[Resenha] “O Homem que Sabia Demais – Alan Turing e a invenção do computador”, de David Leavitt

Por @meire_md

“Isto é uma pequena amostra do que está para vir, e, apenas uma sombra do que vai ser” (Alan Turing, sobre o computador de Manchester)

David Leavitt é membro da Creative Writing da Universidade da Flórida e é autor de vários livros de ficção e não-ficção.

Alan Turing, o biografado, foi um dos gênios da humanidade; ele teve a ideia de projetar uma máquina para resolver grandes problemas matemáticos de seu tempo e assim surgiram a máquina que quebrou o código da Enigma e o computador moderno.

Alan Turing não só contribuiu para a derrocada do regime nazista como foi um dos grandes responsáveis pela cascata tecnológica que se seguiu a II Guerra e garantiu que praticamente todo mundo atual tenha acesso a um computador com internet.

Mas em 1952 ele foi condenado a se submeter não só à castração química como a uma série humilhante de tratamentos para ‘cura gay’ e acabou se suicidando em 1954.

Segundo os relatos de sua mãe, Alan começou a se interessar por números e por ciência ainda muito pequeno e por volta dos 10 anos de idade já demonstrava aversão contra imprecisões, bem como tinha alguma dificuldade de lidar com abstrações e costumava interpretar questões de maneira extremamente literal.

No capítulo ‘Vendo as Margaridas Crescerem’ David Leavitt faz referência às desilusões amorosas e perdas da adolescência de Alan, bem como as dificuldades que passou por viver em um ambiente tão intolerante, como não ser convidado a participar de clubes de leitura e outras reuniões.

Além de gay, ele era tímido, não era exatamente uma pessoa organizada e não e comportava a sofisticação inglesa típica, ou seja, não se encaixava nos padrões sociais da época.

Aos 22 anos ele foi aceito como bolsista do King’s College e o livro discorre sobre alguns paradoxos nos quais Alan se debruçou e como a matemática evoluia na época, citando diversos estudiosos e filósofos, então o livro é meio que também um trabalho de História da Matemática no século XX.

Filosofei durante boa parte do livro por achar bastante complicado entender como os matemáticos ficam anos e anos em busca de soluções para supostos problemas que me parecem de fato um enigma genial justamente porque não tem resposta – como por exemplo o Paradoxo do Mentiroso ou do Gato de Schrödinger, duas coisas que não me fariam esquentar a cabeça: como disse Bertrand Russel, ‘a matemática pura é o tema em que não sabemos do que estamos falando, ou se o que estamos falando é verdadeiro’.

Obviamente sei que o processo da busca pela solução acaba trazendo novos conhecimentos, novos paradoxos, ou simplesmente levanta novas verdades que ainda não podem ser aplicadas ou postas à prova, como por exemplo a ideia de uma ‘máquina universal’ que Alan Turing teve enquanto pensava em coisas sem solução deitado na grama das campinas de Grantchester, hehe.

O livro fala ainda da origem dos algoritmos, sistema denário, binário, álgebra booleana e mais conhecimentos que foram necessários para Alan criar o computador moderno.

Turing chegou à definição dos números computáveis no início dos anos 30, época em que deixou a Inglaterra e partiu para sua pós-graduação em Princeton. Em janeiro de 1937 publicou ‘Computable Numbers’, que teve pouquíssima repercussão mas conforme o biógrafo, tal coisa ocorreu porque as Universidades Americanas estavam apinhada de gênios que fugiram da Europa em razão da perseguição nazista, então havia uma profusão de artigos sendo apresentados e o de Alan passou inicialmente despercebido.

Para ‘aparecer’ em uma Universidade não basta ser gênio, é preciso conhecer as pessoas certas, publicar nos locais certos e até uma certa dose de autopromoção, coisas das quais Alan Turing carecia.

Mais aí o professor Church, seu orientador para o PhD, escreveu uma resenha sobre o artigo e Alan chamou a atenção do Reitor do Departamento de Matemática, que lhe concedeu prorrogação da Bolsa de pós para ficar mais um ano em Princeton. Finalizado o prazo, ele voltou para a Inglaterra para dar um curso de criptografia e encriptação em Londres pois o seu cérebro já estava na mira do Governo Britânico.

Em 1939 Alan ministrava cursos em Cambridge e logo após começou a sua saga para a construção da ‘Bomba’, a máquina idealizada por ele para quebrar os códigos da Enigma.

O capítulo 5, a casca macia (menção à maçã envenenada do Filme Branca de Neve e os Sete Anões), explica princípios básicos de criptografia, revela a história da Bomba, de como Alan conseguiu explorar os erros dos alemães e foi ficando mais ‘excêntrico’ com o passar do tempo. É de arrepiar saber que se os ingleses soubessem que ele era homossexual possivelmente os Nazistas tivessem vencido a Guerra ou a Guerra tivesse durado muito mais tempo.

A vida solitária de Alan fica bem clara no capítulo 6, com a triste descrição da rejeição que sofreu de pessoas que ele não esperava, de ser socialmente punido em razão da recusa em negar sua homossexualidade por achar que as pessoas não mereciam sua desonestidade, dos amores não correspondidos e das relações homoafetivas sem vínculo.

Em 1945 ele foi trabalhar na divisão de matemática do Laboratório Nacional de Física em Teddington dirigido pelo neto de Charles Darwin, enquanto os EUA já trabalhavam em uma máquina baseada na fita de Turing (na verdade parece ter havido uma apropriação de suas ideias, pois Turing não foi remunerado).

Turing terminou um importante relatório em 1945, mas naquela data o trabalho não foi compreendido. Em 1948 ele voltou aos EUA para trabalhar em um modelo preliminar de computador moderno, que foi restado com quebra-cabeças matemáticos. O Computador de Manchester era gigante. E em 1950 veio o ‘Computing Machinery and Intelligence”, seu trabalho mais famoso ( que gerou muitas discussões éticas na mídia, inclusive críticas religiosas contra uma máquina que pode pensar) e em 1951 entrou para a Royal Society.

Em 1952 Alan Turing foi roubado por um rapaz com quem mantinha uma relação precária. Ao reportar o ocorrido à polícia, passou de vítima a criminoso e foi preso por ‘conduta indecente’.

O resto de sua curta vida é só aflição.

Quando foi preso ele estava com 40 anos de idade. Foi castrado quimicamente, emasculado, humilhado, solto para viver o resto dos seus dias sabendo que nunca mais teria sua vida de volta, nunca mais teria a matemática de volta.

Na madrugada de 08 de Junho de 1954 ele foi encontrado morto. Embora sua mãe e amigos tentassem esconder o fato e criar provas contrárias, foi constatado que ele se suicidou comendo uma maçã envenenada com cianeto.

Só depois de assassinado é que parte de seu trabalho foi de fato reconhecido; em meados dos anos 50 ele foi citado pela Time como um dos maiores cientistas do século XX.

Pequeníssimo Dicionário de Termos Médicos Populares

medico_perfeito

Post dedicado aos médicos brasileiros ou estrangeiros  que buscam uma melhor comunicação com seus pacientes que vivem nos rincões do nosso belo país.

“Meu caderno foi a terra e minha caneta, a enxada”

Resposta que alguns agricultores me emitem como justificativa  para sua não-alfabetização.  Ouvi esta resposta pela primeira vez há cerca de 14 anos, e ela me soou extremamente poética. Eles acreditam que não estudam porque precisam trabalhar e não porque o Poder Público há décadas é inerte a esta demanda. Os poucos agricultores alfabetizados que existem no meu Estado receberam ensino de forma tão precária que em sua maioria são incapazes de escrever um bilhete ou ler e compreender uma notícia simples. A nossa obrigação como médico é traduzir o sofrimento do povo e não esperar que eles forneçam uma história organizada e lógica, bem como precisamos desenvolver a arte de  desfazer as falsas correlações da sabedoria popular.

 

 

Oi colegas,

Na época da interiorização que levou médicos brasileiros às áreas mais longínquas e da vinda de médicos estrangeiros, resolvi rascunhar uma lista de termos médicos populares que continuam usados aqui pelo Nordeste.

Possivelmente muitos destes termos sejam usados também em outras regiões do país. Vou listar aleatoriamente o que conseguir lembrar e se qualquer pessoa quiser complementar a lista, agradeço 😉

Com a ampliação dos serviços médicos os pacientes vêm criando novas palavras de acordo com o termo técnico que escutam.

Vou citar algumas que na verdade parecem mais uma abreviatura. Mesmo que seja fácil para os nossos ouvidos captar o significado da neologia, para um estrangeiro uma palavra truncada ou não emitida na íntegra aumenta a dificuldade de compreensão, pois parece outra língua.

Pensei em escrever este post depois de um ataque de riso que tive no meu gabinete ao ouvir minha colega do lado (que também é paulista  mas não se transformou na nordestina arretada que me transformei ) falando: “o senhor não deve ficar aperrÊado, quando nós nos apÊrreamos (…)” . Isso fez para ser melhor entendida e o mais engraçado foi a conjugação perfeita do verbo aperrear, hehe.

Um bom médico precisa passar a mensagem para seu paciente e para isto é preciso que compreenda o que ele fala e muitas vezes que fale como ele fala.

Com os programas de alfabetização e com a influência da televisão muitos termos vem se perdendo,  mas mesmo os mais jovens que residem em zonas muito distantes continuam com um dialeto próprio.

Há algum tempo comecei a registrar termos populares em meus laudos porque acho que eles dão uma dimensão maior à frieza da linguagem técnica.  Quem presta atenção como eu acaba colecionando muitos termos e cada dia aprendo palavras novas.

Vou apelar para a memória porque infelizmente nunca havia feito uma lista. Hoje me arrependo por não ter feito um registro por escrito antes, mas tentei espremer a memória ao máximo.

Um pequeno trecho:

Queixa-se de ‘aresia, fraquecimento no lado direito e friviado’. (…) Queixa-se ainda de ‘veia triada que deu perna dura’.

Esta paciente descreveu muito bonitinha um quadro de hemiparesia à direita causado por acidente vascular encefálico (AVE), que popularmente é chamado de AVC ou de trombose. A fala mostra que por vezes ela se sente desorientada no espaço, tem disestesia no dimídio afetado e relata a espasticidade, que é maior no membro inferior. No decorrer do exame ela também diz que não ‘esburreceu’, referindo-se ao fato de achar que sua memória não foi afetada.

É realmente uma outra língua dentro da língua portuguesa.

“Adonde tem hômi, muié num péga no cabo da enxada”

 Frase de um agricultor robusto que me deu uma aula sobre como funciona o Regime de Economia Doméstica, de como o clã se organiza, como são as atribuições e como ocorre a redistribuição de tarefas quando um dos membros adoece ou tem limitações. Nunca encontrei em livros a dinâmica do regime de economia doméstica como a relatada pelos agricultores.

TERMOS MÉDICOS POPULARES

Por @meire_md (no final há colaborações enviadas por leitores via Twitter e Facebook)

ESPINHELA CAÍDA: Para alguns pacientes parece se tratar de dorsalgia ou pode ser pirose. Segundo o Professor Fernando São Paulo (no primeiro volume do seu belo “Linguagem Médica Popular no Brasil”), é uma síndrome polimórfica, provavelmente um mal estar, um desassossego, uma flatulência.

Na crença popular o melhor tratamento para espinhela caída é a reza de esconjuro, que é um pequeno exorcismo feito por benzedeiras cristãs que usam um galho de arruda e orações ininteligíveis para espantar o mal. O mito vem de Portugal, mas acredito que os médicos de lá não escutam este termo há pelo menos cem anos.

No nordeste ainda há benzedeiras especialistas em curar mau-olhado e espinhela caída, mas elas são mais ativas longe das capitais.

Já a crença no ‘mau olhado’ possivelmente deriva do período de caça às bruxas durante a Inquisição, quando muitas parteiras e cuidadoras de crianças foram queimadas vivas, já que a mortalidade infantil era alta e as mulheres recebiam a culpa pelo padecimento das crianças.

A Inquisição passou, as bruxas foram transferidas para o reino da ficção mas a crença no poder de uma pessoa amaldiçoar outra e fazê-la adoecer ainda persiste.

Curiosamente os exorcismos para curar doenças ainda ocorrem, porém mais predominantemente dentro de algumas Igrejas Evangélicas.

FARTA DE FOGO: Dispneia

DESANUVIADO: Desorientado

TENTAR DESCER: Provocar Aborto

MUQUICE ou MOQUICE: Déficit auditivo, que pode ir de mei-môco, a môco e môco-de-tudo, dependendo do grau de perda auditiva. Quando o paciente já nasce com surdez é chamado de simplesmente de mudo, ou ‘mudinho’. A Muquice, ou moquice, é no geral um termo usado para surdez adquirida.

FEBRIL:  Se o paciente diz que está ‘febril’ na verdade ele está explicando ao médico que de fato não está com febre. Febril significa estado prodrômico ou quadro  sub-febril, o que às vezes é chamado também de ‘FEBRE INTERNA’. Se há febre, eles usam a palavra febre, ou o termo ‘se queimando em febre’.

FEME: Pessoa do sexo feminino (fêmea). O termo é geralmente usado de maneira redundante: ‘tenho três menina feme’

BUTUCA: Olhos. Esbuticado significa exoftalmia e ‘as butuca apregada’ significa conjuntivite catarral

ÁGUA NO JOELHO: Derrame articular

ÁGUA NA BARRIGA: Ascite

ÁGUA NOS PULMÃO: Derrame Pleural

IMPINGE: Tinea corporis

ENCOSTADO AO MAIS VELHO: Quando se referem ao segundo filho. Os termos primeiro, segundo, terceiro, quarto ou quinto raramente são ditos por pessoas pouco escolarizadas e que residem em locais distantes das capitais. Você precisa ir detalhando ou usando seus dedos para localizar o filho na prole. Se a pessoa tem 5 filhos, o encostado ao do meio pode ser o segundo ou o quarto.

DERRADEIRO: Filho caçula

FIM DE RAMA: Filho caçula quando a mãe já tem idade mais avançada

INCARQUIADO: Pessoa com algum sério problema na coluna vertebral

NÓ-NAS-TRIPA: Obstrução intestinal

IR PRO MATO: Ir evacuar

DIREITO: Para o povo do nosso Estado, em alguns contextos populares a palavra direito significa obrigação. Por exemplo: ‘ela tinha o direito de voltar ao doutor, mas não voltou’. Neste caso o acompanhante revela que o paciente foi negligente, não que a pessoa teve o direito à consulta subtraído.

ABRIDURA DE BOCA:  Sonolência

VAZIO:  Espaço que corresponde à fossa ilíaca, normalmente descrito como ‘vazii’.

MORTE MORRIDA: Morte Natural. Já é pouco frequente o uso

MORTE MATADA: Homicídio

UFIÇO: Trabalho, profissão (ofício)

APUSTEMADO: Que supurou

REIMOSO: Alimento que supostamente prejudica a cicatrização e prejudica a recuperação de doenças infecciosas (“Piorei porque comi um peixe reimoso”). Curiosamente há evidências hoje de que alguns alimentos são mais imunogênicos e supostamente podem produzir reações inflamatórias em alguns pacientes.

HERME: Hérnia

SALUÇO, SALUSPO, SAL-LUÇO: Soluço

SICURA: Polidipsia

NEURA: Se refere ao médico neurologista do sexo feminino. “A minha neura é boa”

SUSPIRAMENTO: Dispneia suspirosa

ESTRUPIADO: Muito cansado e dolorido

ZAMBETA: Pessoa com genovarum

PRIVADO: Com constipação intestinal ou com retenção urinária. Quando a privação é urinária, geralmente eles complementam com ‘privado das orina’

REBOLDOSA: Essa ouvi só uma vez, de um motorista de caminhão gaúcho e pouco escolarizado.  Lembrei da Rê Bordosa de Angeli. Ele falou algo como “eu tava bom, aí veio a reboldosa”. A palavra rebordosa aparece em livros muito mais antigos que a personagem de Angeli e significa descontrole de uma situação previamente equilibrada, mas não tenho a menor ideia de sua origem. Não sei se ele aprendeu a palavra a partir do uso contemporâneo de Rê Bordosa  ou da palavra original, da qual possivelmente Angeli retirou no nome de sua personagem.

FORTE: Significa ser gordo, mas só quando o gordo é saudável

ATARRACADO: Forte (gordo) e musculoso (“Ele era atarracadozim, mas esfraquiceu”).  Para ser atarracado não basta ser gordo, tem que ser musculoso e no geral baixinho

NOS PINTEI: Nos pelos pubianos (‘pentelhos’)

LIBLINA NOS ÓIO: Turvação visual (Neblina). Também é comum NEVO NOS ÓIO (Névoa).

FRICÇÃO: Esse vi poucas vezes,  vindo do mesmo povoado de Canguaretama, acho que o nome do lugar é Piquiri. Eles usam para dar descrédito a alguma história, possivelmente o termo vem da palavra ficção. “O Prefeito disse que ia pegar bolsa-família pra nóis, mas acho que é fricção”.

ABUSAR: Não tem significado de violar, significa enjoar. Se a pessoa diz ‘eu abusei da minha esposa’ não significa que a violentou, e sim que não gosta mais dela.

CATINGUENTO: Qualquer coisa que exale maus odores. Vem de catinga, que significa mau cheiro.

MULESTA: Não tem o significado de moléstia, e sim que de qualquer coisa ruim. Quando eles dizem ‘doeu que só a mulesta’ não estão comparando a dor com alguma doença, e sim afirmando que foi muito forte

BOCA MOLE: Quando a pessoa está sem fome e mastiga com preguiça

AÇUQUE: Açúcar (‘açuque no sangue’ = diabetes)

ESFRUMIGAMENTE: Parestesia. Provavelmente vem de ‘formigamento’. Este termo também é comum em vilarejos de Canguaretama.

FUGACHO: Fogacho. Calores da menopausa

ALESADO:  Pessoa com transtornos mentais que prejudicam a motricidade e o juízo crítico, mas pode ser usado também para pessoas com TDAH

ALÍVIO: Pode ser usado tanto com significado de evacuação como com o significado clássico, depende do contexto. ‘Depois que se aliviei, melhorou’

ALMORREIDA, ESMORROIDE, MORROIDE, MORRÓIDA DE BUTÃO: Hemorroidas

FANIQUITO: Impaciência

FIGO: Fígado

GOIPADA: Pode ser só a sensação do refluxo, mas às  vezes significa vômito

OLHO DE PEIXE: Verruga plantar

TÁ CA GOTA: Não significa que o paciente tem Gota, e sim que está agitado, irritado ou violento, gota no geral significa agitação psicomotora

CABEÇA-DE-PREGO: Furúnculo

CABECINHA-DE-PREGO: Foliculite

PAPOCA ROXA: Carbúnculo estafilocóccico

CARNIGÃO ou CARNEGÃO: Porção flutuante de abscesso

FIRIDA DE MININO: Impetigo estreptocóccico

PARDO: Pálido

AMAIGÔ:  Boca amarga

DISTILAR: Rinorreia

ENTREVADO: Habitualmente o termo se refere à rigidez matutina das artrose, mas também é usando para definir como a pessoa ficou durante uma lombalgia aguda

AMUJADA: Esse termo só vi de pacientes provenientes do Ceará e há alguns anos não ouço mais. Significa grávida

PÁ: Escápula

EMPANZINADO: Quando a pessoa come e acha que não digeriu os alimentos

EMPACHO: Plenitude pós-prandial geralmente acrescida de constipação intestinal. “Comi e fiquei empachado”

EMBRULHO: Enjôo

CAROÇO: Qualquer neoplasia ou nódulo

DISTIORADO: Deteriorado

ARRIPUNAR: Nausear

DISMINTIR: Significa luxar uma articulação. “Disminti meu ombro na queda”

LANÇAR: Vomitar

RUINAR: Conjugam este verbo quando a doença agrava ou quando estavam hígidos e adoeceram subitamente

ESFRAQUECER: Muitas vezes significa disfunção erétil. Para astenia usam  mais o termo seguinte.

ESMURECER: Astenia,  Fadiga. Esmuricido, esmurecimento, esmorecido.

ATANAZÁ  O JUÍZO: Tirar a paciência de alguém (possivelmente vem de atazanar)

VIXAME: Algo que fez a pessoa passar vergonha (vexame)

BACULEJO: Hipermeteorismo

BAFO: Halitose

BOCA DO ESTOIM, ESTAMBO, ESTUMA, ESTÔMAGO, ISTOMA : Epigástrio

COBRA: Parasita intestinal (‘O menino tá cheio de cobra’), mesmo que não seja um helminto

PÉ DO BUCHO: Pode ser o meso ou o hipogástrio

NA COSTA: Pode ser o dorso, mas no geral eles se referem à região lombossara

BICHO-DE-PÉ: Tungíase

BICHEIRA: Miíase

BIQUEIRO: Esse aprendi com meu sogro. Pelo que entendi é pessoa que come pouco muitas vezes ao dia.

TOMEI SÓ UMA BICADA:  Quando o paciente está alcoolizado tenta justificar alegando que bebeu pouco

AS PARTE, NAS PARTE: Quando se referem à região genital

ESSE VÍRUS:  Usado por alguns pacientes soropositivos para o HIV. Quase nunca dizem HIV, SIDA ou AIDS

AQUELA DOENÇA: É como muitas pessoas ainda se referem ao câncer, para evitar falar a palavra câncer

SÍNDROME: Quase sempre a palavra síndrome dita isoladamente significa Síndrome de Down. “Ele tem síndrome”.

CERBRO: Cérebro

FUNDO: Ânus

BUZINANDO NO PÉ DUVIDO: Quando o paciente é taquilálico e fica falando sem parar (duvido = do ouvido)

FOI PARA A VIDA: Prostituiu-se

CAXINGA: Claudica

ACAMBITOU: Atrofiou a perna

ELE ME USOU: Quando a mulher se refere que manteve relações sexuais com o esposo/companheiro; não se refere a estupro, mas às relações habituais, consensuais. Na primeira vez que ouvi quase chamo a Polícia, então é sempre preciso esclarecer com o paciente reformulando a pergunta

CANO: Canal uretral

VILIDA, VILÍDEA, VILÍDIA: Pterígio. Não consegui a explicação para o termo. Quem souber me diz 😉

PAPEIRA: Parotidite

COCEIRA: Quando usam o termo para nomear uma doença provavelmente portam escabiose. Mas no geral usam para denominar qualquer prurido

CHEIRO CHÔCO: Similar a catinga

XUXADA: Fisgada, pode ser em qualquer parte do corpo

CIPOADA: Sensação de dor aguda e de forte intensidade, geralmente se refere às cólicas intestinais.

CULHÃO ou CUNHÃO: Testículo

ESTALICIDO: Resfriado comum

SÓ O BAGAÇO: Quando a doença deixou a pessoa muito mal

ESCURRIMENTO: Leucorreia, ‘corrimento’

QUENGA: Prostituta

VEIA TRIADA: Espasticidade Muscular

AUCHILA: Axila

DICUMÊ: Comida, prato feito.  “Eu que boto o dicumê dela”.

DESCAÍDO: Emagrecendo

IRISIPÉ: Qualquer úlcera ou pioderma nos MMII que demore a cicatrizar. Vem de erisipela.

ARIADO ou AREADO: Desorientado, sobretudo no espaço. “Ele se ariou e não conseguiu voltar para casa”

CAIR ESTATELADO: Desmaiar, perder a consciência e cair no chão sem defender-se

ÚTERO CRESCIDO: Leiomioma

CARNE DE CRIAÇÃO: Carne de bode e de carneiro

ARRUPIAMENTO: Calafrios. Uma vez um agricultor muito bonitinho disse  ‘arrupiamento de pelo’, foi com ele que ouvi pela primeira vez ‘abrimento de boca’.

ABRIMENTO DE BOCA: Bocejo anormal (sonolência por doença)

GARRAFADA: Remédio popular com fórmulas ‘secretas’ supostamente criadas pelos curandeiros mas que no geral envolvem mel, álcool e ervas locais para as quais o povo credita efeitos terapêuticos que vão desde curar unha encravada a câncer. Quando a garrafada é para problemas respiratórios geralmente é chamada de LAMBEDOR e quando combate impotência erétil é chamada de FORTIFICANTE.

CROFENAQUI, DISCROFENAQUI: Diclofenaco

NAVAGINA: Novalgina

PARACITAMÓ: Paracetamol

ISDOCLORO: Hidroclorotiazida

CATOPRI: Captopril

DIPERONHA, DIPIRONHA, DISPIRONA: Dipirona

AQUELA INJEÇÃO ENCARNADA: Dexacitoneurin

PÍULA: Comprimido

PLANTO ROÇA: Aqui no RN quando o lavrador diz que planta roça ele está se referindo ao plantio da macaxeira.

TENHO SISTEMA NERVOSO: Tem ansiedade ou transtorno ansioso-depressivo

Termos enviados por leitores do Salada Médica:

TENHO COORDENAÇÃO MOTORA: Para explicar que tem alteração em coordenação motora  (Via @cosmeasia)

TENHO TIREOIDE: Para explicar que tem hipo ou hipertireoidismo (Via Pedro)

PATICUM: Taquicardia (via @_GiseleOliveira)

URSA: Úlcera  (via @_GiseleOliveira)

AFICA: Afta (via Lis)

ESPORÃO DE GALO: Osteófito no calcâneo (via Lis)

BUCHUDA: Gestante (via Elivânia)

TREIS SOL (‘Terçol’): Hordéolo (via Elivânia)

GOGO: Presença de esputo em infecções respiratórias, geralmente sinusite, o gogo é o gotejamento nasal posterior. (Via @uoleo)

Quando eu for lembrando de mais coisas edito o post 😉

Beijos,

Meire

Caim

Caim, de José Saramago (2009)

(Resern.

 

Por @meire_md

Resenha publicada originalmente ali por 2011, ou antes.

 

“(…), Ninguém é uma só pessoa, tu caim, és também abel, E tu, Eu sou todas as mulheres, todos os nomes delas são meus, disse lilith, e agora vem, vem depressa, vem dar-me notícias do teu corpo”

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Sou fã de Saramago e chorei sua morte como se fosse de alguém da minha família. Como contamino com excesso de admiração quem amo, então nada melhor do que começar desintoxicando a brevíssima resenha de ‘Caim‘ com um contraponto de peso.

Em dois tweets o querido Fábio Emerim resumiu exatamente a atitude que muitas pessoas tomam quando se deparam com um obra de Saramago: largam o livro após algumas páginas sofregamente lidas porque a leitura lhes é cansativa.

Li Caim até a metade e larguei fora. Queeee livro mais chato. Desculpe, Saramago, mas não deu.”

O problema é que tu te perde e se torna uma leitura mais cansativa do que prazerosa.”

Em resposta aos tweets do Fábio cheguei à conclusão que para gostar do estilo único de Saramago é preciso ser portador de um fluxo de pensamento um tanto fora dos trilhos.

Saramago escreve em bolus e exercita todas as licenças poéticas que cabem numa prosa, reinventa a pontuação, desconsidera o uso de maiúsculas, gera sentenças longevas e transporta pela pena  ipsis verbis a  tempestade que sua mente inquieta cria. E eu amo muito muito muito tudo isto.

Se usarmos  ‘O Ensaio Sobre a Cegueira‘ como comparação, ‘Caim‘ mostra um ritmo até mais organizado e que em muito se assemelha a ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo‘.

Tenho por certo que Saramago quis nos deixar o Novo Testamento à mesma imagem e semelhança do Velho, portanto penso que quem não conseguiu ler O Evangelho vai deixar Caim antes de chegar em sua metade. Não me custa (mas não me gusta) nada avisar.

Caim‘ é uma história que demonstra ser possível repensar e  quebrar velhos conceitos e que usa como pano de fundo, ainda que não tão por acaso, uma fábula milenar.

Ao assassinar o irmão durante uma disputa pela atenção divina, Caim recebe a famigerada marca na testa e sua saga se desenrola numa narrativa onde, a exemplo do Velho Testamento, o tempo desafia as leis da física, uma serpente não só fala como tem uma espetacular capacidade argumentativa,  anjos descem do céu para falar com homens, o Satanás faz uma aposta com Deus e batalhas sangrentas acontecem costumeiramente.

Caim viaja através do tempo e questiona os desígnios divinos enquanto é testemunha ocular de episódios bíblicos deliciosamente temperados com tiradas impagáveis.

“(…) surgiu-me um problema mecânico na asa direita, não sincronizava com a esquerda” (fala do Anjo destinado a evitar o sacrifício de Isaac)

A redenção de Caim, um criminoso curiosamente apenado com a liberdade, ocorre de mãos dadas com o desenvolvimento de sua sede de justiça e capacidade crítica, o que na minha porca análise é o ponto chave do livro. Destemido, Caim rebela-se sem rodeios contra a ordem vigente e para salvar a humanidade das escolhas do deus que orquestrou o assassinato do seu irmão,  põe em ação uma estratégia de última hora com o objetivo de desmantelar os planos do Criador.

Beijos,

Meire

[Resenha] Análise Fundamentalista (José Kobori)

Por @meire_md

O José Kobori é um consultor financeiro especialista em renda variável. ⁣


Seu conteúdo educativo é mais sisudo 👨🏻‍💼 e desgarrado de muitas fórmulas prontas que encontramos pelo YouTube. Isso não significa que ele seja melhor do que os outros, mas que se distancia de alguns aforismos simplistas que se propagam entre os educadores financeiros.⁣


Depois do Corona Day aprendi com o @denismiyabara que o pensamento automático de “comprar na baixa” é simplista. Nem nunca, nem sempre. Há vários elementos a se considerar.⁣


Pro Kobori você só atinge independência financeira se for completamente livre de influências de terceiros; eu não creio que todas as pessoas leigas consigam investir de modo alheio às análises dos assessores ou às influências dos educadores porque isso iria exigir muita energia e muito, mas muito tempo de estudo e experiência.⁣


Vejo o livro “Análise Fundamentalista” (2a Edição) como uma excelente ferramenta para ajudar o investidor a compreender os relatórios das empresas e buscar – na medida do possível – fazer melhores escolhas, inclusive quanto à qualidade de sua assessoria. ⁣


Super especialização é para poucos sim (temos que investir em nosso trabalho e nossa família), mas acumular todo o conhecimento que você puder é uma questão de responsabilidade com o fruto do seu trabalho.⁣


A Análise Fundamentalista é uma das vertentes utilizadas pelo Mercado Financeiro e por ser bem mais complexa que a Análise Técnica, é bem menos dominada. ⁣


Bastante ciente das minhas limitações na área, li o livro sem intenção de aprender, mas com o objetivo de entender como interpretar alguns índices. ⁣

Abraço,

Meire



[Resenha] A Casa dos Budas Ditosos (João Ubaldo Ribeiro)

Por @meire_md

A sacanagem é mesmo um dos grandes veículos de intercâmbio cultural (João Ubaldo Ribeiro em ‘A Casa dos Budas Ditosos’)

‘A Casa dos Budas Ditosos’ é uma obra literária que faz parte da coleção Plenos Pecados da Editora Objetiva e foi lançada em 1999 representando um dos sete pecados, a luxúria.

Por representar a luxúria no sentido mais próximo do que se entende por literal, este livro não é recomendado para menores de idade, para pessoas que se escandalizam com quem fala abertamente sobre sexo, para pessoas com baixo limiar para críticas religiosas ou para aqueles cujo patrulhamento ideológico rígido não o torna capaz de apreciar algo dentro do contexto de uma época.

É um livro curioso desde a introdução, onde João Ubaldo revela que o texto seria, salvo pouquíssimas alterações e correções, apenas uma transcrição de fitas gravadas por uma mulher de 68 anos que resolveu revelar suas estripulias sexuais mais lendárias.

Verdade ou não, até hoje se questiona se a mulher de fato existiu ou se a introdução foi uma brincadeira do escritor. O texto tem realmente a cadência típica da oralidade, com frases que vão e voltam e a sensação de que o autor (ou a autora) está pensando em voz alta.

Na minha opinião a mulher nunca existiu. Se ele não mexeu em quase nada como o texto é tão João Ubaldo?

A protagonista mostra cultura geral adquirida por leitura e viagens, fala do nosso sincretismo religioso, da incorporação católica de crenças greco-romanas, relembra suas aulas no Curso de Direito, alega ter lido Shakespeare quando pequena, cita uma tal parentada alemã, fala de hábitos sexuais de portugueses e americanos e compara-se a Buñuel quando se diz disgressora, enfim, é tudo muito João Ubaldo demais (ele era advogado, costumava colocar questões polêmicas ligadas ao catolicismo em suas crônicas, leu Shakespeare quando criança, tinha estreita ligação com a Alemanha e morou também nos EUA e em Portugal).

Por ser algo como um pornô para mamães (uma espécie de Cinquenta Tons de Cinza, sendo que bem escrito e sem coisificar a mulher) parece que chegou a ser recusado por algumas livrarias, mas mesmo assim fez sucesso e em 2000 foi traduzido para o inglês.

As aventuras sexuais da nossa heroína, que incluem de incesto a um quase bestialismo e histórias de sua amiga despudorada, pansexual e sádica são detalhes em meio às críticas ao cristianismo e à hipocrisia da sociedade.

A ótica da protagonista, que chega ao extremo de ‘meu corpo, minhas regras’ é como uma versão menos machista e menos moralista dos textos de Nelson Rodrigues.

A himenolatria, os abortos às escondidas, o feminismo latente que desejava colocar a mulher no papel de dominador, os professores que seduziam ou se deixavam seduzir por alunas, bem como um pouco da rotina maluco-beleza dos anos 60-70 (tipo a popularização da cocaína no Brasil e da prática de sexo grupal que florescia não só no Rio de Janeiro como em Salvador), surgem do começo ao fim da saga.

E por que Budas Ditosos? Leia o livro que você fica sabendo 😉

Abraço,

Meire.

Como entender um ateu?

Quem quiser crer, crê e acabou-se.” Saramago

 

 

Autor: @meire_md

Em 2009 publiquei um ensaio extenso chamado ‘Acerca da Fé – uma peça em 12 atos‘, objetivando estimular tanto a tolerância entre pessoas com fé e sem fé quanto entre pessoas com credos distintos.

Por algum motivo que agora não me recordo, em 2010 republiquei (lá no Bule Voador) apenas o trecho abaixo, que foi construído com questões recorrentes em debates virtuais e presenciais.

Apesar do ateu ser alvo de um preconceito praticamente generalizado e nada implícito, muitas vezes o crente também é alvo de preconceitos vindos de ateus imaturos ou muito passionais.

Para boa parte dos leitores não haverá nada novo. O FAQ destina-se sobretudo aos crentes e aos ateus que, em vez de tratar o tema com controle emocional, debatem de maneira jocosa ou agressiva e julgam-se intelectualmente ou moralmente superiores.

 

Como entender um ateu?

(1) Por que eles não acreditam em Deus? E por que eles não acreditam numa mente superior?

Eles não acreditam porque não existem evidências que os convençam de que exista uma força não natural agindo sobre o Universo. Se existisse uma evidência convincente para os ateus, ela seria forte o suficiente para todo o mundo ter uma religião só ou acreditar no mesmo ou nos mesmos deuses.

As evidências das pessoas que creem são tão variadas em seus significados, que geram milhões de entendimentos mundo afora, porque elas não são fatos e sim sensações que as pessoas interpretam à sua maneira.

 

Da mesma forma que os religiosos merecem respeito pelo valor que dão a essas sensações, os ateus merecem respeito pelo valor que dão ao peso das evidências.

 

As Leis da Física, a Biologia e as Ciências de uma maneira geral conferem respostas naturais para fenômenos que são tido como sobrenaturais ou miraculosos para muitas pessoas. Quando existem lacunas e ausência de respostas, os ateus não a preenchem com forças fora da natureza: esta é uma das principais diferenças entre ateus e crentes.

Da mesma forma que você está no direito de não crer no deus dos outros, os ateus também tem o mesmo direito. Como você, eles também não compartilham a fé dos outros.

 

(2) Se Deus não existe, tudo é permitido para os ateus?

Não, da mesma forma que tudo não é permitido para quaisquer outras pessoas.

Se você não rouba, não mata e não estupra só porque tem medo de ir para o inferno, isto não acontece com a maior parte das pessoas, sejam elas ateias ou crentes.

Os atos do homem são passíveis de duas sentenças: os ditames de sua consciência e as normas legais de seu país. Estes dois juízes são universais e existem tenha a pessoa ou não fé em um Deus em particular.

As pessoas em geral não matam, roubam ou estupram porque o homem é um ser adaptado à vida gregária e tem freios morais devidamente selecionados ao longo da evolução da nossa espécie. A consciência é uma ‘ferramenta’ vantajosa para a vida em sociedade presente em pessoas de todas as etnias e culturas.

Pessoas destituídas de consciência, empatia ou arrependimento são os Sociopatas ou Psicopatas, que constituem, para nossa felicidade, parcela menor da população.

Os psicopatas não são apenas os serial killers, são desde pessoas que buscam ganhos ilegítimos, como alguns líderes religiosos e políticos, como aquele ‘amigo’ ou parceiro sexual aproveitador que provoca danos em terceiros e não respeita os sentimentos de ninguém.

 

Pode existir algum psicopata ateu? Claro que pode, ateus são pessoas como outras quaisquer.

 

(3) Os ateus são a favor do aborto?

Ateus não são pessoas feitas em série e que concordam entre si em todos os aspectos. Por definição, ateu é todo aquele que não acredita em um ou mais deuses.

Os ateus podem discordar entre si em outros assuntos tanto quanto um crente de uma igreja discorda de outro crente da mesma igreja.

Há ateus favoráveis à legalização do aborto, ateus contrários e ateus sem opinião formada. E o mesmo ocorre com religiosos. Muitos religiosos são favoráveis à legalização do aborto por questões de saúde pública.

 

(4) Os ateus cultuam o’ satã’?

Não.

O Satanás, conforme os crentes, foi criado pelo Deus cristão e seria um anjo caído. Só é possível para alguém cultuar o Satanás se  acredita na existência de Deus, portanto, tal culto é um ato antirreligioso ou herege realizado por uma pessoa crente.

 

(5) Como os ateus enfrentam momentos de dificuldade e tristeza?

Como quaisquer outras pessoas, buscando o que lhes forneça conforto, como o apoio da família, ou de um ombro amigo. Todas as pessoas precisam de um conforto, a diferença é que ateus não buscam um conforto sobrenatural.

Da mesma forma que uma pessoa que crê em Krishna não busca Allah nos momentos difíceis, uma pessoa que crê em Alah não busca conforto em Jesus Cristo ou você, cristão, não busca conforto na Cientologia, o ateu faz o mesmo. Não busca conforto em Krishna, em Allah, em Jesus Cristo ou na Cientologia.

 

(6) Como a pessoa se torna ateia?

Como a formalização da crença depende primordialmente de onde a pessoa nasce, do que lhe foi ensinado na infância, das experiências que acumulou ao longo da vida, do que ouviu, viu, estudou etc, com a falta de uma crença pode ocorrer coisa similar. Mas no geral o processamento mental de não crer é mais complexo, porque nosso cérebro é predisposto a crer.

Um exercício para entender: suponhamos que você seja brasileiro e seus pais católicos e que você seja católico praticante. Se você tivesse nascido em Israel e fosse filho de Judeus ortodoxos, acha que mesmo assim seria cristão? Na infância e adolescência precoce certamente não. Mas poderia vir a ser cristão, ateu ou budista no futuro, com base em outras experiências na adultícia e seus questionamentos, ou permanecer muçulmano o resto de sua vida.

Se a pessoa já nasce num lar ateu ou agnóstico e não é ensinada a seguir um credo em particular, poderá ser ateia para o resto da vida, como poderá, em algum momento, passar a crer por influência do meio.

As pessoas adultas se julgam ateias ou crentes através de um questionamento, o que varia entre elas é o grau de satisfação das respostas que obtem. Como há pessoas com pouca ou com muita confiança em Deus, há ateus mais ou menos convictos. A fé de uma pessoa pode sofrer altos e baixos e nada impede que a convicção de um ateu em particular sofra o mesmo.

O que torna mais difícil uma pessoa tipicamente ateia se converter a algum credo em particular, é que na trajetória do ateísmo é comum a pessoa já ter sido crente antes e ter estudado ou observado diversas religiões. É possível que a mente do ateu tenha um processamento lógico diferente da mente do crente, mas isto é tema para outra discussão.

Há também a possibilidade da pessoa se tornar ateia porque perdeu um filho ou se decepcionou com a bondade de Deus. Esse tipo particular de ateísmo, o ateísmo do ‘revoltado’,  é basicamente emocional e pode fazer com que a pessoa mude de opinião se sentir abençoada ou for convencida de que os problemas do mundo são provações para o crescimento espiritual do povo de Deus ou algo similar.

 

(7) É verdade que na hora da morte muitos ateus se convertem?

Os ateus veem a morte como algo natural e consequência da vida, mas podem ter angústias no leito de morte como quaisquer outras pessoas venham a ter.

Basta irmos a um velório para vermos o quanto as pessoas sofrem com a morte, mesmo quando creem em Deus.

Crer ou não crer não torna a nossa morte mais atraente. Pela lógica, quem acredita em Deus, Paraíso e vida após a morte deveria alegrar-se ao morrer, mas não é isto que se vê em velórios de cristãos. Uma crença autêntica na vida eterna em um mundo paralelo florido e asséptico não é compatível com luto ou medo da morte.

A morte é a demonstração concreta de nossa finitude. Choramos tanto pelo ente perdido quanto por nossa constatação de que poderemos ser o próximo.

Mesmo crendo em vida após a morte e creditando a esta o status de passagem para algo melhor, há pessoas que sofrem por anos ou até durante toda a sua vida quando perdem um filho, por exemplo. Alegar que alguém está sofrendo durante um velório exatamente por ser ateu é um vício de confirmação.

Contrariando o que muitas pessoas pensam, pacientes com longas enfermidades enfrentam a vinda da morte com muita serenidade porque tiveram mais tempo para refletir.

Defender que uma conversão de um ateu deve ocorrer na hora do sofrimento é advogar contra sua própria fé: é preciso estar desesperado para crer?

As pessoas que pensam assim esquecem que ateus são pessoas que também passam por problemas em suas vidas, e nem por isto necessariamente voltam-se para algum tipo de crença, da mesma forma que pessoas que creem necessariamente não deixam de crer porque Deus não teria ouvido suas preces.

Stephen Jay Gould, Carl Sagan e José Saramago, a exemplo de muitos outros ateus, enfrentaram suas moléstias e despediram-se da vida sem conversões religiosas.

Se você passou a vida inteira cristão convicto não se tornará ateu justamente na hora da morte, da mesma forma que um ateu em geral não abraçará algum credo.

Estar com medo ou sob ameaça dificulta um raciocínio adequado, portanto, pensar a morte anos antes dela ocorrer é a forma de se preparar ao menos parcialmente para ela, seja a pessoa crente ou ateia.

A imposição por ameaça – fogo do inferno, por exemplo – ou promessa de cura e prosperidade são  formas comumente usadas por muitos líderes religiosos para forçar conversões de pessoas que de fato já são crentes, mas que estavam ‘desviadas’ da Igreja.

 

Os mecanismos de conversão muitos ateus conhecem na prática, porque muitos deles já creram em Deus um dia através desses caminhos.

 

O momento em que a pessoa está mais fragilizada emocionalmente é o mais fértil  para que ela ou perca a sua fé ou se converta e não se constituem situações que especificamente caracterizem uma opção consciente.

 

(8)  Os ateus são contra Religiões?

Alguns ateus são contra, outros são indiferentes e outros ainda apostam que a paz entre os povos seja possível mesmo com religiões.

Como já foi dito antes, o fato de alguém ser ateu não transforma sua opinião idêntica a de outros ateus em assuntos diversos.

 

(9) Os ateus são mais inteligentes do que os crentes? Por que há tantos ateus nas universidades e nos meios científicos? E por que praticamente não existem ateus nos presídios?

Não, ateus não são mais inteligentes do que quaisquer outras pessoas.

O que ocorre é que entre as pessoas não alfabetizadas ou com pouca instrução há uma parcela pequena de ateus/humanistas seculares, mas isso ocorre por questões sobretudo culturais.

Entre os ateus há uma parcela importante de pessoas com nível de instrução mais elevado que  podem ser tão inteligentes e produtivas quanto são inteligentes e produtivos muitos crentes com o mesmo nível de instrução. Instrução e inteligência não são a mesma coisa.

O que ocorre de fato é que é mais possível uma pessoa se tornar ateia se tiver acesso à diversidade dos credos, a preceitos filosóficos e científicos, viajar mais e conhecer outras culturas.

 

Para ficar bem claro e evitar preconceito dos dois lados: não é preciso ser mais inteligente do que os outros para ser ateu, mas pode ser preciso ter mais instrução. E que fique bem claro: um maior nível de instrução não transforma necessariamente uma pessoa em alguém ateu.

 

Quando se demonstra estatisticamente que o índice de criminalidade entre ateus é menor que entre crentes, não podemos concluir que ateus seriam menos predispostos ao crime do que crentes.

Há menos apenados entre os ateus da mesma forma que há menos apenados entre pessoas que creem em Deus e são economicamente favorecidas. Certamente há muitas explicações para isto, como a facilidade de acesso a bons advogados, condições materiais para o pagamento de fiança ou ação criminosa melhor planejada, como sonegação de impostos, lavagem de dinheiro, estelionato e fraudes de uma maneira geral.

As pessoas privadas das necessidades básicas – sobretudo aquelas que vivem na periferia de grande centros, já quem em zonas rurícolas há acesso à agricultura de subsistência – perpetram crimes como assalto e furtos em maior proporção quando comparadas a pessoas em menor vulnerabilidade social.

Não estou afirmando que o ambiente é a única variável, tampouco que em termos individuais a pobreza transforme alguém em criminoso, mas que as condições sociais perversas como a fome e o endividamento  são variáveis de peso em termos populacionais.

Em suma: Ao atribuirmos a uma correlação estatística o mesmo peso que concedemos às verdadeiras relações de causa e efeito, poderíamos concluir que ser crente é fator de risco para ser bandido porque os presídios estão lotados de cristãos ou que o arroz cause tuberculose porque 95% dos portadores de Tuberculose ingeria arroz diariamente.

 

(10) Você é ateia porque nunca adoeceu ! Quero ver ser ateia quando estiver num avião caindo! Você é ateia porque nunca teve problemas !

Esses ‘argumentos’ coroam boa parte das discussões. O fato de parte significativa dos ateus ser favorecida pelo menos culturalmente gera o mito de que o ateísmo resulta da bonança, da falta de problemas.

Meu pai morreu nos meus braços, foi uma das maiores dores que tive na vida. Passado o choque inicial, permaneci serena e aceitei. Nada similar a algum tipo de conversão aconteceu.

Em 2006 eu tive suspeita de câncer. Submeti-me a duas cirurgias e em nenhum momento pensei em algum tipo de apoio sobrenatural. De fato, ser ateia me ajudou nas semanas mais difíceis, porque o crente tende a se autoflagelar com questionamentos como: “Meu Deus, por que comigo?” ou “O que eu fiz para merecer?“.

Em 2007 passei por uma turbulência durante um voo, e permitam-me os pis, mas as únicas palavras que sairam da minha boca foram: eita p****, essa m**** vai cair! E isto virou lenda entre meus amigos porque era a última ‘provação’ que faltava.

E a inversão vem ai. Depois que rebato as acusações de que sou ateia por ter ‘vida de princesa‘, o crente tende a fechar sua argumentação invertendo-a cem por cento: “Ahhhh ! Você é ateia porque acha que Deus está contra você!”

***

Não há como construirmos tolerância entre ateus e crentes de uma forma que não envolva combate bilateral ao preconceito e debate racional.

Esta é a nossa Revolução.

‘História da Alimentação no Brasil’ (Câmara Cascudo)





Por @meire_md

O grande historiador brasileiro Luís da Câmara Cascudo (nascido em Natal) morreu em julho de 1986, aos 87 anos de idade, deixando uma obra gigante não só em volume como em reconhecimento.

Garimpando em sebos ou contando com a sorte de topar com um relançamento, conseguimos 14 livros (teríamos 16, mas dois foram emprestados e não me devolveram até hoje).

Demorei quase uma década para conseguir o ‘História da Alimentação no Brasil’ (Global Editora, 955 páginas), que foi lançado em dois volumes quando eu nem havia nascido e rapidamente virou item raro, porque tão logo brotava em algum sebo, sumia.

Eventualmente consegui comprar o primeiro volume e fiquei na esperança de que o segundo caísse no meu colo, mas para minha alegria, em 2011 a Global lançou a obra completa em volume único e consegui comprar.

A escrita apaixonante de Cascudo estuda o cardápio indígena (inclusive as bebidas inebriantes feitas pelas mulheres), apresenta as dietas africana e portuguesa, faz inúmeras discussões sociológicas com ricas notas de rodapé e exibe as superstições, mitos e folclores que, juntos, originaram a culinária brasileira.

Em abril a Amazon (Prime) lançou uma série inspirada no livro e com o mesmo nome: se você é assinante não deixe de assistir, é simplesmente bela.
#saladalivros

[Resenha] “Loucura”…É NÃO Procurar o Psiquiatra (Paula Borba)

Por @meire_md

Foto do perfil de meire_md

Dra Paula Borba, médica com doutorado em neuropsiquiatria, é uma renomada psiquiatra natalense e tem uma grande facilidade de se comunicar com o público leigo. Ela promove educação em saúde mental a estimula a redução dos estigmas relacionados aos transtornos mentais em entrevistas e artigos publicados em jornais locais.

A primeira edição do seu livro “Loucura…é NÃO procurar o psiquiatra” foi lançada ano passado pela 8 Editora e conta com 214 páginas.

No imaginário popular só se procura o psiquiatra em casos de loucura, nos episódios de depressão grave ou por ocasião de algum transtorno que paralise o indivíduo.

Este livro busca desmistificar essas antigas premissas e foi montado em três partes: histórias de casos reais, depoimentos de pacientes e uma coletânea de artigos que ela publicou na Tribuna do Norte.

Apesar do aparente peso do tema tema, é um livro de fácil leitura, desprovido de linguagem técnica e bastante acessível para pacientes, suas famílias e pessoas que estão em sofrimento e precisam entender que buscar ajuda profissional não é um problema, é uma solução.

Comprei o livro diretamente com a autora na Clínica Simbios (Fone 84 98180035).

M.

A Magia da Realidade [The Magic Of Reality]

a magia da realidade

A Magia da Realidade’ é um livro infanto-juvenil escrito por Richard Dawkins com ilustrações de Dave McKean, o mesmo cara que trabalhou no departamento de arte dos filmes de Harry Potter

Por @meire_md

Para pais que desejam impulsionar a curiosidade científica de seus filhos não há nada melhor do que um auxílio dos grandes divulgadores, já que infelizmente o despreparo nesta área tem morada certa em boa parte das escolas Brasil afora e nem sempre sabemos como abordar certos assuntos com as crianças.

A informação pronta, superficial e por vezes mais do que descartável que vem sendo apresentada às crianças e adolescentes em tempos de Twitter, Facebook, ‘livros’ resumidos, apostilas preparatórias e substituição da leitura de livros clássicos por releituras hollywoodianas têm preocupado aqueles que foram criados dentro de uma atmosfera de estímulo ao pensamento crítico.

Em 2011 o biólogo Richard Dawkins, o mesmo que ao publicar a emblemática carta à sua filha Juliet já havia mostrado uma habilidade incrível para falar com crianças, publicou ‘The Magic Of Reality’, um alívio para quem compartilha a mesma angústia que eu.

Graças à Companhia das Letras o livro foi traduzido para o português alguns meses depois e conta com temas interessantíssimos para os pais lerem com seus filhos em idade escolar, mas sobretudo espetacular para crianças acima de 10 anos.

Em minha opinião a obra é indispensável para adolescentes e até para adultos jovens ainda alheios aos desdobramentos mentais que livres pensadores trilham para entender a realidade que nos cerca.

a magia_indice

Se você associa Dawkins à militância ateísta e já começou a ler o post com um juízo negativo antecipado, é preciso que saiba que este livro não é um manual de ateísmo para crianças ou tampouco  um manual contra religiões específicas, já que lida com todas de uma maneira igual.

É um manual que exorta a criança e o adolescente a evitar um preenchimento de lacunas ainda não respondidas com explicações mágicas.

Penso que seja melhor indicado para crianças a partir dos 6 anos, fase em que o pensamento mágico começa a se desfazer naturalmente.

Se a família tem uma crença e segue um determinado dogma isso não deve ser um motivo para impedir que a criança desenvolva um ceticismo em diversas áreas. A curiosidade científica não é nem deve ser atrelada ao ateísmo ou tratada como sendo propriedade de não religiosos. Quem afirma que a ciência é incompatível com religião está apenas caindo num vício de seleção por pura ignorância ou querendo agredir ou rebaixar pessoas religiosas, o que é lamentável de uma forma ou de outra. Uma criança deve crescer aprendendo a questionar inclusive quem nega a religião da sua família, isso é salutar.

Se há algo a atrelar à curiosidade científica é a liberdade de pensamento, isso sim. Um livre pensador pode ser religioso sem que isso prejudique seu juízo crítico na área que pretende estudar, desde que ele tenha sido criado como indivíduo dono do seu pensamento e entenda o que é e o que não é alçada da religião. Então presto aqui todo meu apoio à família que doutrina seus filhos dentro do que crê, desde que não os impeça de buscar explicações racionais para fenômenos naturais. Uma família pode ser cristã e aceitar as fortes evidências em favor da Evolução da nossa espécie bem como uma família Budista, judia, espírita ou politeísta pode aceitar o mesmo. Enquanto as religiões podem dividir as pessoas em grupos muito diferentes entre si a ciência nos une em um grupo só e este livro mostra como o mundo natural é fascinante. Como pessoa que busca a magia da realidade me sinto inserida na maior ‘religião’ do planeta, porque nela há pessoas de todas as religiões e pessoas sem credo também.

Se a família professa quaisquer credos só terá problemas com este livro se for fundamentalista e refutar boas evidências científicas disponíveis para explicar diversos fenômenos naturais, então se for este o caso não recomendo a leitura e peço desculpas antecipadamente caso eu tenha magoado alguém com este post.

Para os demais religiosos e para os não religiosos só vejo diversão e uma porta aberta para aumentar mais ainda o vínculo afetivo e admiração que os filhos nutrem pelos seus pais. Como dizia meu avô, a Educação é a herança maior que os pais podem deixar para os seus filhos.

Um beijo,

Meire