[Resenha] A Mente Moralista e as Origens da Polarização Contemporânea | Jonathan Haidt (3ª Edição)


Por @meire_md

“Minha esperança é que este livro inspire conversas sobre moralidade, política e religião de uma forma mais usual, civil e mais engraçada, em qualquer companhia. Minha esperança é que ele possa nos ajudar a conviver.”

Jonathan Haidt é um psicólogo moral (social) americano que leciona na New York University.

A Mente Moralista e as Origens da Polarização Contemporânea é um livro é didático, extenso, muito bem escrito e dividido em três partes.

Na primeira parte o autor defende que a intuição moral vem antes do raciocínio crítico e que as razões que nosso cérebro encontram até podem derrubar aquela impressão inicial do que é certo ou errado, porém mais frequentemente selecionamos nossos argumentos de forma a confirmar o que a nossa intuição aponta.

Na segunda parte a moral é esquartejada em seis polos cujas bases não se resumem, segundo o autor, ao senso do que é mau ou injusto.

Nesta parte há, em minha opinião, uma bela patinada: em certos pontos tive uma impressão de que houve uma tentativa (bem mal justificada cientificamente…biólogos especialistas em evolução podem morrer do coração, fica aqui o aviso) de precificar a moral das pessoas de esquerda ou de direita com base no número de ‘fundações’ morais que caracterizam em cada um dos espectros.

Uma canoa feita com dez paus não é necessariamente melhor que uma feita com um só, talvez a feita com um só seja muito mais resistente a perfurações, por exemplo.

Deixo a dica para o leitor interessado no livro se debruçar nisso aí, mas de qualquer forma é preciso fazer justiça porque em algum momento o discurso do autor retorna ao eixos de sua expertise e a mensagem deste segundo terço do livro é que de fato não há uma moral que possa representar todas as pessoas em quaisquer tempos e lugares.

Na terceira parte é defendida a moral multinível, é descrito como as facções políticas se formam e por quais motivos as pessoas se dividem tanto política quanto religiosamente.

Em sua concepção, a divisão das pessoas em dois polos não ocorre porque são boas ou más, mas em razão do diferente funcionamento de suas mentes morais. Eu tendo a concordar. Acho sim que as pessoas são divididas por certos kits mentais.

Uma coisa bastante interessante e que eu, mesmo sendo alguém que faz muito isso, nunca havia me dado conta de que é a forma de diálogo que realmente funciona: quando você está discutindo algo polêmico com alguém que pensa de forma muito diferente, ser carinhoso, paciente e fornecer argumentos que estimulem o seu lado primitivo (o da intuição), funciona melhor do que debater raivosamente como se estivesse lutando pela própria vida e atirando os argumentos mais perfeitamente lógicos do Planeta. Se a pessoa ‘sente’ que você pode ter razão, ela fica mais aberta aos argumentos.

Completamente ciente das minhas limitações, das armadilhas do nosso cérebro e do meu grave defeito de achar que tenho muito bom senso (mas quem acha que não tem?), tenho obsessão em me manter sempre em uma posição que me permita olhar os dois lados das coisas, daí nutro amizades com pessoas que pensam de modo diferente, tento não me prender nas bolhas das redes sociais e não dou opiniões sobre nenhum assunto relevante enquanto eu não me convencer que tenho algo minimamente razoável para falar. Acho que lutar ativamente contra nossa tendência selvagem de ver o outro lado como inimigo me faz muito bem e me enriquece bastante. Recomendo.

As conclusões de A Mente Moralista e as Origens da Polarização Contemporânea não podem ser outras senão aquelas que sugerem que um debate político ou religioso só funciona de modo frutífero se pelo menos um dos lados for suficientemente empático e hábil, do contrário o “debate” não passa de uma briga (nada democrática) entre macacos que brigam por território e objetivam calar, expulsar ou aniquilar o outro lado.

Aliás, quem tenta aniquilar o outro lado só faz com que o seu próprio lado se enfraqueça.

 

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