este post seja útil para vocês.

Edição em 12/06/2021: Continuo  mantendo a dieta mas com dificuldades de consumir toda a proteína necessária. Tenho conseguido fazer exercícios pelo menos duas vezes por semana. Perdi peso (não todo o peso que preciso perder) e não voltei a ganhar.

Mente de Gordo: isso existe?

Reconheço que a obesidade é um problema, nunca dei desculpas como ‘ah, eu não como nada, devem ser os hormônios‘ porque até onde sei a Nutella não mudou de nome e a mente humana é capaz de gerar armadilhas infinitas de autoengano, mas sei que o problema da pessoa obesa nem de longe é falta de autocrítica, muito menos é preguiça.

Tem algo além, essa tal mente de gordo deve existir. Não se fica obeso da noite para o dia, a obesidade é insidiosa, sorrateira, entra sem pedir licença e a cada ano que passa fica mais resistente.

Para um obeso assumir o controle sobre seu próprio corpo precisa vencer muitos obstáculos, começando por reconhecer que está fomentando uma condição patológica.

Se fosse fácil todo mundo que quer retomar uma composição corporal saudável conseguiria, mas mesmo com apoio técnico muita gente não consegue ou recidiva frequentemente.

Eu mesma não sei se vou ser suficientemente persistente, mas o plano é esse.

Hoje já em se fala reverter a obesidade, mas em controlá-la, tipo como se faz com o alcoolismo e outras adições.

Não recomendo que ninguém faça o que eu fiz, que leve a questão na maciez e espere quase quatro anos para assumir seu compromisso de lidar com o sobrepeso/obesidade ou só fazê-lo depois de passar algum susto.

Buscar ajuda multidisciplinar é bastante importante, sinto que sozinha (mesmo sendo médica) não sou capaz de me atender.

Há perfis no Instagram muito interessantes para quem quer ter acesso à dicas técnicas, como o do médico endocrinologista Bruno Halpern e da médica Patrícia Freire, que está se especializando em Medicina do Estilo de Vida e Medicina Culinária.



Nota.: Demorei a considerar a meditação como algo válido, mas tenho estado aberta a entender mais sobre o método não pelo sentido religioso/místico, mas como uma ferramenta para aliviar a mente das tensões do cotidiano. Li  ‘Por que o Budismo Funciona’ por influência de um livro de divulgação científica que resenhei esse ano, ‘O Segredo Está nos Telômeros’.

 

 


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9 comentários em “[Meu Querido Diário] Doença Celíaca, Sobrepeso, Vício em Exercício, Mente de Gordo e Outras Coisas”

  1. Obrigada pela atenção comigo, por me indicar o link. Você sempre tão coerente, me trazendo lucidez.
    Pessoas como você, raríssimas!

    Nina M

    Curtido por 1 pessoa

  2. Me lembro que aos 23 anos fui morar em São Paulo em uma república com mais 23 meninas. Os primeiros dois meses foram muito difíceis em todos os sentidos, mas após esse período descobri que precisava cuidar do meu corpo (alimentação e exercícios) tanto quanto da minha mente e espiritualidade. Assim, comecei a pesquisa sobre alimentação. Não sobre dietas, mas sobre alimentos. Porque eram importantes e o que faziam pelo nosso corpo. Fiquei fascinada. Comecei a fazer minha comida e amar cozinhar. Hoje, dez anos depois continuo estudando, relendo antigos materiais e me alimentação de uma forma que creio ser equilibrada. Não deixo de comer nada, porém faço esporadicamente. Com 28 anos me descobri intolerante à lactose e com sensibilidade ao glúten. Os dois com sintomas opostos em mim. Quando não padecia com desconfortos intestinais por flatulências e diarreias da lactose estava cansada, com dor de cabeça, mal estar, constipação pelo glúten. Fiz novas mudanças na alimentação. Redescobri uma energia que antes não tinha. Acho interessante que inconscientemente sabemos o que nos faz mal, mas até chegar ao despertar de que realmente faz mal geralmente é um processo longo e no meu caso foi fisicamente doloroso, desgastante e muitas vezes constrangedor. Não sou celíaca. Então por vezes consumo produtos com glúten, não deixei de consumir, porém descobri inúmeras comidas deliciosas sem o glúten e sem a lactose. Em um mundo em que doenças viraram moda e constantemente escuto ironias como: está de dieta? Virou moda né não comer glúten e lactose. É bom, muito bom escutar que outras pessoas também possuem dificuldades com alguns alimentos. Nossa…como falooooo…..😅😂

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  3. Interessante como cada um possui o seu próprio tempo para assumir alguns compromissos consigo. Me lembro que aos 23 anos fui morar em São Paulo em uma república com mais 23 meninas. Os primeiros dois meses foram muito difíceis em todos os sentidos, mas após esse período descobri que precisava cuidar do meu corpo (alimentação e exercícios) tanto quanto da minha mente e espiritualidade. Assim, comecei a pesquisa sobre alimentação. Não sobre dietas, mas sobre alimentos. Porque eram importantes e o que faziam pelo nosso corpo. Fiquei fascinada. Comecei a fazer minha comida e amar cozinhar. Hoje, dez anos depois continuo estudando, relendo antigos materiais e me alimentação de uma forma que creio ser equilibrada. Não deixo de comer nada, porém faço esporadicamente. Com 28 anos me descobri intolerante à lactose e com sensibilidade ao glúten. Os dois com sintomas opostos em mim. Quando não padecia com desconfortos intestinais por flatulências e diarreias da lactose estava cansada, com dor de cabeça, mal estar, constipação pelo glúten. Fiz novas mudanças na alimentação. Redescobri uma energia que antes não tinha. Acho interessante que inconscientemente sabemos o que nos faz mal, mas até chegar ao despertar de que realmente faz mal geralmente é um processo longo e no meu caso foi fisicamente doloroso, desgastante e muitas vezes constrangedor. Não sou celíaca. Então por vezes consumo produtos com glúten, não deixei de consumir, porém descobri inúmeras comidas deliciosas sem o glúten e sem a lactose. Em um mundo em que doenças viraram moda e constantemente escuto ironias como: está de dieta? Virou moda né não comer glúten e lactose. É bom, muito bom escutar que outras pessoas também possuem dificuldades com alguns alimentos. Nossa…como falooooo…..😅😂

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  4. Querida Meiri, Acompanhava , a muito tempo,sua luta com melasma na face. Depois perdi seu endereço . Agora encontro você aqui no meu email. Estou lutando a tempo com meu melasma e sem resultados. Não sei se existe saída para esse desagradável desconforto. Como ficou o seu? Acho que não é tarefa fácil.Sempre filtro solar, não só mas outros fatores podem amenizar como uma base adequada. Bem,gostaria de saber como você venceu esse desconforto. Você fazia vídeos e postava em salada médica. Um abraço, Até mais

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  5. Sempre li seus comentários e reflexões, tão coerentes e verdadeiros.
    Isso me cativa ,principalmente o modo como você usa a linguagem ,as narrativas fluentes ,os exemplos ,citações e sugestões de sites e obras.
    Continue assim!

    Curtido por 1 pessoa

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