[Resenha] Neuromancer | William Gibson

Por @meire_md


William Gibson, hoje com 72 anos, é um escritor de ficção científica que iniciou sua jornada escrevendo contos.

Estimulado pelo mais puro medo de produzir um livro que não prendesse a atenção do leitor, criou ‘Neuromancer‘, uma história densa e tão revolucionária que é usada hoje como um ícone do cyberpunk, subgênero de ficção científica cujas histórias são ambientadas em um submundo tecnológico distópico – anárquico e não raro pós-apocalíptico – onde as classes dominantes são ligadas a grandes corporações privadas e boa parte da população vive em condição marginal.

A história é tão relevante que criou as ideias de cyberespaço e inteligência artificial, forneceu subsídios para filmes como Matrix, recebeu importantes prêmios e rendeu uma aclamada trilogia. Os outros dois livros são Count Zero (1986) e Mona Lisa Overdrive (1988).

Aproveitando as vantagens da minha edição especial da Aleph (2014), antes de mergulhar na leitura do livro resolvi me ambientar melhor e li ‘Johnny Mnemônico‘ (1981), ‘Queimando Cromo’ (1982) e a longa e detalhada entrevista que William Gibson concedeu a Larry McCaffery em 1986.

Curioso saber que WG imaginou o cyberespaço ao sentir, enquanto observava meninos jogando Fliperama, que eles agiam como se estivessem do lado de dentro da tela. Genial.

Já há excelentes resenhas sobre este livro e como li muitos comentários de pessoas que não conseguem terminá-lo, minha ideia aqui é apenas dar alguns toques para estimular um recomeço.

A história começa começando.

Para entender o livro é preciso quebrar alguns paradigmas: a escrita acompanha a lógica do universo punk.

Você é jogado no meio do caos quando todo mundo se conhece, merdas já aconteceram e estão todos estressados demais para dar atenção ao novato da tribo. O novato é você.

Você não será apresentado a ninguém, você é um mero observador investigativo que terá que fazer suas próprias conexões e dar a cada personagem a atenção devida. É um livro para quem tem mente de detetive.

Quem for importante reaparece e o que for importante em algum momento é elucidado; a história não volta para explicar o que aconteceu offline enquanto você estava acompanhando Case na Matrix e os diálogos podem começar pela metade da mesma forma que acontece quando você sai de uma reunião e volta.

O ambiente cyberpunk é como um ferro-velho gigantesco cheio de figuras fisicamente exóticas, coletores, ladrões, compradores e trapaceiros.

Num ambiente assim você não precisa nem vai entender o que cada gadget é ou significa nem vai conhecer a intimidade ou as razões de todos os personagens, tampouco vai entender o papel de cada um que por acaso passa pelo grupo principal.

Há muitos transeuntes, muita tralha, muito ruído. Em suma, o autor está pouco se lixando para o leitor que busca orientação e sentido; você que lute para formar a história na sua cabeça, e é justamente isso que faz o livro ser tão massa.

Importante saber que há personagens com apelidos/codinomes que se alternam no decorrer da trama, o que requer um pouco de atenção para que você não confunda as pessoas. Os neologismos são praticamente autoexplicativos.

📍Daqui para frente há spoilers, então leia por sua conta e risco.

O país principal da história é o Japão.

Case é um hacker (‘cowboy’) de 20 e poucos anos portador de um cérebro turbinado tecnologicamente que pisou na bola com um contratante e, como represália, foi capturado e infectado com uma micotoxina que impede o seu acesso à Matrix, ou seja, que impede que seu cérebro biotecnológico conecte-se com o cyberespaço.

Impedido de atuar profissionalmente como hacker, vicia-se em drogas e sobrevive fazendo bicos em troca de dinheiro de papel (‘neoiene‘), modalidade de pagamento feita apenas em transações pouco ou nada lícitas.

Após gastar tudo que tinha tentando se livrar da micotoxina, é levado pela própria namorada a um estado paranoico. Ela aproveita a confusão para fugir com dados que julgava valiosos enquanto ele, acreditando ser alvo de uma tentativa de assassinato, é resgatado pela mercenária samurai biotecnologicamente modificada que já tinha aparecido no conto Johnny Mnemônico, a Molly Millions. Amo você, Molly.

Sem ser consultado, Case é sedado e submetido a um tratamento contra a micotoxina e a transplantes de fígado e pâncreas, que o deixam insensível às drogas que consumia, mas sua capacidade neuronal só poderá ser mantida se ele cumprir uma missão cibernética determinada por Armitage, fantoche de uma IA que aparece mais na frente.

Sete dias depois do procedimento médico ele recupera a capacidade de se conectar à Matrix e, conhecedor do fato de que a recusa em cumprir a missão resultará na devolução da micotoxina à sua circulação, ele se joga no trabalho sem saber direito o que está fazendo, coisa que começa a ser esclarecida lá pelo segundo terço do livro.

O Brasil aparece em pelo menos três momentos, um dos funcionários de Ratz (dono do Bar decorado com um relógio Dalí) é brasileiro e em algum lugar no tempo e espaço aparece um outro transeunte brasileiro. O terceiro ponto onde o Brasil figura é tão importante (e tão chave para a compreensão do todo) que não vou colocar no post, isso você vai descobrir sozinho (a).

Entre viagens físicas e cibernéticas a equipe se completa com Peter Riviera – que tem a capacidade de compartilhar hologramas com quem está por perto, criando ilusões perfeitas – e os computadores, um deles formado pela mente de um tutor morto (Pauley) que aparece tanto como Dixie quanto como Flatline. Aliás, ele não é o único morto da história que tem a inteligência preservada por tecnologia.

Em um certo momento eles se deslocam para fora da Terra em um ônibus espacial e chegam a Zion, onde personagens rasta se juntam ao grupo. A coisa começa a convergir. No terço final do livro a trama vai se fechando dentro da Matrix, o que é quase uma experiência alucinógena.

Se você terminar a leitura de Neuromancer como quem viu um filme inteiro, entendeu tudo mas ficou com a sensação de que dormiu em algumas partes, é sinal que a leitura foi ótima.

O desenrolar é surpreendente.

 

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