[Resenha] Fahrenheit 451 | Ray Bradbury

Por @meire_md

“Os negros não gostam de Little Black Sambo. Queime-o. Os brancos não se sentem bem em relação à Cabana do Pai Tomás. Queime-o. Alguém escreveu um livro sobre o fumo e o câncer de pulmão? As pessoas que fumam lamentam? Queimemos o livro”


Desde muito jovem Ray Bradbury (1920 – 2012) passava boa parte do seu tempo lendo autores como Edgar Allan Poe, Julio Verne, H. G. Wells e Sir Arthur C. Clarke. Ele começou escrever contos na adolescência e se dizia também influenciado por Shakespeare e Aldous Huxley.

(…) sou um louco de atirar pedras quando se trata de livros”

Bradbury nutria um amor especial por livros e o interessante é que a primeira versão de Fahrenheit 451 foi escrita dentro de uma biblioteca.

A versão final foi publicada em 1953. A minha edição é a da Editora Globo; hoje há edições em papel e para Kindle.

O escritor casou com a primeira namorada e o casal teve quatro menininhas, nascidas entre 1949 e 1958. Marguerite, que trabalhava numa livraria e deu todo suporte financeiro a Bradbury no início de carreira, morreu quando ele estava com 83 anos e já se encontrava com sequelas motoras em razão de um acidente vascular encefálico.

Mesmo com limitações físicas ele continuou escrevendo e frequentando encontros de ficção científica até o ano de 2009, vindo a falecer em 2012, aos 91 anos. Além de ter doado dinheiro a várias bibliotecas, deixou seus livros como herança para a Waukegan Public Library.

Você pode saber mais sobre a vida de Bradbury aqui.

A história de Fahrenheit 451 mostra uma sociedade distópica onde a maioria dos livros são de leitura proibida e por determinação legal devem ser queimados por Bombeiros.

Ela em nada me parece uma crítica ao autoritarismo governamental. A crítica, ao meu ver, recai sobre cada cidadão que deseja eliminar a literatura que de alguma forma não lhe agrada, mesmo que tenha sido escrita dentro dos contextos histórico e social de sua época.

Campanhas difamatórias contra Lewis Carroll e Marquês de Sade ocorreram em seus tempos e hoje há quem queira cancelar Machado de Assis, Monteiro Lobato e Dostoiévski, por exemplo.

Nas palavras do autor:

Cada minoria, seja ela batista, unitarista, irlandesa, italiana, octogenária, zen-budista, sionista, adventista do sétimo dia, feminista, republicana, homossexual, do evangelho quadrangular, acha que tem a vontade, o direito e o dever de esparramar o querosene e acender o pavio“.

Isso foi dito em 1953. Por favor, não queiram cancelar Bradbury.
Costumo dizer que quem defende que certos livros sejam reescritos ou eliminados revela o quão pouca cultura tem. Se tivesse lido o suficiente encontraria muito mais e talvez optasse por mandar queimar logo tudo.

Se os mormóns não gostam das minhas peças, que eles escrevam as deles. Se os irlandeses detestam meus contos passados em Dublin, eles que aluguem máquinas de escrever (…) Encaremos, portanto, a disgressão é a alma do intelecto (…) Em suma, não me insultem com decapitações, decepação de dedos ou esvaziamento de pulmões que pretendam fazer em minhas obras.”

Partindo do princípio de que cada um deseja encontrar especificamente os seus valores e os seus anseios representados em todas as obras literárias que lêem e se julgam no direito de queimar aquelas que não atendam as suas necessidades, Ray extrapola tal comportamento para o futuro e cria uma distopia simplesmente fenomenal.

📍Aviso: a partir deste ponto há spoilers.

Na realidade de Fahrenheit 451 não há velórios, toda lágrima deve ser evitada. Sofrimento e adversidades? Jamais. As donas de casa mergulham diuturnamente em programas tipo Big Brother Brasil.

Creme logo o morto e vá para casa ver TV.

Conforme a lembrança de um velho professor chamado Faber, as pessoas foram deixando de ler, pois cada obra gerava algum desconforto em alguém e consequentemente o livro era incluído no rol dos proibidos. Os escritores foram parando de escrever pois tudo que produziam era boicotado por grupos específicos.

Beatty, o chefe dos Bombeiros, relatou que os livros deixavam as pessoas confusas diante do contraditório, que isso trazia infelicidade e que era muito melhor que as pessoas fossem apresentadas a apenas uma versão de tudo para que não precisassem raciocinar nem se aventurassem a filosofar.

Aos poucos a população foi acusando cada livro de um problema X, até que quase todos passaram a ser proibidos e queimados.

Tanto Beatty como Faber foram testemunhas oculares do tempo em que as pessoas demonizaram os livros e passaram a alienar-se em nome de uma felicidade carreada pela apatia emocional.

A resistência das pessoas às frustrações se transformou num amontado de vários nadas. As tentativas de suicídio passaram a ser tão comuns que foi desenvolvida uma máquina para aspiração gástrica a domicílio.

O Bombeiro Montag é casado com uma mulher egocêntrica , viciada em comprimidos hipnóticos e em permanecer conectada com desconhecidos, que considera como sendo sua ‘família’.

Ora, ora, ora… Bradbury foi realmente um profeta.

Após uma sequência de três importantes acontecimentos – relacionados a uma adolescente que recém conheceu, à sua esposa e a uma intercorrência no trabalho – Montag questiona o status quo.

Os avanços tecnológicos da época são descritos de forma muito orgânica, como uma torradeira elétrica munida de uma mão que passa a manteiga no pão, um miniaparelho de som em forma de concha que encaixa nos ouvidos, uma fechadura de porta acionada pelo formato da mão do proprietário, uma espécie de ponto eletrônico que permite comunicação a longa distância entre duas pessoas e até um cão farejador (sabujo) mecânico.

Muitos livros e autores são citados no decorrer da história; as citações que ilustram momentos mais significativos são extraídas de ‘O Livro dos Mártires’* de Jonh Foxe e do livro ‘Dreamthorp’, de Alexander Smith.

Fahrenheit 451 é incrível em muitos aspectos. Sei que não fui capaz de fazer uma resenha à altura, mas espero que vocês gostem tanto quanto eu gostei.


Um abraço,
Meire


 “Aja como homem, mestre Ridley; havemos hoje de acender uma vela tão grande na Inglaterra, com a
graça de Deus, que tenho fé que jamais se apagará


** “O tempo adormeceu ao sol da tarde

 

 

 

 

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