[Resenha] Serial Killers Anatomia do Mal | Harold Schechter

Por @meire_md


Harold Schechter é um professor de literatura e cultura americana que construiu seu nome como escritor produzindo obras sobre crimes verídicos.

As críticas negativas que tenho sobre o livro Serial Killers – Anatomia do Mal podem ser minimizadas por duas coisas: em primeiro lugar porque ele foi escrito há 17 anos (2003) e de lá para cá a neurociência modificou bastante nosso aporte de conhecimento sobre o funcionamento cerebral, e em segundo lugar porque o autor não tem formação técnica na área.

O problema é basicamente que, em alguns casos, o livro claramente ‘força’ o leitor a correlacionar de forma simplista um evento da vida do serial killer ao seu sadismo extremo mesmo quando a ocorrência faz parte do cortejo de reações adversas da vida.

Todo mundo tem problemas. Merdas acontecem na vida de todos.

Ah, fulano resolveu sair estuprando e estrangulando idosas, decapitando-as, masturbando-se por cima do seu cadáver e comendo seus restos mortais ao alho e óleo porque os pais se separaram e no seu íntimo ele nutre um ódio pela mãe.

Menos, gente, menos. É claro que é basicamente certo que gatilhos ambientais são parte importantíssima na gênese de um serial killer, mas não vamos dar status de catástrofe a quaisquer ocorrências que se repetem basicamente para todos nem tentar escantear a genética a todo custo.

Tirando preciosismos técnicos, o livro é sensacional e me prendeu do começo ao fim.

Interessantes os questionamentos e argumentações bem dignos de nota contra alguns mitos, como o de que homens brancos são maioria entre os serial killers no mundo, que o problema é mais grave nos EUA que em outros locais, que vídeogame e pornografia tornam as pessoas violentas ou outras afirmações questionáveis, como a de que não existe mulher serial killer.

Um outro problema não é especificamente deste livro, mas me incomoda há algum tempo. Nenhum dos livros com esta temática que já li (li muitos) presta uma ênfase necessária aos conflitos de interesses que estão por trás das entrevistas que estes criminosos concedem a médicos, psicólogos e pesquisadores.

Também não costumo ver descrições mais detalhadas do conteúdo de anamnese/entrevista complementar com familiares, com outras pessoas do círculo íntimo do criminoso ou dos antecedentes patológicos familiares.

Não estou falando que entrevistas com bom suporte técnico não existam ou são parciais de propósito, apenas que o diagnóstico diferencial eventualmente feito não parece ser valorizado nem aparece muito claramente nestes livros.

Excetuando-se registros verídicos de serviços sociais, médicos ou ações judiciais que comprovem que certos indivíduos foram abusados por familiares ou outros cuidadores, muito pouco deveria ser aproveitado como elemento de monta se a fonte da alegação é unicamente o serial killer.

Eles são mestres em simulação e quando isso tudo se junta a um pesquisador que rejeita a biologia ou não pesquisa antecedentes familiares, é criado o caldo perfeito para a criação de mitos.

Há histórias ‘de vida’ tão intensamente floridas que mesmo quem não tem uma certa experiência como pesquisador deveria ter um insight. Alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias*.

Histórias muito bizarras, em princípio, sugerem muito mais delírios persistentes, pseudologia fantástica ou simulação pura e simples. O Serial Killer frequentemente cria histórias não só para tentar se safar mas também para se divertir com a empatia do examinador.

Serial Killers – Anatomia do Mal deixa bem claro o quanto a Justiça ainda é muito benevolente com jovens cruéis e com estupradores, e como Juízes soltam criminosos mesmo quando pareceres de médicos e psicólogos forenses são contrários.

Estudos retrospectivos (caso a caso) sugerem que um estuprador solto tende a voltar a estuprar com mais agressividade e passando a matar a vítima para não deixar testemunhas, evitando assim que volte a ser preso.

Um estuprador é, basicamente, uma semente de serial killer e acredito que assim que for solto (o Brasil simplesmente solta), o tio recém preso que violentou a sobrinha por quatro anos e a engravidou quando estava com apenas dez anos de idade irá recorrer no crime de forma ainda mais perversa.

Busca por prazer sexual às custas de violência contra outro ou outros seres humanos e assassinato em série são coisas indissociáveis, o livro aborda muito bem esse assunto.

Bom lembrar que o escritor também cita a tríade maldita que, de acordo com alguns estudos tem correlação estatística com personalidade antissocial futura (se há nexo causal não sabemos ao certo); os sintomas e sinais são: enurese noturna, piromania e violência contra animais.

De qualquer forma, crianças que demoram a controlar o esfincter urinário à noite, têm fascínio por queimar coisas e torturam animais merecem vigilância. Torturar animais não é brincadeira de criança, pode ser uma espécie de treino para uma matança futura.

Além de vários estudos de caso, Serial Killers – Anatomia do Mal traz uma boa bibliografia e listas de músicas, filmes e outras obras inspiradas nesse tema tão sombrio.

 

Aviso: Este post contém links afiliados da Amazon e isso não afeta o preço que você pagará no caso de realizar uma compra por meio deles. A administração do Blog poderá receber uma pequena comissão pela venda.