[Resenha] Malleus Maleficarum – O Martelo das Feiticeiras | Padre Heinrich Kramer

Por @meire_md

Heinrich Kramer foi o escritor mais intelectualmente desonesto que já consultei em toda minha vida, e olhe que estou incluindo dos acadêmicos que distorcem a Teoria da Evolução aos pseudocientistas vendedores de polivitamínicos.

Até 2015, ano em que li O Martelo das Feiticeiras, não achava que seria possível encontrar tanta desonestidade junta em uma obra só e de lá para cá não encontrei nada pior.

Ele está disponível aqui em vários formatos, inclusive para Kindle e em edição econômica (de bolso).

Até tentei, mas não encontrei nenhuma redenção para o Padre Heinrich e estou certa de que se fosse vivo hoje teria milhões de seguidores no YouTube e seria muito rico, pois a capacidade de distorcer argumentos sempre foi algo bastante lucrativo.

Nem ignorância ou inocência podem ser apontadas como atenuantes, pois ele mesmo citou argumentos contemporâneos contra o que ele defendia para depois refutá-los com um corolário interminável de falácias.

Quase infartei quando ele usou a semiologia de Avicena para defender a existência de bruxaria, sugerindo que era dessa sandice que o estudioso falava quando ensinava seus alunos a observarem o facies e o aspecto do olhar dos doentes para diagnosticá-los.

O livro inteiro pode ser utilizado como fonte de estudo de falhas de discurso e apenas por este motivo tendo a considerá-lo uma preciosidade que deve ser lida.

Quem quiser estudar e treinar lógica pode até fazer um blog só com esse livro, pois ele tem material para inúmeros posts.

Da Falácia do Espantalho ao Declive Escorregadio, passando pela Falácia do Escocês ao apelo para emoção, medo e autoridade, há de tudo. Tudo mesmo. O Padre não deixou escapar nenhuma falácia de discurso, nenhuminha.

Interessante e até apaziguador para mim foi saber que na Idade Média – tanto que lembrei deste livro quando resenhei o ‘Mulheres e Médicas – haviam muitas pessoas que não acreditavam na existência de bruxas, muitas que tentavam influenciar grupos contra a ideia e outras que, embora acreditassem, não defendiam que bruxas tivessem tanto poder ao ponto de criar tempestades, dizimar rebanhos ou fazer pênis desaparecerem.

Antes de ler O Martelo das Feiticeiras eu não sabia que o controverso era tão significativo à época, eu via como generalizada a crença das pessoas em coisas como mau olhado, crença até certo ponto justificada pela privação pedagógica e pela falta de conhecimento científico.

Mas não.

Havia muita coisa produzida e de conhecimento público defendendo que o fato de um evento não ter causa conhecida não autorizava a Igreja a atribui-la ao Demônio, textos comparando crenças religiosas a superstições e outros ligando-as a um sincretismo entre diversas mitologias e o cristianismo.

Sensacional, mas por outro lado desanima ter constatado que muita gente ainda tem um nível de raciocínio lógico bem inferior a algumas pessoas da Idade Média…

Há muitos textos interessantes em língua inglesa sobre o Malleus, de como ele foi utilizado, da real importância que teve à época e de como a proibição não conteve suas reedições ou utilização.

Quem se interessar pode dar uma procurada, mas eu gostaria de mostrar algumas coisas sobre ele.

No British Museum (que já tive o prazer de visitar por longas horas pelo menos quatro vezes) tem seis edições do Malleus sem formalização de uma data correta e de um lugar de publicação claro, então elas foram datadas considerando que uma edição tende a corrigir os erros – sejam ortográficos ou outros – da anterior.

Hoje se defende que o Padre Sprenger foi acrescentado como coautor do livro por desonestidade de Kramer, que queria dar mais autoridade à obra.

Kramer se utilizou de uma Bula Papal que foi escrita ANTES do livro como se tratasse um aval para o mesmo e parece ter forjado um Certificado de Aprovação do Malleus por uma Faculdade de Teologia.

Essas três ações garantiram sucesso de vendas até a Igreja tentar barrar a publicação, mas aí já era tarde demais.

Ele e os assassinos que já seguiam crença similar condenaram à humilhação, tortura e morte um número expressivo de pessoas.

No que se refere à bruxaria, condenaram principalmente mulheres pobres, muitas das quais parteiras ou mulheres que praticavam medicina popular que foram vítimas de inveja, ciúmes, conflitos entre vizinhos ou simplesmente de maridos que queriam se livrar delas.

Uma das coisas que a Inquisição defendia é que enquanto a mulher não confessasse a tortura deveria continuar e que alegar inocência só falava mais contra a acusada.

Era impossível se defender.

A orientação era a de que a mulher fosse torturada nua, com pelos raspados, e que se gozasse de pouca reputação no condado ou fosse pobre, que não recebesse qualquer informação sobre a pessoa que a acusou, ou seja, a coisa parecia um romance de Kafka.

Se a acusada fosse rica poderia ter mais direitos, embora as pessoas ricas raramente fossem a julgamento por Bruxaria pois os letrados, segundo a Igreja, gozavam no geral de imunidade contra o Diabo pois tinham a mente mais forte.

Algumas Igrejas Evangélicas continuam com essa noção de que a susceptibilidade demoníaca varia de acordo com a nossa conta bancária, tanto que nunca se vê um homem milionário ou uma mulher milionária possuídos pelo Demônio e sendo fortemente chacoalhados por um Pastor, no entendimento deles só os pobres são vítimas do Satanás.

O famoso Padre defendia também que o julgamento fosse sumário, que a pessoa não tivesse acesso sequer conteúdo do depoimento dos acusadores e que, preferencialmente não fosse defendida por um advogado, salvo em situações especiais.

Naquela época a Justiça já era baseada no contraditório e defesa (não tão ampla, mas sim), ou seja, não havia justificativa para que o Inquisitor defendesse isso.

E ele defendia que se a pessoa teve acesso a um advogado e conseguiu um Recurso, certamente o fez com ajuda do Diabo, então merece morrer.

Óbvio, né?

Vocês sabem o que significa Herege?

Segundo Padre Agostinho, herege é ‘aquele que dá origem a novas opiniões e as segue’.

Na Idade Média os teólogos defendiam que a Igreja só pode considerar herege aquele que é cristão mas modifica suas crenças ou não aceita seus dogmas, passando a ter novas concepções.

Mas foi justamente a alegação de Heresia que fez muitas pessoas não cristãs serem assassinadas, entre eles judeus e muçulmanos, pois embora tivessem outra religião e não devessem obrigação nenhuma à Igreja Católica, foram condenados e assassinados porque um dos motivos da Inquisição foi expandir a Igreja e aumentar a sua riqueza.

Ao contrário da possessão demoníaca, foi definido que a heresia não era tão comum assim em pobres, daí a Igreja arrumou uma forma de confiscar os bens de ricos que professassem fé distinta.

Só quem estava relativamente protegido contra a Inquisição eram os homens cristãos, principalmente os ricos.

Quando um homem cristão traia sua esposa era bem fácil resolver. Bastava dizer que foi enfeitiçado pela amante. Ela passava por todo processo e poderia ou ficar a pão e água o resto da vida ou morrer queimada, mas com o homem que traia não acontecia nada, bastava ele admitir que agiu de modo contrário às Escrituras que estaria perdoado.

A primeira parte do livro discorre sobre as condições para que a Bruxaria exista, que são o Diabo, a Bruxa e a permissão de Deus. Essa parte parece uma comédia de mau gosto e não se precisa passar da terceira página para perceber as falácias clássicas brotando.

“A que for considerada culpada, mesmo tendo confessado o seu crime, há de ser supliciada, há de sofrer todas as torturas prescritas pela lei (…)”.

Na questão IV desta parte o Padre explica por que a mulher é mais predisposta ao pacto com o Demônio, pois ela tem a natureza perversa e traiçoeira, é fraca, mais carnal e tem menos inteligência.

Aí a gargalhada alta vem quando ele fala que todos os Reinos caíram por culpa da uma mulher e usa Helena de Troia como evidência que comprova sua premissa.

Como pode?

Mesmo se a história fosse real, o que na época já se sabia que não era, Helena de fato era a vítima da história. Fruta que me partiu, a mulher foi sequestrada e mesmo assim o infeliz das costas ocas atribui a culpa do conflito a ela…

Na parte dois ele cita a metodologia das Bruxas, onde fica bastante clara a fixação sexual do religioso. A mulher é a coisa imunda e o homem é o Santo tentado pela mulher, que é inclusive capaz de obstaculizar sua função reprodutora, tanto através de disfunção erétil quanto de esterilidade. O chamado sexo frágil é o homem.

Para o Padre, a disfunção erétil é totalmente culpa da mulher, e por isso ela deve ser, com a permissão de Deus e para a sua Glória, torturada até a morte.

Ele trata também dos Exorcismos.

O interessante é que o Padre comenta que os amuletos são considerados ilícitos pela Igreja (com base nos estudos de Santo Agostinho) mas hoje são muito comuns entre católicos, como aquelas medalhinhas com Santos e correntes para o pescoço que contam com medalhas na frente e atrás. As medalhinhas e outros pequenos amuletos usados na Idade Média para espantar o Demônio viraram presentinho, um tipo de souvenir religioso.

Ele explica também como a pessoa faz o pacto com o Capiroto e como se processam as relações sexuais e toda luxúria com Íncubos e Súcubos, restando claro a nós, aqui do século XXI, que o Demônio foi o pioneiro em fecundação artificial e sabe selecionar bem o sêmen, visto que homens nascidos de relações sexuais mediadas por demônios costumam ser grandes e ‘avantajados’.

E a história ‘real’ da bruxa que guardava os pênis dos homens em um ninho de passarinho?

A cópula com demônios e a confecção de pomadas feitas a partir de ossos de criancinhas batizadas eram, para os Padres Inquisitores da época, comum a todas as bruxas, no entanto ninguém nunca viu a cópula nem viu a confecção das pomadas, já que eram feitas de modo secreto.

Mulher que gosta de sexo? Lascívia diabólica

“Não menos que quarenta e oito foram queimadas em cinco anos”, disse ele acerca de um povoado onde mulheres com vinte anos de idade ou menos foram queimadas vivas.

Imaginem o que é para um povoado pequeno, como eram os povoados à época, ver quarenta e oito de suas mulheres e filhas assassinadas? Se 48 foram condenadas a morte imaginem quantas foram condenadas a diversos suplícios e ou à prisão perpétua…

No Capítulo XIII as parteiras, criaturas nobres que ajudavam mulheres de seu povoado a parir e que garantiam uma melhor sobrevida à mãe a ao filho do que os médicos da época, foram mortas aos montes.

A mortalidade infantil era alta, muitas mães morriam durante o parto ou morriam de febre puerperal. Era assim, seja por más condições de nutrição e higiene ou simplesmente por eclâmpsia, outras doenças maternas ou até doenças congênitas.

Mas a culpa era das Parteiras e não adiantava um médico ou outro estudioso tentar defendê-las. Hoje sabemos que muitos homens letrados que gozavam de respeito junto à Igreja tentaram defender as mulheres da morte certa.

Se a criança tivesse alguma deficiência ou até fosse muito sapeca ou desobediente quando crescesse era tida como criança consagrada ao Demônio pela parteira. Imaginem aí as consequências também para as crianças, que eram ‘disciplinadas pela vara’ ou submetidas a exorcismos.

A terceira parte do livro trata dos trâmites legais propriamente ditos, discorre sobre a competência dos Julgamentos em casos de Heresia e/ou Bruxaria, colocando que a Bruxaria nem sempre se acompanha de Heresia, afinal só crê no Demônio quem também crê em Deus.

Nessa época a Igreja defendia que o Julgamento deveria ser feito na presença de um Inquisitor (Padre) e um Bispo, mas Kramer defendia que não seria necessário, bastaria uma pessoa para julgar e condenar. Aliás, esse foi um dos motivos principais pelo qual ele escreveu o livro, pois tinha desejo de provar ser capaz de julgar sem a presença de um Bispo.

Ele segue discorrendo como era a rotina da época, como as testemunhas eram ouvidas, como a Bruxa deve ser presa, como deve ser condenada, que deve ser torturada nua, interrogada de novo e torturada de novo e de como deve ser enganada com promessas falsas para confessar.

O Padre ensina como dar a entender que a mulher seria exilada quando de fato ficaria a pão e água numa cela escura ou como é lícito um Padre fazer um acordo com ela para manter sua vida mas depois largar o caso, para que outro Padre possa mandar queimá-la. E também como fazer uma espécie de delação premiada mórbida.

Se dentre as testemunhas há um criminoso, o depoimento dele só tem valor se for para condenar a mulher. Se for para defendê-la, ele não pode ser aceito, já que até prova em contrário (quase impossível de se obter) a pessoa pode ser condenada inclusive por rumores do povoado.

Ele descreve que o Julgamento deve ser sumário, mas a tortura não. Orienta que ninguém se apresse na tortura, que se comece de modo mais brando e que um notário vá registrando o que a acusada falou e como estava sendo torturada na hora, porque depois isso vai ser testado novamente para confirmar a veracidade.

O Padre também recomenda que se o torturador sentir prazer na hora da tortura procure não demonstrar.

A mulher que se paralisasse diante dos abusos e do medo e não chorasse, era considerada ainda mais culpada, mesmo se caísse no choro quando a sessão de tortura acabasse. Essa capacidade de se manter quase catatônica durante a tortura só poderia mais uma ação do Demônio e era chamada de poder maléfico de preservar o silêncio.

Gente, poder maléfico de preservar o silêncio…

Isso ocorre com muitas mulheres enquanto estão sendo estupradas, é uma forma que a mente humana encontra para fugir de uma violação intensa à integridade física e mental. Mas se a mulher chorasse enquanto muitas ‘evidências’ apontam para que seja Bruxa, também era considerada mais culpada por ter simulado o choro transferindo sua saliva através da bochecha para os olhos, o que só pode ser feito com ajuda do Demônio.

Não tinha escapatória.

E por fim a obra traz os modelos de sentença para cada tipo de crime e para cada condenação.

Quando uma mulher era considerada inocente eles tinham um cuidado de colocar na sentença que apenas não havia sido provado nada contra ela para que ela pudesse passar por todo processo de novo caso rumores surgissem ou ela fosse acusada pela mesma ou por outra pessoa.

Algumas pessoas condenadas pela Inquisição propunham a realização da Ordália, um tipo de prova mágica usada na Idade Média inspirada na Lei bíblica de Águas da Amargura. Isso mostra que eram pessoas crentes, que tinham esperança que Deus ouvisse seu clamor e concedesse assim a evidência de sua inocência e as livrassem de uma morte terrível.

Mas isso nunca acontecia.

Na Ordália o teste para a prova de inocência ocorria de acordo com a classe social do acusado, poderia ser por imersão de partes do corpo em água fervente ou por queimadura com ferro incandescente.

O procedimento foi proibido em 1.200 e pouco porque se descobriu que alguns Padres pagavam pessoas para andar em ferro supostamente em brasa visando enganar o povo, induzindo-o a acreditar que algumas pessoas não se queimavam por ação de Deus.

Como a verdade era que todo mundo se queimava, a Igreja decidiu que Deus havia escolhido não se pronunciar nos Julgamentos e assim concedeu total autoridade aos Inquisitores.

A Igreja Católica já pediu desculpas por todo esse passado sombrio. O Martelo das Feiticeiras.

4 comentários em “[Resenha] Malleus Maleficarum – O Martelo das Feiticeiras | Padre Heinrich Kramer”

  1. Nossa Meire, queria passar uma tarde discorrendo sobre vários parágrafos. Estou um misto de catatônica com revoltada. Já havia estudado sobre os processos de machismo, injustiças sociais, gênero, raça e credo dentro das religiões, mas ainda me dá náuseas. Minha dor e angústia é que sempre existiram e sempre existirão pessoas que em nome de Deus e religiões farão coisas inenarráveis. Algumas pesquisas apontam que existem inúmeros sociopatas dentro das igrejas. Não é de se estranhar, o local é totalmente propício para que eles se desenvolvam e tenham inúmeros seguidores. É revoltante e inaceitável os próprios seguidores acharem que é “normal” seguir algo ou alguém que destrói vidas. É contraditório. Muito contraditório.

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    1. Muito mesmo. Para mim a parte mais interessante da leitura desse livro foi saber que naquela época nem todo mundo pensava assim.

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