[BATE-PAPO] Como os Vírus e as Pandemias Evoluem | Reinaldo José Lopes e Paulo Pedrosa (Pirula)

Por @meire_md

Não costumo reter memórias negativas ao ponto de conseguir evocá-las sem qualquer esforço, mas o curso de Medicina me fez fixar quatro.

Umas delas é ter estado – ainda que como estudante – na linha de frente da última Pandemia de Cólera, uma doença bacteriana que não teria matado tanta gente por aqui se tivéssemos uma boa cobertura de saneamento básico.

As lágrimas, as mortes uma atrás da outra, aqueles odores pútridos e toda a umidade cinza e quente do ambiente hospitalar com seus baldes improvisados e suas camas sem lençol realmente me marcaram.

Quando as primeiras notícias sobre o então ‘novo Coronavírus’ começaram a sair na mídia e numa rápida pesquisa descobri que a coisa estava ligada a um transbordo viral recente [um vírus que não era ‘nosso’, que veio de outra espécie] e não a uma mera ‘mutação’ de um corona velho e conhecido. Fiquei perplexa quando ouvi as pessoas dizendo coisas como ‘nem deve chegar por aqui’, ‘bobagem, coronavírus mata menos que gripe’.

Até Dr. Drauzio fez pouco caso no início e enquanto as pessoas se preparavam para viajar no Carnaval, eu pensava: estou doida? Ninguém está vendo o que vai acontecer no Brasil se as pessoas se aglomerarem no Carnaval? E quando essa porra desse vírus pegar os cardiopatas? Não relembrar o quão traumática pode ser uma Pandemia foi impossível.

Infelizmente a evolução do SARS Cov 2, nome do vírus que causa a COVID-19, provou que eu não estava maluca.

O balanço disso tudo só teremos no futuro mas é certo (ou deveria ser) que 2020 será lembrado pela intensa produção acadêmica, pela necessária valorização dos divulgadores científicos e pelas constatações lamentáveis de que profissionais de saúde trabalham sem condições sanitárias mínimas e de que as Pandemias anteriores não ensinaram as pessoas a lavar as mãos corretamente nem a largar o hábito de apertar as mãos dos outros.

Se olharmos para trás não houve nenhuma grande tragédia natural, Pandemia, atentado terrorista ou Guerra que não tenha feito a humanidade avançar de alguma forma. Com as pressões ambientais certas pelo menos algum impulso Humano, demasiado Humano* pode resultar em mudanças boas.

“Como os Vírus e as Pandemias Evoluem” foi publicado por Reinaldo José Lopes e Pirula, os mesmos autores de “Darwin Sem Frescura”, em abril de 2020.

Trata-se de um ensaio de distribuição gratuita e cujo conteúdo, de linguagem muito objetiva e clara, explica as teorias e fatos por trás da origem dos vírus e de como eles interagem com os humanos.

O ponto de partida não poderia ser outro senão a Teoria da Evolução, sem a qual qualquer tentativa de explicar a origem dos vírus não faz qualquer sentido. A discussão sobre a origem dos vírus é curtinha e não se propôs a esgotar o tema, porém é bastante rica.

Os vírus são como zumbis, nem são seres vivos nem estão propriamente mortos; como bem explicam os autores, são em suma fragmentos de material genético que agem como parasitas intracelulares obrigatórios e ‘objetivam’ se perpetuar, coisa que é mais importante para eles do que simplesmente matar sua máquina copiadora.

Um dos vírus humanos mais bem sucedidos é o da Herpes, presente em uma ou outra de suas formas em boa parte da população, certamente em mais de 50%.

Ele fica em segurança, dorme longos sonos da beleza, acorda quando bem entende (mais ou menos, ele aproveita certas fragilidades do hospedeiro), multiplica-se, atinge outras pessoas, nem sempre gera sofrimento ao hospedeiro e segue em um ciclo quase pacífico, mas potencialmente letal quando atinge o cérebro e pode promover sequelas em outras complicações específicas, tanto neurológicas como oculares.

O livro discorre sobre esse tipo de sucesso que exemplifiquei usando o vírus da Herpes e explica por quais motivos essa relação pouco letal nem sempre ocorre.

Na segunda metade do livro os autores demonstram como a seleção natural, os nossos hábitos alimentares/culturais e a invasão dos espaços anteriormente ocupados pelos animais ‘dão’ motivos para que diversos vírus transbordem dos bichos para os seres humanos e que isso certamente continuará acontecendo, já que o principal fator não parece ser a similaridade genética entre nós e eles e sim a proximidade física entre as espécies.

O entendimento das razões desses transbordos, que os autores chamam de ‘saltos’, é bastante importante para a criação de estratégias preventivas e os exemplos do livro são excelentes.

Como pode um livro tão miúdo trazer tanta informação?

Se você gosta de animais vai apreciar bastante o julgamento dos morcegos (a parte que mais gostei do livro, owww).

Ao final do texto os autores apontam as referências consultadas para o Ensaio.

Recomendo a leitura, que pode ser embalada pela playlist que fiz no Spotify, aqui.

Se você se perguntar por qual motivo a Dua Lipa está na playlist saiba que pode ter sido simplesmente porque meu marido, que é engenheiro de áudio, em algum momento de nossas vidas me disse que o produtor musical da menina edita suas músicas de modo extremamente minucioso: ele decide o tamanho de cada sílaba de acordo com o que acredita que se encaixa melhor na batida da música.

Se você não tem o Kindle basta fazer uma conta na Amazon, instalar o app no seu celular, adquirir o livro de graça e começar a ler. Você pode ler pelo computador também. 

Beijos,

* “O homem não é igualmente moral em todas as horas, isso é sabido: julgando sua moralidade segundo a capacidade de grandes decisões de sacrifício e abnegação (que, tornando-se duradoura e habitual é santidade), então é no afeto que ele é mais moral; a excitação forte lhe fornece motivos inteiramente novos, dos quais ele, estando frio e sóbrio como de costume, talvez não acreditasse ser capaz. (…)

Nietzsche (in Humano, Demasiado Humano, aforismo nº 138).

 

 

 

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