[Resenha] A Casa dos Budas Ditosos | João Ubaldo Ribeiro

Por @meire_md

A sacanagem é mesmo um dos grandes veículos de intercâmbio cultural (João Ubaldo Ribeiro em ‘A Casa dos Budas Ditosos’)

A Casa dos Budas Ditosos’ é uma obra literária que faz parte da coleção Plenos Pecados da Editora Objetiva e foi lançada em 1999 representando um dos sete pecados, a luxúria.

Por representar a luxúria no sentido mais próximo do que se entende por literal, este livro não é recomendado para menores de idade, para pessoas que se escandalizam com quem fala abertamente sobre sexo, para pessoas com baixo limiar para críticas religiosas ou para aqueles cujo patrulhamento ideológico rígido não o torna capaz de apreciar algo dentro do contexto de uma época.

É um livro curioso desde a introdução, onde João Ubaldo revela que o texto seria, salvo pouquíssimas alterações e correções, apenas uma transcrição de fitas gravadas por uma mulher de 68 anos que resolveu revelar suas estripulias sexuais mais lendárias.

Verdade ou não, até hoje se questiona se a mulher de fato existiu ou se a introdução foi uma brincadeira do escritor. O texto tem realmente a cadência típica da oralidade, com frases que vão e voltam e a sensação de que o autor (ou a autora) está pensando em voz alta.

Na minha opinião a mulher nunca existiu. Se ele não mexeu em quase nada como o texto é tão João Ubaldo?

A protagonista de A Casa dos Budas Ditosos mostra cultura geral adquirida por leitura e viagens, fala do nosso sincretismo religioso, da incorporação católica de crenças greco-romanas, relembra suas aulas no Curso de Direito, alega ter lido Shakespeare quando pequena, cita uma tal parentada alemã, fala de hábitos sexuais de portugueses e americanos e compara-se a Buñuel quando se diz disgressora.

Enfim, é tudo muito João Ubaldo demais (ele era advogado, costumava colocar questões polêmicas ligadas ao catolicismo em suas crônicas, leu Shakespeare quando criança, tinha estreita ligação com a Alemanha e morou também nos EUA e em Portugal).

Por ser algo como um pornô para mamães (uma espécie de Cinquenta Tons de Cinza, sendo que bem escrito e sem coisificar a mulher) parece que chegou a ser recusado por algumas livrarias, mas mesmo assim fez sucesso e em 2000 foi traduzido para o inglês.

As aventuras sexuais da nossa heroína, que incluem de incesto a um quase bestialismo e histórias de sua amiga despudorada, pansexual e sádica são detalhes em meio às críticas ao cristianismo e à hipocrisia da sociedade.

A ótica da protagonista, que chega ao extremo de ‘meu corpo, minhas regras’ é como uma versão menos machista e menos moralista dos textos de Nelson Rodrigues.

A himenolatria, os abortos às escondidas, o feminismo latente que desejava colocar a mulher no papel de dominador, os professores que seduziam ou se deixavam seduzir por alunas, bem como um pouco da rotina maluco-beleza dos anos 60-70 (tipo a popularização da cocaína no Brasil e da prática de sexo grupal que florescia não só no Rio de Janeiro como em Salvador), surgem do começo ao fim da saga.

E por que Budas Ditosos? Leia o livro que você fica sabendo 😉

Abraço,

Meire.

 

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