[Resenha] O Homem que Sabia Demais – Alan Turing e a invenção do computador | David Leavitt

Por @meire_md

“Isto é uma pequena amostra do que está para vir, e, apenas uma sombra do que vai ser” (Alan Turing, sobre o computador de Manchester)

David Leavitt é membro da Creative Writing da Universidade da Flórida e é autor de vários livros de ficção e não-ficção.

Alan Turing, o biografado em O Homem que Sabia Demais, foi um dos gênios da humanidade; ele teve a ideia de projetar uma máquina para resolver grandes problemas matemáticos de seu tempo e assim surgiram a máquina que quebrou o código da Enigma e o computador moderno.

Alan Turing não só contribuiu para a derrocada do regime nazista como foi um dos grandes responsáveis pela cascata tecnológica que se seguiu a II Guerra e garantiu que praticamente todo mundo atual tenha acesso a um computador com internet.

Mas em 1952 ele foi condenado a se submeter não só à castração química como a uma série humilhante de tratamentos para ‘cura gay’ e acabou se suicidando em 1954.

Segundo os relatos de sua mãe, Alan começou a se interessar por números e por ciência ainda muito pequeno e por volta dos 10 anos de idade já demonstrava aversão contra imprecisões, bem como tinha alguma dificuldade de lidar com abstrações e costumava interpretar questões de maneira extremamente literal.

No capítulo ‘Vendo as Margaridas Crescerem’ David Leavitt faz referência às desilusões amorosas e perdas da adolescência de Alan, bem como as dificuldades que passou por viver em um ambiente tão intolerante, como não ser convidado a participar de clubes de leitura e outras reuniões.

Além de gay, ele era tímido, não era exatamente uma pessoa organizada e não e comportava a sofisticação inglesa típica, ou seja, não se encaixava nos padrões sociais da época.

Aos 22 anos ele foi aceito como bolsista do King’s College e o livro discorre sobre alguns paradoxos nos quais Alan se debruçou e como a matemática evoluia na época, citando diversos estudiosos e filósofos, então o livro é meio que também um trabalho de História da Matemática no século XX.

Filosofei durante boa parte do livro por achar bastante complicado entender como os matemáticos ficam anos e anos em busca de soluções para supostos problemas que me parecem de fato um enigma genial justamente porque não tem resposta – como por exemplo o Paradoxo do Mentiroso ou do Gato de Schrödinger, duas coisas que não me fariam esquentar a cabeça: como disse Bertrand Russel, ‘a matemática pura é o tema em que não sabemos do que estamos falando, ou se o que estamos falando é verdadeiro’.

Obviamente sei que o processo da busca pela solução acaba trazendo novos conhecimentos, novos paradoxos, ou simplesmente levanta novas verdades que ainda não podem ser aplicadas ou postas à prova, como por exemplo a ideia de uma ‘máquina universal’ que Alan Turing teve enquanto pensava em coisas sem solução deitado na grama das campinas de Grantchester, hehe.

O Homem que Sabia Demais fala ainda da origem dos algoritmos, sistema denário, binário, álgebra booleana e mais conhecimentos que foram necessários para Alan criar o computador moderno.

Turing chegou à definição dos números computáveis no início dos anos 30, época em que deixou a Inglaterra e partiu para sua pós-graduação em Princeton. Em janeiro de 1937 publicou ‘Computable Numbers’, que teve pouquíssima repercussão mas conforme o biógrafo, tal coisa ocorreu porque as Universidades Americanas estavam apinhada de gênios que fugiram da Europa em razão da perseguição nazista, então havia uma profusão de artigos sendo apresentados e o de Alan passou inicialmente despercebido.

Para ‘aparecer’ em uma Universidade não basta ser gênio, é preciso conhecer as pessoas certas, publicar nos locais certos e até uma certa dose de autopromoção, coisas das quais Alan Turing carecia.

Mais aí o professor Church, seu orientador para o PhD, escreveu uma resenha sobre o artigo e Alan chamou a atenção do Reitor do Departamento de Matemática, que lhe concedeu prorrogação da Bolsa de pós para ficar mais um ano em Princeton. Finalizado o prazo, ele voltou para a Inglaterra para dar um curso de criptografia e encriptação em Londres pois o seu cérebro já estava na mira do Governo Britânico.

Em 1939 Alan ministrava cursos em Cambridge e logo após começou a sua saga para a construção da ‘Bomba’, a máquina idealizada por ele para quebrar os códigos da Enigma.

O capítulo 5, a casca macia (menção à maçã envenenada do Filme Branca de Neve e os Sete Anões), explica princípios básicos de criptografia, revela a história da Bomba, de como Alan conseguiu explorar os erros dos alemães e foi ficando mais ‘excêntrico’ com o passar do tempo. É de arrepiar saber que se os ingleses soubessem que ele era homossexual possivelmente os Nazistas tivessem vencido a Guerra ou a Guerra tivesse durado muito mais tempo.

A vida solitária de Alan fica bem clara no capítulo 6, com a triste descrição da rejeição que sofreu de pessoas que ele não esperava, de ser socialmente punido em razão da recusa em negar sua homossexualidade por achar que as pessoas não mereciam sua desonestidade, dos amores não correspondidos e das relações homoafetivas sem vínculo.

Em 1945 ele foi trabalhar na divisão de matemática do Laboratório Nacional de Física em Teddington dirigido pelo neto de Charles Darwin, enquanto os EUA já trabalhavam em uma máquina baseada na fita de Turing (na verdade parece ter havido uma apropriação de suas ideias, pois Turing não foi remunerado).

Turing terminou um importante relatório em 1945, mas naquela data o trabalho não foi compreendido. Em 1948 ele voltou aos EUA para trabalhar em um modelo preliminar de computador moderno, que foi restado com quebra-cabeças matemáticos.

O Computador de Manchester era gigante. E em 1950 veio o ‘Computing Machinery and Intelligence”, seu trabalho mais famoso ( que gerou muitas discussões éticas na mídia, inclusive críticas religiosas contra uma máquina que pode pensar) e em 1951 entrou para a Royal Society.

Em 1952 Alan Turing foi roubado por um rapaz com quem mantinha uma relação precária. Ao reportar o ocorrido à polícia, passou de vítima a criminoso e foi preso por ‘conduta indecente’.

O resto de sua curta vida é só aflição.

Quando foi preso ele estava com 40 anos de idade. Foi castrado quimicamente, emasculado, humilhado, solto para viver o resto dos seus dias sabendo que nunca mais teria sua vida de volta, nunca mais teria a matemática de volta.

Na madrugada de 08 de Junho de 1954 ele foi encontrado morto. Embora sua mãe e amigos tentassem esconder o fato e criar provas contrárias, foi constatado que ele se suicidou comendo uma maçã envenenada com cianeto.

Só depois de assassinado é que parte de seu trabalho foi de fato reconhecido; em meados dos anos 50 ele foi citado pela Time como um dos maiores cientistas do século XX.

 

Aviso: Este post contém links afiliados da Amazon e isso não afeta o preço que você pagará no caso de realizar uma compra por meio deles. A administração do Blog poderá receber uma pequena comissão pela venda.