[Bate-Papo] Como entender um ateu? | @meire_md

Quem quiser crer, crê e acabou-se.” Saramago

Autor: @meire_md

Em 2009 publiquei um ensaio extenso chamado ‘Acerca da Fé – uma peça em 12 atos‘, objetivando estimular tanto a tolerância entre pessoas com fé e sem fé quanto entre pessoas com credos distintos.

Por algum motivo que agora não me recordo, em 2010 republiquei (lá no Bule Voador) apenas o trecho abaixo, que foi construído com questões recorrentes em debates virtuais e presenciais.

Apesar do ateu ser alvo de um preconceito praticamente generalizado e nada implícito, muitas vezes o crente também é alvo de preconceitos vindos de ateus imaturos ou muito passionais.

Para boa parte dos leitores não haverá nada novo. O FAQ destina-se sobretudo aos crentes e aos ateus que, em vez de tratar o tema com controle emocional, debatem de maneira jocosa ou agressiva e julgam-se intelectualmente ou moralmente superiores.

Como entender um ateu?

(1) Por que eles não acreditam em Deus? E por que eles não acreditam numa mente superior?

Eles não acreditam porque não existem evidências que os convençam de que exista uma força não natural agindo sobre o Universo. Se existisse uma evidência convincente para os ateus, ela seria forte o suficiente para todo o mundo ter uma religião só ou acreditar no mesmo ou nos mesmos deuses.

As evidências das pessoas que creem são tão variadas em seus significados, que geram milhões de entendimentos mundo afora, porque elas não são fatos e sim sensações que as pessoas interpretam à sua maneira.

Da mesma forma que os religiosos merecem respeito pelo valor que dão a essas sensações, os ateus merecem respeito pelo valor que dão ao peso das evidências.

As Leis da Física, a Biologia e as Ciências de uma maneira geral conferem respostas naturais para fenômenos que são tido como sobrenaturais ou miraculosos para muitas pessoas. Quando existem lacunas e ausência de respostas, os ateus não a preenchem com forças fora da natureza: esta é uma das principais diferenças entre ateus e crentes.

Da mesma forma que você está no direito de não crer no deus dos outros, os ateus também têm o mesmo direito. Como você, eles também não compartilham a fé dos outros.

(2) Se Deus não existe, tudo é permitido para os ateus?

Não, da mesma forma que tudo não é permitido para quaisquer outras pessoas.

Se você não rouba, não mata e não estupra só porque tem medo de ir para o inferno, isto não acontece com a maior parte das pessoas, sejam elas ateias ou crentes.

Os atos do homem são passíveis de duas sentenças: os ditames de sua consciência e as normas legais de seu país. Estes dois juízes são universais e existem tenha a pessoa ou não fé em um Deus em particular.

As pessoas em geral não matam, roubam ou estupram porque o homem é um ser adaptado à vida gregária e tem freios morais devidamente selecionados ao longo da evolução da nossa espécie. A consciência é uma ‘ferramenta’ vantajosa para a vida em sociedade presente em pessoas de todas as etnias e culturas.

Pessoas destituídas de consciência, empatia ou arrependimento são os Sociopatas ou Psicopatas, que constituem, para nossa felicidade, parcela menor da população.

Os psicopatas não são apenas os serial killers, são desde pessoas que buscam ganhos ilegítimos, como alguns líderes religiosos e políticos, como aquele ‘amigo’ ou parceiro sexual aproveitador que provoca danos em terceiros e não respeita os sentimentos de ninguém.

Pode existir algum psicopata ateu? Claro que pode, ateus são pessoas como outras quaisquer.

(3) Os ateus são a favor do aborto?

Ateus não são pessoas feitas em série e que concordam entre si em todos os aspectos. Por definição, ateu é todo aquele que não acredita em um ou mais deuses.

Os ateus podem discordar entre si em outros assuntos tanto quanto um crente de uma igreja discorda de outro crente da mesma igreja.

Há ateus favoráveis à legalização do aborto, ateus contrários e ateus sem opinião formada. E o mesmo ocorre com religiosos. Muitos religiosos são favoráveis à legalização do aborto por questões de saúde pública.

(4) Os ateus cultuam o’ satã’?

Não. O Satanás, conforme os crentes, foi criado pelo Deus cristão e seria um anjo caído. Só é possível para alguém cultuar o Satanás se  acredita na existência de Deus, portanto, tal culto é um ato antirreligioso ou herege realizado por uma pessoa crente.

(5) Como os ateus enfrentam momentos de dificuldade e tristeza?

Como quaisquer outras pessoas, buscando o que lhes forneça conforto, como o apoio da família, ou de um ombro amigo. Todas as pessoas precisam de um conforto, a diferença é que ateus não buscam um conforto sobrenatural.

Da mesma forma que uma pessoa que crê em Krishna não busca Allah nos momentos difíceis, uma pessoa que crê em Alah não busca conforto em Jesus Cristo ou você, cristão, não busca conforto na Cientologia, o ateu faz o mesmo. Não busca conforto em Krishna, em Allah, em Jesus Cristo ou na Cientologia.

(6) Como a pessoa se torna ateia?

Como a formalização da crença depende primordialmente de onde a pessoa nasce, do que lhe foi ensinado na infância, das experiências que acumulou ao longo da vida, do que ouviu, viu, estudou etc, com a falta de uma crença pode ocorrer coisa similar. Mas no geral o processamento mental de não crer é mais complexo, porque nosso cérebro é predisposto a crer.

Um exercício para entender: suponhamos que você seja brasileiro e seus pais católicos e que você seja católico praticante. Se você tivesse nascido em Israel e fosse filho de Judeus ortodoxos, acha que mesmo assim seria cristão? Na infância e adolescência precoce certamente não. Mas poderia vir a ser cristão, ateu ou budista no futuro, com base em outras experiências na adultícia e seus questionamentos, ou permanecer muçulmano o resto de sua vida.

Se a pessoa já nasce num lar ateu ou agnóstico e não é ensinada a seguir um credo em particular, poderá ser ateia para o resto da vida, como poderá, em algum momento, passar a crer por influência do meio.

As pessoas adultas se julgam ateias ou crentes através de um questionamento, o que varia entre elas é o grau de satisfação das respostas que obtem. Como há pessoas com pouca ou com muita confiança em Deus, há ateus mais ou menos convictos. A fé de uma pessoa pode sofrer altos e baixos e nada impede que a convicção de um ateu em particular sofra o mesmo.

O que torna mais difícil uma pessoa tipicamente ateia se converter a algum credo em particular, é que na trajetória do ateísmo é comum a pessoa já ter sido crente antes e ter estudado ou observado diversas religiões. É possível que a mente do ateu tenha um processamento lógico diferente da mente do crente, mas isto é tema para outra discussão.

Há também a possibilidade da pessoa se tornar ateia porque perdeu um filho ou se decepcionou com a bondade de Deus. Esse tipo particular de ateísmo, o ateísmo do ‘revoltado’,  é basicamente emocional e pode fazer com que a pessoa mude de opinião se sentir abençoada ou for convencida de que os problemas do mundo são provações para o crescimento espiritual do povo de Deus ou algo similar.

(7) É verdade que na hora da morte muitos ateus se convertem?

Os ateus veem a morte como algo natural e consequência da vida, mas podem ter angústias no leito de morte como quaisquer outras pessoas venham a ter.

Basta irmos a um velório para vermos o quanto as pessoas sofrem com a morte, mesmo quando creem em Deus.

Crer ou não crer não torna a nossa morte mais atraente. Pela lógica, quem acredita em Deus, Paraíso e vida após a morte deveria alegrar-se ao morrer, mas não é isto que se vê em velórios de cristãos. Uma crença autêntica na vida eterna em um mundo paralelo florido e asséptico não é compatível com luto ou medo da morte.

A morte é a demonstração concreta de nossa finitude. Choramos tanto pelo ente perdido quanto por nossa constatação de que poderemos ser o próximo.

Mesmo crendo em vida após a morte e creditando a esta o status de passagem para algo melhor, há pessoas que sofrem por anos ou até durante toda a sua vida quando perdem um filho, por exemplo. Alegar que alguém está sofrendo durante um velório exatamente por ser ateu é um vício de confirmação.

Contrariando o que muitas pessoas pensam, pacientes com longas enfermidades enfrentam a vinda da morte com muita serenidade porque tiveram mais tempo para refletir.

Defender que uma conversão de um ateu deve ocorrer na hora do sofrimento é advogar contra sua própria fé: é preciso estar desesperado para crer?

As pessoas que pensam assim esquecem que ateus são pessoas que também passam por problemas em suas vidas, e nem por isto necessariamente voltam-se para algum tipo de crença, da mesma forma que pessoas que creem necessariamente não deixam de crer porque Deus não teria ouvido suas preces.

Stephen Jay Gould, Carl Sagan e José Saramago, a exemplo de muitos outros ateus, enfrentaram suas moléstias e despediram-se da vida sem conversões religiosas.

Se você passou a vida inteira cristão convicto não se tornará ateu justamente na hora da morte, da mesma forma que um ateu em geral não abraçará algum credo.

Estar com medo ou sob ameaça dificulta um raciocínio adequado, portanto, pensar a morte anos antes dela ocorrer é a forma de se preparar ao menos parcialmente para ela, seja a pessoa crente ou ateia.

A imposição por ameaça – fogo do inferno, por exemplo – ou promessa de cura e prosperidade são  formas comumente usadas por muitos líderes religiosos para forçar conversões de pessoas que de fato já são crentes, mas que estavam ‘desviadas’ da Igreja.

Os mecanismos de conversão muitos ateus conhecem na prática, porque muitos deles já creram em Deus um dia através desses caminhos.

O momento em que a pessoa está mais fragilizada emocionalmente é o mais fértil  para que ela ou perca a sua fé ou se converta e não se constituem situações que especificamente caracterizem uma opção consciente.

(8)  Os ateus são contra Religiões?

Alguns ateus são contra, outros são indiferentes e outros ainda apostam que a paz entre os povos seja possível mesmo com religiões.

Como já foi dito antes, o fato de alguém ser ateu não transforma sua opinião idêntica a de outros ateus em assuntos diversos.

(9) Os ateus são mais inteligentes do que os crentes? Por que há tantos ateus nas universidades e nos meios científicos? E por que praticamente não existem ateus nos presídios?

Não, ateus não são mais inteligentes do que quaisquer outras pessoas.

O que ocorre é que entre as pessoas não alfabetizadas ou com pouca instrução há uma parcela pequena de ateus/humanistas seculares, mas isso ocorre por questões sobretudo culturais.

Entre os ateus há uma parcela importante de pessoas com nível de instrução mais elevado que  podem ser tão inteligentes e produtivas quanto são inteligentes e produtivos muitos crentes com o mesmo nível de instrução. Instrução e inteligência não são a mesma coisa.

O que ocorre de fato é que é mais possível uma pessoa se tornar ateia se tiver acesso à diversidade dos credos, a preceitos filosóficos e científicos, viajar mais e conhecer outras culturas.

Para ficar bem claro e evitar preconceito dos dois lados: não é preciso ser mais inteligente do que os outros para ser ateu, mas pode ser preciso ter mais instrução. E que fique bem claro: um maior nível de instrução não transforma necessariamente uma pessoa em alguém ateu.

Quando se demonstra estatisticamente que o índice de criminalidade entre ateus é menor que entre crentes, não podemos concluir que ateus seriam menos predispostos ao crime do que crentes.

Há menos apenados entre os ateus da mesma forma que há menos apenados entre pessoas que creem em Deus e são economicamente favorecidas. Certamente há muitas explicações para isto, como a facilidade de acesso a bons advogados, condições materiais para o pagamento de fiança ou ação criminosa melhor planejada, como sonegação de impostos, lavagem de dinheiro, estelionato e fraudes de uma maneira geral.

As pessoas privadas das necessidades básicas – sobretudo aquelas que vivem na periferia de grande centros, já quem em zonas rurícolas há acesso à agricultura de subsistência – perpetram crimes como assalto e furtos em maior proporção quando comparadas a pessoas em menor vulnerabilidade social.

Não estou afirmando que o ambiente é a única variável, tampouco que em termos individuais a pobreza transforme alguém em criminoso, mas que as condições sociais perversas como a fome e o endividamento  são variáveis de peso em termos populacionais.

Em suma: Ao atribuirmos a uma correlação estatística o mesmo peso que concedemos às verdadeiras relações de causa e efeito, poderíamos concluir que ser crente é fator de risco para ser bandido porque os presídios estão lotados de cristãos ou que o arroz cause tuberculose porque 95% dos portadores de Tuberculose ingeria arroz diariamente.

(10) Você é ateia porque nunca adoeceu ! Quero ver ser ateia quando estiver num avião caindo! Você é ateia porque nunca teve problemas !

Esses ‘argumentos’ coroam boa parte das discussões. O fato de parte significativa dos ateus ser favorecida pelo menos culturalmente gera o mito de que o ateísmo resulta da bonança, da falta de problemas.

Meu pai morreu nos meus braços, foi uma das maiores dores que tive na vida. Passado o choque inicial, permaneci serena e aceitei. Nada similar a algum tipo de conversão aconteceu.

Em 2006 eu tive suspeita de câncer. Submeti-me a duas cirurgias e em nenhum momento pensei em algum tipo de apoio sobrenatural. De fato, ser ateia me ajudou nas semanas mais difíceis, porque o crente tende a se autoflagelar com questionamentos como: “Meu Deus, por que comigo?” ou “O que eu fiz para merecer?“.

Em 2007 passei por uma turbulência durante um voo, e permitam-me os pis, mas as únicas palavras que sairam da minha boca foram: eita p****, essa m**** vai cair! E isto virou lenda entre meus amigos porque era a última ‘provação’ que faltava.

E a inversão vem ai. Depois que rebato as acusações de que sou ateia por ter ‘vida de princesa‘, o crente tende a fechar sua argumentação invertendo-a cem por cento: “Ahhhh ! Você é ateia porque acha que Deus está contra você!”

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Não há como construirmos tolerância entre ateus e crentes de uma forma que não envolva combate bilateral ao preconceito e debate racional.

Esta é a nossa Revolução.